Nota #2 [28/09/2012]

Em seu texto denominado “Como começar do começo”, Zizek cita Alain Badiou para reafirmar que a hipótese comunista é a única hipótese que se pode adotar no âmbito de uma verdadeira política emancipatória. Sem essa hipótese, estamos fadados ao fukuyamismo. No entanto, para Zizek, não devemos apostar no axioma da igualdade como Rancière, muito menos afirmar que o comunismo é uma ideia eterna. Se a Ideia comunista pode ser considerada eterna, pode-se alegar que os antagonismos que a criam também são eternos. A resposta é, pois, a “velha noção de Marx do comunismo entendido não como um ideal, mas como um movimento que reage aos antagonismos sociais reais”.

Contudo, se nos impõem constantemente a ideia de que o capitalismo neoliberal é a menos pior forma de organização socioeconômica possível, por que devemos nos ater à hipótese comunista? Não deveríamos amadurecer e esquecer nossos sonhos infantis de comunismo que levaram a tantas mortes e atrocidades? Os erros dos revolucionários do século passado já não lhe são suficientes? – Gritarão ao lunático que recomeça sua escalada da montanha.  Logo, nós deveríamos reinventar o marxismo por meio da psicanálise, procurar novas respostas para problemas antigos ao tentar compreender os erros do passado e buscar novos agentes revolucionários.

“Não basta permanecermos fiéis à Ideia comunista”, indica Zizek. Precisamos evidenciar o porquê da urgência prática do comunismo. Devemos prosseguir evidenciando os antagonismos do capitalismo que fazem dessa hipótese uma necessidade. Podemos citar quatro antagonismos: a privatização da propriedade intelectual, a ameaça de uma catástrofe ecológica, os problemas dos desenvolvimentos tecno-científicos (Especialmente em relação à biogenética) e as novas formas de segregação como favelas e muros (O que o autor designa como novas formas de apartheid). Os três primeiros antagonismos estão relacionados com o comum, a “substância compartilhada do nosso ser social”. Trata-se da privatização do comum da cultura – como a educação, meios de comunicação e linguagem; do comum da natureza externa – ameaçada tanto pela destruição de habitat quanto pela poluição; do comum da natureza interna, pois, com os avanços em biogenética, a modelação genética do homem se torna uma possibilidade perigosa.

É-nos mais claro agora o motivo pelo qual Slavoj Zizek certas vezes alega que estamos chegando num certo “nível zero” ou, até mesmo, vivendo no fim dos tempos. Aqui, gostaria de abrir um breve parêntese: não acho que deveríamos tomar por certo que o capitalismo estaria cavando a sua própria cova ao caminhar rumo à destruição da humanidade, não devemos esquecer que ele já nos surpreendeu antes e já se adaptou em condições que isso parecia improvável. Desse modo, devemos prosseguir não esquecendo a noção de proletário de Marx, mas radicalizando-a: o sujeito proletário é aquele privado de seu conteúdo substancial e, portanto, podemos assim ampliar a massa de sujeitos proletários. Levando em conta esse perigo de sermos destituídos de nossos bens comuns mais essenciais, a hipótese comunista ganha o status de uma necessidade urgente e concreta.

Nota #4 [14/09/2012]

Desse primeiro encontro do qual eu participei, o que ficou mais forte para mim foi o corpo teórico no qual Zizek se situa, que inclui Lacan, Hegel e Marx.  Então, foi abordado neste encontro, a relação entre a Psicanálise e o Marxismo.  Um dos primeiros teóricos a juntar essas duas vertentes foi Reich, que unia a idéia de inconsciente como um depósito de conteúdos reprimidos com a idéia de alineação marxista.  Para esse teórico, há uma ligação estrita entre emancipação e liberdade sexual, pois são os costumes que reprimem os conteúdos.  Então, para ele, caso se queira mudar a sociedade, seria necessário liberar os conteúdos inconscientes, que a sociedade mudaria.  Para Reich, a economia libidinal seria o motor para uma economia política. Por este motivo, a cura psicanalítica parece emancipatória; assim como o marxismo parece uma subversão das determinações sociais.  Então, parece que as duas correntes têm o mesmo objeto.  Essa era a aposta do Freudo-Marxismo.  Contudo, a sobredeterminação do inconsciente e a sobredeterminação dos aparelhos de Estado não são a mesma coisa, mas possuem a mesma lógica, possuem o mesmo método. Pois, não existe um lugar que esteja fora do aparelho do Estado, assim como não existe um lugar que esteja fora do aparelho psíquico.
Desta forma, Zizek utiliza a Psicanálise, principalmente a lacaniana, para reler Hegel de uma outra maneira; e através dessa leitura nova de Hegel, repensar o Marx. O ponto fundamental é que Lacan tem uma noção nova de sujeito.  No Freudo-Marxismo, tem-se a noção de riqueza individual, ou seja, o quanto essa riqueza tem que ser recalcada para que a pessoa pertença a uma sociedade.  Então, libertar essa riqueza é a preocupação central, daí a idéia de emancipação.  Depois, com o estruturalismo, tem-se a idéia contrária: essa suposta riqueza individual é uma produção social, pois aqui considera-se o indivíduo como sendo fruto de uma série de determinações que são mantidas através de várias rotinas.  Segundo o estruturalismo, apenas grandes processos históricos, que têm uma carga importante de contingência e ruptura sociais, que ninguém é capaz de subjetivar individualmente, são capazes de promover mudanças.

Então, tanto em um caso quanto em outro não se chega a uma solução.  Pois, quanto mais a pessoa libera seus conteúdos inconscientes, mais a pessoa volta a seus estigmas; e dizer que os problemas sociais são determinados pelo social, também não resolve nada a nível individual.

Em Lacan, o sujeito vai se identificar com aquilo que vai substituir alguma coisa para esse sujeito, o sujeito não se identifica com aquilo que ele é.  Aqui, o sujeito e o social tem uma relação meio obscura em que onde um está, o outro não está. E essa noção de sujeito remete a Hegel, com sua noção de espírito.  Essa noção faz a ponte entre um sujeito, que é uma relatividade, e a formação dos povos.  E isso tem a ver com a noção de negatividade em Hegel.  Segundo este autor, a negação é positiva, o negativo é o ser do não-ser.  A negatividade não é o vazio, mas é o fato de que nenhuma coisa coincide com ela mesma.  E isso tem a ver com o fato da dialética ir sempre para frente, ela não fica parada.  Isto é, uma coisa tem relação com o seu oposto e isso gera um terceiro momento (ou terceira coisa). Para demonstrar isso, Hegel começa pelo enunciado da certeza sensível, isto é, há coisas. Então, ele vai utilizar palavras que tem uma relação direta com o que é imediato, como as palavras ‘aqui’ e ‘agora’.
Quando se utiliza essas palavras, percebe-se que aquilo que seria mais imediato e particular, se torna mais geral e universal, pois tais palavras podem ser usadas em qualquer contexto. Por exemplo, quando se fala ‘agora’, a pessoa que fala deixou de estar no ‘agora’ para estar no momento seguinte ao ‘agora’.  Então, quanto mais se tenta dar positividade ao ‘agora’, mais positividade é dada para a negação do ‘agora’. Desta forma, a lógica do conceito de ‘agora’ produz a oposição imanente ao conceito, de dentro para fora.  É um devir.  Por isso, o conceito não fica parado. Sempre que se tenta coincidir o conceito com o objeto (neste caso, o conceito do ‘agora’, com o momento do ‘agora’), fazer o conceito e o objeto pararem, sempre há um segundo momento. Para Hegel, o conceito pensa o próprio conceito.
Segundo este mesmo pensador, impossibilidade é aquilo que, enquanto potência, é atual. É uma potência  que não pode passar a atualidade, pois, caso o fizesse, deixaria de gerar efeitos.  E esse status de impossibilidade que Zizek vai dar ao antagonismo.  Então, sujeito, para Lacan, é uma oposição frente a um impasse ontológico.  Neste viés, o Édipo não é a triangulação papai, mamãe e bebê. Há um problema impossível, ontológico, que ninguém escapa e que faz parte da estrutura do ser.  Então, para escapar a esse problema impossível de lidar, a pessoa cria um outro problema, que é contingente e tem a ver com sua situação familiar.  A pessoa encena um problema impossível dentro de sua família, pois, desta forma, a pessoa escapa de um problema muito mais fundante.

Nota #1 [28/09/2012]

Quando Slavoj Zizek afirma que o projeto comunista deve começar do começo, o que exatamente ele quer dizer? Onde começa o comunismo? Retornamos à hipótese comunista conforme afirmada por Alain Badiou, a hipótese da emancipação. Mas e o que é a emancipação? É a constante verificação da hipótese da igualdade. Mas no plano do real, o que isso muda? Retifico-me, não no plano do real, pois esse, segundo Lacan (?), é impossível (algo que ainda não entendi); então no plano da história. Novamente, não no plano da história, pois essa não existe (segundo Badiou está no plano do imaginário [?]); então no presente. No cotidiano de cada um, quais são os efeitos da implementação da hipótese comunista, da emancipação dos indivíduos, da verificação da igualdade? Aumentará o bem-estar das pessoas? Aumentará seu gozo e sua satisfação com a vida cotidiana? Parece-me que Freud afirma que não; seremos tão infelizes no comunismo quanto hoje. Então pra que serve o projeto comunista? Pareço  enredar-me no hedonismo contemporâneo em que a vida é dirigida à busca do prazer; mas se não é para melhorar em algum aspecto a vida das pessoas, então o que é o comunismo e pra que serve e por que o defendemos?

Zizek ainda não me respondeu essa pergunta, apenas afirma que o comunismo é uma necessidade; mas o que é comunismo? O comunismo não é um ideal, uma ideia reguladora cuja norma é a igualdade (o socialismo ético), mas uma reação aos antagonismos sociais provocados pelo capitalismo que impedem sua reprodução infinita. Os antagonismo do capitalismo, então, gerariam a ideia comunista… mas o que é essa ideia nova? Deve ser uma ideia nova, ou seja, não deve ser um avanço da ideia antiga que levou à Revolução Bolchevique, provocada por outros antagonismos de outro tempo: essa é uma nova empreitada revolucionária. Mas que ideia nova é essa? O que é a ideia comunista? O princípio ao qual Zizek se refere é simplesmente a palavra comunismo? Devemos redescobrir o significado dessa palavra e essa é a ideia comunista? Se for o caso, determinaremos o que é comunismo por um esforço lógico de raciocínio dialético seguido da mais pura retórica, ou será um embate dialético político-ideológico pelo uso correto dessa palavra? O que importa é a palavra? A palavra como evocação da ideia?

O autor afirma que a única pergunta verdadeira hoje é: confirmamos a naturalização predominante do capitalismo ou consideramos que o capitalismo global atual contém antagonismos suficientemente intensos para impedir sua reprodução indefinida? É uma boa pergunta. O comunismo, então, é a ideia que surge do reconhecimento da insustentabilidade e consequente finitude do capitalismo? Então, o comunismo será o que seguirá o capitalismo. É diferente de haver uma ideia pré-concebida sobre o que é o comunismo e tentar implementá-la. Não é fazer do comunismo a sequência do capitalismo, é chamar a sequência do capitalismo de comunismo. O capitalismo possui antagonismos suficientemente intensos para impedir sua reprodução infinita, ou seja, o capitalismo não é capaz de resolvê-los e ainda assim chamar-se capitalismo, portanto, o sistema que resolver tais antagonismos será chamado comunismo; Mas por que comunismo?

Os quatro antagonismos do capitalismo, segundo Zizek, são: a crescente ameaça ecológica; a inadequação da noção de propriedade privada quando aplicada à propriedade intelectual; as implicações sócio-éticas dos novos desenvolvimentos  tecnocientíficos, sobretudo no campo da biotecnologia; e as novas formas de apartheid social. Os três primeiros antagonismos evocam os domínios do comum, a substância compartilhada de nosso ser social: o comum da cultura, o comum da natureza externa e o comum da natureza interna. A consciência de que a submissão desse comum à lógica capitalista, por meio de sua privatização, tem um potencial destrutivo de aniquilação da humanidade evocam a necessidade de estabelecer uma organização e compromisso político global para neutralizar e canalizar os mecanismos de mercado nesses domínios, revelando-se uma preocupação propriamente comunista. “É essa referência ao comum o que justifica ressuscitar a noção de comunismo: nos permite enxergar o cercamento progressivo desses bens comuns como um processo de proletarização daqueles que são desse modo excluídos de sua própria substância.” (p.213). A noção de proletário é radicalizada ao nível existencial: o sujeito proletário como uma mera consciência, privada de todo seu conteúdo substancial que determina sua existência material.

O esforço do capital em privatizar esses bens comuns determinaria então a insustentabilidade do capitalismo, ao posicioná-lo como uma ameaça de autodestruição da humanidade, ao tentar desapropriar os seres humanos de todo seu conteúdo material, forçando-nos em uma situação de catástrofe coletiva ou de resistência coletiva à imposição da lógica do capital a esses bens comuns. O comunismo seria então o modelo social decorrente da resistência bem-sucedida à imposição da lógica capitalista aos bens comuns? Mas esses bens comuns não são privatizados ainda, eles estão sendo privatizados progressivamente. O comunismo seria então apenas a proteção dos bens comuns aos avanços do capital? Sendo o comum usufruído comunalmente, temos então o comunismo? É esse o critério do comunismo?