NOTA CEII SP [08/03/2018]

Recentemente eu me deparei com um texto sobre “autores e temas da moda” – se inclui nessa categoria os sociólogos modernos que, quase sempre, a partir de bases marxistas propõe uma nova chave interpretativa da realidade. Acho que em termos mundiais eu nomearia Pierre Dardot e Christian Laval (interessante mais chato, tipo o seriado da moda “a casa de papel” que  você já sabe o que vai acontecer e assiste mesmo assim) e nacionalmente Jessé de Souza (esse aqui é ruim mesmo). Pois bem, o texto nos dizia da experiência do próprio autor que afirmava ter “perdido tempo” fazendo um estudo sistemático desses autores que pouco ou nada o capacitavam para suas próprias análise de conjuntura ou mesmo tinham pouca serventia para pensar estratégias políticas e etc…

A universidade de forma geral me parece se entregar a esse furor por consumir e debater sobre esses temas. Talvez até mesmo como forma de sobrevivência dos próprios professores que em contrapartida terão seu livros debatidos na França, por exemplo.

Mas acho que, em alguma medida, o propósito do CEII é resistir a essas ondas e nos voltarmos aos clássicos, ou aos autores que nos dêem possibilidade de pensarmos prática e teoria política, formas de organização, estratégias de enfrentamento. Sem isso o CEII me parece só mais um grupo de estudos e a coisa toda perde muito de seu propósito.

NOTA CEII SP #5 [12/04/2018]

Escrevi essa nota só para dizer que não devo mais nota nenhuma… e olhando agora de longe, isto é, do distanciamento pela correria da vida cheguei a conclusão que de fato as notas podem se tornar um coeficiente de desistência. Se a questão era produzir uma narrativa organizativa, nunca deu certo.

NOTA CEII SP [05/04/2018]

Nunca dei tanta atenção para as placas de rua. Sempre carregavam nomes alheios, provavelmente de políticos profissionais. Carrego uma aversão anarquista aos monumentos sejam eles de quem for. A rocha artística do monumento é um abafador de ouvido frente aos gritos dos seus representados, uma lápide de sua história, um requiescat in pace e um sinal impertinente de que a memória de quem é representado foi absorvida. Hoje dezenove dias depois da morte de Marielle, ela já se tornou uma plaquinha pendurada. Esquecida? Quase. Não se viu ou ouviu nenhum sinal de rebelião. Tudo nos conforme. Segundo a sua assessora, testemunha e sobrevivente do assassinato, as últimas palavras de Marielle teriam sido: Ué! Um retumbante Ué que ainda ecoa. Ué que país é este? Ué que paz é esta?

NOTA CEII SP [22/03/2018]

O fascismo foi derrotado militarmente, mas nunca culturalmente já dizia Marcuse. Quando me interessei pelo tema fui logo absorvido pelo livro “Labirintos do Fascismo” de João Bernardo que busca demonstrar as formas larvais pelas quais o fascismo sobreviveu. Também no livro de Paulo Arantes, “Novo tempo do mundo”, sobretudo no Sale Boulot, temos uma visão aguda do desenvolvimento do fascismo com outros significados… Ao escrever sobre o tema, muitos me diziam: “não gaste o conceito”. Eu apenas ria e pensava: “você não está vendo o que está acontecendo camarada?” Hoje, porém, acho que realmente o que está acontecendo não é fascismo (o fascismo tinha uma noção de projeto sustentada por uma política trabalhista e homogênea) é algo pior, como uma desagregação social sustentada por uma política de mercado oligárquica que presume retorno a estruturas feudais de organização social (cada empresa um feudo). Os colaboracionistas atuais estão por todos os lados e inclusive a despeito do espectro político. Marília (está repugnante) é só um sintoma de algo que nós ainda não compreendemos, mas sentimos os efeitos nas balas que atingiram Marielle.

NOTA CEII SP [08/03/2018]

A única utopia é acreditar que o capitalismo possa ter, daqui pra frente, horizontes progressistas. Com a colonização de todos os continentes do globo, o capital encontra limites territoriais que impulsiona de maneira radical sua criação-destrutiva. O negativo que constitui seu movimento, como bem mostrou Jorge Grespan, a crise, é só um impulso nas mudanças estruturais em busca de novo impulso para efetuar sua circulação e garantir sua reprodução. Isso produziu uma espécie de avesso do progresso, agora é necessário barrar, via propriedade privada ou melhor, patente jurídica, o desenvolvimento técnico-científico, pois este poderia solapar as bases que mantém o movimento de reprodução. Nada há no horizonte que possibilite sequer pensar que a vida sob a égide do capital irá melhorar. Nesse sentido, a utopia é acreditar que a sociedade deixará de ser racista, homofóbica, xenófoba ou simplesmente se terá uma vida digna no interior de tais limites.