Nota #1 [23/09/2014] (RJ I)

Porque devo sair do CEII

 

As piadas e brincadeiras não são inocentes, elas demonstram que nem vocês mesmo conseguem levar o que fazem a sério. Elas são repetitivas e reforçam sistematicamente os pontos que ninguém quer problematizar da moral e da ética em jogo na construção dessa prática.

 

Os exemplos e citações são usados sempre com fins específicos, para demonstrar uma lógica sem substância. Nunca pegamos uma situação e a decompomos nas suas dimensões e possibilidades, como cada escolha se atrela a um interesse e uma combinação de forças.

 

Não pensamos a experiência dos casos de comunismo na história e nem a situação atual como reflexo de algo que realmente é concebido e naturalizado na nossa consciência, de maneira q ir contra isso talvez seja injusto para algumas pessoas.

 

O Real Lacaniano e outros conceitos da psicanálise são usados sem discrição, de maneira utilitarista. A cada hora servem diferentemente ao convencimento sem que seja esclarecido ou problematizado o seu lugar. Não é levado em consideração que eles só emergem a partir de uma interação e por isso não podem servir e se referir a uma prática que não deixe espaço para algo externo que não devemos dominar, ou seja, nunca vamos compreender. É a natureza e qualidade da interação que deveria ser soberana, não a razão por trás dela. O que acaba acontecendo é que aceitar o lugar dessa forma de pensar é abdicar do espaço para estar errado e considerar a possibilidade do lado oposto saber algo melhor do que nós.

 

O desrespeito que houve comigo não foi no sentido de falta de cuidado, mas na pressuposição de que eu deveria direcionar qualquer demanda minha para um lugar específico. Eu nunca levaria nenhuma desconfiança a diante se não houvesse algum conteúdo de fato vindo dos indivíduos.

 

Não há métodos de verificabilidade, isso é verdade. Mas algo foi feito porque senão eu continuaria seguindo no meu comprometimento com a causa. O efeito foi a quebra da minha confiança. E eu não posso continuar como se não tivesse acontecido nada.

 

Se fui eu que trouxe isso pra mim, foi por não ter deixado claro quais eram os meus limites e o que eu entenderia por abuso de poder, mas ao mesmo tempo um ambiente em que eu precise assinar um termo de responsabilidade na hora de estabelecer laços não é um lugar q eu reconheça como revolucionário.

 

Por mais que haja um esforço enorme para qualificar outra forma de trabalho, angariar discípulos cegos não é menos errado só porque você nomeia de fidelidade.

 

A dialética negativa e historicização são utilizadas sem rigor e sem aprofundamento. Quando colocado em contradição, nos pontos mais problemáticos, os atores simplesmente subvertem o conteúdo do texto para fechar o sentido numa adesão silenciosa. Não se procura pensar que relações formaram aquela contradição, se colocar no lugar de estranho, sempre estamos procurando anular essas contradições em busca da satisfação final de concordância, certeza. Se tivesse que dizer onde o problema está, diria que é nessa certeza indiscriminada, que absolve todas as nossas irregularidades, as disparidades de cada um, pois no final, precisa haver consentimento irrestrito, já que estamos nos movendo para um fim “comum”.

 

A distância entre a palavra pregada e a aplicação dos ensinamentos é desleixada, esse aprendizado poderia ser autorregulador (pois os indivíduos trocariam experiências), mas ao contrário, parece que há uma permissividade interna e as práticas são disseminadas a partir de figuras de autoridade pelo mimetismo, é claro q isso não é necessariamente causado pela estrutura proposta no projeto (e nem é intencional pelos que ocupam esse cargo), isso se dá porque os modos de relacionar são limitados e ficamos sujeitados a repetir os esquemas que participamos na vida, como regimes de filiação, vassalagem e burocratização. Carregamos essas instituições dentro de nós, no momento em que vc prefere deixar passar alguns tratamentos, prefere não questionar o modo como aquele conhecimento está sendo construído ou implementado, como os indivíduos estão usando para fundamentar sua prática no mundo, tudo isso é reafirmar uma dominação secular.

 

Algumas práticas são defendidas e valorizadas sem nenhuma preocupação moral e nem referência a sentimentos íntimos, enquanto isso, quando necessário, os atores podem apelar para supostos sentimentos ou vinculações afetivas, tudo isso fica a critério do indivíduo, sem regularidade nenhuma: podendo fazer referência à organização e falar em nome dela sempre, como se o papel desempenhado por ela para cada um ali fosse indefinível e portanto, infinitamente determinante. Inclusive, por mais rigorosa que sejam as escolhas teóricas, a permanência de um indivíduo nunca deveria ser vinculada em todas as instâncias da vida dele, de modo que todas elas devam se encaixar e ser explicadas pelos conceitos da instituição.

 

Por mais que eu ache importante o espaço para o erro e acredite que com o tempo os defeitos que me deparei aqui podem sim ter sido não-intencionais e possam vir a ser superados, não aceito conviver com o fato de que o custo desse aprendizado são os sentimentos e fragilidades criados a partir de uma exclusão.

 

Acredito que houve deliberadamente coordenação para criar uma situação artificial, nossos conceitos foram usados fora do contexto, não apenas num sentido retrospectivo mas para incitar um acontecimento falso, onde os indivíduos poderiam se esconder atrás da organização enquanto seus propósitos não precisavam ser colocados a claro. Nosso anti-humanismo não pode existir sem q algo de humano seja isolado e excluído de alguma forma, para haver essa oposição, já está em jogo um pressuposto de superioridade e de negação do diálogo.

 

Os indivíduos não respondem mais por si mesmos, toda a linguagem está contagiada e se apoia na existência da organização para funcionar, quando há desacordo sobre algum conceito nos deparamos com uma certa agressividade sem explicação. Ou o velho e simples método da ignorância. Acho que a chave está nessa relação entre a palavra que seguimos e a falta de reflexão de como ela soa para quem se coloca de fora, a ponto de descartarmos qualquer chance de estarmos indo num caminho destruidor.

 

Eu esperei o suficiente, tentei sinalizar na medida do possível. Não estou pronta pra servir como exemplo para ser estudado em nome da mesma instituição que alimentou as minhas falhas como se só aqui eu pudesse encontrar as respostas. Como se não houvesse área q o Ceii não pudesse recobrir.

 

Se tivesse que deixar o meu impasse para que os membros seguintes respondam, eu diria que se inscreve no sentido de distinguir o que fazemos no ceii de uma seita qualquer. E a homofonia foi apenas coincidência, mas coincidências podem ter muito o que dizer.

Nota #2 [16/09/2014] (RJ I)

Sabe-se que muitas pessoas deixam o CEII pela simples ameaça de um compromisso mais sério implicado pela exigência das notas. Sem levar em conta se elas tem razão ou não, cabe ao núcleo duro real-psicótico da organização decidir se esta política deve ser mantida a todo preço, ou se outra estratégia poderia ser aplicada, de modo a propiciar o engajamento de um maior número de pessoas. Quanto a mim, considero que as notas poderiam ser facultativas, para diminuir a pressão e a atmosfera de cobrança. Ganharíamos muito tempo e economizaríamos muitas discussões e conflitos, podendo ampliar a esfera de atuação do CEII, com maior acolhimento de participantes. Não há como forçar um engajamento imediato e a introdução de exigências para se ligar a um projeto original (e portanto, um pouco indeterminado) acaba inibindo eventuais adesões, ao invés de motivá-las.

Nota #7 [05/08/2014] (RJ I)

Em busca da resposta …

No último encontro, foi lida uma nota tratando da possível identificação do Evento por ordens lógicas excelentes. Mas, pela própria imposição do conceito deste, não foi bem sucedido por ser um campo aberto em que não se sabe de onde vem, para ou onde vai e se está ou não está ali.
Façamos agora as mais variadas perguntas que, desde o início da leitura do São Paulo, surgiram de diversas formas: O que é o Evento? Qual a sua operação? Onde o vemos? O que teremos de fazer para que ele surja? O Evento é o ser ou o não-ser reflexo do ser que pode tornar-se ser? É ou não é? Evento é milagre? Evento é Jesus?
Ao iniciarmos uma pergunta na nossa tradição ocidental moderna e cristiana, esperamos uma resposta. E sempre foi assim (?). Mas, se pararmos para refletir, essa Resposta necessariamente precisa sanar uma dúvida perguntal? A Resposta pode ser uma pergunta-reposta-perguntal-respondal. Qual é o problema? Talvez a física quântica tenha sido um primeiro passo para quebrar as situações grego-romanas (para não falar Aristotélica) lógicas das premissas identidadenão-contradição terceiro excluído: a Luz é ora onda, ora partícula e ao mesmo tempo onda-partícula.
Tudo isso, ou seja, esse caminho que fazemos (com o estatuto e com as particularidades de cada célula e cada organismo celular do CEII) é a constante reformulação da resposta em pergunta e vice-versa ou os ambos ou nenhum dos dois. Não seria isso a categoria orgânica complexa da militância?
Talvez tudo o que foi escrito acima sejam apenas divagações e a intenção de “destruir” o jogo de perguntas e respostas apelando para perguntas e afirmações soa, no mínimo, contraditória mas, mesmo assim, o caminho e suas possibilidades estão mudando…

Nota #3 [02/09/2014] (RJ I)

No último “CEII convida” em que recebemos a deputada estadual do Partido, Camarada Janira Rocha, tivemos uma ótima oportunidade para pensar um dos principais problemas políticos contemporâneos, e que aparece recorrentemente no Círculo: a questão da ação militante.
Diferente do que habitualmente percebemos em quadros parlamentares dos partidos de esquerda, a atividade militante da Camarada Janira é bastante ativa e vinculada aos setores mais depauperados da classe trabalhadora. De imediato, pensei: “Puxa, esta é a dirigente que o Partido estava precisando!”. Contudo, para nossa tristeza, o grupo comandado pela Camarada é constantemente criticado pelos setores majoritários do Partido no RJ, sendo alijado diversas vezes do aparelhamento partidário. Por que isso acontece?
Segundo o relato dado pela Camarada no “CEII convida”, seu grupo político tem outro “cheiro”, um “cheiro” diferente dos grupos universitários que fazem a base do campo majoritário no Rio de Janeiro. Em miúdos: o grupo da Janira vem da classe trabalhadora mais pobre, de setores pertencentes à periferia, ao subúrbio e à baixada, e que por isso não teria a estética “juventude zona sul” que marca, por exemplo, a militância freixeana.
Do ponto de vista partidário, a saída para este impasse é bastante simples: o Partido tem que fazer o esforço de abrigar as diferentes perspectivas, os diferentes “cheiros”. Mas é aí que entra o problema: por que realmente essa mistura não acontece? Utilizando os teóricos que orientam o CEII, podemos ao menos elencar duas justificativas.
A primeira é ranciereana. A distinção estética classe média x trabalhadores pobres não é meramente acidental, mas ideológica. A luta de classe é sobretudo um luta na ordem do sensível. A dimensão estética é fundamental na partilha política-econômica do capitalismo. A partilha operada pela divisão de classe é comandada e sustentada por uma partilha das sensações, do que vemos no mundo, que tocamos nas coisas, do que cheiramos no convívio com as outras pessoas. O arranjo sensível já traz a marca da divisão de classe. Como nos diz o filósofo: “Uma partilha do sensível fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas.  Essa repartição das partes e dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividade que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam nesta partilha” (A partilha do sensível, p.15). Nesta via, o Partido precisa de um processo contínuo de crítica de sua partilha interna do sensível, sob pena de lutar em prol de uma causa que sequer seus militantes tem condições cognitivo-sensitivas para suportar.
E a segunda é zizekiana. Se uma das críticas que são feitas ao grupo da Janira é que este é ideologicamente vacilante, deveríamos antes nos perguntar de onde vem esta exigência de “convicções firmes”. Afinal, uma das características do senso comum é justamente ser indeciso em suas posições políticas, e por isso acaba assumindo por vezes as posições da ideologia dominante. Então, o campo majoritário do Partido acusar o grupo da Janira de ideologicamente vacilante não é dar um tiro no próprio pé? Uma das funções do Partido não é justamente encarar o senso comum vacilante? Será que esta acusação não é pautada muito mais por uma fantasia sintomática da esquerda que idealiza a classe trabalhadora com o intuito de fugir de seu real objeto de desejo, a saber, a Revolução? Afinal, quem tem medo da classe trabalhadora?

Nota #1 [12/09/2014] (RJ-II)

Os acontecimentos dessa semana colocaram em cheque algumas faltas de acompanhamento que sustentariam nossa segurança e estabilidade. Qual a parte do regulamento do CEII e principalmente em relação ao financiamento que nos lembraram de toda a vulnerabilidade de nossa existência? Não me sinto tão à vontade para arriscar avaliações muito ambiciosas, de primeira já me sinto responsável por não ter tomado parte e me informado sobre como se estabelecia a administração de nossa verba, por ter me apoiado na garantia desses recursos e não estado mais próxima para pensar de que maneira os investiríamos. Eu sabia q era uma questão polêmica e achei que não tinha com o que contribuir, sendo que agora sou obrigada a reconhecer a importância das funções sustentadas pelo contrato entre o nosso grupo e a instituição disposta a nos bancar. Quando se trata de aceitar essa dependência e vínculo institucional, inicialmente eu tendo a ser contra, tendo a achar q o grupo precisava criar a sua maneira autônoma de se haver com as obrigações de entrar no sistema. Não acho que caiba procurar as causas de essa bolha ter explodido debaixo de nossos pés, pelo menos não imediatamente. Precisamos fazer valer a crença na unidade do CEII e agora ainda mais a sua meta, seu posicionamento perante o meio de onde partiu. De certa forma é um renascimento, início de um novo ciclo, talvez seja de extrema importância que compreendamos como contornar essas crises inventando soluções únicas em analogia com métodos de manipulação capitalistas. Estou ciente de que meu texto não ajuda em muito, é apenas um mísero somatório de palavras que procuram uma forma de não desistir. Tenho que me conformar com o limite temporário que minhas ações tem e por outro lado, entrar em contato com a força que as movimenta e continua trazendo de volta a necessidade de reinventar, de resistir. Nem que tenha q ser uma resistência no sentido mais vago e com toda a imposição de existir sem saber pra onde vai.

NOTA #3 [25/07/2014] (RJ II)

Há quatro “tipos” de sujeito em Badiou:

1) O Sujeito Fiel: a partir da fidelidade ao Evento, o Sujeito Fiel “retorna” à Situação e produz um novo Presente.

2) O Sujeito Reacionário: a partir da negação ao Evento, o Sujeito Reacionário produz uma “mudança nem tão nova”.

3) Sujeito Obscuro: a partir da negação do Evento e do Corpo, assume a completa impossibilidade da mudança.

4) Sujeito Ressurreto: retoma as ideias emancipatórias preconizadas num “passado” (que, para o Sujeito Ressurreto constitui-se como um presente).

Nota #1 [16/09/2014] (RJ I)

Não soube concluir meu raciocínio sobre a proposta de um membro em pensar a permanência/desistência de participantes no CEII através do par “indecisos” e “convictos”. Sobre o caso concreto, da expulsão realizada pelo grupo recentemente, não acredito que essas noções tenham serventia. Objetivamente, não penso que a falha do membro em específico com relação aos dispositivos formais de inclusão no CEII [envio de notas] possa ser computada à sua “indecisão” em relação ao Círculo – em verdade, sequer imagino que sua saída deva ser computada a ele em si.

Para mim, num sentido oposto, nos últimos meses, poucos membros demonstraram maior convicção em relação aos dilemas que enfrentávamos. Pode-se refutar que nossa associação ao PSOL ou os referenciais teóricos que usamos tenha sido, de fato, a causa para seu descompromisso com as notas – acredito que sim, não o foram. Mas insistiria, apesar do desacordo com os outros membros, que localizadamente aí se vocalizou um [decisivo] desconforto com os métodos utilizados por nossa organização – seja pela convicção da ex-membro que faltaria aos filósofos do CEII algo que somente a tradição marxista clássica seria capaz de prover; seja pela convicção da ex-membro que os limites do PSOL como força política contribuíam para nossa deficitária militância.

Igualmente descarto como globalmente válida a tese de que a expulsão tenha se dado sem critério ou de modo froxo. Para mim, ao contrário, funcionamos desde o princípio como CEII no caso – fracassando ou não no modo de encaminhar a questão, mas o fizemos considerando os princípios do Projeto tanto quanto a situação. A meu ver, por outro lado, a questão que pode ser levantada é se o grupo ou um grupo atuou desse modo em relação ao processo. Parece-me óbvio que apesar de toda comunicação e discussão sobre o fato, poucos se mostraram afetados pelo caso – incluso o ex-membro. Apesar de discordar com um camarada ontem nesse quesito, compartilho com ele a ideia de que essa perda pouco implicou subjetivamente os envolvidos.

Acho interessante pensarmos em formas variadas de engajar as pessoas com o CEII. Sem dúvida, a nota não precisa ser considerada como critério definitivo de engajamento. Porém, diria que 1) a nota também tem como finalidade conduzir nossos encontros e 2) não acho que o critério de compromisso possa ser remodulado de acordo com os interesses prévios dos participantes – a meu ver, feito isso, lançaríamos por terra a ideia de que experiências coletivas contribuem para singularidade de cada qual e, ao mesmo tempo, reforçaríamos a ideia corrente de que o “desenvolvimento” dessa singularidade depende da manutenção daquilo que só ela pode nominar.