REFERÊNCIAS 09/12/2014 SP

CEII 09 12 2014 SP I

 

Aparelhos Ideológicos do Estado

ALTHUSSER, L. P. Aparelhos Ideológicos de Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998.

Conceitos de Evento e Mundo 

BADIOU, A. Being and Event. New York. Continuum, 2012.  

Tiquê e Autômaton / Real e Repetição: 

LACAN, J. Seminário XI – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 2008.  

Estádio de Espelho: 

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 1998.  

Bengalas Imaginárias: 

LACAN, J. Seminário III – As Psicoses. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 2004.

Complexo de Édipo e Dialética da Falta: 

LACAN, J. Seminário II – O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 2005.

Os Quatro (+ 1) Discursos de Lacan: 

LACAN, J. Seminário XVII – O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 2005.

Autômato e Mente:

PASCAL, A. Pensees. Penguin Classics; Revised edition , 1995.

Problematização da Reafirmação do Um Subjacente e o Vazio

ZIZEK, S. Alguém disse totalitarismo? São Paulo, Ed. Boitempo, 2013.  

Áudio da reunião: https://soundcloud.com/ideiaeideologia/ceii-sp-09-12-2014

NOTA #2 [18/11/2014] (SP)

Um problema crucial na compreensão de uma crítica à ideologia compreendida enquanto fantasia social refere-se a como se estrutura a relação dos sujeitos com a rede simbólica. O conceito de fetichismo de mercadoria, em Marx, significa que relações entre sujeitos e objetos é marcada por uma autonomia ideológica, no sentido de que aparelhos ideológicos possibilitam que relações entres pessoas sejam transformadas em relações entre coisas. Desse modo, há ai uma cisão entre pessoas e coisas.

A pontuação de Žižek é que se por um lado há a possibilidade de uma crítica anti-humanista, por parte de Althusser fundamentalmente, no sentido de um lugar privilegiado a uma dimensão do que seria o humano, uma leitura lacaniana reanima essa concepção marxista, pois as coisas se acreditam enquanto lugar de sujeito. Desse modo, as coisas acreditam pelos sujeitos.

A crença, portanto, não diz respeito a uma interioridade psicológica repleta de intenções e desejos, mas enquanto objetividade. Desse modo, não está no saber, mas no próprio fazer.Para zizek, algumas crenças só operam quando há uma certa distância do crente em relação a crença. Para que ela funcione, tem de haver algo ou alguém que acredite pela pessoa, um fiador, mas sempre deslocado.

Desse modo,a crença pode operar enquanto negação fetichista em funcionamento na ideologia. Desse modo, no funcionamento religioso, não é mais fundamentalmente necessário que eu acredite realmente, mas que por esse modo de comportamento já estar inscrito na cultura, então me comporto como se acreditasse. Desse modo, a operação na cultura seria justamente algo que se pratica sem realmente acreditar no que se está realizando. A virada realizada em relação a Pascal está justamente ai:  “Ajoelha-te, reza, age como se acreditasses- e a crença virá por si só”. No entanto, a lógica contemporânea é: “Você acredita demais, diretamente demais? Então se ajoelhe, aja como se acreditasse, e ficará livre da sua crença”. O sujeito, na relação íntima consigo, não precisa acreditar, pois a crença acredita por ele. Desse modo, delego a outrem a relação aos desejos íntimos, sem que seja necessário que haja mobilização de estados que íntimos. Desse modo, o axioma de Lacan “a realidade tem estrutura de ficção” demonstra que no próprio ato de encenação, de construção de uma realidade fantasiosa, é ai que operação o simbólico, pois “aqueles que não se deixam apanhar na ficção simbólica, são os que se enganam” segundo Žižek . O cínico, então, é esse que se atem a uma realidade que opera enquanto o que ele enxerga.

 

Nota #3 [02/12/2014] (RJ-I)

Segundo a crítica pós-moderna do cristianismo ( e da psicanálise ) Jesus teria iniciado um movimento de subjetivação da lei. “Não há que praticar o adultério, mas basta pensar nisso para incorrer em pecado”. Mas em que consiste, justamente, tal incitação à “subjetivação” do mandamento? De que forma essa premissa pode ser interpretada como algo de outro e diferente do que a consolidação do supereu e da “hermenêutica de si”? Enfim, como considerar a condenação do adultério, o sexismo e homofobia presentes na doutrina que prega o amor universal, independente de pertencimentos comunitários ou gênero ou cor da pele? É possível oferecer uma leitura não dogmática das passagens bíblicas apegadas a certos particularismos culturais? Gostaria de ver retomada essa questão.

Referência 02/12/2014 RJ-I

QUADROS.001

QUADROS.002

QUADROS1.003 QUADROS.004

Sobre o procedimento genérico:

ver encontro do dia 08/10/2013

Sobre a hipótese do contínuo, Cantor, Gödel e Cohen:

HALLWARD, P. On the development of Transfinite Set Theory em Badiou, A Subject to Truth – disponível aqui

-> ver apêndice: p.323-348

Sobre a teoria Freudiana das massas:

FREUD, S. Psicologia das Massas e Análise do Eu – disponível aqui

ver encontro do dia 28/03/2014

Audio da reunião: https://soundcloud.com/ideiaeideologia/ceii-rj-i-02122014

 

Nota #2 [02/12/2014] (RJ-I)

A última reunião foi marcada pelas questões de direção do CEII. Foi uma excelente reunião em que pode mostrar a situação (gestacional) em que ele mesmo se encontra. Vários projetos e ideias para o ano de 2015 começam a tomar forma…

Algo muito complexo devindo de uma lógica também muito complexa nos convida a pensar a questão da Lei em Badiou. Para isso, poderíamos pensar a partir de um filme recente, The Edge of Tomorrow, onde há uma certa lógica e funcionamento do mundo numa rede determinativa diferente da ordinariedade mundana ‘normal’. Ou seja, há (-de novo) quatro cenas importantes: 2 limites (sendo que esses limites tem um ‘começo’ e um ‘fim’ específicos de cada um), 1 o caminho para os limites (a estória a partir do ‘início’ até o ‘fim’) e 1 absoluto negativo transversalizado que aparece apenas como espelho reflexo negativado de um modo de caminho dentro de um limite.

Vamos tentar analisar no caso concreto:

O filme começa com Tom Cruise já adulto, mas a impressão que se dá é que a história começa do zero. Em seguida, há um certo apagão e um segundo ato, o campo de batalha… (primeiro limite) Depois, a história se desenrola e desenvolve  em direção a um fim (caminho entre os limites) até que o (aparente)Inimigo é vencido e acaba a história. Agora, há algo que nos chama atenção porque depois de todo o caminho acabar, começa um outro começo (um outro limite), mas agora de outra forma e de outro caminho. Na verdade, devemos deixar um pouco vago para não desanimar os camaradas que não assistiram ao filme, mas essa última dimensão revela a lógica do filme num emaranhado muito mais complexo (além do que a questão do tempo repetido, que na verdade não é repetido, e os demais afetos e romances inseridos no longa). Enfim, falamos disso para se ter a noção de que a Lógica de Badiou não é simplesmente uma transposição de conceitos comuns para a teoria dele próprio, é necessário um esforço muito maior e encará-la como um Sujeito Vivo, ou seja, um corpo que tem sistemas e autorreprodução e autodestruição também, uma autoemergência e autoimergência dentro das padrões autolinguísticos e autoeventais.

Ainda iremos tratar desse assunto com mais calma quando o filme estiver mais popularizado e mais antigo. Esperamos uma discussão dessa primeira tentativa de provocação.

Nota #1 [02/12/2014] (RJ-I)

TRABALHO FUNCIONAL E PRÁXIS

1. 11a tese de Feuerbach

Essa famosa tese não funciona apensa como um chamado à ação, mas a unidade da teoria e da prática, à praxis. A práxis, portanto, nomeia uma atividade onde tanto a prática quanto a teoria estariam em jogo. O desvio teoricista da práxis é chamado de dogmatismo (ex: crítica à Lenin como alguém que tinha a teoria como o que orienta a prática) – é considerada um desvio por re-introduzir a divisão do trabalho, sob domínio do trabalho intelectual. O desvio mecanicista da práxis, reduzindo a teoria ao segundo plano é chamado de “espontaneísmo” (ou mesmo de oportunismo).

2. Conceito filosófico de práxis

O Marxismo tomou de empréstimo da filosofia o conceito de práxis – o que não ficou claro com esse empréstimo foi a limitação de uma certa matriz de possibilidades que foi igualmente importada, uma limitação quanto às possibilidades de relação entre prática e teoria. O conceito marxista de práxis é indiscernível daquele de trabalho funcional, trabalho regido por uma função específica. A matriz aqui é a noção de trabalho vinda do pensamento filosófico, para quem o trabalho é sempre funcional.

O trabalho funcional é definido da seguinte maneira: trata-se de uma transformação dirigida de um estado de coisas levada a cabo por um agente ou por uma pluralidade de agentes de maneira organizada de acordo com um saber a fim de produzir um fim pré-concebido. Essa matriz oferece duas formas principais para descrever essa finalidade: de acordo com a função teleológica – isso é com o propósito imediato – ou de acordo com a função operacional – isso é, com o papel daquela ação num processo mais geral de transformação. Há uma dialética das funções operacionais e teleológicas, pois uma pode ser tomada pela outra, e uma, no fundo, depende da outra. Além do mais, é preciso considerar a escala da análise – micro ou macro – para de fato levarmos em conta o valor operacional ou teleológico de um dado trabalho funcional.

Outra opção importante na matriz do trabalho funcional é aquela que traz a tona o papel específico da prática. No nível micro, trata-se da resolução de problemas, no nível macro, da adaptação sistemêmica a um ambiente.

Vemos, assim, que o trabalho funcional nos lega todos os termos com os quais costumamos pensar o problema da práxis: trabalho, saber ou teoria, telos/operação, parte/todo, agência, necessidade, realidade.

3. Limites do trabalho revolucionário funcional

A concepção de práxis revolucionária normalmente associada a Lenin é justamente a de trabalho funcional: seu propósito é a revolução proletária, seu papel na dialética da História é trazer ao fim a época capitalista. Trata-se de uma prática organizada – seguindo a linha do Partido – e de acordo com um saber – a teoria Marxista. Ela tem também um agente – o Partido e sua vanguarda, e o proletariado como agente da história.

Existem dois problemas importantes na teoria da práxis como trabalho funcional.

Primeiro, se tomamos a teoria como dominante na unidade com a prática, então é impossível distinguir o trabalho revolucionário do trabalho técnico de tantas profissões que submetem suas práticas a um saber teórico, no qual baseiam suas técnicas. Se tomamos a prática como termo dominante, então nada distingue a práxis da prática das corporações, por exemplo, que incessantemente se adaptam à situação e às pressões externas para continuar sobrevivendo. Tanto a crítica da práxis que tornou-se doutrinária quanto a crítica da práxis que se tornou oportunista não fazem mais do que encontrar os limites já prescritos do seu próprio conceito filosófico de práxis. Segundo, o problema do direcionamento é também central. A práxis tem um autor, no sentido clássico do termo, seu autor é a história, tal como governada pelas leis da dialética e, como autora, a história dá à prática sua direção e sentido. A conexão desses dois problemas leva ao problema da autoridade sobre a praxis e da necessidade de reproduzir, dentro da práxis, uma certa relação assimétrica, de dominação de um pólo da unidade sobre o outro, relação assimétrica que acaba por se institucionalizar, seja como centralismo dogmático, seja como oportunismo, dependendo de qual pólo posicionar-se como “receptor” do direcionamento legado pela história como autora da práxis.

Em última instância, os limites da matriz da práxis são os limites da ontologia clássica.

4. A tarefa

Distinguir práxis de trabalho funcional. Trata-se de uma tarefa com quatro etapas:

  1. A práxis precisa ser subtraída de uma totalidade que lhe daria direção e sentido. Precisa ser uma teoria do trabalho sem garantia ou fundamento.
  2. A práxis não pode ter um agente privilegiado. A identidade dos atores não pode ser sabida antes da concretude da práxis.
  3. A práxis precisa ser subtraída de qualquer saber pré-estabelecido, doutrina ou conjunto de leis. Trata-se de uma práxis que não é a aplicação de uma lei.
  4. A práxis precisa ser subtraída de qualquer espécie de objetivo pensado como uma finalidade, com Bem, ou como realização de um papel. Isso não significa que se trata, portanto, de um trabalho “disfuncional”, mas sim de um trabalho “a-funcional”.

Resumo das primeiras páginas de Feltram, O. As Fire Burns, 2002 PHD Deaking University

NOTA #4 [02/12/2014] (SP)

Era uma vez uma sociedade que se dizia livre. Era uma vez, um lugar onde os indivíduos acreditavam que tinham poder de escolha. Eles iam ao restaurante MacDonalds e fiavam escolher o próprio lanche, escolhiam um entre os 12 lanches que o cardápio oferecia. Eles também corriam para as lojas de sapatos comprar o tênis da Nike assim que esse era lançado; gostavam de fazer filas nas frentes das lojas, pela madrugada a fora, para comprarem eletroeletrônicos; outros trocavam de carro a cada estação; algumas mulheres marcavam lipoaspiração para o verão acreditando na escolha de ter ou não mais gordurinhas localizadas. Esse faz de conta da pós-modernidade não deixa de ser uma variação dos antigos contos populares; eles partilham narrativas que reproduzem os valores culturais de geração para geração, além de trazerem a figura do herói e/ou da heroína que enfrenta grandes obstáculos para alcançar o final feliz. No caso, o homem moderno configura-se como um “anti-herói” ou herói às avessas (ele está confuso e angustiado). No fundo, ele não tem muita certeza se quer ou não se alinhar ao “mal”; ele diz que não se alinha, mas suas atitudes mostram o contrário, quando ele fica muito ansioso, sem saber para onde ir, ele recorre às compras e se deleita na adoração das mercadorias.

Muitos teóricos da linguagem ao analisarem a estrutura do faz de conta o classificaram como uma estrutura repetitiva, ou seja, uma configuração onde categorias narrativas se repetem, logo o autor apenas preenche algumas lacunas estruturais. Por isso, muitas das histórias dos contos de fadas são semelhantes, elas fazem parte de um modelo com um enredo pré-determinado. Essa predeterminação tem ficado cada vez mais visível também nas narrativas contemporâneas, apesar delas parecerem novas e com um enredo “moderno” e “non sense”. A repetição discursiva das narrativas nos leva a uma análise interessante da sociedade atual: o enredo, os personagens e as ações construídas. Por exemplo, no texto como “Marx inventou o sintoma”, de Slavoj Zizek ( a partir da página 312) entendemos o cinismo como forma de ideologia; entendemos que há uma lógica cínica regendo a sociedade e os personagens que nela atuam; essa lógica não mais força os participantes há uma submissão cega. Na verdade, muito do que se vê como atitudes de submissão são aceitas pelos participantes com certa docilidade.

Os personagens das histórias atuais, apesar de se saberem dominados, aceitam e ainda se dizem livres, atitudes que Zizek explica no seu texto como racionalidade cínica. No texto, entendemos a inversão perversa do: “Eles não sabem, por isso fazem”; nota-se que na lógica cínica a atuação é “Eles sabem, por isso fazem”. Por isso, torna-se importante entender porque o sujeito (pensando no individual e coletivo) tomando conhecimento da sua submissão e das ideologias em que está amarrado continua na mesma posição; afinal, qual a ilusão que se cria ao fazer que não se sabe aquilo que supostamente sabe? Instaurou-se na pós-modernidade um modo de viver ditado pelo “como se” ou ele sempre existiu?

O herói às avessas, como citamos no primeiro parágrafo, por exemplo, passa horas em frente aos aparelhos eletrônicos buscando preencher lacunas da história-vida que não consegue escrever, porque escrever é um trabalho de corpo e singularidade que exige quebrar a lógica da repetição para produzir algo novo, atingir uma diz-mensão. O sujeito então busca, por meios dos aparatos eletrônicos, a onipotência e a onipresença, isto é, modos de permane-ser. O consumo torna-se uma nova ordem do existir. A heroína (ou herói) também compra as imagens corporais de sucesso, as quais são vendidas pela mídia, e assim assume o próprio corpo como uma mercadoria. Achando-se livre, o sujeito entende que o corpo lhe pertence, mas não analisa como muitos discursos indicam que o corpo não deve ser aceito como é; deve-se constantemente corrigi-lo, muda-lo, transformá-lo. Na lógica atual, o corpo não pode se apresentar de forma real, com os efeitos do tempo, das enfermidades, do excesso de peso ou da ausência dele, dessa forma, criam-se imagens. Então, podemos compreender que a lógica do cinismo insiste no discurso do “Era uma vez…” repetindo estruturas e padrões de consumo que nutre a demanda do mercado: indústria médica, farmacêutica, cosméticos, etc., além de manter o sujeito na mesma posição de quem busca se preencher pelo excesso.

Felizmente, na literatura, em algum momento os poetas e prosadores resolveram inovar e reconstruíram estruturas diferentes do “Era uma vez”, criou-se então versos e prosas que faziam outro manejo das palavras e dos discursos, os personagens não mais atuavam na dicotomia vilão versus mocinho, por exemplo; a temática não era mais o ensinamento dos bons costumes e a pregação das lições morais. Os escritores perceberam que a literatura ultrapassava uma dimensão do simulacro da vida cotidiana, ela era intrínseca ao sujeita e por meio dela o sujeito se constituía. Para Badiou, o poeta Fernando Pessoa foi um desses invencionista que criou uma nova poética do dizer, Pessoa conseguiu criar algo novo, um evento para concepção badiouniana, uma vez que o evento interrompe a repetição. Entretanto, criar algo novo, articular um evento, exige do sujeito uma mudança de posição subjetiva, exige encarar a falta e o vazio de que nada está pronto e articulado (como os contos de fadas garantiam). Portanto, para que o herói às avessas possa sair do faz de conta é preciso que ele se aceite com as suas falhas; não buscando na mercadoria ou na imagem do corpo perfeito o preenchimento de suas faltas. É preciso rever-se nos versos pessoanos para compreender o vazio :

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo.

que ninguém sabe quem é

( E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a por umidade nas paredes

e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

NOTA #3 [02/12/2014] (SP)

“A crença, longe de ser um estado “íntimo” e puramente mental, é sempre materializada em nossa atividade social efetiva: a crença sustenta a fantasia que regula a atividade social”.

O que Zizek propõem na frase acima não é pouca coisa. O que está em jogo aí é que sem a crença, materializada nas coisas, não seria possível a organização da realidade social. Para demonstrar o que diz, Zizek recorre ao universo fantasístico de Franz Kafka, no qual todo o engodo burocrático, em que se encontram os protagonistas dos contos kafkianos, não é mera imagem fantasiosa e exagera da realidade social, antes “é a encenação da fantasia que está em ação em meio à própria realidade social”.

Isto é, o próprio tecido social está organizado pela fantasia ideológica materializada nas coisas por meio da crença. Zizek nos mostra que nas nossas ações diárias agimos de acordo com um como se ­­– a própria realidade social seria uma espécie de constructo ético baseado nesse como se, ou seja, neste sentido, a própria ética seria estruturada enquanto uma fantasia, o que mais uma vez, não é pouca coisa – nos sabemos que as instituições não cumprem o papel que deveriam cumprir, mas no nosso dia-a-dia agimos como se elas fizessem exatamente o que deveriam.

Fazendo um paralelo com o início do texto quando Zizek falava, se remetendo a Freud, da forma do sonho e como o segredo do sonho está localizado na própria operação do sonho e não escondido por de trás do conteúdo manifesto desse. Arrisco dizer que o mesmo cuidado é necessário para analisar a fantasia ideológica. Ou seja, está não é uma operação de mascaramento que precisamos desvendar para chegarmos à realidade social em sim, mas antes, e é esse é todo o esforço que o autor vem fazendo nas últimas partes que lemos, é preciso localizá-la no próprio funcionamento da realidade social. Portanto a fantasia ideológica não está no nível acima e escondendo a as relações sócias, ela é a forma como está última se dá e se organiza.

NOTA #1 [18/11/2014]

Após esmiuçar a máxima marxista “disto eles não sabem, mas o fazem”, Zizk dá um grande passo ao nos mostrar que a ideologia opera no fazer, no ato e não no saber, como acreditam alguns. Agora o autor se propõe a analisar outra formulação marxista também muito conhecida: “numa sociedade em que os produtos do trabalho humano adquirem a forma de mercadorias, as relações cruciais entre as pessoas assumem a forma da relação entre as coisas”.

Zizek diz que esta ideia marxista permaneceu em certo ostracismo nas décadas de 60 e 70 muito por conta do pensamento althusseriano, este desconsiderava a oposição presente no fetichismo entre sujeitos humanos e coisas, classificando-a como uma confusão epistemológica. Isto se justifica, pois a forma do conhecimento para Althusser se localizava na oposição ente “objeto real” e “objeto do conhecimento”. Zizek, mais uma vez, não poupa críticas ao francês, que neste caso, reside no fato de que, ao desconsiderar a “ordem simbólica”, Althusser não consegue perceber como, para Marx, opera a oposição entre homens e mercadorias.

Para tal, Zizek recorre a Lacan, e a “ordem simbólica” a fim de demonstrar que “ o sentido da análise de Marx é que as próprias coisas (mercadorias) acreditam em lugar dos sujeitos (…) os sujeitos já não acreditam, mas as coisas acreditam por eles”. O que está operando ai é justamente uma completa inversão da oposição entre interno e externo, ao se colocar a crença, quase sempre entendida como algo interno, como externo e o conhecimento, costumeiramente externo, enquanto interno. Está inversão, por sua vez, só é possível mediante a introdução da “ordem simbólica” na forma do pensamento.