Nota #8 [11/03/2014] (RJ-I)

Badiou fala de uma “diagonal” traçada pelo discurso apostólico, rompendo com a dicotomia dos discursos profético e da sabedoria – uma operação que o filósofo distingue da operação de síntese:

“Que o discurso deva ser o do Filho quer dizer que ele não precisa ser nem judeo-cristão (dominação profética) nem grego-cristão (dominação filosófica), nem tampouco uma síntese dos dois. Opor uma diagonal dos discursos a uma síntese dos dois [judeu e grego] é uma preocupação constante de Paulo”

Mas qual é a ideia de uma “diagonal?”

Partindo da decisão metaontológica de Badiou de tratar as matemáticas como o discurso do ser enquanto ser, poderíamos dizer que foi Cantor quem pensou a forma pura da Ideia da operação diagonal.

O “método da diagonal”, também chamado de “argumento diagonalizante” apareceu pela primeira vez em um trabalho de Georg Cantor em 1892 (com o convidativo título de “Ueber eine elementare Frage der Mannigfaltigkeitslehre”), como uma estratégia que possibilitou a prova matemática de que existem conjuntos infinitos de grandezas diferentes (diferentes cardinalidades). Em seu artigo, Cantor demonstrou que o conjunto infinito de todos os números reais (R) não pode ser colocado em uma correspondência um-a-um com o conjunto dos números  naturais (N), uma demonstração que fundou a diferença entre infinitos contáveis (que correspondem ao conjunto N) e incontáveis.

A prova de Cantor, esquematicamente, segue a seguinte estratégia:

1. Cardinalidade 

Cantor define como equi-cardinais conjuntos que podem ser colocados em uma correspondência um-a-um. Conjuntos finitos, como:

Captura de Tela 2014-03-25 às 15.03.47

 

Onde, apesar dos elementos serem diferentes (diferentes números) o número de elementos é o mesmo.

Mas essa regra da correspondência também vale para conjuntos infinitos – e, na verdade, é parte da própria definição de infinitude proposta por Richard Dedekind, amigo de Cantor, alguns anos antes, quando esse definiu o conjunto infinito como aquele conjunto que tem uma relação de correspondência com uma parte de si mesmo. Parece estranho, mas é perfeitamente possível, no caso de um conjunto infinito. Por exemplo, o conjunto de todos os números naturais pode ser colocado em correspondência com uma parte sua, como o sub-conjunto de números naturais pares:

Captura de Tela 2014-03-25 às 15.07.09 O conjunto infinito N e o conjunto infinito N-pares tem a mesma cardinalidade, e são ambos contáveis (o infinito contável, ou enumerável, é o infinito de menor cardinalidade).

2. Diferença de cardinalidade

A questão se colocava então, de se todos os conjuntos infinitos poderiam ser tratados como equi-cardinais. Antes de mais nada, para relembrar: o conjunto R inclui: os números inteiros (…-2, -1, 0, 1, 2…), os números racionais (frações de números inteiros) e os números irracionais (como “pi”, raiz de 2, e todos os números com casas decimais infinitas, isso é, números que não podemos dizer se são pares ou ímpares!). Cantor formulou então sua investigação da seguinte maneira: tomou o conjunto N e um pedaço infinito do conjunto R, o sub-conjunto infinito de números reais entre 0 e 1.E prosseguiu através de uma prova por contradição. Como se tratava de provar que N e R não tinham o mesmo tamanho, ele assumiu que, por definição, teriam sim o mesmo tamanho, e viu se dessa assunção saia uma contradição.

Suponhamos então que o intervalo real [0,1] é enumerável (contável). Isso significa que seríamos capazes de fazer corresponder, para cada número “r” entre [0,1] um número natural (1, 2, 3, 4…).

Captura de Tela 2014-03-25 às 15.48.55

Agora, cada número “r” desse intervalo só pode ser representado através de um número infinito de casas decimais. Intuitivamente, isso já nos impediria de continuar a prova, já que é quase impossível saber como ordená-los – qual número “r” vem antes de qual, se não podemos ver seu último digito para saber sua posição? Na verdade, para a prova de Cantor a ideia de que todos os números estão em ordem não é exatamente essencial (afinal, está querendo averiguar a quantidade de números, não se estão em ordem). Mas nada nos impede de deixar os números específicos de lado e seguir em frente apenas com a estrutura de quaisquer que sejam esses números. Assim, ao invés de escrever uma sequência de dígitos específicos, vamos escrever o primeiro número “r” da seguinte maneira:

 0, d11, d21, d31, d41, .. dn1 

ou seja: o primeiro “r” é um número entre 0 e 1, portanto começa com “0,  ” e depois se seguem infinitos dígitos, tal que o primeiro dígito é o primeiro dígito do primeiro número “d11”, o segundo é o segundo da primeira linha “d21” e por aí vai. O segundo número “r” vai ser, então:

 0, d12, d22, d32, d42… dn2

E assim podemos fazer uma lista ordenada (ainda que não saibamos qual são os números que iriam em cada linha da correspondência):

Captura de Tela 2014-03-25 às 15.38.37

Vem então a estratégia do método diagonal.

Cantor se pergunta então: se eu construir um novo número “r”, entre [0,1], usando como critério de construção desse número as partes (dígitos) dos demais números, encontrarei esse número dentro da minha lista infinita de correspondências ou ele será um número novo?

Através da diagonalização, Cantor diz: não sei qual é o número que construirei, mas ele seguirá uma regra imanente aos demais, isso é, tomara os demais números como contribuições parciais à informação do que é o número que ele quer construir. Assim, Cantor define que irá construir um número “r” através da seguinte regra: irá percorrer a lista infinita investigando os dígitos “dnl” (dígitos onde seu lugar na casa decimal (n) e na linha (l) coincidem, tipo “d22” ou “d44”, dígito quatro, linha quatro), e prescreverá que o dígito “dxn” (digíto de casa decimal n mas de linha desconhecida “x”, pois não sabemos onde ele irá na lista), será sempre o dígito “dnn” menos um. Um exemplo:

Se o primeiro número “r” começa com: 0, d11 (ou seja, dnn), d21, d31…

Então o nosso novo número começará com 0, [d11 -1]

Se o número “r” fosse 0, 34556… o nosso novo número começaria com 0, 2

Podemos generalizar esse procedimento, que teria de ser estendido a toda a lista:

Captura de Tela 2014-03-25 às 15.40.32Ora, o nosso número novo (número “n”) é um número real (tem casas decimais infinitas), dentro do intervalo [0,1]. No entanto, por causa de como escolhemos os seus dígitos, ele não pertence a lista infinita a partir da qual o construímos!

É surpreendente, mas é só fazer o teste: imagine que ele estivesse na lista anteriormente – ou seja, que houvesse um número “r” lá no meio da lista que tivesse exatamente as casas decimais de nosso número “n” – ora, se assim fosse, quando escolhemos o dígito “dnn” desse número “r”, nos teríamos alterado ele para “dnn-1” quando construímos ‘n”!

Se “n” é um número real entre [0,1] e, ao mesmo tempo, não está na lista infinita que construímos, então chegamos numa contradição. E se a nossa assunção original – de que N e R tinham a mesma cardinalidade – levou-nos a uma contradição, então ela está errada!

 

Nota #5 [18/03/2014] (RJ-I)

Que fazer com o comunista liberal?

“Não devemos ter ilusões: os comunistas liberais são hoje o inimigo com que se defronta qualquer luta progressista. Todos os outros inimigos – fundamentalistas religiosos e terroristas, burocracias de Estado ineficazes e corruptas – são figuras particulares cuja ascensão e queda dependem de circunstâncias locais contingentes. Precisamente pelo fato de pretenderem resolver todos os aspectos disfuncionais secundários do sistema global, os comunistas liberais são a encarnação direta do que está errado no sistema enquanto tal. Teremos de o ter presente no meio das várias alianças táticas ou compromissos que formos levados a fazer com os comunistas liberais, enquanto combatemos o racismo, o sexismo e o obscurantismo religioso.

Que devemos, então, fazer com o nosso comunista liberal, que é sem dúvida um homem bom e está deveras preocupado com a pobreza e a violência no mundo e se pode permitir essas preocupações? Que fazer, com efeito, com um homem que não pode ser comprado pelos interesses das grandes companhias porque é seu co-proprietário, que sabe o que diz sobre a luta contra a pobreza porque lucra com ela, que exprime honestamente a sua opinião porque é tão poderoso que pode fazê-lo, que é intrépido e prudente promovendo inexoravelmente as suas iniciativas sem ter em conta os seus interesses pessoais porque todas as suas necessidades se encontram satisfeitas, e que, além disso, é um bom amigo, sobretudo dos seus colegas de Davos?”. (ZIZEK, 2008, p.40)

Ignoro ainda o conteúdo da obra de Lenin Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. Todavia é certo que a sua interrogação refere-se à questão eminentemente prática sobre como se organizar politicamente, sem prescindir, contudo, da teoria. Na verdade, e parece que esse seria o seu gênio, Lenin teria abalado a dicotomia teoria/prática. Se, por um lado, é um equívoco aceitar sem mais que ele é um revolucionário do primado da teoria sobre a prática (por defender uma vanguarda intelectual), por outro, é um “forçamento” querer sustentar que Lenin seria o revolucionário do primado da prática sobre a teoria (por levantar a questão prática a respeito da organização).

A relação entre teoria e prática é tão fundamental que é difícil, se não impossível, abordá-la diretamente. Essa relação parece ter o mesmo estatuto das representações inconscientes. Não basta querer e focar para apreendê-la. Dessa maneira ela simplesmente escapa ou se deforma. Acontece o mesmo com as representações inconscientes: ou entramos no mesmo circuito do mito de Sísifo no qual Aquiles jamais alcança a tartaruga, ou a representação inconsciente pode até passar à consciência, mas o resultado disso é o que Freud chama de “duplo registro”, a representação fica registrada no inconsciente e no consciente, mas sua carga afetiva permanece inconsciente. O que adianta ter consciência de uma representação se ela não vem acompanhada de seu afeto? O que fazer?

Retomemos, então, o nosso fio: “Que fazer?”. Questão prática e teórica que atravessa tanto o marxismo quanto a psicanálise. Se na política ela se refere à organização coletiva, na psicanálise, ela diz respeito principalmente à questão clínica formulada mais acima, a qual não está apartada da forma pela qual a Psicanálise se organiza coletivamente – daí a imensa preocupação de Freud com a transmissão da sua descoberta nos meios científicos e médicos, a insistência de Lacan em falar sobre a dificuldade inerente da transmissão da psicanálise entre os próprios psicanalistas, bem como os imbróglios que podemos testemunhar com a constituição, as rivalidades e os revisionismos das escolas de psicanálise.

Ao desenhar a figura do “comunista liberal”, Zizek diz que uma das tarefas da renovação do comunismo é se perguntar “que devemos fazer com o nosso comunista liberal?”.

De acordo com esquema proposto por GT sobre os axiomas e impasse da política emancipatória, a atuação (acting-out) e a sua repetição sob a forma da violência simbólica e da “descrença” nas organizações reside na disjunção entre as problemáticas da direção das massas (Lenin) e a da confiança nas massas (Mao), certo? Tal disjunção ocorre porque 1) no que diz respeito à direção das massas, há resistência daqueles mesmos que querem intervir em se confrontar com os pontos reais de intervenção inerentes à massa e 2) no que concerne à confiança nas massas, há uma surdez dos mesmos com relação aquilo que a massa diz, mas não explicitamente. Resultado: Falta confiança na direção, e direção na confiança. No lugar de confiar na direção, há resistência, e ao invés de dirigir a escuta, há surdez. O que fica? 1) Identificação direta com as demandas explícitas das massas, que se aproxima da relação psicótica com as palavras, tomando as palavras como coisas e 2) Descrença generalizada a respeito de qualquer organização e instituição, que se aproxima também da posição psicótica frente ao Outro, o psicótico recusa o Outro mas este último retorna no real.

Tendo em vista as características de nós(so) comunistas liberais e o esquema reproduzido acima, quem  é que cai na armadilha da resistência e da surdez?

Tendo em mente a apresentação de nosso camarada GT sobre a organização do Partido Forte em Kosovo, a atitude “honestamente cínica” desse partido não interviria no nosso comunista liberal (que pertente e está em todos nós)? A atitude do Partido Forte não seguiria a crítica ideológica proposta por Zizek, o acheronta movebo, “não mudar diretamente o texto explícito da lei, mas, antes, intervir sobre o seu suplemento virtual obsceno”? (Zizek, 2009, p.149). Trata-se de ousar perturbar os suportes subterrâneos e não-ditos da nossa vida cotidiana! (Zizek, 2009, p.147).

 

Bibliografia:

ZIZEK, S. Violência: seis notas à margem. Lisboa: Relógio d’Água editores, 2009.

CEII. Referências 18/03/2014. In.: http://ideiaeideologia.com/category/referencias/

Nota #4 [18/03/2014] (RJ-I)

Neste encontro, duas questões particularmente me interessaram. Uma dizia respeito às jornadas de junho e ao fato de que, em última análise, as demandas da classe média ali presente foram antes demandas suscitadas pela perspectiva da perda de sua distinção de classe frente às classes pauperizadas.

O outro ponto discutido versou sobre o Partido Forte, do Kosovo, que busca aplicar o conceito de “sobre-identificação” de Zizek em sua prática política. Pareceu-me interessante a utilização deste conceito para orientar a estratégia eleitoral, mas pareceu-me inconsistente como viabilizador de uma organização comunista da sociedade.

Nota #3 [18/03/2014] (RJ-I)

61. Rio, Paris, Londres: identidades e diferenças. Um dos pontos controversos presentes na ótima apresentação do Parta e Fortë (Partido Forte do Kosovo) feita pelo nosso Mais-Um na última reunião me parece ser em pensar os movimentos reivindicatórios do Brasil como repetição dos da da França (2004-2005) e da Inglaterra (2011). Embora me pareça uma hipótese bastante frutífera, ela o é não só na medida em que dá conta do que ela pretende pensar, mas na medida em que deixa furos em relação a isso, permitindo destacar as diferenças entre o evento brasileiro e os outros dois.

Uma dessas diferenças é o fato de que na Inglaterra e na França as revoltas estariam, ao menos em parte, ligadas ao desmonte do Estado de Bem-Estar Social, enquanto no Brasil sequer temos um Estado de Bem-Estar Social para desmontar. Mesmo que o movimento na França, por ex., tenha tido forte participação de imigrantes que, em princípio, não viveriam esse tido de estado em seus países de origem, a razão principal de sua ida para a França é em geral justamente a existência de um tal estado. Nesse sentido, talvez não seja forçar tanto a barra dizer que aí os movimentos tinham um caráter “conservador” ou, no mínimo, “dilatador” de direitos já existentes.

(Diga-se de passagem que se é verdade que os protagonistas desses movimentos na França são imigrantes (o que parece “facilitar” a narrativa fascista clássica do inimigo externo que se infiltra na sociedade e a corrói), os nossos excluídos fazem parte (formalmente) do que se reconhece desde há muito como “Brasil”. Por isso, o nosso fascismo tende a estabelecer um corte intranacional de caráter interclassista, inter-racial e não raro inter-regional: o nosso judeu é o favelado, o negro, o nordestino.)

Bem entendido, isso não quer dizer que não tenham potencial revolucionário: de fato, em uma situação em que se tem uma refeição por dia quando dever-se-ia ter três, e querem tirar essa uma, lutar para (no mínimo) mantê-la é já um germe de mudança, na medida (ao menos) em que sinaliza a não aceitação de qualquer imposição da situação, do “explorador”. Para quem não tem nada, a metade é o dobro.

Dessa maneira, as manifestações que tomaram conta do Brasil em meados do ano passado não visam conservar, garantir e/ou estender direitos materialmente já existentes em nossa sociedade, mas dar base material a direitos apenas formalmente existentes. Mais, ainda: se considerarmos que o modelo de Estado de Bem-Estar Social está ligado à (reação capitalista à) existência do socialismo real ou ao contexto da Guerra Fria, então o Brasil não só não tem esse modelo como sequer poderá construí-lo. Há que inventar algo novo, próprio. Não obstante, o que vemos hoje parece ser uma reedição não do Estado de Bem-Estar Social, mas de um neodesenvolvimentismo pai dos pobres, mas ainda mãe dos ricos.

Isso não me parece invalidar o argumento apresentado pelo Mais-Um na última reunião, mas está ligado a uma consequência que pode, pelo menos, relativizar esse argumento. Para ficar no horizonte proposto por este, na Inglaterra e na França, a demanda parece ser ou bem pela manutenção de um reconhecimento social já existente da parte do Estado ou bem pela extensão desse reconhecimento aos que não o tem (ainda). Aqui, a emergência de uma classe (como se queira chamá-la) ao mundo do consumo – e o reconhecimento social advindo disso – não vem acompanhada por uma melhora nos serviços públicos.

Ora, a medida em que os movimentos requisitam uma melhora nesses serviços, eles se afastam da “classe média ‘tradicional’”, cujo objetivo (no Brasil) não parece ser o de que o Estado proveja saúde, educação, etc., mas que este não oponha obstáculos a que esta os busque privadamente. E na medida em que é a “nova classe média” que (também) esta nas ruas e que a melhora dos serviços públicos é algo que claramente vai ao encontro das necessidades dos mais pobres (a diminuição drástica ou, antes, a tarifa zero seria um exemplo eloquente disso), a classe média que foi às ruas (num primeiro momento, ao menos) estaria mais próxima destes do que da classe média “tradicional”.

A cisão nas manifestações brasileiras teria que ser localizada então no interior mesmo das classes com o mesmo poder de consumo, mas cuja construção de poder se diferencia entre os que são o que são a despeito do Estado e os que vieram a ser o que são por interferência explícita e reconhecida do Estado. Estes últimos, ou muitos deles, ou ao menos o que a existência deles permitiu fazer surgir (quiçá em outras classes, e mesmo no seio da classe média tradicional), pelo modo como demandam o Estado (a ampliação de direitos, a melhora dos serviços públicos) – e o fazem talvez justo poque o contaram com o próprio Estado para estarem onde estão, por mais mínimo que seja essa “ajuda” – tendem a ser mais próximos aos “de baixo” do que a classe média tradicional.

Resta à esquerda produzir um emblema que invista nessa aproximação. Mas não só: que saiba lidar também com as demandas por um comum não-estatal e não-representativo que a partir das jornadas de junho começou a circular (mais claramente) no seio das lutas.

 

Nota #1 [26/02/2014] (SP)

Em seu texto “Como Marx Inventou o Sintoma”, Zizek, aparentemente, pretende apontar uma raiz comum entre os pensamentos de Marx, em sua análise da mercadoria, e Freud, nas análises dos sonhos. Segundo o Autor Esloveno, o método dos dois autores consiste em “evitar o fascínio propriamente fetichista do “conteúdo” supostamente oculto por trás da forma: o “segredo” a ser revelado pela análise não é o conteúdo oculto pela forma (a forma da mercadoria, a forma do sonho), mas, ao contrário, o segredo dessa própria forma” (Zizek, ANO, p. 297).

Nas primeiras páginas do texto, as quais foram lidas em conjunto no último encontro do Círculo, Zizek se atenta mais ao método Freudiano. Aponta que mesmo Freud postulando que no sonho o “desejo articulado é, supostamente – pelo menos de mo geral – inconsciente e, ao mesmo tempo, de natureza sexual” (Zizek, ANO, p. 298), ele mesmo dá exemplos que o contradizem.

Sobre o caráter inconsciente presente no sonho, geralmente vinculado ao pensamento latente, Zizek, baseado em Freud, afirma que “não há nada de “inconsciente” no “pensamento latente”” (Zizek, ANO, p. 298) e que este muitas vezes é conhecido pelo sujeito e o assola diariamente, dessa forma, se encontra no sistema consciente/pré-consciente. Ou seja, o “segredo” do sonho (que pode ser entendido como sendo o desejo inconsciente) não se articula no seu conteúdo, mas sim na sua forma.

A este respeito, Zizek afirma que: “a constituição essencial do sonho, portanto, não é seu “pensamento latente”, mas sim esse trabalho (os mecanismos de deslocamento e condensação, a figuração dos conteúdos de palavras ou sílabas) que lhe confere a forma de um sonho” (ANO, p. 298).

Portanto, as análises que buscam, por meio do texto manifesto do sonho, o que há de oculto nos pensamento latente estão fadadas ao fracasso. Como já dito o desejo inconsciente presente em um sonho não se encontra velado pelos pensamentos latentes, mas “intercala-se no interstício entre pensamento latente e texto manifesto” (Zizek, ANO, p. 299). Dessa forma a análise de um sonho não pode se resumir na tentativa de desvelar o pensamento latente, mas se perguntar por que o aquele pensamento, enquanto sonho, tomou a forma que tomou, uma vez que: “a verdadeira matéria do sonho (o desejo inconsciente) articula-se no seu trabalho do sonho, na elaboração de seu “conteúdo latente” (Zizek, ANO, p. 299).

Nota #2 [14/03/2014] (RJ II)

No interior das quatro condições de verdade (ou quatro processos) – amor, arte, ciência e política -, como descritas por Badiou, me parece haver duas relações de conflito: arte x ciência e amor x política.
Arte x Ciência
O conflito aqui se estabelece a partir do confronto entre poema e matema: o poema não exige clareza ou comunicabilidade, enquanto o matema é o desejo de clareza e comunicabilidade. De um lado, temos a completa des-menção das coisas (no poema, eu digo sem de fato dizer: obscureço aquilo que digo, não por má-fé, mas pela própria constituição do poema); do outro, temos a completa menção das coisas (no matema, eu digo dizendo: argumento e cifrando o mundo (paradigma matemático). O poema é a metáfora. O matema é a clareza.
Amor x Política
Aqui eu ainda peno para pensar o conflito. Caminho a passos lentos. Mas penso que o amor, como uma declaração de paixão e afeto entre dois, tem uma relação conflituosa com a política, justamente porque esta é uma declaração de revolta e emancipação entre todos. Enquanto que o amor inclui o ato de dizer “eu amo você”, com isso afirmando uma relação entre duas pessoas, a política é justamente aquele ato de dizer “eu estou por todos”.
A pergunta fica: há esse conflito ou eu estou viajando?

Nota #1 [21/03/2014] (RJ II)

O Evento, para Badiou, produz um instante de (re)valoração dos elementos agrupados pela (e na) Situação. Esta Situação – o Estado de Situação – é o lugar de onde se faz a distinção dos elementos de um “conjunto”, a ponto de “desconsiderar” (aqui, falta um termo correto) o vazio. A importância do Evento é a rememoração do vazio, tornando tudo, de fato, possível.

Nota #2 [18/03/2014] (RJ I)

DISCURSO DO MILITANTE/APÓSTOLO parte 2

 

Para Paulo o discurso do Filho, sendo novo, nos intima desconfiar das formas de dominação como a profética (judaica) e a filosófica (grega). Enquanto Pedro privilegiava os judeus e sua tradição e João o logos grego, a preocupação de Paulo foi a de traçar uma diagonal a esses discursos, o que não quer dizer uma síntese. surge daí uma terceira figura, que opõe-se à dominação em geral, e constitui propriamente o discurso apostólico.

 

Um apóstolo não é um testemunho empírico de um fato, que ele reteria na lembrança. Paulo, por exemplo, não conheceu Cristo, mas isso não importa. Afinal, a memória é sempre retroativa e seletiva, justifica tudo e portanto não resolve nada. Para um apóstolo, muito mais importante do que os fatos históricos é a declaração feito em seu nome de que o que aconteceu aconteceu, em vista das possibilidades atuais de uma situação.

 

Para Badiou “ao contrário do fato, o acontecimento somente é mensurável de acordo com a multiplicidade universal da qual ele prescreve a posssibilidade. É nesse sentido que ele é graça, e não história.”

 

O apóstolo é aquele que nomeia o acontecimento como possibilidade, mantendo-se fiel a ele. No caso de Paulo, a boa nova trazida pela ressurreição é a de que nós podemos vencer a morte. Mas essa Verdade não é da ordem de um saber, e sim de “um ponto real que coloca a língua num impasse.” Para as linguagens estabelecidas (como a filosófica e a profética), esse acontecimento é inominável.

 

 

Pergunta: por que a diagonal não é uma síntese? em que ela consiste, mais precisamente? qual sua relação com o vazio inerente a cada conjunto (judeu, grego)?

Referência 21/03/2014 (RJ-II)

QUADROS.002 QUADROS.001QUADROS.003

 

Sobre o aparecer:

BADIOU, A. Second Manifesto for Philosophy – disponível aqui

_________ ‘Lógica do Sítio’ em Logicas dos Mundos – – disponível aqui

Sobre a situação e o estado da situação:

BADIOU, A. Ser e Evento (Jorge Zahar)

Sobre o vazio:

AGUIAR, M Introdução à teoria dos conjuntosdisponível aqui

BADIOU, A. Ser e Evento (Jorge Zahar)

CONIGLIO, M. Teoria Axiomática dos Conjuntos: Uma introduçãodisponível aqui

FAJARDO, R. Teoria dos conjuntosdisponível aqui

Sobre a Ideia e o Ideal:

BADIOU, A. A República de Platão

FREUD, S. Psicologia das Massas e Análise do Eu

– fragmento de ambos, disponível aqui

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-21032014-rj-i