NOTA #4 [25/03/2020] (RJ I)

Desde que ingressei no CEII, me parece que a organização sempre teve muitos “pés atrás” com a ideia de atração de novos membros pela via do “esclarecimento “, do “convencimento” ou da compatibilidade de valores e ideias. Ou seja, o CEII sempre teve muita desconfiança quanto a efetividade de alguns métodos tradicionais de “atração” de novos membros. Digo “tradicionais” porque me parece – e aqui eu posso estar falando uma grande besteira, tendo em vista minha pouca experiência no meio militante – que formas de atração que se baseiam em esclarecimento (“olha, a realidade não é bem assim como se apresenta pra gente”; “nada deve parecer impossível de mudar”) são aspectos comuns das práticas dos demais coletivos. Pelo o que eu entendo, o CEII possui uma preocupação muito maior em relação a tornar a militância possível – isto é, em criar condições materiais para o engajamento. No entanto, eu fico com uma dúvida sobre esse ponto: será que essa nossa preocupação já não pressupõe um sujeito que queira se engajar? Ou seja, será que já partimos de uma visão estilo “tipo-ideal” da pessoa que quer se engajar? E a galera que nem liga pra isso, como fica?

Não sei se me fiz claro, posso tentar escrever mais (e melhor) em notas futuras.

NOTA #7 [18/03/2020] (RJ I)

Organização: foi ouvindo uma reunião do CEII que fui avisado de uma obviedade significante: que organização tem a ver com organismo. Logo eu, que já fui incumbido profissionalmente de Durkheim, não tinha me dado conta disso! Esses dias eu li que as células eucariontes são resultados de um tipo de “indigestão” de uma Archea que tentou fagocitar uma bactéria. Por alguma razão ainda não inteiramente esclarecida, essa bactéria não foi fagocitada mas tornou-se a mitocôndria de uma nova célula, originando a vida complexa a partir disso. Toda a vida complexa veio desse evento. Porque digo evento? Pois ele nunca mais se repetiu: nunca mais isso voltou a acontecer: é possível demarcar esse evento, essa re-organização da vida como vida complexa como momento único. Não se trata de um fato “evolutivo” como a existência de olhos, por exemplo, que aconteceu várias vezes na história natural. Não. Aconteceu que uma tentativa de fagocitar, de ingerir (in-gestão) de eliminar, transformou-se em cooperação, em um jogo de “ganha-ganha” entre uma célula e uma mitocôndria e nasceu a vida complexa, gerindo energia planetária – que é o que a vida faz. Que eventos possam organizar a complexidade de nossa gestão de energia, eis o que o Círculo tem experimentado nesses nove anos.

NOTA #6 [18/03/2020] (RJ I)

Bom dia, 
Acho curioso que o autoproclamado fim do CEII coincida com um tipo de fim do mundo por meio de pandemia. Como o coletivo se propôs a pensar e experimentar por meio do contato com organizações críticas ao capitalismo talvez seu esmorecimento se deva ao fato de que nosso objeto tenha se deslocado. Ou seja, o que é o CEII quando estamos diante da incapacidade de tais organizações de pensarem estratégias de fim?   

NOTA #3 [25/03/2020] (RJ I)

Minhas primeiras notas serão sempre uma mistura de algo que estou acompanhado nas reuniões com dúvidas que me surgem ou me fazem pensar sobre o ceii, obviamente, devido à novidade que vem a ser tudo para mim. Voltando às questões de organização. Dúvidas, talvez, simples ou inadequadas. O secretariado da célula é uma função puramente administrativa? E o Mais-Um puramente de organização das notas e reuniões? Dentro da dinâmica formal da organização, com o princípio da igualdade como alicerce, na difícil relação entre forma e conteúdo, como funciona a direção do movimento do ceii em cada célula? Evidentemente, cada membro goza da liberdade e do peso político de igual medida, pelas regras de invariância, mas, com todo esse acúmulo de experiência do ceii, e agora com essa nova crise, qual peça da estrutura ou qual função direciona a existência inexistente em sua dinâmica? São os subconjuntos, a célula, o secretário, o Mais-Um? Essa direção, evidentemente, tem dimensão política e teórica, qual o seu lugar ou papel na crise? E, dentro desse cenário, como fica o ceii enquanto organização geral (com todas as células)? Não há uma espécie de seminário geral ou congresso para a discussão da direção ou das múltiplas direções políticas e teóricas? Até que ponto essas coisas ou a ausência (de discussões) delas influíram na falta de extração de algo produtivo da nova crise? Mudou subterraneamente algo nos arranjos dos invariantes? Seria possível fazer um balanço com esses tipos de indagações? Ou não cabem essas perguntas, quer dizer, são inadequadas as formulações? 
TR

NOTA #2 [25/03/2020] (RJ I)

Tendo pensado sobre as considerações sobre o CEII trazidas na última reunião, fiquei matutando principalmente sobre o tópico da crise e o modo de funcionamento do coletivo.Se o coletivo estruturalmente vivia em uma constante crise (à beira do ‘limite do caos’, o ponto de transição de regimes em sistemas  complexos), talvez agora estejamos vivendo a crise da crise do CEII – será que a crise permanente enfim chegou em crise? se a crise como modo de funcionamento acabar, esse é o momento da morte (cismogênese) do coletivo ou de uma metamorfose (morfogênese)?
 Se uma organização se mantém por uma certa relação forma e conteúdo – será que foi uma mudança formal que levou a um esvaziamento dos conteúdos do CEII? Ou será que os poucos princípios formais do círculo não levaram a um desacoplamento da forma do todo em relação aos novos conteúdos que continuam sendo produzidos?O algoritmo do ‘programa’-CEIII não está mais encadeado com as novas produções de conteúdos dos membros, como se as partes do círculo não contribuíssem mais com a reescrita dos princípios formais que garantem a continuidade do coletivo.
A motivação da crise do CEII: excesso de nada… ? As coisas associadas ao CEII não pareciam se mover, não traziam novidades…Parece que antes o caráter morno do coletivo era eficaz, mas ele se perdeu… Seria uma questão de forma? Voltamos à problemática de se houve um problema formal no CEII…
Crise, do grego Krisis, significaria separação ou decisão, o momento em que a forma organizacional não se sustenta como normalmente e se precisa decidir o curso futuro: este momento teria assim um valor revelador ou diagnóstico, ao mostrar as tendências latentes de funcionamento, os processos inibidos durante o período de normalidade e que podem ser reaproveitados para transformações; e um valor executor, pois, diante da iminência do descarrilamento da organização, movem-se esforços atípicos para garantir sua sobrevivência, ou mesmo para transformar o coletivo.
A crise é um desajuste organizacional, uma perda de feedbacks que garantem a relação estável entre a forma estabelecida e os conteúdos ou novos produtos que ela pode gerar. Na crise, a forma se põe em risco, pois a organização não consegue se sustentar. Se o CEII sempre funcionou como a beira de uma crise, será que uma crise da crise apontaria a necessidade de mudar de forma? De estabelecer novos mecanismos de funcionamento? Volto ao início da nota – a crise indica dissolução da forma ou aponta a direção de uma reinvenção? Acho que essa é a pergunta que precisa de uma resposta. Esse seria, então, o momento de decisão.

NOTA #1 [25/03/2020] (RJ I)

Acho que noções de dentro e fora são úteis. A despeito de quão fosse precária, a existência do CEII sempre permitiu sugerir uma ideia de dentro e fora para o grupo. Não em termos de uma diretriz teórica ou linha de ação comum para seus membros acerca de um objetivo político compartilhado por todos, mas no sentido de que sua existência incitou uma (certa) indiferença em relação ao mundo da militância e suas necessidades políticas.

Sem escapar de toda sorte de controvérsia e terríveis fracassos, assim acumulamos confiança acerca da dignidade política da vida interna de uma organização. Praticando ideias através de uma aposta de vínculo com o PSOL, ganhamos intimidade com aspectos geralmente ignorados ou tornados malditos pela militância em geral. Atravessar as fantasias ou polêmicas sobre a disciplina e a burocracia à construção política de uma organização e seus efeitos de cerceamento de liberdade sobre os militantes nos permitiu descobrir muitas possibilidades de ação que senão transformavam o mundo nos termos usualmente esperados por um militante, atuavam sobre a vida do membro a partir da ampliação do espaço interno do CEII. Passado o período mais evidentemente político de associação e vínculos com a militância, houve uma guinada, mas que imagino reafirmar o sentido organizacional anteriormente forjado no coletivo. Por um lado, essa guinada deu ênfase à clássica problemática da economia, só que de um modo muito distinto ao da militância em geral. Eu diria que para o CEII, a matéria da economia passou a ser capacidade de “produção e circulação de valor” entre e para seus membros (por mais inconsistente possa soar a expressão para marxistas, a despeito do quão refinados possam ser o entendimento que defendam do pensamento de Marx), a partir das ferramentas reunidas pela organização. Essa experiência parece sintonizada com alguns insights – eu, particularmente, aprendi a pensá-la com nosso atual Mais-Um por associações tão diversas quanto quase incoerentes (os manuscritos de 1844, o Manifesto Comunista, os Panteras Negras etc).

Essa experiência ainda parece correr. Parece não ter sido ainda formalizada pelo grupo. 

NOTA #4 [18/03/2020] (RJ I)

Pessoas… Tamos querendo voltar com o grupo de estudos de Lacan… Estávamos lendo o texto “função e campo da fala e da linguagem”… Bem de vagar, comentando ele todo demoradamente… Se vc se sentir inibido de entrar já que já lemos um pedaço, não se preocupe, temos um arquivo com todos os comentários passo a passo no drive…

abraços, de longe, claro…

REFERÊNCIAS 25/03/2020 RJ

Áudio da Reunião: https://anchor.fm/ceii/episodes/Reunio-CEII-RJ-25-03-2020-ebv8ki

DIVULGAÇÃO:

Texto de membro do CEII publicado no LavraPalavra: “Depois de amanhã: o vírus que desperta ao econômico”

Podcast de membro do CEII em Cuiabá: “Estratégias Emergentes” (disponível no spreaker.com)

Subconjunto de Prática Teórica (em inglês) retoma atividades na sexta-feira, 18h, com leitura do livro Lógicas dos Mundos do Alain Badiou

Subconjunto de Leitura de Lacan (em português) quer retomar atividades

Texto “Years and Years: o futuro já chegou?”,escrito em co-autoria com membro do CEII RJ, foi publicado no blog do LEIC (UFRJ).

NOTICIAS:

Domínio do site da Crise e Crítica expirou! Temos até dia 29/3 para renovar, senão custará 70 dólares a recuperação!

Está aberta inscrição na rede de trabalho do Instituto Oficina, para mais informações, entre em contato com a gente pelos números: (021) 98187 8339, (021) 99857 0117 ou (011) 98326 9914

Abertas inscrições para o curso online de introdução ao Zizek!

REUNIÃO REGIONAL:

Marcada quinta-feira à noite reunião das células do CEII no Brasil

Uma das pautas: como se ajudar em tempos de pandemia

Referências:

Teoria:
Os escritos técnicos de Freud (1953)
Kant com Sade (1963)
O avesso da psicanálise (1969)

O problema da transmissão:
Jacques-Alain Miller
Jean-Claude Milner

Clínica:
A invenção do passe

Zizek:

“O idiota sou eu”
Lacan lido através da filosofia do espírito
“Comunismo é o nome de um problema”
Badiou:
O elogio da livre disciplina

Rancière:

O mestre ignorante

Agamben:

Elogio da mediação sem fim

A filosofia do genérico:

Universalismo sem totalização

Sistemas filosóficos através de seus críticos

Marxismo e psicanálise

O comum é impredicativo