Nota #10 [14/01/2014] (RJ I)

[Nota atrasada referente ao encontro em que se discutiu, pela segunda vez, o Programa do PSOL (em 14.01.14), elaborada a partir das interrogações feitas na última reunião (de 15.04.14) onde se discutiu o Projeto do CEII]

Luta, fracasso, nova luta, novo fracasso, mais uma vez nova luta, até a vitória

                                                                                                                           Mao

O que é ser comunista hoje? Tivemos, por exemplo, a Comuna de Paris em 1871, primeiro governo operário da história, inspirado na Primeira Internacional dos trabalhadores, mas que só durou quarenta dias, em parte, por causa das forças contrarevolucionárias; a grande revolução de 1917, que derrubou a autocracia russa e levou ao poder o partido bolchevique, de Lênin, mas cuja organização do que veio a ser o primeiro país socialista do mundo (a URSS), com Stalin, resultou no que ficamos conhecendo como stalinismo; a Revolução Cultural na China iniciada com Mao em 1966 e declarada como terminada pelo mesmo em 1969, mas que prosseguiu e só terminou efetivamente em 1976 com a morte do grande líder. Será que hoje não seriam  mais possíveis práticas militantes orientadas pela ideia de comunismo?

O diagnóstico do nosso mundo atual, assumido tanto pela direita liberal, quanto pelos próprios “esquerdistas” é de que o comunismo fracassou totalmente. Desde meados dos anos 1970, com o que se chamou o “refluxo da ‘década vermelha’” – marcada pelas lutas de libertação nacional no Vietnã e na palestina; o movimento mundial da juventude estudantil; as revoltas de fábrica na França e na Itália e a Revolução Cultural na China – a política reduziu-se a uma assunção irrestrita da ordem capital-parlamentar, baseada na convicção de que “querer mais é querer pior”. (BADIOU, 2012, p.7)

Os argumentos dados hoje pelos “novos filósofos” (ex-comunistas e liberais) para justificar esse conformismo político coincidem, no entanto, com os argumentos do anticomunismo norte-americano dos anos 1950: a) os regimes socialistas são despotismos infames, ditaduras sanguinárias; b) dentro da ordem do Estado, devemos opor a esse “totalitarismo” socialista a democracia representativa, que é imperfeita, sem dúvida, mas de longe é a forma menos ruim de poder; c) dentro da ordem moral, filosoficamente a mais importante, devemos pregar os valores do “mundo livre”, cujo centro e fiador são os Estados Unidos; d) a ideia comunista é uma utopia criminosa, que, tendo fracassado em todo o mundo, deve ceder o lugar para uma cultura dos “direitos humanos” que combine o culto da liberdade (inclusive, e em primeiro lugar, a liberdade de empreender, possuir e enriquecer, fiadora material de todas as outras) e uma representação vitimária do Bem. (BADIOU, 2012, p.7)

Se, atualmente, não existe mais nenhum Estado poderoso que reinvindique para si o comunismo ou mesmo o socialismo, isso não significa, entretanto, o fim de artifícios retóricos voltados contra qualquer posição que supostamente encarne o que seria a essência do comunismo, o totalitarismo. Nesse movimento anti-totalitarismo temos, por exemplo, a atual “guerra contra o terrorismo”. Esta é erigida pelos EUA contra todos os regimes ditos fundamentalistas e anti-democráticos, bem como pela França em sua “cruzada anti-islamita” em nome de um Estado laico e democrático. Não podemos esquecer a recente manipulação da mídia aqui no Brasil contra os manifestantes que, desde a Jornada de junho de 2013, vão às ruas e são rotulados como terroristas. Quando as manifestações e as reivindicações preservam o status quo e perseveram no ser, de animal mortal, são consideradas “pacíficas”; mas, quando elas tomam um rumo que ameaça o status quo e, ao invés de perseverar no animal mortal, abrem a via para que este torne-se um sujeito imortal, trata-se de vandalismo e terrorismo.

A atual luta anti-totalitarismo está baseada, assim, na “amálgama de Hitler com Stalin e Bin Laden”. A nossa democracia liberal parlamentar promove-se às custas de uma “fantasia” totalitária. E desde a crise financeira do capitalismo em 2009, quando este teve de moderar a sua pretensão “democrática” com as seguintes medidas: a) muros e arames farpados antiestrangeiros, b) mídia corrompida e subjugada, c) prisões superlotadas e d) leis perversas, a máquina ideológica da liberdade e dos direitos humanos passou a se sustentar com menos ainda, num simples enunciado negativo: “os socialismos, únicas formas concretas da ideia comunista, fracassaram totalmente”. (Badiou, 2012, p.8)

Este suposto fracasso absoluto é o que nos deixa sem escolha: devemos aceitar integralmente a democracia liberal parlamentar. É por isso que hoje aceitamos, conformados, as seguintes medidas do capitalismo de Estado: a) salvar os bancos sem confiscá-los, b) dar milhões aos ricos e nada aos pobres e c) jogar os nativos contra os operários de origem estrangeira. Todas essas medidas estão a serviço da realização de um único e mesmo objetivo: “administrar de perto todas as misérias, para que as potências sobrevivam”. Não é o mesmo que testemunhamos aqui no Brasil, e nos países ditos subdesenvolvidos, com o que Zizek chama de “a revolta da burguesia assalariada”, onde se joga os trabalhadores empregados contra aqueles desempregados? E correlato ao subsídio dado pelos Estados desenvolvidos aos bancos em iminência de falência durante a crise financeira, não teríamos aqui, e nos demais países que compõem o chamado terceiro mundo, o comprometimento permanente e inquestionável com o pagamento da dívida externa em função do qual os nossos Estados estão muito mais a serviço dos bancos centrais do que a serviço do povo? Por fim, seguindo a mesma lógica de obediência irrestrita ao capital, não testemunharíamos aqui o apoio incondicional do nosso Estado aos ricos, aos grandes empresários internacionais, aos ruralistas e à classe política, ao invés dele apoiar medidas que efetivamente ponham um fim na desigualdade econônima e social?

Diante dessa resignação frente à democracia liberal parlamentar, em função da qual experimentamos o papel ascendente do Estado capitalista beneficiando diretamente aos ricos e tomando medidas populistas para calar aos pobres, é urgente refletir sobre a noção de fracasso da ideia comunista, noção esta que supostamente justificaria nosso nihiilismo político .

“O que significa exatamente “fracassar”, quando se trata de uma sequência da História em que essa ou aquela forma da hipótese comunista é experimentada? O que quer dizer exatamente a afirmação de que todas as experiências socialistas sob o signo dessa hipótese “fracassaram”? Esse fracasso é radical, isto é, exige o abandono da própria hipótese, a renúncia de todo o problema da emancipação? Ou é apenas relativo à forma, ou à via, que ele explorou e em que ficou estabelecido, por esse fracasso, que ela não era a forma certa para resolver o problema inicial?”. (BADIOU, 2012, p.9)

Tais questões talvez possam ser traspostas para o recente quadro político-partidário da esquerda brasileira, composto pela oposição do recém-nascido PSOL ao experiente, maduro e governante PT. Ao invés de simplesmente se opor a este, o PSOL precisa se indagar verdadeiramente qual teria sido o(s) fracasso(s) do PT, se não quiser repito-lo(s).

É bem verdade que a análise badiouiana da noção de fracasso refere-se às práticas militantes orientadas pela ideia de comunismo, como a Comuna de Paris, a Revolução Bolchevique e a Revolução cultural chinesa, cujos fracassos contribuiriam para a construção da própria ideia comunista. Será que a mesma análise poderia ser aplicada ao campo partidário, mesmo que este seja de esquerda e se declare comunista?

O PT e o PSOL, ainda que supostamente orientados pela ideia comunista/socialista, não deixam de estar comprometidos com a lógica da situação, a democracia liberal parlamentar. Este compromisso não condenaria de saída qualquer pretensão verdadeiramente comunista? A ideia de comunismo já não teria tentado se realizar por meio da forma partidária com o Partido Bolchevique? Tal experiência não teria fracassado? Em que consistiu este fracasso? Em que ele teria contribuído para a própria ideia comunista?

Aderir hoje à forma partido como meio de construir e realizar a ideia de comunismo sem investigar em que consistiu e quais foram as razões do fracasso do Partido Bolchevique, e no que este fracasso contribuiu positivamente para a ideia comunista, é, no mínimo, estar suscetível a simplesmente repeti-lo.

Sendo assim, para evitarmos a repetição do fracasso e efetivamente aprendermos com ele, é necessário que examinemos em que consistiu a experiência fracassada do partido comunista bolchevique leninista, que acabou cedendo à sua burocratização com Stalin, e, ao invés do Estado servir ao povo, este é que passou a servir àquele.

Segundo Badiou, os fracassos relativos à ideia de comunismo não são absolutos, isto é, não marcam o seu esgotamento ou fim definitivo. Ao contrário, tais fracassos possuem o mesmo estatuto de uma hipótese científica matemática. Da mesma forma que um problema científico, enquanto não é resolvido, assume a forma de uma hipótese a partir da qual inúmeras tentativas de justificação se revelam frutíferas idependente do fato de a terem efetivamente demonstrado,“o(s) fracasso(s), desde que não provoque o abandono da hipótese [da ideia comunista], é apenas a história da justificação dessa hipótese”. Isso quer dizer: para quem não se deixa iludir pelo uso propangandista da noção de fracasso – o fracasso é absoluto -, o aparente fracasso de acontecimentos profundamente ligados à hipótese comunista foram e ainda são etapas de sua história. (Badiou, 2012, p.10)

É importante ressaltar que a noção de fracasso entendida como “a história da justificação de uma hipótese” requer que se examine a história do ponto da política. Para tanto, devemos abandonar a concepção de história como uma ciência autônoma capaz de descrever objetivamente uma sucessão de fatos, ou mesmo, a sua concepção filosófica proposta por Heidegger, segundo a qual a história teria um caráter ontológico e constituiria o horizonte de sentido de uma época, o que o filósofo alemão chama de historial. Nem científica, nem filosófica; para Badiou, a compreensão dos acontecimentos políticos exige um “pensamento da historicidade, quer dizer, da História examinada do ponto da política”. É essa ordem de pensamento que o filósofo francês propõe como a chave interpretativa dos acontecimentos reputados impensáveis do ponto da filosofia, como o extermínio dos judeus no nazismo, bem como o terror sanguinário no qual recaíram alguns regimes socialistas.

“Se a filosofia é incapaz de pensar o extermínio dos judeus da Europa, é porque não é seu dever nem está em seu poder pensá-lo. É que cabe a uma outra ordem de pensamento tornar efetivo esse pensamento. Por exemplo, ao pensamento da historicidade, quer dizer, da História examinada do ponto da política”. (Badiou, 1991, pp.3-4)

Desse ponto, o fracasso da ideia comunista assume uma natureza dialética: “Uma derrota revolucionária é sempre dividida entre a parte estritamente negativa dela mesma, acusada com frequência no próprio momento (mortes, prisões, traições, perda de força, dispersão…), e a parte positiva, que em geral demora para se fazer valer (balanço tático e estratégico, mudança de modelos de ação, invenção de novas formas de organização…)”. (Badiou, 2012, p.11)

Além disso, é somente deste ponto, onde a política é unida a sua historicidade, ao invés de ser considerada em sua pura interioridade, pensante ou tática, que temos a possibilidade de superar subjetivamente a derrota e refletir sobre os fracassos.

Existe uma lógica dos fracassos da ideia comunista. Lógica esta que apreende as duas formas subjetivas do fracasso. O fracasso ligado ao medo do poder, isto é, aquele que se atém ao momento revolucinário, disruptivo e destruidor da ordem vigente mas teme instaurar uma nova ordem. E o fracasso que teme, ao contrário, a destruição revolucionária, e prefere estabelecer uma formação de compromisso com a situação, onde a ordem vigente lhe concede uma parte do poder para realizar seus projetos socialistas. De um lado, o fracasso dos últimos sobressaltos do socialismo de Estado e das lutas armadas que recaíram numa violência indefensável; do outro lado, o fracasso dos partidos socialistas que cederam ao poder vigente em nome da social-democracia.

De acordo com Badiou temos, de um lado, o fracasso da “extrema-esquerda”, aquele que, tratando com brutalidade e morte qualquer contradição, mesmo a mais ínfima, encerra todo o processo nos sombrios limites do terror, e, de outro, o fracasso clássico de direita: a adesão dos cansados da ação militante às delícias do poder parlamentar. (Badiou, 2012, pp.15-16)

Segundo Badiou, a universalidade proposta por Paulo traça uma diagonal nas oposições entre judeu e pagão; homem e mulher; livre e escravo. O cristão não precisa ser nem judeu, nem pagão, é indeferente se é o homem ou mulher, e o que conta não é ser livre ou escravo. Esta mesma diagonal precisa ser traçada entre os dois fracassos da ideia comunista, o da extrema-esquerda e o da direita: A ideia comunista não deve se prender à particularidade tradicional e assumir como intransponíveis as leis da economia de mercado e a democracia, nem ter como único desafio a destruição dessas particularidades. “Resistamos simultaneamente ao fascínio dos poderes estabelecidos e ao fascínio de sua destruição infecunda”. (Badiou, 2012, p.16)

Traçando uma diagonal entre os fracassos de extrema-esquerda e de direita Badiou coloca na boca de sua persogem Paula, em sua peça “O incidente de Antioquia”, as suas palavras, que representam a sua própria posição política:

“Não pense que trago uma receita. Já que durante tanto tempo o impasse foi o de que a política tinha seu centro e sua representação apenas no Estado, eu digo que vocês devem forçar esse impasse e fazer com que a verdade política circule duradouramente em um povo… Descubram aqueles que importam. Sigam o fio do seu discurso. Organizem a sua consistência, com o fito do igual. Que haja nas fábricas núcleos da convicção política. Nas cidades e no campo, comitês da vontade popular. Que eles transformem o que é e elevem-se à generalidade das situações. Que eles se oponham ao Estado e aos comerciantes desonestos da propriedade, na medida exata de sua força imanente e do pensamento que eles exercem”. (apud. Badiou, 2012, p.20)

A política, para Badiou, deve se subtrair do Estado: “A política é unir em torno de uma visão política, subtrair da dominação mental do Estado”. Apostar ainda no Estado é “confiar na velha hipótese depois de uma história errante”. Posto isso, o que fazer?

Segundo as palavras de Mao: “Ousar lutar, ousar vencer”. Donde extraímos o que não se deve fazer, ou melhor; repetir: Não temer lutar, não temer vencer. Estes são os grandes fracassos subjetivos da ideia comunista: o medo de lutar  (que leva ao fracasso de direita) e o medo de vencer (que conduz ao fracasso de extrema-esquerda). Medo da revolução e medo do poder. Ambos baseados na suposta identidade entre política e Estado.

Precisamos aprender, então, com os fracassos. Além de evitar a repetição das duas formas subjetivas de fracasso, é necessário discerni-los conforme eles ocorreram no devir das políticas de emancipação. E extrair daí o que eles constribuem positivamente para a ideia comunista. Desse ponto, eles não são dois, mas três tipos de fracassos bastante distintos:

1)      o fracasso devido à força contrarevolucionária, como, por exemplo, o dos espartaquistas em Berlim, após a guerra de 1914, em que morreu Rosa Luxemburgo. O problema desse fracasso é sempre a chamada “relação de forças”: de um lado, o grau de organização dos destacamentos populares, e de outro, a oportunidade do momento no que diz respeito à desorganização da força do Estado. O balanço positivo desse tipo de fracasso é a construção de novas disciplinas para o sucesso insurrecional. O exemplo paradigmático dessa apropriação positiva da derrota é o encaminhamento histórico do balanço da Comuna de Paris.

2)      O fracasso oriundo de um amplo movimento sem que se estabeleça um objetivo de poder. O problema desse fracasso é que, quando as forças do Estado reacionário recuam não se sabe qual é a natureza da ação a ser realizada e quais são as suas consequências. Isso aconteceu com o movimento Fronda, no início do século XVII, na França, bem como no movimento de 1911 na China e no Maio de 1968. O balanço positivo desse tipo de fracasso é a construção de um traço e de um projeto, com base na antecipação de suas consequências, que marque assim a diferença entre uma mudança puramente imaginativa e um corte dicisivo na concepção que se deve ter do que é uma política libertadora.

3)      O fracasso tributário da tentativa de mudar o Estado. Deste fracasso resulta ou a restauração do terrorismo do Estado-partido, ou o abandono puro e simples de qualquer referência ao socialismo. Como exemplo temos o “socialismo de rosto humano” na Checoslováquia, esmagado pelo Exército soviético em 1968, bem como a Grande revolução Cultural Proletária que animou o maoismo francês entre 1965 e 1976.

A análise badiouina dos fracassos da ideia comunista não se inscreve como uma análise política, uma vez que, para tal, seria o caso de pensar internamente um processo político organizado, e tampouco como uma filosofia política, cujo objetivo é fundar a política impondo-lhe normas morais do que é o poder “correto”, o Estado “correto”, a democracia “correta” etc. A proposta de Badiou é, “por meio das particularidades da noção de fracasso em política, precisar a forma genérica que todos os processos da verdade assumem, quando encontram os obstáculos inerentes ao ‘mundo’ em que se desenrolam”. (Badiou, 2012, p.25)

O livro “São Paulo: a fundação do universalismo” fornece a forma genérica assumida por todos os processos de verdade diante dos obstáculos subjetivos que tendem a reduzi-los a uma particularidade interna à situação ou a uma negatividade irredutível e sem consistência. Já o livro “A hipótese comunista” visa estabelecer a forma genérica da inscrição desses processos de verdade no mundo, quando este apresenta obstáculos à sua efetuação.

Esses obstáculos do mundo não são encarados como um impedimento externo à realização dos processos de verdade. É importante ressaltar que os obstáculos à realização de uma Ideia no mundo são muito mais internos ao seu processo do que externos. Trata-se, assim, muito mais de fracasso do que propriamente de obstáculo. Enquanto a noção de obstáculo pode passar a ideia equivocada de que se trata de um impedimento externo e objetivo que não teria nada a ver com os processos de verdade propriamente ditos, a noção de fracasso está mais próxima da ideia de uma implicação dos próprios processos de verdade nos obstáculos que enfrentam para a realizar sua inscrição no mundo.

Nesse contexto de realização da Ideia no mundo, a forma genérica do seu fracasso é pensada a partir do conceito de “ponto”: “Um ponto é um momento de um processo de verdade (por exemplo, de uma sequência política de emancipação) em que uma escolha binária (fazer isso ou aquilo) decide o devir de todo o processo” (Badiou, 2012, p.25).

Segundo Badiou, todo fracasso relativo à inscrição de uma Ideia no mundo está referido ao tratamento inadequado de um ponto. O fracasso pode ser localizado em um ponto. E uma vez localizado, por meio da delimitação do espaço dos fracassos possíveis, ele passa a servir como uma lição que se incorpora na universalidade positiva da construção de uma verdade. Esta atribuição do fracasso a um ponto localizável do processo de verdade do qual se extrai uma positividade para a realização desta verdade no mundo se opõe diretamente ao uso propangandista da noção de fracasso onde este é considerado como global e absoluto.

Contra as propagandas de que “a hipótese comunista não passa de uma quimera impraticável” ou de que “os socialismos, únicas formas concretas da ideia comunista, fracassaram totalmente”, Badiou sustenta que os fracassos da ideia comunista são pontuais e passíveis de serem localizados e compreendidos, e que, realizando essa tarefa podemos superar os fracassos e pensar o ponto em que daqui para frente seremos proibidos de falhar.

 

Bibliografia:

BADIOU, A. Manifesto pela filosofia. Rio de Janeiro: aoutra editora, 1991.

___________. A hipótese comunista. São Paulo: Boitempo, 2012.

Nota #2 [28/03/2014] (RJ II)

Optarei pela sinceridade nesta nota (se bem que isso não diz muita coisa).

Não tenho muito que dizer sobre a reunião do dia 28/03/2014, visto que não entendi muito os conteúdos discutidos.

 

Porém, peço clemência: visto que estamos tocando em pontos cruciais a respeito dos temas de militância e organização política no CEII – aliás, isso prova a validade de nosso projeto: está certo até mesmo quando não está – que, claro, tocam na questão da Massa, acho que poderíamos voltar a este tema depois, principalmente porque esta questão está relacionada ao Badiou, nosso mentor organizacional

Nota #3 [21/02/2014] (RJ II)

O Novo aparece para nós com o nome de Vazio.

 

“O novo, por ser novo, não é claro. Por isso não existe caminho para algo novo.” [1]

 

O Novo, quando à tona, precisa ser apenas declarado. É sobre esse apenas que o CEII se debruça. É um apenas com seu teor de sarcasmo: é claro que a palavra denota um ou um somente, mas, principalmente, um deboche ressentido, como se apenas denotasse qualquer coisa. O que é essa declaração? O que é esse Novo vindo à tona? O que está incluído nesse apenas?

 

O que inexistente do Vazio badiouiano tem a ver com a inexistência corpórea do CEII? O onipresente Projeto nos diz que o CEII só existe enquanto tal a partir do momento em que nos comprometemos a fazê-lo existir. É essa a dimensão do apenas. É claro que sabemos que é uma tarefa, no fundo, fácil: só precisamos escrever as notas de trabalho; isto é, apenas escrever as notas de trabalho. Mas sabemos que não é apenas isso. Não é. Tem muito mais incluído nessa suposta simplicidade do que somente um gesto performativo de entregar as notas. Se admitimos que há muito mais do que somente um comprometimento formal, talvez tenhamos logrado êxito e quase dois anos de CEII tenham valido a pena. Agora, se admitimos que, lá no fundo, o CEII se resume a esta dimensão formal – os militantes entregam as notas e, pronto!, seu trabalho está feito, não há nada mais a se fazer – talvez esteja na hora de repensarmos nosso Projeto. Meu medo é de que esta segunda assunção esteja fundada num cinismo mequetrefe descartando os feitos “sobreburocráticos” do CEII.

 

Mas essa é a relação a ser pensada: como é que pode um apenas conter tanta complexidade?
Para tanto, repito a pergunta: o que está incluído nesse apenas?

 

————————————————————————————————–

[1] NOTA #3 [15/04/2014] (RJ I)

 

 

 

Referências 25/04/2014 (RJ-II)

QUADROS.001QUADROS.002

 

Sobre a crítica do Anti-Édipo:

MCGOWAN, T. Enjoying what we dont have: the political project of psychoanalysis – disponível em inglês aqui

ZIZEK, S. Órgãos sem corpos: Sobre Deleuze e Consequências (Relógio D’água)

Sobre o RSI em Lacan:

LACAN, J. Os nomes do pai (Zahar) – disponível aqui

ROUDINESCO, E. Jacques Lacan (Companhia das Letras)

 

Gravação da reunião: https://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-25-04-2014-rj-ii

 

 

NOTA #1 [11/04/2014] (RJ-II)

A Ética de Badiou não consiste em um exercício de fazer perpetuar as práticas da situação (de algo já sabido). Não é rito continuado. Não é mandamento, nem código. Não é blábláblá. A Ética de Badiou é Sacrifício auto-sacrificial: quando não matamos um outro externo e decidimos matar a nós mesmos em nome de uma Verdade; quando matamos a própria morte!

Parece que em Badiou, os componentes de sua filosofia (verdade, fidelidade, evento, etc.) são exteriores e alheios às ações humanas. Isso porque ele fala tanto desses componentes na terceira pessoa que me dá a impressão dessa exterioridade e independência. Mas não. Esses componentes só existem enquanto humanos. Só a partir das ações humanas é que eles se desenrolam e podem ser deflagrados.

NOTA #3 [04/04/2014] (RJ II)

Anotações para uma nota:

  • Para Badiou, o Sujeito não se confunde com o Vazio, mas é o que faz a partir do próprio Vazio.
  • O Ser, porém, é vazio.
  • O Sujeito é sempre múltiplo, seja na arte, no amor, na política ou na ciência.
  • O Universal é o que há de comum entre os conjuntos.
  • O acontecimento – evento – é o suplemento à situação.
  • A fidelidade é o suplemento ao acontecimento – evento.
  • A verdade é o traçado material (inscrição) na situação. Portanto, Badiou é materialista e não idealista.
  • Badiou inscreve a universalidade na ocorrência de componentes de Sujeitos. Todos podem ser componentes de um Sujeito.

NOTA #2 [25/03/2014] (SP)

Como havíamos decidido no encontro anterior, nesta reunião demos inicio à leitura do primeiro capítulo de “O Capital” de Karl Marx. No entanto, antes de iniciarmos a leitura, foi levantada uma questão sobre a relação entre Sonho e Sintoma.

Essa discussão inicial foi de extrema importância, já que esses dois conceitos Freudianos são, dentre outros, alicerces de sua teoria psicanalítica. Tais conceitos são indispensáveis para compreendermos não só a psicanálise, mas, também, para atingirmos nosso objetivo, junto ao texto de Zizek, de entender como Marx inventou o sintoma. Dessa última discussão, o que ficou claro foi o trabalho (ou lógica?) inconsciente de condensação e deslocamento presentes tanto no sonho, como na formação de sintomas.

Somente após passarmos boa parte da reunião na discussão anterior, demos início a leitura do Capital. Abro aqui um parêntese para fazer um comentário pessoal: esta foi a minha primeira experiência com os escritos de Marx, até então meu contato tinha se dado por meio de autores que o citavam, direta ou indiretamente e em tantas conversas mundo afora. Algo que me marcou desde inicio na leitura, foi o modo categórico e objetivo que o autor escrever, e, mais ainda, que apesar da sua forma bastante clara e com diversos exemplos para elucidar os conceitos elaborados, a dificuldade de compreendê-los é enorme.

Experiências pessoais à parte, neste primeiro encontro, nos deparamos com os conceitos de: Mercadoria; valor-de-uso e valor-de-troca. Sendo que os dois últimos estão, ambos, presentes no primeiro. Ou seja, há em toda mercadoria um duplo caráter, a saber, seu valor-de-uso e seu valor-de-troca.

Marx é bem categórico ao definir esses conceitos. Começamos pelo conceito de Mercadoria. Segundo o autor, é “um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia” (1998, p.57). Está mercadoria, portanto, pode ser analisada em dois aspectos. Passamos agora para um dos aspectos da forma mercadoria, seu valor-de-uso. Para Marx o valor-de-uso é dado pela utilidade de um produto, independente da quantidade de trabalho que seja empenhado nele, refere-se, portanto, ao aspecto qualitativo da mercadoria. Por último, Valor-de-troca. É nele que o aspecto quantitativo da mercadoria se revela, o aspecto que permite que mercadorias, de naturezas e utilidades distintas (valor-de-uso distintos) possam ser trocadas a partir de certa equivalência. É neste ponto que Marx aponta a existência de um terceiro elemento que torna essa troca possível. Para isto os valores-de-troca devem “ser reduzíveis a uma coisa comum, da qual representam uma quantidade maior ou menos”(1998, p.59).

Referência:

MARX, K. O Capital. São Paulo, Ed. Civilização Brasileira, 1998. 

NOTA #1 [08/04/2014] (SP)

O Duplo Caráter do Trabalho Materializado na Mercadoria, esse é o título da parte dois do primeiro capítulo do capital. Essa foi até agora a parte mais difícil do texto para mim, sinto que pouco consegui absorver. Entendo a existência do trabalho enquanto abstrato e produtor de valor, o qual se mede quantitativamente, por meio de uma força de trabalho única e o trabalho útil, produtor de VDU, destina a um fim específico, em que o aspecto qualitativo é essencial e distingue uma forma de trabalho da outra.

É dessa última que surge a divisão social do trabalho, ou seja, trabalhos úteis diferentes podem ser classificados e separados, em última análise são divididos de acordo com sua utilidade. Sendo que a divisão social do trabalho é essencial para a produção de mercadorias, não consigo compreender como isto ocorre.

Outros conceitos como trabalho simples e trabalho complexo ainda estão muito confuso para mim.

NOTA #2 [01/04/2014] (SP)

“Um valor-de-uso ou um bem só possui, portanto, valor, porque nele está corporificado, materializado, trabalho humano abstrato. Como medir a grandeza do seu valor? Por meio da quantidade da “substância criadora de valor” nele contida, o trabalho. A quantidade de trabalho, por sua vez, mede-se pelo tempo de sua duração, e o tempo de trabalho, por frações do tempo, como hora, dia etc.” (Marx, 1998, p.62).

Essa é a formula que Marx irá utilizar para chegar aos valores da mercadoria, resta definir alguns conceitos apresentados neste trecho.

Trabalho humano abstrato é a redução de todas as formas de trabalho a uma única espécie. Para isto, é necessário compreender o trabalho independente de sua forma, de sua qualidade. Ao se tomar apenas o valor-de-troca da mercadoria, se esquece do seu valor-de-uso, consequentemente do seu aspecto qualitativo, o que interessa é seu aspecto quantitativo. O mesmo se dá com o trabalho, se abstrai seu aspecto qualitativo, isto é, independe ser o trabalho de um marceneiro ou de um ferreiro, o que interessa, agora, é quantidade de trabalho que foi despendida na produção da mercadoria.

O tempo é o elemento que possibilita medir a quantidade de trabalho gasta para a produção da mercadoria. Porém, este tempo não é medido individualmente, não é o tempo que cada ser humano leva para produzir uma mercadoria, uma vez que este pode variar de acordo com as habilidades de cada indivíduo. Portanto, é preciso chegar a um tempo médio que é gasto para a produção de cada mercadoria, baseada em uma destreza média de cada trabalhador. Com isso se cria uma base comum, uma quantidade de força de trabalho, um tempo de trabalho socialmente exigido para a produção de cada mercadoria para assim chegar ao valor desta. Ou seja, “o que determina a grandeza do valor, portanto, é a quantidade de trabalho socialmente necessário ou tempo de trabalho socialmente necessário para a produção do valor-de-uso” (Marx, 1998, p.63).

NOTA #1 [01/04/2014] (SP)

Em termos mais leigos, o sintoma tem uma relação com a doença. Logo, quanto menos sintomas, menos doente. No entanto, a relação não é tão clara, não há um ‘x’ tão óbvio nessa equação. Sintomas são diferentes de doença que também são diferentes de cura, uma coisa não leva a outra necessariamente, mesmo que todos esses elementos estejam presentes.

No processo de se fazer um sintoma, Freud primeiro aponta que há uma relação entre o sintoma e um dispêndio mental (ou seja, um esforço produzido pelo próprio indivíduo), somado à uma outra relação de dispêndio mental para tentar se livrar do sintoma. Há um dispêndio mental duplo nesse processo (um baita de um esforço!) Há uma questão de investimento, perda, ganho,  de quantidade libidinal.. Freud, estava falando especificamente de histeria, e não outro tipo de neurose. Mas de modo geral, para fazer a relação dos sintomas neuróticos, há uma formação de conflito onde o indivíduo neurótico, com a sua libido – com um x de investimento que ele faz em relação à um objeto que irá lhe trazer satisfação. Porém, considerando que nessa equação há desencontros que geram a não concretização da libido, a mesma se voltará para dentro de si mesma e buscará onde já teve prazer anteriormente (movimento regressivo). Esse movimento pode gerar ‘dois tipos de coloridos’, em um você está bem com essa regressão, na outra, você não está. No caso da neurose, todo mundo teve a sua libido concretizada pelo menos uma vez na vida, e vai sempre buscar a concretização dessa libido de novo.

Como estamos falando de sintomas e momentos de desenvolvimento que geraram satisfação, é importante entender como foi a construção das experiências infantis (onde a coisa se desenvolveu), o desenvolvimento da sexualidade –  que irão sustentar a busca da compreensão pelo que de fato está sendo trabalhado. Quando falamos de sintomas e fixação libidinal, a palavra chave e que tem toda a influência é a palavra FANTASIA, que não deve ser ignorada, mas sim trabalhada (para a pessoa, independente do que for, tem estrutura de verdade e gerará sintomas).

Seguindo no Marx (e vendo o que Marx está vendo), ao desaparecer o caráter  útil do trabalho, desaparece também o caráter útil dos trabalhos nele corporificado (as diferentes formas de trabalho não mais se distinguem, mas reduzem-se todas ao trabalho humano abstrato – resíduo dos trabalhos, o  trabalho humano que no produto se armazenou). Há uma substância social em comum – valores mercadoria.

Na própria relação de permuta das mercadorias, o seu valor de troca revela-se independente do seu valor de uso. O que é comum na permuta, é o valor das mercadorias, independente de suas formas. Um bem só possui valor porque nele está corporificado o trabalho humano abstrato – a quantidade de trabalho mede-se por dia, hora, etc. nele contido (gasto em sua produção). O trabalho humano homogêneo é o trabalho que irá servir para medir o tempo (força média de trabalho social), ou seja, o tempo requerido nas condições normais.

Todos os produtos da mesma forma, formam uma mesma massa – mercadorias que podem ser produzidas no mesmo tempo, possuem valor de mesma magnitude. Como valores, as mercadorias são apenas dimensões definidas do tempo de trabalho que nelas se cristalizou.