NOTA #6 [03/07/2018] (RJ I)

(12.08.13) Em uma conversa com meu amigo R.P., fui levado a tentar formular com clareza e dizer duas ou três palavrinhas sobre duas das principais críticas feitas ao Fora do Eixo – e isso para tentar tornar as coisas mais claras para mim mesmo, antes de mais nada. A primeira diz respeito ao senso estético e à bagagem cultural dos membros do FdE. A segunda diz respeito à estrutura mesma do FdE, e me parece a crítica mais séria feita a essa proposta de rede de trabalho. Reproduzo o que escrevi a seguir, esperando que isso possa contribuir de alguma maneira para a discussão. Sobre a crítica ao senso estético e à “bagagem cultural” do pessoal do FdE: uma vez que este é limitado (e, a julgar por algumas declarações de integrantes da rede, eles não fariam questão de aumentá-lo), a sua capacidade de influenciar positivamente o mercado da produção cultural ficaria limitada – ou, pior ainda, eles só contribuiriam para manter e/ou incrementar a miséria estética do mercado em geral, mas mascarando isso (intencionalmente ou não) sob um perverso verniz de contestação do sistema. Sobre não teria como me pronunciar, já que não conheço muito o que os caras produziram. Pontuaria apenas que a crítica estética não invalidaria a experiência mesma dos coletivos, da nova estrutura de trabalho/de vida proposta que estaria sendo experimentada no FdE; idealmente, parece que bastaria substituir os agentes do processo e não a estrutura mesma. Isso nos leva à segunda crítica, que me parece a mais séria e a que mais me tem interessado (crítica que, de certa maneira, já se insinuava no parágrafo anterior no trecho “mas mascarando isso (…) sistema”). Em linhas gerais, ela contesta o caráter revolucionário e de esquerda alegado pelo movimento, dizendo que ele é só um verniz para um novo modo de funcionamento do capitalismo – ou, ao menos, que só sobreviveria parasitando o capitalismo. Nesse novo funcionamento (ou nesse funcionamento parasita), a exploração se daria: 1) pelo fato de que os coletivos, sob o verniz da “livre decisão por um modo de vida”, na verdade consistiriam em lugares de exploração do trabalho dos que ali vivem sem a garantia de direitos trabalhistas. Nesse caso, sequer haveria a clássica “venda da força de trabalho”, mas os bois se encaminhariam para o abate como para o paraíso, voluntariamente e sem nenhuma necessidade de coerção ou barganha. 2) pela exploração dos artistas, produtores, etc. que seriam agenciados pelas redes ancoradas nos coletivos, na medida em que estes não receberiam por seu trabalho (o que seria, de novo, uma violação dos direitos trabalhistas), mas sobretudo na medida em que eles seriam explorados 3) para a produção de um “mais valia sócio-cultural”, que resultaria em um “capital social” agenciado pela marca FdE em função da obtenção de patrocínios privados e verbas em editais públicos. O “mais-valia” se configuraria na medida em que, por mais que participar de um evento do FdE pudesse ajudar um artista a ganhar ou constituir um público, como gerente da rede, a marca mesma conseguiria muito mais “retorno” do que aquele que vai para o artista; digamos que o x de público que o artista “produz” reverte-se em mais que x para os “donos” (o gerente) dos “meios de produção” (a rede mesma) – e esse “mais que” não é senão o, ou se converte em capital (cuja produção seria, assim, nem tão capitalismo 2.0. assim…). O “capital” obtido não seria expresso (apenas) em termos de grana , mas (mediatamente, ao menos) em termos da capacidade de mobilização de público “alternativo” da marca FdE e do fato de ela servir, junto às grandes marcas, finalmente como porta-voz anseios de certa camada da juventude cujos anseios, quiçá, só agora seriam de todo (melhor) capturados pelo mercado. Suposto que todas essas críticas se apliquem ao FdE e deixando de lado o quanto de suspeito pode haver nas tentativas de massacrá-lo que apareceram só agora que a rede apareceu na grande mídia, minha questão é: isso invalida o quanto de revolucionário pode haver na ideia e na experiência de trabalho/de vida que coletivos horizontalmente organizados para a produção cultural (e não só)? Parece-me que não; parece-me que isso só mostra o quanto tais alternativas “para-econômicas” podem ser absorvidas pelo sistema socioeconômico dominante e sua ideologia. Tanto que talvez a própria experiência dos coletivos, do chamado “comum”, pode acabar por se deteriorar: reforça isso o fato de que uma das primeiras críticas que li ao FdE, em um texto no site da Universidade Nômade, focava no fato de que o FdE professava, mas na prática (sobretudo nas atitudes no Fórum de Comunicação) deturpava a ideia de uma organização horizontal, baseada no comum, verdadeiramente coletiva – e o fazia por ter cada vez mais uma estrutura centralizada, hegemonizante, baseada em certas lideranças e que forçava o consenso. Mas, a julgar por alguns depoimentos de quem vive ou viveu a coisa no dia a dia , “na base” a coisa (por vezes) funcione minimamente

NOTA #3 [17/07/2018] (RJ I)

Interessante como uma “organização” como o PSOL, que tem varias pessoas da universidade que provavelmente estudaram sobre instituições de controle que servem pra uniformizar pessoas, se tornou um organização que obriga seus militantes a serem de uma certa maneira ou vc tem que ir embora (talvez não só o PSOL, mas a esquerda inteira.)

NOTA #1 [01/07/2018] (VIRTUAL)

I. Estratégia especulativa

[pág.13] Qual é, depois de agora trinta anos, minha estratégia filosófica? É de
estabelecer aquilo que eu chamo de a imanência das verdades. Dito de outro modo, de
salvar a categoria de verdade, e de legitimar que uma verdade possa ser:
– Absoluta toda sendo uma construção localizada.
– Eterna, toda resultante de um processo que, sob a forma de um evento desse mundo,
começa em um mundo determinado e pertence ao tempo desse mundo.
– Ontologicamente determinada como multiplicidade genérica, sendo localizada
fenomenologicamente no seu grau de existência maximal em um mundo dado.
– A-subjetiva (universal), exigindo, para ser apreendida, uma incorporação subjetiva.
Poderia-se dizer também: trata-se de criar a possibilidade efetiva de afirmar que as
verdades existem como exceções concretas universais. O que permite de fugir do
dilema de Kant para quem, ou bem as “verdades” não são mais que modalidades
subjetivas do juízo, ou bem é preciso concordá-las com um tanto de transcendência.
O contexto polêmico dessa estratégia é, como sempre, uma luta sobre/em duas
frentes/dois frontes. De uma parte, é preciso tentar uma crítica radical do
dispositivo onto-teológico, longamente cúmplice das religiões, que salva as verdades
ao preço de uma absoluta transcendência do Um, subsumindo as multiplicidades finitas
sob a autoridade formal do Um-infinito, frequentemente chamado/nomeado “Deus”. Essa
crítica supõe que, no despertar de Canto [dans le sillage de Cantor], separa-se o
infinito do Um, colocando que tudo aquilo que é não pode ser mais que na forma de um
múltiplo sem-um. Isso feito, não se concederá – é a segunda frente/segundo fronte –
que devemos desabsolutizar todas as formas do múltiplo, assim separadas do Um. Não
se sacrificará o absoluto das verdades em benefício de um relativismo, a mais
freqüente linguageira [langagier] ou cultural, cujo ceticismo, que é de sua
essência, esconde-se por detrás uma espécie [sorte] de democratismo vazio do
conhecimento e da ação.
Trata-se, então, em definitivo, de opor uma orientação de pensamento genérico, por
aquela sob certas condições das multiplicidades [pág.14] existentes que podem ter um
valor universal, bem como a uma orientação transcendente, por aquela existe uma
garantia universal na forma do Um, que eu a chamei o materialismo democrático, por
este, a universalidade é uma isca.
A tese ontológica subjacente do materialismo democrático é a finitude: não há mais
que corpos e linguagens, absoluto e universalidade são conceitos perigosos. Quentin
Meillassoux – entre parênteses o único grande filósofo tentador nos dias de hoje,
pelos meios absolutamente inéditos, assentado [étayés] sob um tese radical (a
contingência dos mundos), de salvar a transcendência por sua vez contra sua antiga
forma onto-teológica (a potência criadora do Um) e contra o materialismo democrático
– Quentin Meillassoux, então, intitulou seu pequeno livro metodológico Après la
finitude [ainda sem tradução. Boitempo programou de lançar. Ed. ing. After
finitude]. Ele tem razão! É em todo caso da finitude de que é preciso nos
desfazermos.
Chamaremos “ideologia da finitude” uma tripla hipóstase do finito. Primeiramente, o
finito é aquilo que há, aquilo que é. Assumir a finitude releva do princípio de
realidade, que é um princípio de obediência: nós devemos nos submeter às restrições
realistas da finitude. É o princípio da objetividade do finito. Segundo, o finito
determina aquilo que pode ser, aquilo que pode advir. É o princípio de restrição dos
possíveis: crítica, tanto fraca quanto banal, das “utopias”, das “ilusões
generosas”, de todas as “ideologias”, tidas pelas matrizes de um imaginário
destruidor, cujo paradigma foi, no século anterior, a aventura comunista. E
terceiro, a finitude prescreve aquilo que deve ser, seja a forma ontológica de nosso
dever, aquele é sempre finalmente aquele de respeitar aquilo que há, quer dizer,
grosso modo, o capitalismo e a natureza, aquilo que supõe, e é em efeito um axioma
da finitude, que o capitalismo é fundamentalmente natural. É o princípio de
autoridade do finito.
As objeções contemporâneas, ou “pós-modernas”, contra a finitude são/estão
praticamente reduzidas a uma discussão que concerne à terceira hipóstase. Subsiste
em efeito, entre aqueles que admitem en gros o consenso em torno do materialismo
democrático, muitas vezes proponentes da moral, rebatizados em geral “ética”. Esses
democratas honestos, geralmente partidários de um capitalismo moralizado e de uma
natureza respeitada/respeitosa, sentem bem que o imperativo do respeito da vida, que
é o registro deles – o registro pobre deles – das tragédias do século XX, exige uma
hipótese que negligencie, de toda sorte, a vida ela mesma, a finitude da vida, e,
portanto, de uma espécie de hipótese infinita. Isso é o que conduziu o sutil Lyotard
a recolocar a expressão ingênua e consensualmente [pág.15] finita dos “direitos do
homem” por aquela, bem mais mordaz, e que eu retomo sem dificuldade à minha conta,
de “autoridade do infinito”.
No entanto, para Lyotard, essa autoridade do infinito é ultimamente fundada em um
retorno ao Kant da terceira Crítica, ao lado da estética do sublime, combinada com
um recurso à Lei que se inspira das escatologias antigas, notadamente aquela que se
esclarece da lei judaica. Como frequentemente, a renegociação da finitude termina em
reação.
Há também algumas tentativas de discutir a segunda hipóstase, aquela da restrição
dos possíveis, argüindo de uma fonte/recurso [ressource] infinita/o do finito. É a
lógica – que o próprio capitalismo adota voluntários – de uma “abertura” infinita da
invenção técnica, de um “melhoramento” sempre possível da democracia, e de uma
“negociação infinita” com o meio-ambiente natural. Revoluções técnicas, democracia
em progresso/em marcha e ecologia profunda compõem um solo progressista
abstratamente infinito para nossas irremediáveis finitudes, uma abertura objetiva
quase infinita ao bem-estar maximal que nossa pobre finitude merece.
De fato, essas construções são sem consistência especulativa alguma, elas só
oferecem um trecho suave do finito e dos objetivos estritamente conservadoresdo
capitalismo, do regime político dominante, ou da natureza tal qual ela é hoje em
dia. Não se vê o resto que filosofia alguma digna desse nome teria podido fazer sua
[ait pu faire sien] um tal programa.
Uma tarefa importante desse livro é de introduzir a uma crítica radical da primeira
hipóstase, a mais fundamental, a hipóstase ontológica, que afirma a finitude daquilo
que há, e de nosso ser singular em especial. Eu farei sob uma forma particularmente
abrupta, que estranhamento, no entanto, embora ela seja o exato oposto porque ela
exclui todo ser do Um, com as fábulas teológicas e criacionistas. Minha tese é, com
efeito, a seguinte: O finito, em qualquer sentido que se tome, não tem ser. O
finitio, que não é, não existe mais como um resultado de operações que engajam
multiplicidades infinitas. Ou, de forma mais precisa, o finito é em geral o
resultado do cruzamento operatório/operativo de dois infinitos de tipo diferente (de
potência diferente).
O finito não é jamais que um resultado. Esse enunciado, extirpado penso pela
primeira vez de todo contexto religioso – aquele exigem que se humilhe nossa
finitude frente a infinitude divina que a criou e incessantemente a recriou –,
receberá em todo entendimento desse livro as justificações racionais valendo
prova/provando [valant preuve].

Alain Badiou. A imanência das verdades (Ser e Evento III), 2018, p. 13-15. tradução
rápida CEII.

NOTA #1 [07/08/2018] (RJ I)

As objeções contemporâneas, ou “pós-modernas”, contra a finitude são/estão praticamente reduzidas a uma discussão que concerne à terceira hipóstase. Subsiste em efeito, entre aqueles que admitem en gros o consenso em torno do materialismo democrático, muitas vezes proponentes da moral, rebatizados em geral “ética”. Esses democratas honestos, geralmente partidários de um capitalismo moralizado e de uma natureza respeitada/respeitosa, sentem bem que o imperativo do respeito da vida, que é o registro deles – o registro pobre deles – das tragédias do século XX, exige uma hipótese que negligencie, de toda sorte, a vida ela mesma, a finitude da vida, e, portanto, de uma espécie de hipótese infinita. Isso é o que conduziu o sutil Lyotard a recolocar a expressão ingênua e consensualmente [pág.15] finita dos “direitos do homem” por aquela, bem mais mordaz, e que eu retomo sem dificuldade à minha conta, de “autoridade do infinito”.

No entanto, para Lyotard, essa autoridade do infinito é ultimamente fundada em um retorno ao Kant da terceira Crítica, ao lado da estética do sublime, combinada com um recurso à Lei que se inspira das escatologias antigas, notadamente aquela que se esclarece da lei judaica. Como frequentemente, a renegociação da finitude termina em reação.

 

Alain Badiou. A imanência das verdades (Ser e Evento III), 2018, p. 14. tradução rápida CEII.

REFERENCIAS CEII-SP 02/08

02.08.

– ZIZEK, S. Like a thief in broad daylight: power in the era of post-humanity.

– RANCIÉRE, J. Ódio a Democracia.

BADIOU, A. A Hipótese Comunista.

– BADIOU, A. A Aventura da Filosofia Francesa no século XX. Autêntica.

– BADIOU, A. Logic of worlds.

Nota CEII SP [02/08/2018]

Estou de pleno acordo com esta nota que peguei no site:

“considerando as colocações durante a reunião, devido à forma como se deu a leitura do livro de Žižek, sugiro que estabeleçamos uma leitura mais compreensiva, antes de pararmos para dúvidas e questões. Por vezes, as dúvidas levantadas podem decorrer do próprio fato de o autor não ter concluído seu pensamento. E as interrupções constantes (muitas feitas por este que vos escreve), além de tardar em demasiado a leitura, dificulta a compreensão do texto, no lugar de promove-la. SUGESTÃO: que se estabeleça a priori “Vamos ler até a página x”, dúvidas ou questões que surjam durante a leitura, anotamos para não perder e, se até o final do trecho a dúvida/ questão persistir, depois concluída a leitura abrimos para as dúvidas e questões.”

Nota CEII SP [21/06/2018]

A psiquiatria atual está centralizada na medicação para solução da totalidade dos casos, seguindo o que Costa-Rosa (2013) chama de Psiquiatria DSM. Trata-se de uma adaptação da psiquiatria ao modo hegemônico do sistema capitalista, através de suas reformas, uma vez que é uma das áreas da medicina com maior plasticidade na adaptação ao capitalismo e que se transformou em ferramenta para sua expansão (SILVA JUNIOR, 2016). Uma das modificações que a psiquiatria se impôs (diante do panorama mercantil) foi sua mudança epistemológica, abandonando a causalidade e adotando somente a classificação, em suma, ela sai da reflexão para a descrição, da nosologia para a nosografia (SILVA JUNIOR, 2016). Consideramos que essa mudança na ciência médica mental seja uma das características mais evidentes no campo da saúde das influências sofridas do Laço Social, a partir do momento que não é mais conveniente (ou necessário para seu objetivo final – o mercado) o estudo crítico sobre o que provoca o sofrimento psíquico, mas a identificação dos sintomas e o tratamento medicamentoso. Aliada a esta transformação verificamos um grande aumento dos sintomas catalogados, como uma infinita fragmentação de sintomas maiores e, consequentemente novos itens diagnósticos correspondentes a novos medicamentos. Consonante a esta primeira mudança, encontramos uma segunda ligada à dissolução da carga moral que o termo “doença psiquiátrica” trazia, como solução o termo “transtorno” foi introduzido, dando início ao empreendimento da psiquiatria ligado à indústria do consumo, em uma bem sucedida parceria do DU + DC (SILVA JUNIOR, 2016).

O marketing farmacêutico estava com o terreno preparado para sua atuação na psiquiatria, com enorme capacidade de fazer expandir um mercado através da aceitação das patologias que não diziam nada sobre o sujeito, e para redefinir sofrimentos normais como patologias: “As pessoas normais representam uma fatia inexplorada de consumidores potenciais de medicamentos. Para que este mercado seja conquistado, basta que sejam convencidos que estão ou que correm sérios riscos de ficarem doentes” (SILVA JUNIOR, 2016, p. 232). Esse pensamento em conjunto a Psiquiatria Preventivo-Comunitária foram fundamentais para a expansão da psiquiatria como mercado em nossa sociedade.

Desvendando o marketing farmacêutico, Vince Perry, citado por Silva Junior (2016) dita suas estratégias: “1. Aumentar a importância de uma doença; 2. Redefinir uma doença já existente, de modo a diminuir o preconceito em torno dela; e 3. Desenvolver uma nova doença de modo a construir o reconhecimento para uma necessidade não atendida pelo mercado” (SILVA JUNIOR, 2016, p. 232)

É assim que os diagnósticos de depressão, de forma generalizada, o transtorno bipolar, o TDAH entre outros passam a ser direcionados à indústria DSM, se aproveitando de um mal-estar produzido pela nossa forma de vida, sem desconsiderar o sofrimento inerente do ser humano, mas que é redimensionado como possibilidade de um mal maior, do qual o sujeito pode ser atingido de forma externa e do qual precisa se precaver.

Essa é a forma com a qual a psiquiatria responde às novas formas de subjetivação e a atualização dos sintomas no mundo contemporâneo. A resposta nos leva à expropriação do saber inconsciente e à individualização do sintoma, na medida em que “a invisibilidade dos conflitos gerados no e pelo laço social recai sobre o sujeito, individualizando seus impasses e em alguns casos patologizando ou criminalizando suas saídas” (DEBIEUX ROSA, 2017). Como resposta aos sintomas e fenômenos que a psiquiatria cataloga em seu grande livro de verdades, o DSM, a solução está na própria ampliação do mercado e na permanência do sujeito no lugar de consumo, estamos falando aqui do consumo de consultas, exames e medicamentos.

Esse casamento entre DU e DC faz com que se crie a ilusão de que todos os problemas podem ser resolvidos através da ciência, desde que se tenha dinheiro para pagar (SILVA JR; BEER, 2017). Nosso exemplo mais evidente aqui se expressa na equação:

psiquiatria + indústria farmacêutica = expansão do mercado consumidor

Mas essa equação não tem valor exato, ou seja, não produz apenas a expansão do mercado, uma vez que traz uma série de consequências ao sujeito que a procura, que paga com sua alienação sobre o saber inconsciente e com uma possível iatrogenia.

Em resumo, a perfeição do circuito do capitalismo somado à ciência pode ser verificada com relação ao sofrimento psíquico e o consumo de medicamentos através da psiquiatria DSM: o sujeito vivendo no MCP, expropriado de seu saber e impelido à repetição de seu fazer, vê aparecer-lhes sintomas que dizem algo, contudo esse algo não pode ser escutado pelo médico, a quem se endereçam tais sintomas. A medicina objetifica o sujeito e responde ao seu mal-estar com a medicação, objeto de consumo que faz parte do próprio MCP que o sujeito veio se queixar. O sujeito no seu lugar de consumidor, que já consumiu a consulta, agora é direcionado ao consumo de medicamentos, que irá tamponar o que o modo de viver no sistema capitalista produziu, expropriando a verdade do laço social apresentada inicialmente como sintoma.

No caso do aumento do mercado consumidor de medicamentos psiquiátricos, receitados tanto por psiquiatras quanto médicos de outras áreas, apontamos para uma ampliação a partir de uma mudança nas nomenclaturas que combateu a estigmatização. O que antes podia ser diagnosticado como psicose maníaco depressiva, por exemplo, passou a ser chamado de transtorno bipolar, diminuindo o estranhamento e aumentando a aceitação dessa condição dita orgânica. No caso dessa “patologia”, foi considerável o aumento dos diagnósticos realizados que levaram o nome de transtorno bipolar, como exemplo entre 1994 e 2003 houve um crescimento de cerca de 4000% do diagnóstico entre a crianças e adolescentes estadunidenses (ABP, 2007)

Na perspectiva da psiquiatria e no DU, só se considera aquilo que esteja em sintonia com a medicina hegemônica, organicista e objetificadora. Tudo aquilo que aparece como sintoma, demonstrando a divisão do sujeito, precisa ser tamponado, e para isso servem os medicamentos, na Psiquiatria DSM.

Nota CEII SP [02/08/2018]

No trecho de leitura debatíamos sobre o que significa ter uma posição subjetiva engajada?

Posição subjetiva me remete a interioridade do pensamento.  O que precisamos pensar para manter uma posição engajada? O que significa manter uma posição engajada?

Manter uma posição engajada então – sem a palavra subjetiva – significa termos um plano para melhorar as formas de vida atuais, pois o capitalismo atual tem produzido de forma prioritária sofrimentos e desigualdades. Um plano de transformação já é uma posição engajada.

A questão é que quanto mais subjetiva se torna essa posição – ou seja, quanto mais pensamos sobre transformar – mais nos damos conta de que não há saídas fáceis e de que posições engajadas de outrora não significam um plano de mudanças, mas pequenos reparos que aprofundam a manutenção da situação.

Ter uma posição engajada não parece ser o problema, a dificuldade estar em manter uma posição subjetiva engajada sabendo que o processo de transição levaria necessariamente a uma crise antes que da transformação – ou o socialismo – pudesse ser organizada.

Para atingir os picos mais elevados, é necessário atravessar um vale, e essa descida não pode ser empreendida sob condições democráticas – eis uma grande dificuldade para manter a posição subjetiva engajada.

Mas como fazer para atravessar tal vale que não inclui vantagens individuais e econômicas. Como manter a posição subjetiva engajada? Como fazer as pessoas se mobilizarem em direção ao outro lado, se as estratégias atuais estão fadas ao fracasso?

 Visualizo três possibilidades de posição subjetiva engajada que se fortaleceriam em trincheiras diferentes numa espécie de tripla pinça que se fecharia para ultrapassar este momento histórico.

– “a criação de uma experiência mística capaz de impulsionar pessoas comuns nos momentos difíceis para ultrapassarem este vale”.

– a criação das comunas e federações de comunas que possibilitaram a resolução das necessidades de forma independentes da estrutura capitalista.

– o fortalecimento de movimentos sociais com a participação na política de pessoas comuns diminuindo e contrabalanceando o poder das empresas e da estrutura mercantil.

Nota CEII SP [02/08/2018]

Sobre a noção de “universalidade” citada na última leitura de Žižek e discutida na reunião:

“Comecemos com um ponto teórico preciso a respeito do estatuto da universalidade: lidamos aqui com duas lógicas opostas de universalidade que tem de ser rigorosamente distintas. De um lado, há a burocracia estatal como classe universal de uma sociedade (ou, em alcance mais longo, os Estados Unidos como policiais do mundo, agentes universais da lei e fiadores dos direitos humanos e da democracia), o agente direto da ordem global; de outro, há a universalidade ‘supranumerária’, a universalidade encarnada no elemento que se destaca da Ordem existente, que, embora interior a ela, não tem lugar adequado (o que Jacques Rancière chama de ‘parte de nenhuma parte’)” (ŽIŽEK, Slavoj. Em defesa das causas perdidas. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 289-8, grifamos).

Nota CEII SP [27/07/2018]

Sobre o conceito de “parte em nenhuma parte” de Rancière, citado na última leitura de Žižek, e discutido na reunião:

“Rancière descreve a regulação dos arranjos que caracterizam o campo social como sendo ‘a polícia’, e afirma que, nas concepções convencionais da política como negociação, consenso e administração, o que está realmente acontecendo é o policiamento da hierarquia (RANCIÈRE, 1999, p. 28). A política, em contrapartida acontece quando um grupo social, cujo sofrimento injusto é geralmente ocultado pelas operações de policiamento, assalta o espaço do debate e anuncia que um erro foi cometido. Para Rancière, então, o ‘político’, a política propriamente dita, é teatral: a política envolve a entrada na ‘cena política’ de um sujeito político até então invisível, ‘a parte de nenhuma parte’” (BOUCHER, Geoff. Marxismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015, s.p.).