NOTA #7 [06/05/2014] (RJ I)

“O discurso cristão, inexoravelmente, não deve ser o do milagre, mas o da convicção que entranha numa fraqueza”. (Badiou, 2009, p.63) Destaco essa passagem porque ela remeteu a um ponto de discussão que me interessou/intrigou: a militância deve partir de uma assunção da própria fraqueza/pobreza e não do reconhecimento destas “no mundo lá fora”.

NOTA #2 [22/04/2014]

Marx vem tentando desvendar ao longo do Capital o segredo presente na Forma mercadoria. Em um primeiro momento, o autor apresentou e desvelou o duplo caráter presente em toda mercadoria e agora chegamos à forma do valor.

Segundo o autor alemão, as tentativas de explicar a forma do valor de uma mercadoria que haviam sido elaboradas por outros economistas até então, recorriam sempre no mesmo erro: pensar a forma valor como uma categoria apenas quantitativa. Para Marx, é justamente pelo aspecto qualitativo de uma mercadoria que é possível desvendar a forma valor. Para evidenciar isto, ele nos apresenta os conceitos de valor relativo e equivalente, por meio do qual ele nós explicará como o valor-de-uso de uma mercadoria pode ser representado pelo valor-de-troca de outra, isto é, como é possível expressar o a quantidade de valor (aspecto quantitativo) presente em uma mercadoria a partir do valor qualitativo de outra.

NOTA #9 [08/04/2014] (RJ I)

Os direitos humanos

Ao longo do encontro, em determinado momento, começou-se a se falar dos Direitos Humanos. Pensando superficialmente, podemos elencar: a) os jusnaturalistas; b) os kantianos; c) os críticos.
Os jusnaturalistas começam, de uma forma transcendente, a reconhecer direitos sem sujeitos, ou seja, Direitos que estão acima de quaisquer seres humanos e que, por conseguinte, formam a base para que os humanos possam viver bem. Tais direitos podem ser “o direito à vida, à liberdade”.
Os kantianos partem do sujeito transcendental que irradia para todos os ‘sujeitos reais’ um modelo de viver segundo critérios racionais e humanos. Assim os direitos kantianos se perfazem universais e, de uma certa forma, homogeneizados.
Dentro dos críticos, as propostas são mais segmentadas. Em Nietzsche podemos perceber a pura multiplicidade e variações do que é o homem, emoções e razão e um sistema jurídico não rígido, sendo assim, falar em direitos humanos começa a ficar mais rebuscado. Há a tradição dos “direitos humanos materiais” ou o direito a ter uma vida digna apoiando-se numa luta de classes social-democrata que reclama para si maiores condições e oportunidades para todos os humanos se tornarem universais.
O que foi escrito acima parece nebuloso e até livre-associativo. Perdoem-me pela falta lógica, mas são apenas alguns pontos que poderia ser conversados mais acima. O que dá pra perceber em todos os Direitos Humanos é a estrita relação entre Sujeito, Direito e Ética. Talvez Badiou tenha muito mais a nos oferecer do que pensamos. A seriedade do seu trabalho faz-nos debruçar repetidas e cansadas vezes sem se chegar numa resposta concreta e final. A isso damos o nome de militância.

Nota #3 [16/05/2014] (RJ-II)

Mesmo nos períodos em que mais sinto correspondência em relação aos estudos feitos no CEII, ainda não consigo olhar de fora e encontrar um papel claro para ele no momento político brasileiro. Pessoalmente ainda não consigo defender a posição que gostaria de escolher, e não tenho certeza se estamos respondendo a problemas centrais à situação de crise de representatividade na política. A minha intenção é elaborar melhor essa (auto)crítica, porém a dificuldade é que, talvez estejamos nos precipitando demais nas estratégias de expansão do CEII e ainda não desenvolvemos os mecanismos teóricos ou discursivos(culturais) para lidar com a divergência e as dificuldades internas em diagnosticar os problemas e propostas que queremos abordar. A minha maior preocupação é justamente pensar qual é a distância que o CEII se coloca da população em geral, que não se interessa por política, história e economia.

NOTA #2 [16/05/2014] (RJ II)

Badiou, embora platonista, é materialista. O que ele faz, a partir de Platão, é tornar o “mundo das ideias” imanente ao mundo terreno. Não mais o homem necessita alcançar um estado de reminiscência para alcançar a Ideia; cabe apenas fazê-la surgir na História.

Contanto, apenas para fins de recordação e fixação de práticas teóricas, podíamos recordar o que já se disse, a partir do texto de Badiou, a respeito da diferença de Ideia e ideal. Isso porque realmente ainda claudico em saber o que é, de fato, uma Ideia.

Outro problema foi entender o esquema Hegel-Marx sobre Ideia e História.

Nota #2 [20/05/2014] (RJ I)

Qual distinção entre teoria e prática? Uns dirão que a teoria deve guiar a prática; outros, ao contrário, insistirão que a prática deve prevalecer. O problema da relação entre elas permanece principalmente quando no contexto de firmação de compromissos políticos.

Acredito que essa relação é sempre um problema para [1] o teórico que se vê colonizado pela prática ou [2] do prático que se vê dominado pela teoria ou [3] mesmo daquele teórico que desconfia de sua teoria por faltar-lhe prática ou, por fim, [4] do prático que desconfia de sua prática por lhe faltar teoria. Em todos os casos, me parece, pode-se permanecer ociosamente num mesmo circuito.

O que poderia garantir a passagem deste estado de coisas à efetividade, acredito, é a atividade que pode não pertencem a nenhum desses momentos.

[1] ele quer fazer, antes ou depois da prática, uma teoria que sustente a ação.

[2] ele reivindica a centralidade de suas ações.

[3] ele duvida da possibilidade de sua “ação subjetiva” contribuir para “ação objetiva”.

[4] ele duvida de sua “ação objetiva” e anseia pelo respaldo da outra.

A camarada JB propôs que a passagem à efetividade, almejada por todos, segundo os autores estudados no CEII, depende do Pensamento. Que, no entanto, não é redutível à teoria ou à prática ou quaisquer andamentos em que se encontrem numa mesma relação. O Pensamento é uma atividade que as efetiva na medida em que, segundo nosso [sempre] Mais-Um, impõem os impasses contingentes ao desenvolvimento delas [em suas quatro modalidades]. Os problemas da teoria, da prática e da relação, de um lado ao outro, entre elas, são produtivos nessa atividade.

Não sei se estou certo.

Nota #1 [20/05/2014] (RJ I)

A discussão de hoje (20-05-14) nos coloca em um ponto significativo, ao menos para mim. Que diabos é, para Badiou, o capitalismo? Causa certo embaraço enfrentar tal questão.

Em São Paulo particularmente, algumas aproximações e definições interessantes encontramos: “abstração monetária”, “homogeneidade monetária” (p. 17), “lógica do equivalente geral” (p. 18). Digo interessantes, pois estas menções tocam de fato naquilo que significa a essência da formação social produtora de mercadorias: uma abstração da forma dinheiro que, à maneira de uma abstração (todavia real), se constitui em uma lógica que se espraia por todo o tecido simbólico e material.

Entretanto, além disso, pouco.

Hipótese: o problema que se coloca Badiou, e para quem São Paulo é a resposta não é do capitalismo e de sua superação, mas da democracia liberal e de sua superação. Por isso ele prescinde de uma consideração mais detida sobre o capitalismo.

(Alguém poderia dizer (Zizek de fato o diz) que ao mirar na democracia liberal Badiou atinge mais profundamente o próprio capitalismo do que se mirasse nele diretamente, portanto, atacar a democracia liberal é mais “anticapitalista” do que uma crítica direta ao capitalismo, sobre isso tenho minhas dúvidas).

Contudo, aqui eu coloco o problema: como pensar o anticapitalismo propriamente dito com o São Paulo de Badiou?

O capitalismo, como “abstração monetária”, etc, etc, nunca “acontece”, no sentido badiouano no termo, o que “acontece” é aquilo que Marx chamava de acumulação primitiva de capital. Esse acontecimento, entretanto, é “recalcado” na sociedade da abstração monetária, do reino dos direitos humanos e de Bentham, para parafrasear Marx novamente.

Assim como a “acumulação primitiva de capital” é recalcada como uma “fase de transição” entre o passado “selvagem” do capitalismo e de sua versão em face humana e regulada, seu “estertor”, a saber, seu estado crônico de crise e de exceção, também é constantemente recalcado (ou, seria melhor dizer, denegado?).

O que poderia significar, pergunto, admitir o acontecimento do estado de exceção-crise do capitalismo como tal, como acontecimento, no sentido badiouano do termo?

Eu tendo a pensar nesta questão como o faz Zizek, não por acaso, associando sua leitura de Badiou com o filósofo e engenheiro Jean-Pierre Dupuy, quando especula (no sentido hegeliano do termo) sobre o colapso ambiental:

 

A questão principal para Dupuy é que, se queremos enfrentar adequadamente a ameaça de um desastre (cósmico ou ambiental), precisamos nos livrar dessa noção “histórica” de temporalidade: temos de criar uma nova noção do tempo. Dupuy chama esse tempo de “tempo de um projeto”, de um circuito fechado entre o passado e o futuro: o futuro é produzido de forma causal por nossos atos do passado, enquanto o modo como agimos é determinado pela previsão do futuro e por nossa reação a essa previsão. Portanto, eis como ele propõe enfrentar a catástrofe iminente: devemos primeiro percebê-la como nosso destino, como inevitável, e depois, projetando-nos nela, adotando seu ponto de vista, inserimo-nos retroativamente em suas possibilidades contrafactuais (“Se tivéssemos feito isso ou aquilo, a catástrofe em que estamos agora não teria ocorrido!”) passadas (o passado do futuro) sobre as quais agimos hoje. Aí reside a fórmula paradoxal de Dupuy: temos de aceitar que, no nível das possibilidades, nosso futuro está condenado, que a catástrofe ocorrerá, esse é o nosso destino; e depois, contra o pano de fundo dessa aceitação, devemos nos mobilizar para realizar o ato que mudará o próprio destino e, com isso, inserirá uma nova possibilidade no passado. Para Badiou, o tempo da fidelidade ao evento é o futur antérieur: ultrapassando-nos em relação ao futuro, agimos agora como se o futuro que queremos provocar já estivesse aqui. A mesma estratégia circular do futur antérieur é também a única realmente eficaz diante de uma calamidade (digamos, de um desastre ecológico): em vez de dizer “o futuro está aberto, ainda temos tempo de agir e impedir o pior”, devemos aceitar a catástrofe como inevitável e depois agir para desfazer, retroativamente, o que já está “escrito nas estrelas” como sendo o nosso destino.(Em Defesa das Causas Perdidas)

 

Eu estava pensando nisto quando sugeri que “seria preciso transformar o estertor do capitalismo em um “ter-tido-lugar” para que, aí sim, ele se transforme em um evento-verdade”.

O que eu chamei de estertor do capitalismo é seu estado de crise-exceção permanente, que começamos a experimentar nestes dias, e ele poderia ser pensado como o faz Zizek com Badiou, (referindo-se todavia ao colapso ecológico)? E se o capitalismo em crise-exceção só poder ser superado socialmente quando o concebermos como “já inteiramente colapsado”? Será que, aí sim, ele poderia ser pensado como um “ter-tido-lugar” ao qual é preciso ser militantemente fiel?

No Manifesto Contra o Trabalho, o grupo Krisis se autodenomina o “Arauto de Nuremberg”. Será que poderíamos pensar nesta autodenominação no sentido badiouano que esta mesma palavra (arauto) tem nestes trechos que acabamos de ler?

Pretendo seguir na leitura de Badiou a partir destas preocupações.

 

 

Referências 20/05/2014 (RJ-I)

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Sobre o percurso das verdades:

BADIOU, Alain. Segundo manifesto pela filosofia. Disponível em inglês e em francês.

Gênio e apóstolo (para a questão dos quatro discursos e a noção de engajamento no e a partir do cristianismo):

KIERKEGAARD, Soren. “Sobre a diferença entre um Gênio e um Apóstolo”. In: Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. Lisboa: Ed. 70, 1988. pp. 158-170.

Comentário de Zizek em A visão em paralaxe (São Paulo: Boitempo, 2008. p. 201-202): “(…) qual é o sujeito do inconsciente (ou, simplesmente, o sujeito propriamente dito)? Aqui devemos recordar o curto e maravilhoso texto de Kierkegaard, ‘Da diferença entre gênio e apóstolo’, no qual ele define o gênio como o indivíduo capaz de exprimir/articular ‘aquilo que é nele mais do que ele’, sua substância espiritual, ao contrário do apóstolo que, ‘em si’, não tem nenhuma importância: o apóstolo é uma função puramente formal de quem dedicou sua vida a dar testemunho de uma Verdade impessoal que o transcende. É o mensageiro que foi escolhido (pela graça): não possui traços interiores que o qualifiquem para o papel. Lacan cita um diplomata que serve de representante de seu país: suas idiossincrasias são irrelevantes; o que quer que faça é lido como mensagem de seu país ao país para o qual foi designado; se, numa grande conferência diplomática, ele tosse, isso é interpretado como indicador discreto da dúvida de seu país a respeitos das medidas debatidas na conferência e assim por diante. E a conclusão paradoxal de Lacan é que o ‘sujeito do inconsciente’ freudiano (ou o que Lacan chama de ‘sujeito do significante’) tem a estrutura do apóstolo kierkegaardiano: é testemunha de uma Verdade ‘impessoal’.”

Para pensar o pensamento (e a ação): 

“O puro pensar é, antes de mais nada, um comportamento espontâneo, imerso na Coisa. Mas esse agir torna-se necessariamente também objetivo para si mesmo. Já que o conhecimento conceituante está absolutamente junto a si mesmo no objeto, então deve reconhecer que suas determinações são determinações da Coisa, e que, inversamente, as determinações objetivamente, as determinações essentes, são determinações suas. Mediante a rememoração, através do adentrar-se da inteligência, esta se torna vontade. Para a consciência comum, essa passagem certamente não está presente; para a representação, o pensamento e a vontade incidem, antes, fora um do outro. Na verdade, porém, como acima vimos, é o pensar que se determina a si mesmo para [ser] a vontade, e o pensar permanece a substância da vontade, de modo que sem o pensar nenhuma vontade pode haver, e o homem mais inculto só tem vontade na medida em que pensou; ao contrário, o animal, porque não pensa, também não pode ter vontade alguma.” (HEGEL, G.W.F. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio. Capítulo “Psicologia”, seção “O Espírito”, subdivisão “a) O Espírito Teórico” § 468 (adendo) (as outras subdivisões são: b) O espírito prático; c) O espírito livre. ))

“Estamos ainda longe de pensar, com suficiente radicalidade, a essência do agir. Conhecemos o agir apenas como o produzir de um efeito. Sua realidade efetiva é avaliada segundo a utilidade que oferece. Mas a essência do agir é o consumar. Consumar significa: desdobrar alguma coisa até a plenitude de sua essência; levá-la à plenitude, producere. Por isso, apenas pode ser consumado, em sentido próprio, aquilo que já é. O que, todavia, “é”, antes de tudo, é o ser. O pensar consuma a relação do ser com a essência do homem. O pensar não produz nem efetua essa relação. Ele apenas oferece-se ao ser, como aquilo que já foi confiado a ele próprio pelo ser. Esta oferta consiste no fato de que, no pensar, o ser ter acesso à linguagem. (…) O pensar age enquanto se exerce como pensar. Este agir é provavelmente o mais singelo e, ao mesmo tempo, o mais elevado, porque interessa à relação do ser com o homem. (…) O pensar não é apenas l’engagement dans l’action em favor e através do ente, no sentido do efetivamente real da situação presente. O pensar é l’engagement através e em favor da verdade do ser. Sua história nunca é passada, ela está sempre na iminência de vir. A história do ser sustenta e determina cada condition e situation humaine.” (Heidegger, Martin. Sobre o “Humanismo”. Carta a Jean Beaufret, Paris. In: Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 348)

Projeto do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia:

1. Premissa Fundamental
2. Objetivo
3. Metas

 Zizek comentando o “sacrifício do capitalista”:

https://www.youtube.com/watch?v=2tsNQ4EO3Ec

 

 Gravação da reuniãohttps://soundcloud.com/gabrieltupinamba/ceii-20-05-14-rj-i