Nota #1 [27/08/2012]

Jacques Rancière apresenta suas lições sobre a emancipação intelectual no livro O mestre ignorante, que conta a aventura filosófica experimentada por Joseph Jacotot no início do século XIX. A necessidade fez Jacotot deparar-se com a difícil tarefa de ensinar francês para holandeses, ignorando completamente a língua holandesa. Dessa forma, Jacotot foi obrigado a deixar de fora a inteligência mediadora do mestre, que une a inteligência expressa nas palavras escritas à do aprendiz. Jacotot limitou-se a indicar uma versão bilíngue do Telêmaco de Fénelon aos estudantes e, por meio de um intérprete, solicitou que aprendessem o texto francês amparados pela tradução e depois lhes demandou que repetissem sem parar o que haviam aprendido. A experiência superou suas expectativas e Jacotot descobriu que seus alunos, abandonados a si mesmos, estavam se ensinando a falar e a escrever em francês, sem o socorro de suas explicações.

Essa primeira experiência com a autodidática foi extremamente inovadora para Jacotot e o levou a questionar as bases da pedagogia iluminista de sua época. O filósofo concluiu que nada há atrás da página escrita que demande outra inteligência, a do explicador; basta a vontade do aprendiz para que se inicie o processo de aprendizado. Jacotot concluiu que a vontade e o acaso (a necessidade) tornam possível aprender sozinho quando se queira e sem mestre explicador, pois compreender não é mais que traduzir, isto é, fornecer o equivalente de um texto, mas não sua razão.

“A lógica da explicação comporta, assim, o princípio de uma regressão ao infinito: a reduplicação das razões não tem jamais razão de se deter. O que detém a regressão e concede ao sistema seu fundamento é, simplesmente, que o explicador é o único juiz do ponto em que a explicação está, ela própria, explicada.” (p.21). Na ordem do explicador é preciso uma explicação oral para explicar a explicação escrita. Como entender esse privilégio da palavra sobre a escrita, do ouvido sobre a vista? Que relação existiria, pois, entre o poder da palavra e o do mestre?

Jacotot afirma que “antes de ser o ato do pedagogo, a explicação é o mito da pedagogia” (p.23). A explicação não é necessária para socorrer uma incapacidade de compreender, ela é a declaração de incapacidade do aprendiz e assim é a ficção estruturante da concepção explicadora do mundo. É o explicador que tem necessidade do incapaz e é ele que o constitui como tal. Explicar alguma coisa a alguém é demonstrar-lhe que não pode compreendê-la por si só. Jacotot percebe que depois de descobrir sozinha as palavras, como se comunicar, toda criança passa então a compreender explicações fornecidas em certa ordem progressiva por um mestre. Compreender significa que nada entenderá a menos que lhe expliquem, submetendo-se assim à hierarquia do mundo das inteligências.

Esse é o princípio do embrutecimento, que divide o mundo entre espíritos sábios e espíritos ignorantes, capazes e incapazes, maduros e imaturos. Divide também a inteligência entre aquela que registra as percepções ao acaso, retém, interpreta e repete empiricamente, no estreito círculo dos hábitos e das necessidades, e aquela que conhece as coisas por suas razões, procede por método, do simples ao complexo. É a divisão da inteligência das crianças e do povo e a inteligência do mestre. Embrutecedor é o indivíduo culto que torna evidente a distância entre seu saber e a ignorância dos ignorantes. É aquele que se preocupa se outro está compreendendo e assim instaura a ruptura entre o animal que tateia e o pequeno cavalheiro instruído.

Referência 03/09/2012

Sobre a pedagogia crítica:

Freire, Paulo Pedagogia do Oprimido (Paz e Terra, 1987)

_________Política e educação: ensaios (Editora Cortez, 1991)

Giroux, Henry Teachers as Intellectuals: Toward a Critical Pedagogy of Learning (Bergin & Garvey, 1988)

_________ On Critical Pedagogy (Continuum, 2011)

McLaren, Peter Life in Schools: An Introduction to Critical Pedagogy in the Foundations of Education (Allyn & Bacon, 2006)

Sobre o lugar da educação no maoísmo:

Tse Tung, Mao Sobre a Prática

_________ Algumas Questões Sobre os Métodos de Direção

_________ Reformemos nosso estudo

Sobre a teoria política de Rancière:

Rancière, JacquesO Desentendimento: Política e Filosofia (Editora 34, 1996)

Sobre a teoria estética de Rancière:

Rancière, Jacques A Partilha do Sensível (Editora 34, 2009)

____________ O Inconsciente estético (Editora 34, 2009)

Sobre a teoria da emancipação de Rancière:

Rancière, Jacques A Noite dos Proletários: Arquivos do sonho operário (Companhia das Letras, 1989)

Sobre a relação de Rancière e Badiou:

Badiou, Alain The Lessons of Jacques Rancière em Jacques Rancière: History, Politics, Aesthetics (Duke Press, 2009)

 

Gravação da reunião: http://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-03092012