Nota #1 [14/05/2013]

História e Revolução
Do Ato à Consistência ou Da Consistência ao Ato

No último encontro, o nosso secretário geral  levantou a questão sobre o papel do Partido Revolucionário e fez uma análise comparativa das posições de Lênin e Gramsci sobre o assunto. Em linhas gerais, o papel do Partido Revolucionário é o de favorecer a tomada de poder pela classe explorada. Isso é consenso entre os marxistas. A questão é o como, isto é, de que maneira o Partido pode favorecer essa tomada de poder. Trata-se aí de uma questão ao mesmo tempo metodológica e histórica: o modo como o partido deve exercer o seu papel depende intimamente do contexto histórico do desenvolvimento do capitalismo. Tal contexto “determina” a concepção sobre a Revolução, e esta última implica, por sua vez, o modo como o Partido deve proceder para torná-la efetiva. Daí as diferenças entre Lênin e Gramsci.

Tendo como ponto de partida os contextos históricos em que viviam esses dois marxistas, Lênin vivia num Estado pré-moderno e Gramsci, num Estado moderno, é derivado  daí o papel que o Estado e a sociedade civil tinham para cada um deles: enquanto a realidade social da Rússia na época de Lênin era predominantemente feudal, com a concentração do poder no Estado, a realidade social da Itália na época de Gramsci era muito mais próxima da nossa, e a sociedade civil era tão detentora de poder quanto o Estado. Dada essa contextualização, como o partido deve agir em cada uma dessas situações? Em função da centralização do poder no Estado, Lênin defende que a Revolução deve ocorrer pela via explosiva, por uma ruptura abrupta, “pegando em armas” mesmo; Gramsci, por sua vez, tendo em vista o poder da sociedade civil, acredita que a Revolução deve ser processual  e sem ruptura, por meio da própria democracia representativa – que, a princípio, está à serviço da burguesia, mas pode representar também a classe subalterna. Em suma, para Lênin a revolução é uma  ruptura e, para Gramsci,  um processo.
Se a Revolução é disruptiva, o Partido Revolucionário deve proceder visando a ruptura, e se a Revolução é concebida como processual, o Partido deve funcionar tendo em vista a efetividade de tal processo. Lembrando que, para ambos, Lênin e Gramsci, não há revolução se não houver participação da classe explorada. É esta última que deve assumir o poder. De que forma então o partido deve proceder para que esta classe chegue ao poder? Para Lênin o partido deve organizar as massas, e isso significa que o partido deve pensar pelas massas. Estas não precisam ter clareza e discernimento sobre os fatos, basta que o partido o tenha. O que importa, inicialmente, é o apoio imediato do povo para destituir o poder da classe exploradora. Essa é a maior revolução. O problema é como fazer essa revolução consistir. Para Gramsci o partido deve mobilizar as massas, no sentido de dar voz aos apelos do próprio povo, e acredita que assim vão sendo construídos aos poucos os preceitos de uma sociedade socialista. Neste caso, o problema é que, por mais consistente que seja a moblização das massas isso não garante a revolução. De um lado, ato sem consistência, de outro, consistência sem ato.

A importância que concedi ao aspecto histórico nesta nota é diretamente proporcional à minha ignorância sobre esse aspecto.  Gostaria que retomássemos o tema do nosso último encontro explorando mais o papel da história na teoria marxista e na própria análise comparativa entre Lênin e Gramsci. A maneira como tracei esta comparação foi muito devedora do que chamei de contexto histório, e desconfio que ela é, no mínimo, ingênua.

Referências 14/05/2013

CEII 14052013.001

Sobre Gramsci:

AGGIO, A. (org.) Gramsci, a vitalidade de um pensamentodisponível aqui

COUTINHO, C.N. Marxismo e Política (Cortez, 1993)

GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere – todos volumes em castelhano, disponíveis aqui

THOMAS, P. The Gramscian Moment: Philosophy, Hegemony and Marxism (Haymarket, 2011)

Sobre o intelectual orgânico:

GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere, 12 – disponível aqui

COUTINHO, C.N. O conceito de vontade coletiva em Gramsci – disponível aqui

Sobre a história da concepção do conceito de sociedade civil:

CUELLAR, D. P.  El concepto de ‘sociedad civil’: breve historia de su elaboración teórica

Sobre a relação entre Gramsci e Lacan:

LACLAU & MOUFFLE Hegemonia e Estratégia Socialistadisponível aqui, em castelhano

Sobre a alienação e o estranhamento no jovem Marx:

MARX, K. Manuscritos Econômico-Filosóficos, parte sobre Trabalho Alienadodisponível aqui

Sobre o conceito de reificação:

LUKACS, G. História e Consciência de Classe – (ver cap.4, parte I) disponível aqui

Sobre o fetiche em Marx e Freud:

SAFATLE, V. Fetichismo: colonizar o Outro (Civilização Brasileira, 2010)

Sobre o conceito do estranho:

FREUD, S. O estranhodisponível aqui

 

Gravação da reunião:  https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-14052013

 

 

 

 

 

 

 

 

Nota #6 [09/04/2013]

Zizek se refere à crítica tradicional da ideologia, baseada na idéia desta última como falsa consciência, e à falência desta crítica, baseada na idéia de que hoje vivemos numa sociedade pós-ideológica. Ele mostra, contudo, que a falência da crítica não se deve ao suposto fato de que hoje “a ideologia dominante não pretende ser levada a sério ou no sentido literal” (p.311), mas ela é antes inerente à concepção mesma de ideologia como uma idéia distorcida do indivíduo sobre A realidade social – objetiva e consistente – da qual ele não sabe como faz parte. Nesse sentido, não se trata nem de que a crítica ideológica da falsa consciência teria sido efetiva e só hoje teria se tornado ineficaz porque vivemos outros tempos, nem de que a razão cínica não é ideológica e imune à crítica. Através do conceito psicanalítico de sintoma Zizek denuncia a falência da crítica ideológica tradicional e por meio do conceito psicanalítico de fantasia ele defende o caráter ideológico da razão cínica, e nos convoca a pensar sua crítica.

Nota #3 [30/04/2012]

A FANTASIA IDEOLÓGICA E A OBJETIVIDADE DA CRENÇA

A crítica tradicional da ideologia a caracteriza como falsa consciência da realidade objetiva. Desmistificá-la suporia a denúncia dos interesses particulares sob a máscara da universalidade. Um exemplo: enquanto Aristóteles considera, de um ponto de vista “metafísico”, a causa final como detendo um primado ontológico “em si” sobre a causa eficiente, a análise marxista deveria apontar para o modo de produção escravista grego (em que o senhor determina a finalidade do trabalho do escravo, que atua aqui como causa subordinada), como realidade social objetiva que “fundamenta” a pretensa universalidade da filosofia.

No entanto, o que se passa quando os atores “sabem muito bem o que fazem”, mas fazem mesmo assim? Para Zizek, tal perspectiva cínica contemporânea revela que a ideologia tem sua base menos num saber do que numa crença operando em estado prático. A ideologia não tem, portanto, o estatuto de um discurso pretensamente universal, mas de uma fantasia que estrutura o tecido mesmo da realidade. Ou seja: mesmo que saibamos que o valor de uma mercadoria, por exemplo, depende de um sistema de interações sociais, agimos como se cada uma fosse uma espécie de encarnação absoluta do valor. Do mesmo modo, ainda que sabendo que a ideologia geral da liberdade apenas dissimula a forma da exploração, mesmo assim agimos na prática segundo essa idéia de liberdade.

Para Marx, como para Lacan, trata-se de uma espécie de “autonomização” da relação entre as mercadorias, como ocorre com os signos na língua, que se entredeterminam em seu valor e significado, independente do grau de consciência dos agentes econômicos (ou dos falantes). A metafísica não reside mais no discurso, mas na prática real. A ideologia não é mais a ser pensada como falsa consciência, mas como crença objetivada.

Nota #2 [30/04/2013]

A famosa frase de Marx “disso eles não sabem, mas o fazem” deve ser reinterpretada e até mesmo reformulada – essa é a proposta de Zizek. Na interpretação marxista comum, a ilusão criada pela ideologia está no plano do saber e não no fazer. Em outras palavras, os indivíduos só agem de acordo com a ideologia por não compreenderem como as coisas realmente são. Desse modo, bastaria apenas comunicarmos a todos o conhecimento da realidade e das relações sociais para que todos agissem da maneira correta.

No entanto, essa interpretação não consegue dar conta da forma como a ideologia opera nos dias de hoje e, muito provavelmente, não estava de acordo com as ideias do próprio Marx como podemos inferir pela sua análise da mercadoria. Aqui, acredito que ainda podemos utilizar do conceito de abstração real no ato de troca que Sohn-Rethel utiliza, pois ela nos dá um exemplo claro: os envolvidos numa troca de mercadorias sabem muito bem que suas mercadorias não são imutáveis, que não possuem qualidades físicas equivalentes e que não são sublimes, mas ainda assim eles agem como se elas fossem. Logo, a famosa frase de Marx deveria ser reformulada da seguinte maneira (Como Sloterdjik propôs): “eles sabem muito bem o que estão fazendo, mas fazem assim mesmo”.

Com isso em mente, podemos explicar também o modo principal de como a crença funciona nos dias de hoje: “objetivamente”. O que ocorre na passagem do feudalismo para o capitalismo é precisamente o que Marx descreve: a relação entre coisas assume a forma das relações sociais devido à forma-mercadoria. A crença é, portanto, exterior e não interior como se pensa.

Sobre a apresentação da estrutura do PSOL, gostaria de saber se o CEII possui alguma tendência, similaridade até mesmo possibilidade de articular com algum grupo dentro do partido. Não me parece que os grupos do partido seriam muito simpáticos em relação aos autores que estudamos

Nota #1 [30/04/2013]

Qual seria a posição crítica acerca de um discurso que se quer universal, mas que se apresenta como particular? Que denúncia seria possível frente a uma enunciação cujo enunciador não se oculta? Isto é, como acusar os interesses por trás de um discurso que conserva sua força exatamente no fato de apresentar-se, de saída, como particular/ interessado? A crítica ideológica tradicional tende a produzir seu campo de ação exatamente no princípio do desvelamento/ desocultamento: porém, como fazê-lo quando o discurso ideológico hegemônico já informa explicitamente os “interesses por trás” das posições que hoje circulam socialmente?

O problema é interessante: se todos [e penso ser possível dizer literalmente “todos”] não acreditam no discurso oficial sobre, por exemplo, a reforma do Maracanã, qual seria a fala antisistêmica efetiva com fins de mobilização e engajamento coletivo? O ponto é: não falta questionamento ou, se quisermos, indignação frente ao assunto – TODOS SABEM dos negócios obscuros em volta do Maracanã [sobre este, não falta clareza]. Se ninguém está iludido por qual razão não fazemos nada de efetivo sobre o assunto? Se não há quem duvide sobre a farsa das obras do Maracanã [da grande mídia aos segmentos mais extremistas na esquerda, passando, inclusive e sobretudo, pela ingenuidade cotidiana], já que todos sabem/ estão cientes dela, qual fala pode produzir um ato efetivo sobre o assunto [já que não há mais o que “despertar na consciência” de ninguém]?

O exemplo, me parece, ser bom para pensarmos a premissa zizekiana de que o discurso crítico sobre o problema da ideologia, posto pelo marxismo tradicional, parece não se dar conta da emergência de categorias singulares [como, por exemplo, o cinismo enquanto forma ideológica] no atual estágio do capitalismo. Para ele, não se trata de abrir mão da ideia de “ilusão ideológica”, mas de fazê-la sair do campo, digamos, do “saber” para o “fazer”. Ou seja, a ilusão [noção, me parece, mais ou menos “cognitiva” ou que sugere certo estado “mental” diante do mundo] deve ser alocada no campo da prática/ do ato social. Zizek insiste que tal operação é possível, penso, no campo da filosofia marxiana: o fetiche da mercadoria é literalmente expresso na prática social, uma vez que os homens sabem [não é possível dizer que não] que a mercadoria é produto de suas ações [do trabalho humano] – importante é a ausência da crítica ideológica em Marx sobre o mistério da mercadoria…

O ponto é, se bem entendi, que a “ilusão ideológica”, para refazermos o trajeto de sua crítica com fins de torná-la efetiva hoje, talvez seja resultado de uma distorção, porém uma distorção contida na própria realidade. Ou melhor: uma distorção que devem da própria “relação humana” com ela. A distorção contida na “realidade social” é fundamentalmente aquilo que possibilita nossa inserção na realidade [como coisas dotadas de certas propriedades específicas, que nos conferem autonomia e liberdade suficiente para nos relacionarmos com o mundo]. O que significa dizer: é possível penetrar a realidade como tal? É possível uma realidade mais fundamental que a realidade social? Não seria a realidade social [“convenção arbitrária”] a única realidade como tal existente?

Se essas perguntas fazem sentido, me parece que a forma aparência-essência, contida na crítica da ideologia tradicional, precisa ser refeita – dado que, no caso, não há desvelamento ideológico que desagregue a Aparência e realize, na prática social, um tipo de acesso transparente na Essência.

Referências 30/04/2013

CEII 30042013.001

 

Sobre a operação do “como se” [als ob]:

VAIHINGER, Hans A filosofia do Como Se (Argos, 2012)

Sobre a noção de abstração real:

SOHN-RETHEL, Alfred Trabalho Manual e Espiritual disponível aqui

Sobre a concretude do conceito:

HEGEL, G.W.F. Enciclopédia das Ciências Filosoficas, em compêndio – Vol. I (Loyola, 2005)

-> §164-165: disponível aqui

Sobre a ontologia Zizekiana:

JOHNSTON, Adrian Zizek’s Ontology (Northwestern Uni, 2008)

VIGHI, Fabio Zizek’s Dialectics (Continuum, 2010)

Sobre a diferença entre ciência e ideologia em Althusser:

ALTHUSSER, Louis Para leer el Capital disponível em castelhano aqui

-> apresentação do “corte epistemológico” na obra de Marx

__________________”A Querela do Humanismo” – disponível aqui

-> crítica do humanismo

_________________ “Marxismo como teoria finita” – disponível aqui

-> relação entre teoria, ciência e ideologia

_________________ “Lenin and Philosophy” – disponível em inglês aqui

-> teoria das generalidades (relação entre abstração e o concreto)

_________________ “On the Materialist Dialectic” – disponível em inglês aqui

-> definição de teoria

_________________ Freud e Lacan – Marx e Freud (Graal, 2002) – disponível em inglês aqui

ALTHUSSER, L. & BADIOU, Alain Materialismo Histórico e Materialismo Dialético (Global Editora, 1986)

ROCHA, Acilio Estanqueiro Dialética e Ideologia em Althusser – disponível aqui

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-30-04-2013