NOTA #5 [15/07/2020] (RJ I)

Para além das possíveis críticas que podem ser feitas ao textinho do Dunker compartilhado por um camarada no grupo do wpp (fico ambivalente com o “reformismo” embutido no ensaio), ele me parece tocar num ponto nodal da presente crise da esquerda (particularmente no Brasil, mas acho que no mundo também): a esquerda tem se resumido a tratar seus impasses de maneira moral. Um traço curioso levantando pelo texto é que esse sintoma (o moralismo de esquerda) se expresse na dificuldade de se pensar em alternativas pra dicotomia público x privado (como uma espécie de equivalente político para bem x mal).

Bom, um trecho do texto me chamou atenção: “(…) está em jogo um desafio que a esquerda não consegue se colocar: como gerir o dinheiro de outra maneira que não identifique o não-estatal com a forma empresa?”

Os camaradas que estão há mais tempo podem dizer melhor, mas me parece que o CEII é um experimento organizacional interessante nesse sentido. O IOE, por exemplo, parece ser uma bela expressão da tentativa de “gerir o dinheiro” de maneira não-estatal, mas também não-empresarial. Por outro lado, o CEII possui a virtude de ser uma organização de esquerda que parece tender menos ao “camaradicídio” entre militantes (inventei um nome legal pro tal do moralismo rsrs), talvez por priorizar pelo caráter “formal” em detrimento do ideológico.

Link do texto: https://blogdaboitempo.com.br/2020/08/12/por-uma-esquerda-que-nao-odeie-o-dinheiro/

NOTA #4 [15/07/2020] (RJ I)

Não é diretamente relacionado à reunião, mas gostaria de fazer essa nota sobre uma problemática dentro da psicanálise, já que esta é um dos fundamentos do CEII.
Em um texto publicado hoje (03/08), um psicanalista traz uma discussão, um tanto confusa a meu ver, sobre a colonização na psicanálise. O texto aborda tanto o movimento psicanalítico internacional, quanto a relação entre psicanalista e psicanalisando: “estamos destacando os efeitos de colonização que não se verificam exclusivamente no campo da psicanálise em extensão, mas também da psicanálise em intensão.”
O que mais me chamou atenção, entretanto, é a absorção de uma esfera política para dentro da psicanálise, com o único fim de ser mastigada/modelada dentro do setting analítico e cuspida como obra de arte, por meio de uma operação per via di levare que caracterizaria a transferência. O resultado não poderia deixar de conter algumas bizarrices:

“A despeito disso, muitos movimentos colonizadores persistem, não sem uma substancial parcela de responsabilidade do lado ‘colonizado’, pois sabemos que essa posição, longe de situar os que nela se alojam como vítimas da opressão colonizadora, é, antes e acima de tudo, uma posição subjetiva, algo que, no dizer de Lacan, é ‘perfeitamente objetivável’. E, para seguir com Lacan, ‘por nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis'”

Como um amigo sublinhou, consigo imaginar muito psicanalista escrevendo isso. De fato, a formação do psicanalista hoje parece conduzi-lo a todo tipo de panlogismo possível. A psicanálise explica tudo, se aplica a tudo, fala de tudo. O problema, evidentemente, é que se cria uma totalidade abstrata por: ignorar o reflexo, isto é, a apropriação da realidade sob a forma de momentos isolados; criar uma “realidade superior”, um todo sem gênese nem desenvolvimento; substituir um sujeito político/histórico por um individual abstrato, já que deslocado de seu surgimento (clínico).
Impressionante como, até quando se fala de uma experiência como uma colonização, se busque a tal “responsabilidade subjetiva”, a partir de uma frase muito mal traduzida e tirada de contexto. Uma espécie de polícia subjetiva que transforma todo indivíduo em sujeito de análise, supondo uma demanda que ninguém lhe fez. O colonizado tem uma responsabilidade “perfeitamente objetivável” que, no entanto, ele a partilha com todo mundo, indiferentemente. Engraçado é que o texto vinha sublinhando a universalização do homem branco europeu…
Assim, a noção basagliana de tensão dialética que o autor cita – e tudo que ela traz das formulações fanonianas – é completamente esvaziado de qualquer sentido porque perceber-se negado na sua humanidade pelas relações coloniais capitalistas é o único meio de se livrar da crosta mórbida produzida em nome da “responsabilidade” pela sociedade burguesa, tanto para o louco no manicômio quanto para o negro na colônia.
Não é sem relação o lugar que o texto se encontra. A plataforma que o recebeu é na verdade de um movimento criado após a eleição de Bolsonaro, chamado Psicanalistas Unidos pela Democracia. É muito curioso como certos psicanalistas, por influência reconhecida ou não de Miller, queiram adentrar enquanto tais na luta contra o fascismo, na medida da responsabilidade civil do direito burguês, vem mantendo relação tão umbilical com seus pressupostos, até mesmo dentro da própria clínica em intensão. Pois que me digam que função possui a “responsabilidade subjetiva” se o sujeito é efeito de discurso? Se há muito se discute e se contrapõem a psicanálise com o marxismo, parece haver de sobra uma psicanálise petista, democrático-popular, social-liberal.    
Claro que é preciso se juntar a toda força democrática em uma situação tão reacionária como a atual, mas essa iniciativa parece se sustentar muito mais no desconhecimento do funcionamento do capital, pelo qual penetram através dos poros da prática política e psicanalítica toda ideologia liberal. Afinal, porque não um Psicanalistas Unidos pela Violência Revolucionária ou até um mais contido “pelo Socialismo”?

NOTA #2 [05/08/2020] (RJ I)

Comentando uma nota anterior sobre ideologia, combinando seus trechos com pensamentos não-originais, produzimos este pedaço: 

Vc não sai do ciclo da Ideologia, mas pode entrar nele de maneiras mais ou menos produtivas, de modo que há um campo para crítica da ideologia, onde algum distanciamento pode ser tomado em relação a suas determinações — Agora, esse afastamento da ideologia não é determinado tbm por uma abordagem ideológica? Para saber se escapamos definitivamente da ideologia, precisaríamos de um ponto de vista ‘divino’ da ‘verdade’, não ideológico — Uma alternativa a isso seria um ceticismo generalizado do tipo pós-moderno em que tudo é igualmente válido — mas esse modelo cético/pós-moderno tbm produz uma totalização! já que tem a perspectiva que iguala os outros — daí me parece que toda ideologia tem alguma DIMENSÃO TOTALIZANTE, sendo mais interessante pensar em termos de perspectivismo e paralaxe por exemplo –> seria possível produzir um ponto de vista totalizante que permite CIRCULAR entre diferentes sistemas ideológicos e fazer a crítica de sistemas que não são capazes de fazê-lo? — nem toda ideologia é capaz de fazer, pois pode excluir outros sistemas, impedindo totalizações mais abrangentes. 

Citamos aqui explicitamente a nota prévia escrita por um de nós:”O problema do ceticismo e da pós-modernidade seria justamente o de que fazem tábula rasa dessa distinção. Sim, nesse sentido algumas ideologias seriam problemáticas do ponto de vista dessa totalização menos abrangente e tal.” 

 O que nos remete a uma frase de Orwell na Revolução dos Bichos que nos foi lembrada por um nosso primo de 12 anos há pouco tempo. Parafraseando: Todas as posições são ideológicas (estão fixadas a uma perspectiva ou modo de existir socialmente no mundo), mas umas são mais ideológicas do que outras (porque permitem melhor ou pior esse deslocamento de si mesmas, essa circulação por outros espaços ou simulação do ponto de vista externo a si, mais abrangente).

NOTA #1 [05/08/2020] (RJ I)

Eu queria levantar uma bola que apareceu na discussão no grupo de zapzap sobre a live de 5 anos do lavrapalavra. Quando da discordância de um certo membro do CEII com uma certa intelectual marxista. Eu tendo a concordar com o que um terceiro membro postou: talvez a lógica aristotélica não me permita, mas concordo com um e com outro. Dito isso, a questão que me pareceu mais interessante na discussão do grupo, e que remete a umas notas que andaram sendo enviadas por companheiros ceiianos sobre a questão da ideologia, foi sobre a possibilidade de uma incompreensão entre os debatedores. Foi dito que quando o jargão marxista ortodoxo é levantado, às vezes fica tudo muito abstrato, muito apartado do modo de comunicação corrente e isso dificulta a comunicação e compreensão. Acho que faz sentido, mas queria sugerir aqui que boa parte da incompreensão que pode ter havido entre esta cara intelectual (que sugeriu que nosso querido membro ceiiano tem um vocabulário ‘literário’ bonito e sofisticado, mas de difícil compreensão e de algum modo ‘apartado da luta’) e nosso membro, pode vir exatamente dessa incompatibilidade de vocabulário. Para fazer a menção da nota anterior: um conflito de ideologias no sentido de uma cadeia de estruturas mentais associadas a referentes socio-materiais e práticas linguísticas-discursivas. E aí, não posso colocar ninguém no erro, pois existe uma tensão intrínseca a qq esforço teórico, qq esforço do pensamento mais amplamente: desenvolver modos de pensar, falar ou agir específicos, requer uma especialização de jargão. Mas se o jargão especializa, como se comunicar com aqueles que não fazem parte da comunidade limitada que se engaja na atividade x ou y?
     Eu não tenho solução, mas tendo a pensar naquela mesma questão da nota anterior: sobre formular ‘ideologias mais abertas’, modos de pensar, falar ou agir que, mesmo na especialização necessária para concluir suas tarefas, ainda mantêm a capacidade de comunicação com modos outros – a capacidade de sair um pouco de si e se ver de uma perspectiva externa para iniciar uma crítica, transposição de termos, contaminação mútua… ou mesmo que seja para sair de si, voltar e dizer: eu realmente não vejo utilidade nesse outro modo de descrever as coisas…

NOTA #1 [22/07/2020] (RJ I)


Alguém tinha certeza de já ter enviado essa nota há duas semanas, mas não a tendo encontrado no arquivo de notas do site do ceii, esse alguém decidiu reenviá-la. Segue uma reiteração política do procedimento de alguém do passado por um alguém do futuro que já viveu aquilo que o primeiro alguém pretendia viver. Sem mais delongas, a nota:Numa apresentação de um caro companheiro ceiiano sobre o grupo, foram utilizadas as ideias de Sylvain Lazarus para falar de como o pensamento político aparece a partir de uma organização política específica. No caso do CEII, seríamos uma organização na capacidade de produzir pensamento político a partir da produção de uma interioridade. Qualquer objeto do pensamento ceiiano aparece como um objeto para a organização. Mas será que um ‘pensamento impessoal’, organizacional é suficiente? Toda organização tendo algum tipo de interioridade e de capacidade de produzir pensamentos políticos, será que não estaríamos no CEII mais preocupados em modos de produção de pensamento específicos? Por exemplo, se por um lado não adianta pensar a política externamente, como um produto teórico da minha cabeça, será que não faz diferença que os membros de uma organização sejam capazes de elaborar seus pensamentos sobre o funcionamento da sua organização? Uma organização que pensa sua história e formula teorias sobre seu funcionamento tem uma maior capacidade de produzir pensamentos políticos que uma outra organização ‘menos autoconsciente de sua história’. Algo muda na organização na medida em que determinados membros possuem um outro modelo de seu funcionamento para orientar suas ações.
Uma organização que se pensa e que dá a seus membros ferramentas (notas, participação nos encontros das células, produção de subconjuntos com regras próprias) para alterar seu funcionamento (=seu modo de produção de pensamentos) tem uma capacidade de pensar coisas muito mais interessantes! Talvez esse seja o objetivo do CEII, não fazer uma política da conscientização (revolucionária?) individual, mas uma política da conscientização organizacional. Talvez seja o caso de que há organizações mais conscientes que outras (mais capazes de produzir pensamentos e ações) e talvez o CEII esteja bem avançado nesse campo…

NOTA #8 [24/06/2020] (RJ I)

Eu me sinto muito inseguro em relação à Filosofia de modo geral. Sempre acho que não sou capaz de alcançar certos níveis de abstração e conseguir entender e mobilizar os conceitos de maneira minimamente articulada.

Ao mesmo tempo, pelo pouquinho que sei do campo, acho bastante prejudicial o afastamento (e às vezes até mesmo a existência de uma certa “repulsa”) das Ciências Sociais em relação à Filosofia. Digo, de alguns setores/professores/pesquisadores, claro.