Nota #4 [16/07/2012]

“(…) O objetivo do governo constitucional é conservar a República: o do governo revolucionário é fundá-la. A Revolução é a guerra da liberdade contra seus inimigos; a Constituição é o regime da liberdade vitoriosa e serena (…)”.

Robespierre

Restituir a hipótese comunista é uma tarefa da ordem do dia. No entanto, em vistas das experiências ocorridas, mais da dimensão subjetiva do que prático-factível. No esquema de Badiou, o comunismo é uma Ideia e como tal não se resume uma “política comunista”, tão pouco a um partido ou Estado “comunistas”. Uma “Ideia” [pag. 134] é, como já vimos, uma totalização abstrata constituída por um processo de verdade, um pertencimento histórico e uma subjetivação individual. Constituída por meio de uma operação intelectual, emergida enquanto Ideia, do sujeito que, no entanto, não se esgota neste. A “Ideia do comunismo” operacionalizada [e não dada como tal, por um conteúdo e/ ou uma forma nela pré-estabelecida] a partir de um componente político, um componente histórico e um componente subjetivo [pag. 132].

No último encontro avançamos na conferência de Badiou e alcançamos sua exposição a respeito de “situação” e “estado da situação”. Na minha leitura e no debate que se deu em grupo, minha inserção no conceito, por assim dizer, passou pelo seguinte:

“(…) o Estado é aquilo que prescreve o que, em dada situação, é o impossível próprio dessa situação, com base na prescrição formal do que é possível. O Estado é sempre a finitude da possibilidade (…)” (p.138).

Ainda que a exposição do filósofo em torno destes dois conceitos não se limite a abstração filosófica a respeito da política, mas a um conjunto de outros “fenômenos” também [amor, ciência, arte], me parece que o Estado sob o conceito de “estado da situação” bem descreve aquilo que à priori caracterizaria o Estado posto/ existente como tal. Isto é, o que há de substancial na forma-Estado é, que sob sua presentificação [jurídica, política, econômica, ideológica etc] temos um horizonte de ação pré-fixado que nele é contabilizado/ estipulado. Tudo o que há, há no Estado representado. O Estado contém o “estado da situação” de um conjunto de coisas com as quais lidamos como, por exemplo, Sujeitos – partícipes de “um processo de verdade” [p.133]. O Estado, segundo a exposição badiouiana, re-apresenta o existente sob formas que até então não estavam presentes como tais. A partir de uma operação onde aquilo que existe em seu sentido mais amplo e genérico possível e, portanto, para além do Estado, é nele absorvido e organizado por ele. O “estado da situação” é, me parece, a formalização/ organização de algo que existia – mas não formalizado/ organizado: algo que, do ponto de vista de um processo político, o Estado exprime.

O processo acima descrito, em suas determinações propriamente filosóficas, segundo Badiou, se dá através de “três tempos”: No Primeiro Tempo o que há é puro amorfismo e disformidade, não há sentido ou necessidade; o Segundo Tempo é resultado de uma operação onde se tem o amorfo/ disforme, agora, distribuído através de conjuntos sob um dado propósito – os elementos são contados, organizados, distribuídos como coisas distintas, agora, entre si e nelas mesmas; o Terceiro Momento seria, por meio de uma operação a mais, o refinamento da distinção do ST em que neste são representados aqueles conjuntos – onde aqueles elementos diferenciados, não mais amorfos/ disformes, que em sua multiformidade é re-posta, por assim dizer. Parece-me que, sendo assim, o TT procura na multiformidade resultada da primeira operação resgatar a força/ potência daquilo que no amorfo/ disforme havia, que no ST, possivelmente, foi represada quando organizada. A sequência daqui é forjada para extrair consequências das operações realizadas – O PT não é representável, o ST é representado-distribuído de modo a incluir em conjuntos estes elementos como coisas diferenciadas-desconectadas e, por fim, o TT é uma tentativa de processar estas mais aquilo que, por seguinte, não representaram-distribuíram sob um sentido. Importante é sempre rememorar que tal sequencia é fundamentalmente expressão de um Sujeito [sempre coletivo, claro] que encadeia esta por meio de operações. Acredito que o que Badiou chama de “situação” e “estado da situação” associe-se ao Segundo e Terceiro Tempo. A situação, se ST, seria uma descrição de elementos presentes e postos como tais; o “estado da situação”, se TT, seria uma projeção próxima do engajamento, descrito pelo filósofo, que o Sujeito se institui sobre estes elementos, orientando-os numa direção antes impossível [Este é um ponto que em realidade preciso melhor me situar].

Se o Estado [coisa que dá nome às coisas na política] refina a distinção das coisas [povo, massa, movimento, sociedade] na política, me parece que este seria o TT no esquema acima exposto. Está aberto em mim, se é que minha descrição é coerente com a exposição do autor, se a forma-Estado é uma necessidade do processo de verdade e como tal necessária a um Evento ou se ao contrário. Arriscaria dizer que o Estado por prescrever o possível e, por suposto, o impossível não pode representar um processo de verdade. Porém, o Estado representado por um Sujeito que corporifica o processo de verdade poderia ser uma das coisas que este, ao dar sentido à História, poderia anexá-la – arrisco: apenas quando o Estado nomeia o impossível [pois é disto que, em última instância, há num processo de verdade]. Desse modo, O Estado que nomeia o impossível é o que encarna uma hipótese através de uma operação e, desta feita, passa a se definir como um não-Estado. O Estado posto é necessário ao nomear o que existe e o não-Estado é necessário para nomear, sobretudo, aquilo que não existe – o “Estado” ou o “estado da situação” [na sociedade burguesa] é para nomear/ organizar o posto ao passo que o “Estado” ou o “estado da situação” [numa sociedade socialista] seria para nomear/ organizar o que não está posto como tal [a supressão das classes e a livre associação humana].

Nota #3 [16/07/2012]

Sem a ideia, a desorientação das massas populares é inelutável! (p.147)

Caber-nos-á nesse momento, a tentativa de registrar um desfecho, ou a parcela recente de nosso entendimento, acerca de ao menos alguns pontos de a Ideia do comunismo de Alain Badiou.

Nesse sentido, há que se resaltar que o último fragmento do texto é bastante esclarecedor no que se refere à compreensão do pensamento de Badiou, ainda que isso represente uma parcela muito pequena diante da infinitude de conceitos complexos apresentados pelo autor, de quem ainda não nos sentimos íntimos.

Desse modo destacamos a retomada do autor acerca da “ideia comunista”. O pensador, parte do princípio analógico de que se para o indivíduo a ideia remete-se a uma operação subjetiva na qual uma verdade que é real e peculiar é projetada imaginariamente no fluxo “simbólico” da história, a ideia representa a verdade como se ela fosse um fato”. Badiou explica que foi dessa forma que a ideia do comunismo permitiu que a política revolucionária e seus partidos adentrassem na representação de um sentido da história onde o resultado seria o comunismo. Assim sustenta: “a ideia é uma mediação operatória entre o real e o simbólico, apresenta sempre ao indivíduo algo que se situa entre o evento e o fato” (p.140). Daí conclui que por esse motivo as incontáveis discussões acerca do estatuto real da ideia comunista não chegam a um denominador comum.

É importante que percebamos que ainda que a ideia seja entendida aqui enquanto uma fixação histórica daquilo que é “fugidio”, “inapreensível” no devir de uma verdade, esta só se dá, ao passo que, em seu real admite essa característica “aleatória”. Badiou reforça que cabe a ideia comunista responder a indagação: – De onde vêm as ideias certas?  Em comunhão com a teoria marxiana Badiou responde de forma enfática: – Da prática!

Outrossim, a ideia que simboliza a ideia do comunismo vem da prática- entendida  como nome materialista do real- todavia não se reduz a esta, tendo em vista  que ela não atesta a existência , mas a verdade ativa. Essa contestação auxilia na compreensão /justificativa o modo pelo qual tenha sido possível expor as verdades da política emancipatória na forma de um Estado, que é seu contrário.

Badiou aponta que para que coloquemos a Ideia do comunismo ante ao real da política sempre isento da força do Estado, em outras palavras na figura histórica de um “outro Estado”.

Por suposto, Badiou conclui suas reflexões salientando que o balanço da ideia do comunismo é o de que a palavra não pode mais ser empregada como adjetivo, tal como as corriqueiras expressões “partidos comunistas” ou “regimes comunistas”. Tais colocações são equivocadas, pois não garantem a sustentação real da ideia.

O preciosismo da obra de Badiou, sobretudo nesses tempos de capital fetiche em meio ao recrudescimento da violência física e simbólica destinada as classes subalternas ao capital centra-se justamente em sua insistência em dar concretude à subjetiva hipótese comunista.

Nota #2 [16/07/2012]

Em nosso último encontro, discutimos uma abstração muito louca que Badiou faz a respeito de organização e representação. Para o autor ontologia é matemática, e seu pensamento estará baseado na teoria dos conjuntos de Georg Cantor. O autor estabelece uma tensão filosófica entre infinito e vazio que não é fácil de acompanhar: tudo que há são infinitos conjuntos de conjuntos de vazio; mas infinitos de diferentes dimensões, explicado pelo conceito de transfinitude de Cantor (há infinitos maiores que outros). Sendo assim, tudo que existe é infinito; e também um conjunto de conjuntos que se estende infinitamente até o vazio.

No primeiro momento (hipotético), seria o Caos: a amorfia, um múltiplo inconsistente. Qualquer tipo de perspectiva racional organizada sobre essa amorfia seria uma operação chamada conta para um, que daria alguma consistência a essa amorfia. Nesse segundo momento, há um múltiplo consistente, que é a situação. Na situação, a diferença da transfinitude dos infinitos conjuntos de vazio coloca alguns na posição de elementos outros na posição de conjuntos (uma mera relação de grandeza).

Elementos e conjuntos estabelecem entre si uma relação de pertença. Nessa situação, há sempre um excesso de inclusão em relação ao número de elementos – podem ser estabelecidos muito mais grupos/conjuntos que elementos presentes, o que resulta em conflito de agrupamento (um imbricamento entre grupos e seus elementos). Isso evoca a problemática da representação: entre essa multiplicidade de multiplicidades, quais conjuntos serão mais relevantes? A segunda conta significa a representação dos elementos e estabelece o estado da situação, sendo uma decorrência inerente do processo de organização do caos existencial.

Para Badiou, o estado da situação é o estado das coisas, conforme Wittgenstein, é a vida como ela é. O estado político confunde-se com o estado das coisas afirmando que é assim que a vida deve sempre ser. Somos fiéis, no entanto, ao comunismo e insistimos em tornar possível como a vida pode ser.
Badiou questiona-se: se tudo é infinitamente um conjunto de vazio, como faz-se o novo? Pela exceção. Devemos estruturar uma organização política cujo objetivo é criar o impossível, expandir as fronteiras das possibilidades. Para isso, Badiou deixa clara a relevância do simbolismo do momento. Nosso grupo deve envolver momentos de prática emancipatória. Momentos que experimentamos na prática a emancipação. Devemos produzir eventos que nos arrebatem que provoquem a nossa subjetivação. Precisamos afastar-nos dos parâmetros do estado e experimentar o novo, pois é a prática o que estimulará nossa Ideia. O Círculo precisa envolver momentos de prática emancipatória e exercitar nossos sentimentos, assim como nossas ideias.

Nota #1 [16/07/2012]

Esta nota tem o objetivo de dialogar, mais uma vez, com outra nota produzida anteriormente e, feito isso, registrar mais um ponto que destacamos como importante na discussão realizada pelo grupo na última reunião sobre alguns conceitos de Alain Badiou e a Ideia de comunismo.

A nota que retomamos agora deixou em aberto uma pergunta. Esta pergunta se referia à (im)possibilidade de um governo de orientação emancipatória produzir ou não um Estado de situação e, desse modo, pouco transformar a estrutura de governança, produzindo apenas mais uma sequência de fatos. Após a discussão dessa questão na reunião presencial do CEII, compreendi que, por se tratar de um conceito ontológico, ele versa sobre a existência das coisas em uma dada situação, num dado momento histórico e arranjo social. Assim, se existe alguma força política, emancipatória ou mais conservadora, que esteja ocupando a instituição estatal e, através dele, exercendo a governança, é porque aí já há um Estado de situação, como diria Badiou. Sempre haverá o estado das coisas porque as coisas sempre hão de se apresentar num dado estado ao longo do curso da História. Não se trata de fazer uma equivalência direta entre a instituição estatal e o Estado de situação, como se um fosse sinônimo do outro; mas sim se explicitar que aquele primeiro, enquanto aparelho de governança, se utiliza da operação do Estado de situação para manejar o estado de coisas como melhor lhe convier. A questão contemplada pela nota anterior questionava, ao limite, se a utilização dos conceitos de Badiou se aplicavam à todas as forças políticas, independente de se tratarem de uma verdade libertária ou não – o que, agora, compreendo que sim, mas não porque ele acredite que as forças revolucionárias compreendem a instituição Estado da mesma maneira que qualquer outra força política governante, mas sim porque os conceitos do autor tratam da forma como as coisas se apresentam numa dada localidade inserida no mundo, do estado que os corpos e as linguagens se apresentam. Neste sentido, sempre haja, talvez uma disposição normal num estado de coisas com o qual teremos de lidar.

Referências 16/07/2012

Sobre a diferença entre luta de classes relativa e absoluta:

Marx, Karl Salário, Preço e Lucro (Editora Centauro, 2008)

Zizek, Slavoj A revolta da burguesia assalariada (disponível aqui)

 

Sobre a noção de “estado de coisas” na filosofia de Wittgenstein:

Wittgenstein, Ludwig Tractatus Logico-Philosophicus (Ediusp, 2001)

 

Sobre a teoria dos conjuntos:

Sampaio, Carlos Vieira Introdução à teoria dos conjuntos (livro disponível em pdf aqui)

Hallward, Peter Badiou: a Subject to Truth (University of Minnesota Press, 2003)

-> discute a teoria dos conjuntos já no contexto da obra de Badiou

 

Sobre a relação do indivíduo com a massa:

Freud, Sigmund A psicologia das massas e a análise do eu (Companhia das Letras, 2011)

Cannetti, Elias Massa e Poder (Companhia das Letras, 1995)

 

Sobre o conceito de inconsciente e a cultura:

Freud, Sigmund Mal Estar na Civilização (Companhia das Letras, 2010)

Zizek, Slavoj The Sublime Object of Ideology (Verso, 1989)

-> ver também: Como Marx inventou o sintoma? em Um mapa da Ideologia (Contraponto, 1999)

 

Referência do livro que reúne as três conferências:

Douzinas, Costas ed. The Idea of Communism (Verso, 2010)

Hounie, Analía ed. Sobre La Idea del Comunismo (Paidós, 2010)

 

Gravação da reunião: http://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-16-07-2012

 

 

 

Nota #4 [09/07/2012]

No último encontro do CEII, deu-se continuidade à leitura do texto “A Ideia de Comunismo” de Alain Badiou. No Texto, o autor argumenta que seu conceito de Ideia é o de uma totalização abstrata dos três elementos estudados anteriormente – os elementos histórico, político e subjetivo; ou seja, uma Ideia é a subjetivação (Elemento subjetivo) de uma relação entre a singularidade de um procedimento de verdade (Elemento político) e a representação da História (Elemento histórico). A Ideia é, então, a possibilidade para um indivíduo entender seu papel no movimento da história, em outras palavras, ela torna possível que o indivíduo compreenda que a sua entrada num corpo-de-verdade é uma decisão histórica.  Desse modo, a palavra “comunismo” não pode ser entendida numa dimensão puramente política, uma vez que é uma Ideia e, como tal, sustenta-se por meio de uma relação entre os três elementos – político, histórico e subjetivo.

Em seguida, faz-se uma relação entre a tríade RSI de Lacan e os elementos básicos da Ideia. O filósofo afirma que “a História é apenas um simbolismo vazio”, que ela é uma narrativa construída após o fato, de modo análogo à ordem Simbólica. O processo de subjetivação é comparado à ordem Imaginária, uma vez que projeta o Real (ou um procedimento de verdade) no Simbólico da História. No entanto, como, para Lacan, o Real não pode ser simbolizado, um procedimento de verdade é apenas projetado na “simbólica narrativa da História” imaginariamente, o que não o torna inútil de modo algum. Nos termos de Badiou: “a Ideia comunista é a operação imaginária pela qual uma subjetivação individual projeta um fragmento do real político na narrativa simbólica da História”.

O século passado, com suas experiências importantes e terríveis, mostrou-nos que “comunista” não pode ser uma palavra referente à política somente; que frases como “partido comunista” ou “estado comunista” eram produzidas pelo curto-circuito entre o real e a Ideia e estavam erradas. Aqui fica evidente a influência de Hegel em Marx, uma vez que, para o primeiro, “Tempo é o ser-aqui do conceito”. Entretanto, é preciso rejeitar a Ideia de “que a marca histórica, sob o nome de “comunismo”, das sequências políticas revolucionárias, ou dos fragmentos díspares da emancipação coletiva, revela a sua verdade, que é progredir de acordo com o sentido da História”. De acordo com Badiou, não há História efetivamente, pois ela é simbólica e não real, assim como não há sentido na mesma. O que é existe é a Ideia comunista – que é uma operação amarrada à subjetivação e “que integra o real, o simbólico e o ideológico no nível do indivíduo”. A Ideia deve ser recuperada separadamente de qualquer uso predicativo.

O pensador fala então do seu conceito de evento: uma ruptura na ordem normal de corpos e linguagem como eles existem; uma criação de novas possibilidades. É importante ressaltar que um evento não se trata de criar possibilidades objetivas que já se encontravam num mundo particular, mas de criar possibilidade de possibilidades – possibilidades que se apresentavam antes como impossíveis. Seu conceito de Estado ou estado de situação é o de um sistema que impõe limites às possibilidades de possibilidades. Assim, o Estado também prescreve o que é o impossível numa situação dada. “O Estado é sempre a finitude de possibilidades, e o evento sua infinitização”. “Por exemplo, o que constitui hoje o Estado em relação às possíveis políticas? A economia capitalista, a forma constitucional do governo, as leis (no sentido jurídico) relativas à propriedade e a herança, o exército, a polícia… Vemos como, por meio de todos esses dispositivos, de todos esses aparelhos, inclusive os que Althusser denominava “aparelhos ideológicos de Estado” – e que poderíamos definir por um objetivo comum: impedir que a Ideia comunista designe uma possibilidade -, o Estado organiza e mantém, com frequência pela força, a distinção entre o que é possível e o que não é“. Portanto, um evento é algo que só pode ocorrer fora da força e do controle do Estado.

Nota #3 [09/07/2012]

O que despertou meu interesse no conceito de verdade de Alain Badiou foi a perspectiva da fidelidade. Me remete ao termo hindi Satyagraha (verdade+firmeza) que Mohandas Gandhi desenvolveu como uma filosofia para o movimento de resistência não-violenta pela independência da Índia e que influenciou Martin Luther King na luta pelos direitos civis dos negros nos EUA. Essa prática obstinada de fidelidade a uma verdade e de resistência impassível seria uma demonstração da operação da ideia do comunismo, da emancipação coletiva: a incorporação de uma verdade política à prática cotidiana em um dado momento histórico.

Gandhi também descreve a Satyagraha como a força do amor ou a força da alma – “Eu descobri o satyagraha pela primeira vez no inicio da minha busca pela verdade que não admitia o uso da violência contra um adversário, pois o mesmo deve ser desarmado dos seus erros com paciência e compaixão. Sendo o que parece ser verdade para um e um erro para o outro. E paciência significa auto-sofrimento. Assim, a doutrina passou a significar reivindicação de verdade, e não pela inflição de sofrimento sobre o adversário, mas sobre si mesmo.” (The Collected Works of Mahatma Gandhi, vol. 19, p. 206).

Essa perspectiva orientalista da verdade, que não se propõe um dogma e não se limita ao relativismo individualista, me põe em paz com esse conceito, me possibilitando incorporá-lo como ideia. Essa agora desperta como algo novo.

A ideia é uma fixação histórica. É o que nos permite persistir em torno de algo que julgamos verdade de forma a torná-lo realidade. A ideia não é a novidade, é a âncora que insiste na materialização de tudo que é elusivo, inapreensível e evanescente no devir de uma verdade. Badiou afirma que as ideias devem surgir da prática, que é a explanação da possibilidade de possibilidades.

A ideia sustenta a incorporação individual na disciplina de um processo de verdade, que autorize o indivíduo, a seus próprios olhos, ir além das limitações do estado, que estabelece os limites do possível. “Nada deve parecer impossível de mudar”. Tornemo-nos parte da verdade que poliniza-se no Rio de Janeiro. A primavera carioca se aproxima e Marcelo Freixo é o um que incorporará nossa ideia coletiva, nossa luta coletiva, nosso trabalho coletivo, nossa práxis revolucionária.

A busca do militante é fazer ecoar seu processo de verdade.
A projeção heroica, mas individual, de uma exceção quer ser não apenas uma exceção, mas uma possibilidade comum a todos. Uma das funções da ideia é projetar a exceção no comum das existências, ou seja, torne o seu mundo um pouco mais louco. Expanda os limites da realidade e das possibilidades. Seja um excêntrico. Busque a sua verdade e faça-a ecoar. Não estamos fadados à formatação de nossa existência pelas exigências do estado. Recrie-se.

Nota #2 [09/07/2012]

Para reconstituirmos a hipótese comunista, Badiou, em certo sentido, elabora uma teoria do sujeito. O faz sob a necessidade, acredito, para redimensionarmos o papel do engajamento do sujeito na história, para reequilibrarmos aquilo que chamamos de “processo histórico” na defesa de outra forma de associação social entre os homens – onde, em última instância, medimos e balizamos a possibilidade de superar a sociabilidade vigente/ existente para outra [no caso, comunista]. Como já dito na última nota, isto seria um equívoco na medida em que a “História” enquanto processo num sentido finalístico/ determinado não é factível e não existe: sentido quem tem [ou melhor, pode vir a ter] são os homens. A história é “um simbolismo vazio” (BADIOU, 2009, p. 135). Badiou descreve então o que chama de “Ideia”. Na figuração badiouiana da realidade não é possível uma vida sem Ideia. Diante da questão da Ideia comunista, o filósofo caracteriza o seguinte: um processo de verdade, um pertencimento histórico e uma subjetivação individual. A “Ideia” seria uma “totalização abstrata” sintetizada por estes três elementos.

“uma Ideia é a subjetivação de uma relação entre a singularidade de um processo de verdade e uma representação da História” (idem, p. 134).

Para o autor é através de uma Ideia que um indivíduo se converte num Sujeito. O indivíduo em Badiou é uma possibilidade de Sujeito que se concretiza quando prescrito pela Ideia. Prescrição que se materializa no processo histórico quando subjetivada pelo indivíduo [neste instante, por fim, Sujeito]. Ideia que, em sua acepção geral, processa-se como ideologia no momento em que é incorporada/ subjetivada [por aquele que é um Sujeito, claro]. Processamento situado e inscrito no corpo de um Sujeito, como tal, no movimento da História. Para Badiou, é a subjetivação [o Sujeito prescrito pela Ideia, inscreve uma Verdade no mundo “autoralmente”, por assim dizer] que media a relação entre a verdade [como processo] e a História. Ou seja, a Ideia não existe na História, pois a segunda não existe como tal e a primeira existe quando subjetivada apenas [isto é, quando corporificado por homem singular].

Para o autor, “comunismo” não pode ser apenas um nome político, quando “é” apenas no momento em que é subjetivado; “comunismo” também não pode ser algo tomado no “sentido histórico”, pois a história não existe e, como não existe, não há sentido algum nela porque ela não é; por fim, “comunismo” não é uma ideologia à medida que é algo que se efetiva por um processo/ operação que se situa entre um processo político e um processo histórico, logo não podendo ser apenas algo interno a vontade do sujeito, ao engajamento do sujeito, topograficamente delimitado na existência específica dele.

O interessante é a exposição em que se tem que a subjetivação [operada por um indivíduo convertido em Sujeito] é a responsável pela síntese entre história e política [que não existe], ao mesmo tempo que a subjetivação [como ideologia] prescreve aquele que a opera – o homem. Ou seja, a ideologia/ subjetivação da Ideia é resultado da Ideia sob ou naquele que é o seu portador. Me parece, e Badiou assim explica, que há uma aproximação com a dialética hegeliana neste momento que subjaz no “socialismo científico” de Marx e Engels. O mais fácil e comum ao se ouvir que a “Ideia prescreve o sujeito”, como formula Badiou, talvez, é dizer-se que temos aqui um enunciado idealista, abstrato e vazio de objetividade e materialidade – em suma, uma fantasmagoria. Mas me parece que não é o caso, se acompanharmos com mais disposição ou boa vontade a formulação do filósofo, pois a Ideia não está formada em lugar algum da história ou mesmo fora dela. A Ideia não é atemporal, mas transtemporal. A ideia possui uma determinação histórica [como verdade política que é, ela, inclusive, surge, existe e desaparece] (idem, p. 132) para o autor. Porém, ela existe como ideologia, quando subjetivada, quando processada na História – algo viável apenas na singularidade do sujeito que é seu portador, acredito. A Ideia, nesse sentido, não se assemelha a um conjunto de normas que deveriam ser empregadas na realidade. A Ideia seria, nesse caso, literalmente, um processo/ uma operação levada à cabo pelo sujeito e não por ela mesmo. A Ideia tem uma disposição transtemporal e não existe fora do tempo histórico. E assim o é conforme ela foi potencialmente ideológica num dado período: isto é, quão mais ela foi processada/ operada por sujeitos que nela inscritos moveram-se na intenção de uma nova prática e um novo pensamento – como nos casos históricos que Badiou ilustrou [Revolução Frances, o bolchevismo russo etc].

É também aqui que Badiou cita Zizek em função da teoria do Sujeito que este faz, de forte tonalidade lacaniana. Em Lacan, segue Badiou, o Sujeito perfaz-se sob três instâncias: o real, o imaginário e o simbólico. É por meio destas que o filósofo e dramaturgo francês formula que o real de Lacan pode servir como exposição da definição de Ideia como processo de verdade. A história, assim, teria uma existência puramente simbólica, pois não se situa no mundo, mas é efetiva quando projetada numa estrutura simbólica [uma narrativa] que o Sujeito faz dela. Por fim, para Badiou a subjetivação relaciona-se com o imaginário lacaniano por realizar numa operação intelectual mediações/ conexões entre política e história que não existem – mas apenas abstratamente [e, por isso, de forma material e objetiva].  No mesmo sentido que temos a relação entre o real e o simbólico em Lacan: o real, por definição, é insimbolizável – damos a ele sentidos por meio de símbolos que nele não são necessários/ existentes, mas que se apresentam nele a partir de uma operação imaginária [intelectual] que o Sujeito faz.

Nota #1 [09/07/2012]

Pelo que pudemos apreender da leitura de Alain Badiou, em ‘La idea del comunismo’, a Ideia tem capacidade de iniciar o indivíduo num procedimento de verdade que conta, entre outros aspectos, com o processo de incorporação do indivíduo a um outro corpo que não o seu, um outro corpo, um corpo da verdade. A esse processo, ele denominou de incorporação e consiste, de maneira simplificada, na transformação do corpo individual – quando o indivíduo ainda se resume à condição de mero animal humano – em um dos elementos do corpo da verdade que é uma existência material de uma verdade que ainda é devir, que talvez ainda não esteja presente no mundo real. Este processo, de o indivíduo incorporar-se a um processo de verdade através de um corpo da verdade, não o isola completamente do ser que ele é, mas agrega esse ser a uma parte atuante de um novo Sujeito. Para Badiou, esse processo pelo qual o indivíduo alcança a posição de Sujeito é um componente de característica subjetiva da operação da “Ideia de comunismo”.

Agregando essa noção de corpo da verdade ao conceito de evento, discutido em notas anteriores, e aos conceitos de Ideia, Estado, verdade e fato, discutidos na reunião presencial, apresentamos uma questão que buscaremos aprofundar adiante: Após a ocorrência de um evento, um corpo da verdade – que opere a Ideia de comunismo e é portador de uma verdade revolucionária – toma o poder político. Quando esse corpo assume a governança, recairá na produção de fatos e passa a instaurar uma nova sequência de Estado? Ou, o fato de tratar-se de uma ideologia emancipatória representa rompimento com essa continuidade do estado de coisas? Em última análise, o que estou querendo saber é, se na visão de Badiou, a aplicação dos conceitos de Estado e fato é possível independentemente do conteúdo sobre o qual versa uma verdade – conteúdo emancipatório, liberal, conservador etc.

Nota #6 [04/07/2012]

Comunismo é uma ideia de emancipação coletiva.

A ideia do comunismo é uma operação conceitual, i.e., é o processo de passar do  plano das ideias para o plano simbólico da história.

Para que essa operação aconteça, é necessário que a ideia do comunismo seja uma verdade política (um momento pontual de emancipação coletiva).

Esse momento será historicamente determinado, embora a verdade seja universal e eterna: uma verdade produz efeitos retroativos, expandindo-se com o devir da história.

Nesse momento de emancipação coletiva, a verdade explana seu sujeito político. O indivíduo identifica-se com aquela verdade e decide tornar-se um militante e ser fiel a uma ideia que conduz sua vida. Esse processo de alocação de uma verdade política no dia-a-dia e no universo próximo de um indivíduo foi chamado por Alain Badiou de subjetivação (e por Antonio Gramsci de revolução do cotidiano).

O indivíduo percebe que sua participação em um processo político é uma decisão histórica graças a ideia.

A ideia permite ao indivíduo tornar-se sujeito ativo na história. Ele deixa de ser indivíduo e torna-se sujeito político de uma verdade, projetando-se na história simbolicamente enquanto uma ideia.

Essa nova perspectiva de verdade me parece bem mais interessante, pois se afasta das verdades dogmáticas e também do relativismo ingênuo.

Me parece que há diversas verdades políticas e essas verdades chamam seus sujeitos em um momento histórico específico. Dado o evento, o indivíduo vê aquela verdade e assume uma posição de militância, de insistência em tornar possível algo ainda inconcebível aos olhos do estado comum.

“Nada deve parecer impossível de mudar.”