Nota #3 [14/03/2013]

Tomo a liberdade de retirar o trecho em que Zizek expõe seu conceito sobre Ideologia: “A ideologia não é simplesmente uma ‘falsa consciência’, uma representação ilusória da realidade; antes, é essa mesma realidade que já deve ser concebida como ideológica”.

Quando Zizek nos diz que existe uma falsa consciência, ou seja, algo que achamos que só existe enquanto ilusão, como se a ideologia fosse quase uma entidade de fora, é exatamente aí que ela mais opera. Quando abrimos a nossa boca para opinarmos sobre qualquer coisa, essas palavras são selecionadas por um certo filtro ideológico. E ao dizer que a ideologia é algo de fora, não se implica ao sujeito refletir sobre qual ideologia a sua fala está fundamentada. Então é nesse sentido que Zizek nos diz que só de acharmos que existe uma “representação ilusória da realidade” isto mesmo é a mais forte forma de saber que existe uma ideologia que sustenta esse discurso.

Um exemplo que vivenciei recentemente demonstra exatamente isso é esta:

Fui convidada a participar de um grupo de orientação alimentar a gestantes. É um grupo orientado por um trabalho de pesquisa, e realizado por nutricionistas. O fato é que num determinado momento do grupo, uma gestante contava sobre essa gestação e de sua falta de apetite diante da comida. Dizia um de seus filhos precisava passar por uma cirurgia e isso a deixava tensa porque o hospital não lhe dizia a data. A intervenção de uma das técnicas foi a de que ela visse com a sua família quem poderia cuidar da sua filha durante os períodos pré e pós-operatórios, para que ela pudesse ter seu filho com mais tranquilidade. Fiquei extremamente incomodada com essa intervenção, porque a ideologia que a sustenta é a de um individualismo em que a responsabilidade está com o indivíduo, retirando do estado sua implicação. Logo em seguida fiz uma intervenção “complementar”, que era de que ela passasse sua situação para o ACS que a acompanha para ver o que era possível e, de SUS para SUS, conferir uma previsão e suporte ao período cirúrgico da menina e de parto da gestante. É uma ação que implica num segundo plano o agenciamento que a gestante terá que fazer para cuidar de sua filha recém-operada e se seu filho recém-nascido, mas não desabona o papel do Estado de um serviço de assistência de qualidade ao usuário que tem o direito de saber quando será a sua cirurgia. O que ilumina esta intervenção é uma visão do SUS, do SUS enquanto público, estatal e para todos e em todos os níveis.

 

Nota #2 [14/03/2013]

Desde já quero dizer que não me refiro a uma dificuldade intelectual, algo que impeça o receptor (ouvinte ou leitor) entender a psicanálise, mas a uma dificuldade afetiva: algo pela qual a psicanálise se alienaria dos sentimentos do receptor, dissuadindo-o de lhe prestar interesse ou crença. Como se adverte, ambos os tipos de dificuldades desembocam no mesmo. Quem não pode dispensar suficiente simpatia a uma causa, tampouco a compreenderá mais facilmente.

(…)

A psicanálise somente tem tido prioridade nisto: não se limita a afirmar abstratamente duas teses tão penosas ao narcisismo (a significação da sexualidade e a condição inconsciente da vida anímica), mas que as demonstrou em um material que toca pessoalmente cada sujeito, obrigando-o a tomar posição frente a esse problema.

Freud, Uma dificuldade da psicanálise.

 

No último encontro, entramos decididamente na Teoria do Valor de Marx, mais especificamente o temido primeiro capítulo d’O Capital. Longe de atingirmos um entendimento “claro e distinto” do texto marxiano, até porque este não era nosso propósito, o que conquistamos, na minha avaliação, foi uma sensibilização para a complexidade da questão. Esta sensibilização não pode ser vista como algo menor. Pelo contrário.

Arrisco a dizer que grande parte da tradição econômica marxista foi marcada pelo que chamo de “monetarização” da teoria do valor, i. é., a leitura de algumas categorias fundamentais da crítica da economia política, como o fetichismo e a mais-valia, desde a forma equivalente dinheiro, negligenciando as conseqüências da cisão constitutiva da mercadoria e a função do trabalho humano como o “enlaçador” dos dois pólos. Essa monetarização pode ser verificada desde os primórdios do marxismo, com Kautsky e Hilfreding, passando, em menor grau, por autores do porte de Rubin (que não caiu exatamente na armadilha da monetarização, mas tampouco conseguiu extrair conseqüências mais decisivas da sua concepção do duplo caráter do trabalho como processo técnico-material de produção de um lado e sua forma social do outro – embora aqui a teoria do valor ganhe mais sofisticação, por exemplo, do que a reflexão hilfredingeana).

Acredito que a leitura que estamos empreendendo vem nos sensibilizando para o desafio de sustentarmos uma teoria do valor que reconheça as conseqüências do que é apresentado no primeiro capítulo d’O Capital, notadamente uma crítica mais aguda aos fundamentos epistemológicos da economia política. Se a novidade do que deve ser pensado se impõe como um obstáculo imenso, não devemos, com isso, ver aí um bloqueio total, mas justamente um incentivo. Talvez a tarefa seja nos permitimos a quebra de velhos paradigmas em prol de uma nova interpretação que não se esquive de seus efeitos.

Nota #1 [14/03/2013]

Da análise de Marx da mercadoria tem-se que esta é a forma elementar da riqueza em que as forças produtivas são presididas pelo modo de produção capitalista e que ela, a mercadoria, contém um duplo caráter, tem em sua unidade uma duplicidade entre o valor de uso e o valor de troca. A mercadoria é “(…) objeto externo (…)” [p.57], que por suas propriedades físicas/ materiais satisfaz necessidades humanas – “(…) do estômago ou da fantasia (…)”.

“(…) Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente, como meio de produção (…)” [p.57]

A propriedade de satisfazer necessidades humanas diretamente, como objeto de consumo, se refere imediatamente à utilidade da coisa/ do produto. O valor de uso, este valor posto pela utilidade do produto, dá-se por meio do trabalho concreto – aquilo que constitui/ fornece, segundo Marx, o conteúdo [substância] material da riqueza [em qualquer formação social]. O valor de troca apresenta-se, como diz Marx, na relação quantitativa  entre valores-de-uso de qualidades diferentes que são comensuráveis [e trocáveis] a partir, nesta relação, de determinada grandeza quantitativa.

Mercadorias que se trocam são, obviamente, mercadorias que portam, me parece, qualidades e, portanto, funções/ utilidades distintas – não há porque trocar uma cadeira por outra cadeira com as mesmas propriedades físicas e que servem, logicamente, à mesma coisa. A troca de mercadorias, nesse sentido, “exige” certa diferença que, por sua vez, “exige” um gesto de equivalência, por assim dizer.

“(…) Daí se deduz, primeiro: os valores de troca vigentes da mesma mercadoria expressam, todos, um significado igual; segundo: o valor de troca de uma substância que dele se pode distinguir (…)” [p.59]

Isto é, me parece, as propriedades que conferem à mercadoria valor de troca são expressáveis/ traduzíveis numa outra determinada mercadoria. Mais ainda: cada propriedade de uma mercadoria separadamente encontra sua expressão de valor de troca, sua equivalência, numa determinação proporção de uma determinada propriedade de outra mercadoria: x de graxa ou y de seda ou z de ouro equivalem a uma quarta de trigo de modo que de uma quarta de trigo devém x de graxa ou y de seda ou z de ouro – ou mesmo: x de graxa equivale a uma quarta de trigo ou y de seda ou z de ouro.

“(…) Qualquer que seja a proporção em que se troquem, é possível sempre expressá-la com uma igualdade em que cada quantidade de trigo se iguala a alguma quantidade de ferro (…)” [idem]

Essa igualdade entre duas mercadorias é produto de uma terceira coisa. Esta coisa, por sua vez, difere de ambas – penso, não se reduz a elas, mas as reduz. No ato da troca, no gesto de equivalência, posta/ viabilizada por esta “terceira coisa”/ “coisa em comum” não se põe em jogo as propriedades [de ordem alguma] propriamente das mercadorias trocadas: é preciso, pressuposta a diferença qualitativas destas, como valores de uso, como coisas úteis, reter ou ater-se exclusivamente ao valor de troca delas.

Abstraído o valor de uso de uma mercadoria, todas as qualidades específicas contida em sua corporeidade física, resta o fato de que ela, como mercadoria, sob seu duplo caráter [valor de uso e valor de troca] ou não [apenas como valor de troca ou mesmo apenas como valor de uso], é produto do trabalho. Não entra em jogo, portanto, tal fato: se há produto do trabalho, há nele trabalho – seja como valor de uso ou como valor de uso/ valor de troca [mercadoria].

[abstraído o valor de uso de uma mercadoria/de um produto]

“(…) Esses produtos passam a representar apenas a força de trabalho humana gasta em sua produção, o trabalho humano que neles se armazenou. Como configuração dessa substância social que lhes é comum, são valores, valores-mercadorias (…)” [p.60]

Uma coisa é útil por servir/ prestar-se algo. Isto que “serve” serve porque foi posto para tal, o que pressupõe alguma qualidade de atividade humana, de trabalho humano – uma pedra como pedra não porta utilidade; uma pedra como matéria-prima da produção de um objeto cortante contém, agora, serventia e assim o é após o fato do trabalho. O valor de algo se relaciona, portanto, com certas características desta atividade chamada trabalho. A quantidade desta potência criativa que se efetiva quando/ enquanto criadora, no ato do trabalho, é o que gera valor/ utilidade.

Se as mercadorias possuem propriedades distintas assim o é porque estas contêm “trabalhos distintos”. Estes que variam podem ser mensuráveis, universalmente, pela categoria Tempo – “tempo de trabalho”. Não é possível mensurar o trabalho do carpinteiro com o do engenheiro, mas estes, em sua heterogeneidade, são realizados no tempo – nele, em certa e decisiva medida, penso, são homogenizáveis. O tempo, nesse sentido, é pressuposto de todo e qualquer trabalho em qualquer sociedade. No tempo em que os trabalhados dos produtores estão associados tem-se que o tempo de produção de uma mercadoria não é o tempo do produtor que a produziu, mas o tempo socialmente necessário de sua produção.

“(…) O que determina a grandeza do valor, portanto, é a quantidade de trabalho socialmente necessária ou o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor-de-uso (…)” [p.61]

Quando se verifica que as mercadorias são trocadas vê-se que neste ato não entra em jogo aquilo que as, materialmente, realizou: o trabalho humano. O trabalho humano aqui, na troca, é tomado abstratamente – oriundo do tempo socialmente necessário; aquilo que dilui, e homogeniza, a heterogeneidade dos trabalhos. O trabalho potenciado tem como pressuposto o trabalho simples; do trabalho simples vê-se a gênese do potenciado/ complexo. Diz Marx que o tempo do trabalho simples torna-se o parâmetro de todo o trabalho, incluso o complexo. O tempo socialmente necessário, portanto, me parece, é, imanentemente, o “menor tempo possível de produção”. Sendo isto resultado de um processo social em que a posição dos homens que produzem no tempo não importa – exatamente porque é social.

Nota #2 [07/03/2013]

A problemática a respeito da ideologia em Marx à qual Zizek quer superar consiste no impasse entre uma interpretação economicista do marxismo, que redunda numa concepção consciencialista da ideologia, e uma interpretação psicologizante, que se arvora psicanalítica, mas acaba recaindo no primado do individualismo burguês. De um lado, a ortodoxia marxista que entende a ideologia como um obscurecimento da realidade da luta de classes engendrada pelo modo de produção capitalista, de outro, o marxismo alternativo, que considera a economia libidinal, tal como fora pensada por Freud, a verdadeira chave explicativa da ideologia, entendida como o efeito dos desejos humanos mais íntimos. Prosseguindo com a comparação, de um lado, a ideologia consistiria no ocultamento por parte dos exploradores, os capitalistas, do que realmente está em jogo no capitalismo, a exploração da classe trabalhadora, de outro, a ideologia resultaria de desejos inconscientes que estão presentes tanto nos exploradores quanto nos explorados. A parte suas diferenças, as duas interpretações têm em comum a proposta de eliminar, extinguir a ideologia. A tendência ortodoxa, através da consciência de classes; a tendência alternativa, por meio de uma certa psicanálise dos desejos inconscientes. Nos dois casos, eliminado o fator ideológico, a verdade do capitalismo aparece, no sentido de que se passa a ter clareza sobre tal verdade, isto é, a sabê-la ou conhecê-la. E nos casos acredita-se que esse saber é capaz de promover mudanças, como se fosse possível uma revolução pelo/no saber.

A posição de Zizek é completamente outra. Sem deixar de lado o aspecto econômico da produção capitalista, e adotando uma perspectiva realmente psicanalítica segundo a qual o inconsciente não é individual, e sim social, Zizek pensa a ideologia como um sintoma, um sintoma social. Sintoma este que não resulta apenas do funcionamento econômico do capitalismo, nem tão-somente da economia libidinal de um indivíduo particular.

Referências 14/03/2013

CEII 14032013 I.001

CEII 14032013 II.001

CEII 14032013 III.001

CEII 14032013 IV.001

CEII 14032013 V.001

Sobre a mercadoria e a forma do valor:

MARX, K. O Capital, vol.I (Editora Civilização, 1998)

-> “Capítulo 1: A mercadoria”, em inglês e em português

Sobre o primeiro livro do Capital:

HARVEY, David A Companion to Marx’s Capital (Verso, 2010)

-> ver também suas aulas sobre o volume I: http://davidharvey.org/reading-capital/

JAMESON, Fredric Representing Capital (Verso, 2011)

ROSDOLSKY, Roman Gênese e Estrutura do Capital de Marx (Contraponto, 2001)

Sobre a dialética da quantidade e da qualidade:

CARLSON, David Grey A Commentary of Hegel’s Science of Logic (Macmillian, 2007)

HEGEL, G.W.F.Ciência da Lógica (Barcarolla, 2011)

Sobre a forma do valor e o significante:

ZIZEK, Slavoj O significante e a mercadoria em Eles não sabem o que fazemdisponível aqui

Sobre o papel do trabalho abstrato na teoria de Marx:

PAULANI, Leda O Papel da Força Viva de Trabalho no Processo Capitalista de Produçãodisponível aqui

POSTONE, Moishe Time, Labor and Social Domination (Cambridge University, 1993)

_____________ Repensando a crítica de Marx ao capitalismo (disponível aqui)

PRADO, Eleutério Posição e Desmedida do Valordisponível aqui

Sobre a relação entre tempo, relógio e ciência:

KOYRÉ, Alexandre Estudos de História do Pensamento Científico (Forense, 1982)

____________ Estudos de História do Pensamento Filosófico (Forense, 1991)

ROSSI, Paolo Os Sinais do Tempo (Companhia das Letras, 1979)

________ Os filósofos e as máquinas (Companhia das Letras, 1989)

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-14032013

Nota #2 [21/02/2013]

Nesta nota, serão abordados brevemente as relações entre o fetichismo da mercadoria de Marx e a análise dos sonhos de Freud, assim como a noção de ideologia de Zizek. Há uma homologia entre Freud e Marx que deve ser compreendida para entendermos o que é ideologia.

Para realizar sua interpretação do sonho, Freud procede em duas etapa: primeiramente, deve-se acreditar que há um pensamento latente que está por trás do sonho, que este núcleo oculto é precioso para sua compreensão; em seguida, deve-se entender que esse núcleo do sonho é falso – pois a verdadeira essência do sonho é a sua forma, é somente na forma do sonho que se pode perceber o desejo inconsciente, e não em seu conteúdo latente.

Na análise da mercadoria de Marx ocorre algo homólogo: primeiramente devemos conceber a ideia de que o valor da mercadoria é determinada por algo oculto por trás dessa mercadoria, para ser mais preciso, ele é determinado pelo tempo de trabalho. Contudo, descobrir que não é o puro acaso de algo como mercado que controla o valor da mercadoria não é o suficiente. Portanto, devemos dar um último passo: o ponto crucial está na própria forma da mercadoria, em vez de questionarmos o que está por trás do valor da mercadoria, devemos perguntar o porquê do trabalho de expressar num valor [determinado pelas flutuações do valor da mercadoria].

Agora se pode compreender melhor por que a análise do sonho de Freud e a análise da mercadoria de Marx são importantes para o conceito zizekiano de ideologia. O fetichismo da mercadoria de Marx faz aparecer algo que Sohn-Rethel denomina de abstração real. O valor [de troca] que estabelece as condições do fetichismo da mercadoria faz com que os indivíduos envolvidos numa relação de troca agissem como se eles ignorassem o fato de que duas mercadorias não podem ser realmente equivalentes (pois possuem qualidades diferentes), que as mercadorias se degradam com o tempo, que as mercadorias não são objetos mágicos que não obedecem as leis da natureza. Essa relação de troca nos faz lembrar da famosa negação fetichista “sei muito bem que a mercadoria não é algo imutável, que não há equivalência real entre duas mercadorias, mas ainda assim é como se ela tivesse o “mesmo valor” que outras mercadorias”. A abstração real não é algo presente nos pensamentos, muito pelo contrário, os sujeitos que trocam mercadorias pensam que sabem exatamente o que está acontecendo; a abstração rea está presente somente na efetividade social, no ato de troca de mercadorias – onde os indivíduos agem “como se não soubessem”.

É neste ponto que entra a noção de ideologia de Zizek. Assim como o sintoma e a relação de troca de mercadorias, a ideologia implica num desconhecimento dos seus participantes em relação à sua essência. Se eles realmente tivessem conhecimento de sua lógica, isso causaria o desmanchar da própria realidade social (ou do sintoma). Ideologia não é somente uma falsa consciência, ela é uma realidade social que implica o desconhecimento de sua lógica pelos indivíduos para o seu funcionamento.

Nota #1 [07/03/2013]

Não devemos temer não saber a teoria do valor

Aconteceu pelos idos de 2002. Era pra ser só mais uma reunião burocrática do DCE da UFRJ se não fosse um episódio inusitado. Lá pelas tantas, em mais uma das infindáveis votações para deliberações internas (votações fake, porque tudo já estava decidido entre as lideranças das frações), um nobre estudante de história resolveu intervir de forma mais contundente para tentar angariar os parcos indecisos para a posição do seu grupo na votação.

Ele iniciou assim a fala, com um tom prepotente: “Se estamos todos aqui no DCE é porque somos marxistas!”. (Neste momento, uma colega da faculdade de farmácia virou pra mim e disse: “Cara, como posso ser marxista se nunca li nada do Marx?”). Partindo dessa constatação, o orador permaneceu longos 15 minutos discorrendo sobre a teoria marxista. No final, ele fez uma articulação entre a questão econômica em Marx e o ponto de pauta em votação: “E se todos nós somos contra a mais valia, a opção “d” é a que devemos votar!”. Obviamente, além do notável orador não ter conseguido mais um voto sequer para a opção escolhida, ele ainda ganhou a antipatia de muitos colegas.

Passados mais de dez anos desde este episódio, alguns deles dedicados ao estudo dos textos de Marx, percebi o quanto a fala daquele colega era equivocada. Não somente sob o ponto de vista do conteúdo (que era bem vulgar), mas, sobretudo, pela postura, caracterizada como uma espécie de “onisciência” do marxismo. O camarada realmente sabia tudo de Marx…

No entanto, não devemos acreditar que a atitude do colega é isolada na história do marxismo. Me pergunto se aquela onisciência (que assisti outras vezes e com frequência no movimento estudantil) não era um reflexo , mais ou menos indireto, do próprio desenvolvimento do comunismo no século XX, marcado por brigas e cisões pela disputa do “verdadeiro” marxismo. As peripécias do chamado “marxismo ocidental”, tão bem relatadas por Perry Anderson, não deixam de constatar como o movimento comunista fluiu em torno das querelas interpretativas do legado do pensador alemão.

Diante deste cenário marcado por uma disputa hermenêutica com incidências políticas e pela necessidade de simplificar algumas formulações teóricas para facilitar a prática revolucionária, foi inevitável a criação de um conjunto de lugares comuns ao redor da obra marxiana. E arrisco a dizer que um dos principais conceitos mais afetado foi a famigerada e polêmica teoria do valor, notadamente como ela aparece no primeiro capítulo d’O Capital.

Taxada de “meramente hegeliana” (por exemplo, Jon Elster e o chamado “marxismo lógico”) ou historicizada como “pré-marxista”, ou simplesmente jogada ao ostracismo, o dificílimo primeiro capítulo, “A mercadoria”, permaneceu uma “pedra no sapato” dos intérpretes marxistas. É sintomático que o primeiro grande intérprete de Marx e difusor de sua obra nas universidades europeias, Karl Kautsky (que foi, apesar de todas as desavenças, uma grande influência para Lenin, sobretudo na Economia), em sua famosa obra “A doutrina econômica marxista” tenha, com seu positivismo lógico, desmilinguido a complexidade da mercadoria tal como aparece em O Capital.

Desde então cristalizou-se, em menor ou maior o grau, o que chamo de “monetarização” da teoria do valor: os diferentes momentos de desenvolvimento do capital são explicados a partir do “fato” do dinheiro como equivalente geral, deixando sem consequências o processo de constituição da mercadora a partir do trabalho e sua cisão entre valor de uso e valor de troca. Isso fica patente nos inúmeros manuais de economia política.

A produção de mais valia, por exemplo, é explicada como a fatia de valor produzida pelo trabalhador que é apropriada pelo capitalista, e, em grande parte dos casos, valor é imediatamente identificado como dinheiro – e, no meu entender, um dos grandes esforços do primeiro capítulo é defender justamente que o valor não deve ser identificado imediatamente como dinheiro. Deste modo, grande parte da economia socialista permaneceu no mesmo terreno epistemológico da economia política, ambas atreladas ao paradigma da economia moderna.

Diferente do colega do episódio inusitado acima, o que aprendi foi justamente que com Marx não temos certezas inabaláveis, principalmente de sua obra. Sei que é difícil nos permitirmos este tipo de posição, já que enfrentamos uma máquina ideológica gigantesca defensora da economia política e pautada justamente na certeza afiançada pelo discurso científico. Em nome dos “gênios do Nobel”, o mercado deve permanecer intocado: nos dizem os especialistas. Daí a nossa tendência em contra-atacarmos com unhas e dentes essa ideologia com a força de uma resposta igualmente científica e inabalável. Mas, me pergunto, se nós queremos realmente fazer um ataque certeiro no edifício fantasmático que sustenta o capitalismo, não deveríamos justamente nos permitir as fraquezas, os descaminhos e as falhas tão características de um pensamento novo? Talvez não seja justamente esta a grande subversão? Longe de nos apoiarmos em um punhado de conceitos pré-concebidos do marxismo, não deveríamos nos permitir um não saber de Marx? Será que o primeiro passo para ser marxista hoje é dizer “não sei nada de Marx”?

Nota #3 [28/02/2013]

Sabemos da existência de várias correntes interpretativas acerca do marxismo, desde as mais ortodoxas, que reduzem a obra de Marx a um compêndio de economia política pleno de objetividade, até as mais “alternativas”, que se caracterizam por introduzir no pensamento sociológico de Marx elementos aparentemente estranhos ao seu campo de origem, cujo exemplo mais notório é o freudo-marxismo. Aqueles que pertencem à corrente ortodoxa concebem a ideologia em Marx  como um problema de falsa consciência (“Eles não sabem, mas fazem”), enquanto aqueles que compõem a tendência “alternativa” a concebem como uma questão de ordem subjetiva, à qual cabe menos um esclarecimento do que  um rearranjo das pulsões individuais. Eis, então, a problemática em torno do pensamento de Marx: como articular pulsões individuais e reprodução econômica?

A proposta interpretativa de Zizek sobre a ideologia visa justamente tal articulação. Nem só Marx, nem só Freud, tampouco freudo-marxismo. Por isso seu ponto de partida, antes mesmo da reflexão propriamente dita sobre a ideologia, é pensar a relação inerente entre psicanálise e marxismo.

Referências 07/03/2013

CEII 07032013.001

 

Sobre a mercadoria e a forma do valor:

MARX, K. O Capital, vol.I (Editora Civilização, 1998)

-> “Capítulo 1: A mercadoria”, em inglês e em português

Sobre o primeiro livro do Capital:

HARVEY, David A Companion to Marx’s Capital (Verso, 2010)

-> ver também suas aulas sobre o volume I: http://davidharvey.org/reading-capital/

JAMESON, Fredric Representing Capital (Verso, 2011)

ROSDOLSKY, Roman Gênese e Estrutura do Capital de Marx (Contraponto, 2001)

Sobre a dialética da quantidade e da qualidade:

CARLSON, David Grey A Commentary of Hegel’s Science of Logic (Macmillian, 2007)

HEGEL, G.W.F.Ciência da Lógica (Barcarolla, 2011)

Sobre identificação e alienação:

LACAN, Jacques O Estado do Espelho como formador da função do eu em Escritos (Jorge Zahar, 1998)

___________ Aula XVI: A Alienação em Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (Jorge Zahar, 1985)

Sobre a forma do valor e o significante:

ZIZEK, Slavoj O significante e a mercadoria em Eles não sabem o que fazemdisponível aqui

Sobre a reflexão determinada e a determinação reflexiva em Hegel:

ZIZEK, Slavoj Seção VI: “Não somente como substância, mas também como sujeito” em Eles não sabem o que fazemdisponível aqui

_________ A Monstrosidade de Cristo (Relógio D’Água, 2008)

-> passagem citada (sobre Cristo e o Rei): página 81 e 82

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-07032013

Nota #2 [28/02/2013]

Para Zizek, a ideologia tem um funcionamento homólogo ao sintoma freudiano. Assim como no sintoma, em que algo de um excesso pulsional, para além do princípio do prazer,retorna sob a forma do supereu, articulando a estrutura psíquica e formando o sintoma; na ideologia, um ponto de exceção que escapa às regras ideológicas é justamente o limite estruturador da próprio ideologia, seu eixo de orientação.

Nesse sentido, a crítica zizekana da ideologia ataca dois pontos cardinais de nossa tradição política: por um lado, critica a crítica tradicional da ideologia, que na maioria das interpretações marxistas sempre se tentou buscar um ponto para além da ideologia que pudesse dar uma significação última da sociedade (além, obviamente, da outorga de um poder político àquele que legitima essa crítica, tantas vezes criticadas por Foucault); e, por outro, uma crítica mais aguda do capitalismo, buscando revelar os nós sintomáticos tão bem escamoteados pelos ideólogos burgueses, e que estruturam todo o edifício fantasmático que sustenta o capitalismo.

Zizek utiliza de forma exaustiva essa forma de crítica ideológica. De suas análises do Kunk Fu Panda a Fukuoyama, de Janela Indiscreta a Gangnam Style, passando por Richard Wagner, percebemos essa busca constante de denunciar o ponto de exceção que estrutura o discurso ideológico. Na palestra dada na última terça-feira, dia 5 de março, em Porto Alegre, no evento promovido pela Fundação Lauro Campos e a Editora Boitempo, o filósofo nos dá um “conselho”, que ele mesmo já repetiu em vários lugares: “Olhem ao redor! Vejam! A ideologia está em todos os lugares, a todo o momento. Exercer sua crítica é uma das principais tarefas políticas de hoje”.

Ora, olhemos ao nosso redor. Em termo políticos, o que vemos em nosso país? A consolidação do Lulismo e a continuação desenfreada da política neoliberal que tanto o Partido dos Trabalhadores criticou. Sob o falso epíteto de desenvolvimentista [1], o Lulismo consegue avançar graças a uma engenharia social que tem como base uma coalizão econômica com a burguesia nacional (Bancos, Latifundiários, Empreiteiras). Essa engenharia permitiu alguns avanços sociais, mas que já estão com alcance bastante limitado, principalmente em médio prazo  – estudos de diferentes perspectivas teóricas não faltam para comprovar este fato. E, no entanto, o governo Dilma aparenta não ter disposição em bater de frente com esses grupos consolidados da burguesia.

Em artigo polêmico publicado na Folha de São Paulo no ano passado, Vladimir Safatle faz uma avaliação, no meu entender, precisa sobre o futuro do Lulismo. Em “O filho bastardo” [2], Safatle analisa a candidatura de Celso Rusomano para a cidade de São Paulo como uma espécie de filho bastardo do Lulismo. Este, o Lulismo, por, dentre outras coisas, não conter um conteúdo ideológico claramente de esquerda, se permitindo “alianças heteróclitas” em prol da famigerada governabilidade, mas que tem como resultado o enfraquecimento de propostas históricas do PT, pode ser assumido por qualquer partido, por qualquer candidato, desde que mantenha sua estrutura: as migalhas para a classe trabalhadora e a coalizão burguesa. O filho bastardo do Lulismo (E, porque não, filhos? Sim! Porque teremos mais deles!) não seria justamente o ponto de exceção que o PT tenta o tempo todo escamotear, abrigando-o dentro do aparelho estatal por meio de apadrinhamentos, mas que irrompeu como um filho malcriado que quer substituir o pai (morto?)?

Por outro lado, Zizek, repetindo Lacan, nos diz que a ideologia, assim como o sintoma, não serve somente com um discurso que tenta tamponar “a parte de parte alguma” que articula como exceção o todo social. Ela também fornece as coordenadas do desejo! O desejo de que esta “parte de parte alguma” irrompa no tecido social, obrigando novas configurações. Se os filhos bastardos do Lulismo representam o retorno da política conservadora se apropriando do que o PT apresentou como política, o Lulismo; não seria possível também pensar que um real, o real da luta de classes, foracluído no Lulismo, mas que permaneceu latente enquanto movimento histórico que constituiu o Partido dos Trabalhadores, possa retornar? Os movimentos sociais  e as greves estão aí para dizer que sim. E será que esta força desejante de superação do capitalismo pode ser catapultada por um partido? Um partido que possa servir de corpo que suporte este real? Um partido que não tente se colocar como “o agente revolucionário consciente educador das massas”, mas como uma espécie de receptáculo, um lugar (como no lugar do analista) em que o real do sintoma do capitalismo possa ser articulado, pensado? Assim como um sujeito dividido da psicanálise, poderíamos pensar em um partido partido? Um partido em que “a parte de parte alguma” tenha lugar?
[1] Em um folheto recém publicado pelo PT, fazendo um balanço dos dez anos de Lulismo, é descrito uma diferenciação entre o período FHC, chamado de neoliberal, e o atual de Lula e Dilma, chamado desenvolvimentismo (assim está no folheto). Diante de tanta covardia diante dos financeiristas, com um superávit primário estúpido, juros galopantes e divída interna indecente, e, por conseqüência, um Pibinho medíocre (principalmente se considerarmos o cenário externo extremamente favorável) é de dar gargalhadas o PT se autodeclarar desenvolvimentista. O folheto pode ser acessado em http://www.fpabramo.org.br/sites/default/files/Folheto_PT_10anos_governo_Net.pdf.

[2]  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/64413-o-filho-bastardo.shtml