Nota #2 [03/12/2013]

Badiou quer pensar uma filosofia que não esteja suturada às suas condições, ao contrário, por exemplo, de Heidegger que a suturou com a arte e da filosofia analítica, que a suturou com o raciocínio lógico-formal. A meta-ontologia matemática permitiria à filosofia manter o vazio entre ela mesma e sua condições; somente por essa via ela poderia realizar a tarefa de dar conta conceitualmente do “múltiplo descompassado” de nossa situação (terceira época da ciência, segunda época da doutrina do sujeito e começo da doutrina da verdade).

Nota #4 [26/11/2013]

Foram apresentadas as teses do IV Congresso Nacional do Psol. No entanto, não fui capaz de formar uma ideia clara destas diferentes propostas. A única coisa que ficou clara para mim, tendo sido destacada na apresentação, é que todas elas fazem listas de reivindicações e que diferem quanto ao seu maior ou menor radicalismo e quanto à maior ou menor consistência do projeto apresentado. Aparentemente, as teses 8 e 9 seriam as mais consistentes e melhor elaboradas, embora eu não tenha podido compreender exatamente o que elas propõem e em que diferem.

Nota #4 [19/11/2013]

É preciso entender qual é o procedimento que o sujeito militante realiza, diante da sua tarefa frente à ideologia revolucionária, sem que se desprenda das causas que o mobilizaram no mais íntimo e que o conectam às questões da massa no seu mais fundamental(essência?).
A posição de Paulo em relação ao dilema cristão/pagão versus cristão/judeu pode ser comparada à decisão que cada indivíduo toma frente a um projeto indeterminado de comunismo. No momento em que alguém adere a determinada doutrina de pensamento, para além do procedimento de fidelidade, entramos no meio de uma batalha já sendo travada à gerações. Será para isso necessário se inteirar das questões históricas do fato, teoria do conhecimento e crítica à ideologia? Será essa formação que dotará o indivíduo de competência para avaliar seu papel dentro do movimento e tomar decisões da maneira mais adequada?
Sem entrar no domínio da disputa acadêmica, é necessário tornar acessível a problematização do projeto de governo pelas mais distintas comunidades culturais, respeitando as suas limitações de demanda e repertório (tanto material, quanto conceitual).
Como atestar esse indivíduo de competência para se auto-avaliar e dar prosseguimento a esse trabalho de construção? Sendo necessário ainda ter motivação e repertório para compreender seu papel dentro de um processo histórico e estrutural.
As categorias para pensar esse projeto indeterminado não estão prontas em si, mas se atualizam na medida em que as condições demandam um sentido novo.

Nota #1 [03/12/2013]

Badiou e a filosofia como salvaguarda do vazio da verdade

Badiou não é dos que comungam do diagnóstico pós-moderno do “Deus morreu, a civilização sucumbiu, e eu já não estou me sentindo muito bem…” Se por um lado, na esteira de Heidegger, ele reconhece o declínio da metafísica como discurso de fundamentação avesso ao real do acontecimento, ele não tira a conclusão de que a filosofia deveria “ceder o passo” a outra forma de pensamento, como a arte, mais próxima da revelação do mistério do ser, ou do Ser como mistério. Tampouco a ciência poderia cumprir esse papel da nova filosofia, como requer o logicismo, apesar da contribuição não negligenciável para o pensamento de seus esforços de formalização, de purificação e transmissibilidade da linguagem. Outras tendências importantes do pensamento do século XX, como o marxismo e a psicanálise, que esboçaram uma teoria não cartesiana do sujeito, também não podem se arvorar a filosofias, sendo na verdade anti-filosofias, mas trazem contribuições importantes.

Se por um lado Badiou acolhe algum aspecto dessas 3 tendências maiores do pensamento contemporâneo – de Heidegger, a noção de acontecimento; dos lógicos, a elaboração da linguagem; dos teóricos do sujeito uma teoria do ato revolucionário – por outro ele rejeita qualquer forma de sutura entre a dimensão do saber e a da verdade, no que icnorre Heidegger, com a sutura artística, os lógicos, com a sutura científica, Marx e a psicanálise com as suturas política e amorosa. Tal disjunção deriva da relação essencial entre ser e acontecimento, a ser resguardada pelo pensamento. Pois não cabe à filosofia elevar algum procedimento genérico – arte, ciência, política, amor – à condição de solo transcendental da experiência. O papel da filosofia, segundo Badiou, consiste em manter aberto o lugar vazio da verdade, de forma manter o pensamento disponível à dimensão do evento. E a ontologia que melhor corresponde a esse intuito é aquela que se determina pela prática das matemáticas.

Para mim, falta esclarecer um pouco as relações entre filosofia e ontologia, e explicar por que o recurso à matemática não indica uma queda implícita do pensamento na sutura científica.

Nota #3 [26/11/2013]

Depois da apresentação das teses que foram (escrevo esta nota tardiamente) apresentadas no Congresso do PSOL em Brasília, surgem duas perguntas que, a meu ver, são importantíssimas para nós do CEII – longe de serem meras perguntas retóricas, pois [também] preciso saná-las:

1)      Em que medida a teoria da prática social que o CEII se propõe ininterruptamente a pensar é verdadeiramente importante ao PSOL? (ler importante com olhos não-utilitários.)

2)      Em que medida a prática da teoria social que o PSOL desenvolve como um partido político orgânico é verdadeiramente importante, a ponto de nortear muitas de nossas ações, ao CEII? (ler importante com olhos extremamente utilitários.)

Está bem claro que o CEII é “condicionado” pelo PSOL, mas pela minha ambição de reciprocidade, surge uma questão: como fazer com que o PSOL seja “condicionado” pelo CEII? A resposta, me parece, pode cair para lados extremamente pragmáticos – não que isso seja ruim. Aí precisaríamos confirmar nosso desejo de, em 2014, estarmos mais próximos do “cotidiano” do PSOL – a excursão à Itaocara, ao Amapá, o estudo do Estatuto, um convívio maior com movimentos sociais, etc.

Enfim, que provoquemos uma dependência do PSOL a nós.

Nota #7 06/08/2013

O sujeito suposto acreditar é a mesma coisa que a admissão da crença alheia? Se for, apenas por dizermos que o fulano x tem crença y, estaremos praticando o tal do sujeito suposto acreditar.

O segredo para entender o sujeito suposto acreditar não seria o arcabouço simbólico desse processo? Não é apenas admitir que o Outro supostamente creia, mas admitir nesse processo que a crença sustenta, não só o Outro, como a lei.

Nota #2 [26/11/2013]

43. Da ideia de tese. É plenamente compreensível que quase todas as teses do último congresso do Psol façam menção às manifestações que ocorreram no Brasil de junho a outubro deste ano, sobretudo às que aconteceram em junho e julho. Mas é também compreensível que uma tese escrita em abril não sofra grandes modificações mesmo depois dos acontecimentos desses meses.
Como esta última afirmação pode ser mais polêmica (ao menos dentro dos círculos de esquerda), começarei por ela. A primeira razão que a sustenta é simples, e foi mencionada pelo Mais-Um na reunião, se não entendi mal: em se tratando de um projeto de longo prazo, este está mais ou menos imune a mudanças conjunturais. Depende das mudanças conjunturais, alguém poderia objetar. A isso que se poder-se-ia responder que, de fato, se uma tese deve ter o poder de dar consistência e cara a todas as ações de uma organização política por um tempo mais ou menos longo, então ela precisa ter uma avaliação da conjuntura perspicaz o suficiente para saber qual precisa ser o sentido para onde dirigir a referida organização por esse tempo. Suposto está, pois, que a avaliação da conjuntura suponha ou, antes, ponha um determinado horizonte de possibilidades de ações futuras, baseando-se na avaliação da situação passada e presente. Mais, ainda: poder-se-ia mesmo dizer que, quanto mais arguta a avaliação feita por uma tese, mais imune ela estará a mudanças que não sejam muito radicais e inesperadas, que não sejam, como se costuma dizer, “estruturais”. Tal argúcia, por sua vez, se medirá não tanto pelas constatações sobre a situação, mas sobretudo pela capacidade de propor os passos a seguir. Com efeito, é antes nesse último aspecto que está a prova da verdade de uma interpretação da situação presente e passada: no fato de essa interpretação ter ou não um futuro.
Deixando de lado a questão espinhosa de se a distinção “conjuntura” e “estrutura” (xodós da esquerda) é um par conceitual suficientemente agudo para formular uma interpretação da história, é preciso fazer um adendo e extrair uma conclusão importante no que acabou de ser dito. O adendo: me parece que uma interpretação presente em uma tese que orienta as ações de um partido (que se queira) comunista hoje precisa desejar que sua análise de conjuntura falhe em nome de um evento, ou de um ato, que mude a estrutura da situação e abra possibilidades alternativas ao capitalismo. Nesse sentido, o limite da tese parece ter que ser essa “espera do inesperado”, a preparação, direcionada às margens (esquerdas) do possível, para que sua interpretação pertença ao passado. E isso não porque ela falhou em colher a conjuntura, mas porque ela foi até os limites em que esta “toca” a estrutura e só pode ser refutada pela transformação desta última – para a qual as ações pensadas pela contribuíram ou têm que ter contribuído, sob pena de a interpretação nela contida não merece figurar como passado desse futuro. Tanto quanto posso ver, e em linhas bem gerais, este seria o ideal ou, antes, (um)a ideia de tese.
Este era o adendo; vamos à conclusão. Do que foi dito, se é verdade que uma tese escrita em abril não sofreria mudanças drásticas depois dos eventos de junho-outubro desse ano, então teríamos que concluir que as manifestações não trouxeram no seu bojo nenhuma mudança estrutural. Mas será que não trouxeram mesmo? Eu diria que, no mínimo, não tiveram esse efeito ainda; isso vai depender, me parece, do modo como articularmos as questões que surgiram a partir desses eventos.
Por isso, vale a pena tentar uma análise, ainda que breve, das manifestações, seguida de um elenco das questões, ou de algumas questões, que, até onde posso ver, elas nos colocaram.
47. Entre as jornadas de junho e as lutas de outubro. O estopim das manifestações, ao menos no Rio e em São Paulo, foi o anúncio do aumento das passagens. Em pouco tempo, sobretudo através de eventos convocados via facebook e twiter, se seguiram alguns dias de ruas ocupadas por multidões. Essas mesmas redes sociais (e quiçá outras) serviram aos mais diferentes fins comunicativos antes, durante e depois de cada protesto. De fato, foram úteis não só para discutir e convocar os eventos, mas também para potenciá-los, (re)organizá-los e repercuti-los em tempo real e repensá-los depois de acontecidos, visando a organização dos próximos passos.
Não foram poucas as mídias “fora do eixo” que surgiram nesse processo, e não foi pequena a surpresa de alguns ao constatar que o deslocamento do eixo, em alguns desses casos, servia não à mudança, mas à manutenção do capitalismo. Não só a manutenção, mas quiçá a potencialização do capitalismo: um capitalismo 2.0., em que o trabalho intelectual dos sujeitos é arregimentado 24 horas por dia em coletivos para a produção e agenciamento de eventos culturais em uma rede que cada vez mais se amplia seus fios, aumentando, com isso, seu capital humano, seu campo de extração de mais-valia (econômico-cultural), o que propicia cada vez mais créditos (econômico-culturais) para ganhar editais do governo. Em tais coletivos, aderir a uma nova forma de vida em que a individualidade (por demais capitalista…) se perde e “viver para produzir (‘cultura’)” parecem ser componentes de uma nova ideologia (do capital) disfarçada de novo modo de organização do trabalho e novo modo de viver – um novo que, todavia, parece a muitos se assemelhar a uma reedição, no século XXI, de uma espécie de “servidão voluntária” e que parece se adaptar muito bem, se não mesmo “parasitar” as “brechas” deixadas pelo que seria o eixo dominante e pelo Estado que corresponderia a este.
As manifestações e as novas mídias a ela ligadas tiveram seus efeitos sobre a mídia tradicional, corporativa. Num primeiro momento, a mídia corporativa tentou esvaziar e/ou deslegitimar os protestos, dando-lhes uma cobertura muito limitada e/ou colocando-os sob a rubrica dos problemas de trânsito “causados” pelo grande número de pessoas nas ruas. Num segundo momento, percebendo que as manifestações seguiam crescendo exponencialmente, a mesma mídia mudou o discurso: passou a se dizer favorável aos protestos como parte da “festa da democracia”. Ao mesmo tempo, todavia, colocava em marcha uma segunda estratégia para esvaziá-los do poder de mudança que poderiam ter – tratava-se de por em primeiro plano as bandeiras mais “classe média sofre”, ou mais “coxinha”, degradação do nobre salgado a designação dos que, em geral enrolados em uma bandeira do Brasil, sustentavam insossas “reivindicações” como sobretudo o “Fim da corrupção” (culpa dos políticos, jamais do poder econômico corruptor), mas também “Mais saúde, mais educação, mas menos Estado e menos impostos”. Mais ou menos cientes dessa estratégia de manipulação; ou, ao menos, cientes das críticas standard e de fácil circulação (e nem por isso menos verdadeiras) em aulas de história, sociologia, geografia e filosofia sobre a manipulação e o papel de manutenção da “ordem dominante”, do “sistema” cumpridos seja pela “indústria cultural” em geral, seja pela Globo (e quejandos) em particular, não foram raros os episódios em que a mídia corporativa (especialmente a Globo, claro) “sofreu” escrachos e foi “convidada a se retirar” de mais de um protesto. Algumas vezes chegaram a renunciar ao emblema da empresa nos seus microfones para que os jornalistas pudessem seguir transmitindo in loco; mas, seja pelos rostos, seja pelas posturas de sempre, acabavam reconhecidos. O que passou a predominar então foram as tomadas aéreas, distantes das manifestações – uma metáfora bastante eloquente da “real” relação da mídia corporativa com o potencial de transformação ali presente. Isso não aconteceu, claro, sem que essa mesma mídia reclamasse do cerceamento da “liberdade de expressão”. Em um terceiro momento, por fim, mais ou menos contemporâneo ao segundo, com a eclosão da violência nas manifestações, a mídia corporativa passou a operar a distinção entre “manifestantes pacíficos” e “vândalos”. Tal operação possibilitou que ela, a um tempo, apoiasse as pautas coxinhas e seus representantes nas manifestações, apoiasse a repressão policial e condenasse a resistência e as táticas de enfrentamento de certos grupos de manifestantes (protagonizados pelos chamados Black Blocs), procurando minar as leituras que poderiam ver na violência um potencial transformador, uma arma de crítica aos símbolos do poder econômico e político dominantes ou, ao menos, um meio legítimo de resistência de classe à truculência do poder constituído.
Se, por um lado, a estratégia da mídia corporativa se baseava em anseios de pessoas que estavam efetivamente nas ruas, por outro, parece ter dado um gás ao clima antipolítica e nacionalista que já aparecia nas ruas. O fato é que não foram poucos os episódios de militantes de partido de esquerda ou nem tanto (PSOL, PSTU, PCB, PT, etc.) que tiveram os materiais com seus emblemas rasgados ou chegaram a ser agredidos fisicamente, sobretudo no segundo momento mencionado no parágrafo anterior. Os agressores, por sua vez, iam desde descontentes coxinhas bombados de classe média, que odeia sem distinção tudo que se relaciona a política, até, ao que parece, seguidores mais ou menos “conscientes” de ideologias fascistas, passando por um policiais disfarçados. Com efeito, a violência não se deu apenas entre manifestantes, mas sobretudo da força policial com relação aos manifestantes. Não foram poucos os episódios de truculência, arbitrariedade, desrespeito aos direitos humanos e à democracia – ou, se quisermos, episódios que mostravam claramente o Estado “democrático de direito” (de direita?) como órgão opressor à serviço dos interesses do capital e da apropriação da cidade por esses interesses, em função sobretudo da exploração econômica de grandes eventos (a Copa e as Olimpíadas), lucrativos, dentre outros, para a indústria do turismo e entretenimento e para a especulação imobiliária. Tudo isso com o beneplácito dos governos municipal, estadual e federal (este último, historicamente de esquerda).
Em tais episódios, ficou claro também o caráter classista e racial da repressão estatal: nas manifestações nas áreas “mais nobres” da cidade, a bala de borracha machuca e até cega, mas não mata, e só comparece quando há mobilização popular; na Maré e nas periferias em geral, as balas estão presentes havendo ou não manifestação, e não são de borracha; o alvo preferencial é o preto pobre. Mesmo a repressão trata diferentemente quem ela visa reprimir. Os presos políticos foram quase todos soltos, exceto um morador de rua, detido durante os protestos e acusado de incendiário por portar uma garrafa de detergente – e que acaba de ser condenado a cinco anos de prisão. A coisa fica ainda mais gritante se comparamos esse exemplo ao lado do recente episódio do helicóptero de um oligarca e político mineiro, encontrado portando com 450 de cocaína – contra o qual não há nenhuma prova. Tudo isso com o beneplácito do judiciário responsável pela heroica prisão dos “mensaleiros”, sob os auspícios da condenação prévia da mídia corporativa e seus coxinhas de plantão.
Em todo esse processo, a pauta inicial da revogação do aumento da passagem se ampliou e se diversificou – o que teve efeitos positivos e negativos. Dentre os efeitos positivos, está o fato de que a luta contra o aumento se apresentou imediata e estrategicamente como uma luta pelo transporte público de qualidade, através do lema “Não é só por 20 centavos”. Não foram poucos os analistas que apontaram que este tema e, mais ou menos a reboque dele, o tema da melhora dos serviços públicos em geral (não só transporte, mas saúde, educação, etc.) era um dos motes dos protestos. E o era, segundo muitos desses analistas, porque quem estava nas ruas seria aquela “nova classe média”, ou seus filhos, que, depois de conseguir a inserção no mercado de consumo nos anos do PT (de Lula, sobretudo), agora reivindicavam do governo o acesso a uma cidadania mais plena, através do acesso ao serviços. Ao mesmo tempo, isso apontaria para um esgotamento ou, ao menos, para o limite do modelo conhecido como “lulismo” – isto é, um modelo de distribuição de renda e diminuição da miséria e da desigualdade via geração de emprego e programas de renda mínima, modelo caracterizado pela conciliação de classes, pelo não enfrentamento do capital especulativo e por algum incetivo ao capital industrial, conciliação que, por sua vez, foi feita através de alianças entre espectros a princípio opostos do cenário político, possibilitando a tão desejada “governabilidade”. Se tudo isso é verdade, um dos efeitos mais positivos das manifestações foi o de abrir um horizonte de lutas para uma cidadania mais plena e, quiçá, para mudanças estruturais que seriam o pressuposto desta.
A isso se soma um segundo efeito positivo, intimamente ligado a esse conjunto de pautas ligados à melhora dos serviços públicos e ao consequente exercício pleno da cidadania. Trata-se do problema do uso da cidade. Como David Harvey procura mostrar em um artigo de 2008, foi através da reconfiguração de grandes cidades que o capitalismo se reestruturou depois de graves crises, nas quais ele pode reinvestir o capital excedente e seguir o seu espiral de crescimento (como teria sido o caso de Paris no século XIX e de Nova York a certa altura do séc. XX). Parece que algo análogo pode ser visto em muitas grandes cidades hoje em dia. No Rio, por ex., é claríssima a tentativa de estruturar a cidade segundo os interesses privados em detrimento do uso público que dela podem fazer os cidadãos. Para além da oposição ente público e privado, poder-se-ia inserir nessa discussão, via Negri e Hardt, a questão da produção do comum: tratar-se-ia então de pensar uma gestão dos espaços da cidade que não fosse colocada nas mãos nem da iniciativa privada, nem do poder público (do Estado), mas sim diretamente da comunidade de usuários.
Dentre os efeitos negativos das manifestações, poder-se-ia destacar a emergência de pautas e atitudes fascistas ou, ao menos, marcadamente antidemocráticas, e mesmo de movimentos que já falam abertamente na volta da ditadura. Essas atitudes se confundem um pouco com a atitude mais geral e difusa dos que são “antipolítica” ou, antes, dos que são antipolíticos. Mas mesmo isso que poderia ser apenas um efeito negativo, teve também seu lado positivo: de fato, outro tema que teria surgido nas ruas seria justamente o tema da “crise da representação” (uma crise mais ampla de legitimidade não só da democracia, mas da noção mesma de representação) e, mais especificamente, da forma-partido. Bem entendido: que haja tal crise, não é necessariamente bom nem ruim; mas que essa questão tenha vindo à tona claramente, me parece algo positivo.
Ligada a essa crise da representação, apareceram também alternativas à organização da luta, como as diversas formas de democracia direta, de organização horizontal e de autogestão, potenciados pelos novos meios de comunicação. Estas formas de organização podem ajudar a prover maneiras de articular contemporaneamente múltiplas e diversas pautas, das quais as que mencionamos aqui são uma pequena mostra, posto que seja uma mostra das que mais tiveram peso nos protestos. Quiçá, mesmo o modelo de disciplina experimentado nas casas do “Fora do Eixo” podem servir para pensar novas maneiras de organizar a vida e o trabalho (talvez via uma superidentificação que subverta o seu sentido). Por outro lado, com toda essa “crise de representação”, dona Dilma vai muito bem, obrigado; que o mesmo não ocorra com o Cabral…
Do ponto de vista estratégico, parece que as mobilizações de junho a outubro deste ano mostraram que as pautas simples, diretas, que afetem claramente a classe trabalhadora e possam ter um efeito imediato como “contra o aumento da passagem” têm uma capacidade maior de mobilização do que pautas mais vagas e distantes como “10% do PIB para a educação” – estratégia brilhantemente seguida pelo MPL. A reboque destas, outras pautas coligadas acabam por aparecer. Todavia, não sei se o movimento dos professores do Rio, que fechou as lutas de outubro (cariocas, ao menos), pode ser lido nessa mesma chave: embora a pauta simples e direta dos salários fosse o carro-chefe, acho que entraram aí o prestígio social que a profissão ainda goza de certa maneira na sociedade e o gritante contraste deste com o prestígio econômico da classe, bem como, claro, a maré das jornadas de junho-julho(-agosto). Convém notar que a luta dos professores concentrou quase todos, se não todos os elementos recorrentes nas manifestações: o uso das redes sociais; a cobertura ambígua e tendenciosa por parte da mídia corporativa; a ampliação da pauta de uma luta (fundamental) por melhores salários para uma luta (tão ou mais fundamental) por um outro modelo de educação; a crise entre a representação (sindical, no caso) e a base (não) representada; e, por fim mais não por último, a brutal repressão policial, respaldada “até” pelo supremo, em resposta à qual surgiu a bela aliança entre os professores e adeptos da tática Black Bloc – amalgamada no emblema “Black Prof”.
Para encerrar essa síntese certamente incompleta, gostaria de assinalar que talvez um dos limites das manifestações seja o fato de que elas parecem se dirigir sobretudo ao Estado e ao governo constituído para ter suas demandas atendidas. Nesse movimento, novas organizações e articulações ou, ao menos, novas possibilidades de organização e articulação das lutas parecem ter surgido, a partir das quais talvez se possa pensar seja um projeto alternativo de governo, seja (por que não?) a constituição de outros, inéditos espaços para a política, para a decisão do futuro de cada comunidade.
53. … .Assim, se quiséssemos elencar, a partir dessa análise sintética, os temas que emergiram claramente para discussão entre as jornadas de junho e as lutas de outubro, teríamos pelo menos os seguintes: (i) a internet e as novas possibilidades de organização da luta; (ii) democratização da mídia; (iii) aproximação aos problemas cotidianos da classe trabalhadora e aos movimentos sociais; (iv) a crise da representação e da forma-partido e a possibilidade de outra formas de organização da luta (horizontalidade, democracia direta, autogestão); (v) o lugar da violência e seu potencial nas lutas; (vi) as demandas ao poder constituído e a constituição de possibilidades de produção do comum; (vii) a composição da(s) multidão(ões) que ocupou(aram) as ruas e seus anseios.

Nota #1 [26/11/2013]

Considerando as posições de Badiou sobre o tema da “militância”, através do exemplo de Paulo, penso que é um desafio exigir e manter hoje uma prática militante na medida em que esta só nos aparece [se justifica] como “realização de nós mesmos”, como modo de restituir “aquilo que nos foi arrancado” etc. As lutas identitárias, se entendo, parece ser um modo de preservar certa propriedade que os que lutam nelas consideram importantes e que são, ao mesmo tempo, atacado pela atual ordem das coisas . Igualmente, por outro lado, toda organização política tende a enfrentar o dilema de que todos os que a compõe procuram fazer delas reflexo universal de suas qualidades particulares.

Do que acompanho do debate badiouiano sobre Paulo, me parece haver o oposto de certa maneira: Paulo, este homem, ao engajar-se na verdade que afirma diluí-se nela; se constitui como Sujeito sem relacionar-se com ela individualmente – não procura acrescer ao evento qualquer traço particular para justificar sua fidelidade nem procura colonizá-lo de modo a torná-lo sua própria feição. Simplesmente o declara e, por isso, a ele é fiel.

Pensando em organizações políticas hoje a lição paulina a ser extraída é complexa, claro. Exige, talvez, mediações. Mas, ao mesmo tempo, urgente.