NOTA #1 [15/01/2015] (SP)

Um dos elementos chaves para compreender a ideologia, segundo Zizek, é articular a realidade enquanto estruturada como fantasia. Desse modo, a ideologia não é um tipo de constructo de ilusão que construímos para lidar com a realidade, mas se não fosse pela construção da fantasia, a realidade não seria possível. Ou seja, não é que a ideologia reúna anseios coletivos que serviriam como guia para sentido da experiência humana, como se ela tivesse a capacidade de representar um anseio coletivo para lidar com um real traumático, mas a realidade é uma construção fantasiosa que permite mascarar o Real do nosso desejo. No entanto, Zizek formula um outro ponto fundamental da ideologia: apesar dela funcionar como mascaramento do Real, é necessário garantir um certo distanciamento. Assim, como afirmam Laclau e Mouffe, a Sociedade, enquanto funcionamento organísmico total, é impossível, pois o Real persiste em aparecer enquanto núcleo de excesso, e enquanto negatividade que não se pode dar uma positividade completa.

        A interessante formulação de Lacan é a de que existe possibilidade do sujeito, através da fantasia, obter algum tipo de resistência fora do grande Outro, o sujeito tornando-se um objeto da fantasia. Aqui a categoria de impossibilidade é fundamental. Desse modo, a ideologia é constituída enquanto impossibilidade como maneira de evitar o encontro com o Real. Isso quer dizer que ao mesmo tempo que é necessário a manutenção do foco na Coisa, é instríseco a necessidade de distanciamento desta, pois se aproximar demais da Coisa ela ganha formas de distorção e decomposição. A ideologia é que justamente regula essa distância produzida pela fantasia, com a intenção de evitar o Real do impossível e de seus aspectos traumáticos.

NOTA #5 [08/01/2015] (SP)

Resposta final de Pascal: “abandone a argumentação racional e simplesmente submeta-se ao ritual ideológico, entorpeça-se repetindo os gestos sem sentido, aja como se já acreditasse, e a crença vira por si só.”
A resposta pascalina é aterradora. Não é porque as pessoas queiram ou não queiram, decidam ou não decidam. Não se trata disso. Trata-se da manutenção da ideologia em um nível pouco esperado, o nível cru das práticas sociais, da repetição de hábitos, gestos e rituais. É precisamente ai onde a ideologia se manifesta e se reproduz, nesse ponto do cotidiano despretensioso, do “como se acreditasse”.
A noção de Pascal, bem-quista por Lacan, diverge da noção de Althusser, em Aparelhos Ideológicos de Estado. Pois traz a noção de que a interpelação ideológica, ou seja a submissão dos indivíduos à ordem simbólica de seu tempo, nunca é um processo completo, uma “queima perfeita”.
Sempre há de sobrar um resto, um excedente. Que longe de impedir o efeito ideológico, justamente é a carga necessária para seu efeito completo. “e precisamente esse excedente não integrado de trauma sem sentido que confere a Lei sua autoridade incondicional;
É o trauma sem sentido, que confere a lei sua autoridade incondicional. E é justamente por escapar ao sentido ideologico, que ele pode ser seu sustentáculo, através da estruturação de seu gozo.

NOTA #4 [08/01/2015] (SP)

“A leitura behaviorista do “costume” pascaliano perde de vista é o fato crucial de que o costume externo é sempre um esteio material para o inconsciente do sujeito”

        A distinção que Zizek e Lacan fazem em relação à tendência behaviorista de Pascal, na pressuposição de que a crença é condicionada por comportamentos factuais, é justamente de que a crença é anterior à própria crença. O interessante das formulações lacanianas é uma construção antropogenética do aparelho psíquico. Desse modo, não é um eu puro, mas completamente imerso no universo de identificações que forma o sujeito. Desse modo, o inconsciente é externo justamente porque é formado nessa relação que o sujeito estabele com o outro. No entanto, como pensar nisso sem uma redução alienante?

Em Tiquê e Autômaton, a formulação lacaniana é que o fundamento da experiência humana é o encontro, mas este é essencialmente faltoso, pois há ai um real que “escapole”. O Real é o conceito fundamental para pensar essa questão, pois aparece enquanto núcleo traumático e enquanto impossibilidade de total positivação. Esse encontro do real(tiquê) está para além de uma formulação que acontece no campo da consciência, que insiste na condução da experiência a partir do princípio do prazer(autômaton).

 

NOTA #5 [16/12/2014] (SP)

A unica obediência real das crenças, ou das ideologias, é a obediencia externa, e nunca a livre vontade interna.
Segundo Pascal: “As provas convencem apenas a mente, o hábito fornece as provas mais solida, e aquelas em que mais se acredita. Ele dobra o automato, que inconscientemente leva a mente consigo.”
É precisamente por isso que Lacan encontrou em Pascal a primeira referência de sua concepção do Significante, essa máquina, esse automato, que atrapa os sujeitos em sua rede simbólica.
A lei, só pode funcionar sob uma obediencia externa. Mas, não simplesmente com as razões ideologicas que os sujeitos têm para si, como justificativa para aceitarem e cumprirem as leis. Na verdade, isso só ocorre mediante a obediencia ao “Mandamento, na medida em que ele é “incornpreensivel”, não compreendido, na medida em que conserva um caráter “traumatico”, “irracional”.”
É esse caráter incompreensivel da Lei que vincula seu cumprimento. Pois esse movimento “recalca” justamente a verdade do Mandamento, que é o seu cumprimento compulsório, por necessidade, e não porque é verdade, ou justa.
Isso se aproxima das conclusões da teoria marxista do direito, precisamente quanto à ideologia jurídica. Pois a ideologia não é só uma ilusão, uma fantasia completa sobre a realidade, mas justamente essa carga oculta por detrás da Lei, esse caráter incompreensivel, traumático. Por exemplo, somos todos iguais e livres, porém na verdade, somos iguais perante a lei e somente perante ela, e livres para nos vendermos como mão de obra no mercado de trabalho.
Então, toda lei parece simples, parece um simples texto, mas para que funcione e seja obedecida, é necessário esse excesso traumático, ou essa falta, essa irracionalidade.

NOTA #6 [02/12/2014] (SP)

“O sentido da análise de Marx é que as próprias coisas(mercadorias) acreditam em lugar dos sujeitos: é como se todas as suas crenças, supertições e mistificações metafísicas, supostamente superadas pela personalidade racional e utilitária, se encarnassem nas relações entre as coisas. Os sujeitos já não acreditam, mas as coisas acreditam por eles”

A premissa althusseriana, ao tratar dos aparelhos ideológicos do Estado, é fazer uma divisão entre pessoas e coisas. Isso quer dizer que a relação alienante com as instituições maneja o modo de ação do homem na coletividade, e a ruptura com a ideologia  seria através da ação do indivíduo, ou seja, quando o sujeito olha para si e reconhece-se dominado, ai ele pode fazer uma espécie de ruptura. No entanto, Zizek, a partir da discussão sobre a crença, faz uma inversão no pensamento althusseriano, pois não há uma interioridade psicológica na crença, como se para acreditar fosse necessário passar pelo crivo da verdade, mas as coisas acreditam pelos sujeitos. A crença, na verdade, é fundamentalmente externa, incorporada no procedimento em que as pessoas a realizam enquanto “costumeiro”. É assim que funciona o inconsciente, pois não que ele seja como uma metafísica kantiana, em que existe alguma coisa que é inacessível à experiência humana, mas o inconsciente é externo, à medida que ele se dá somente no laço social.

NOTA #3 [08/01/2015] (SP)

Pascal vs Skinner

Diante do argumento pascaliano a respeito da crença, Zizek distingue o “costume pascaliano” do método comportamental (behaviorista) por meio de um movimento paradoxal de uma crença específica que ocorre antes mesmo da própria crença, ou seja, “o sujeito acredita sem saber, de modo que a conversão final é meramente um ato formal, por cujo intermediário reconhecemos aquilo em que já acreditamos”. O que Zizek quis dizer é que a leitura “behaviorista” que podemos fazer do dito “costume pascaliano” é problemática devido ao fato de que o costume, externo, pode ser considerado um “apoio material” diante do inconsciente do sujeito. Em outras palavras, pode-se dizer que a “máquina externa” não é necessariamente externa, mas sim o local em que o rumo de nossas crenças é decidido previamente.

Para crermos segundo Pascal, afirma Zizek, devemos abandonar a argumentação racional e nos submeter a um tipo de ritual ideológico (por meio do “mecanismo de transferência”, ou seja, por uma suposição de uma verdade da própria Lei), reproduzindo gestos que aparentemente são sem sentido (racionalmente falando), de modo a agir como se já acreditássemos em tal coisa, pois “a crença virá por si só”.

REFERÊNCIAS 15/01/2015 (SP)

15-01-2015

 

O Real, a Coisa e a fantasia

LACAN, J. Seminário VII – A ética da psicanálise. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 2008.  

Aparelhos Ideológicos do Estado

ALTHUSSER, L. P. Aparelhos Ideológicos de Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998

Fantasia e ideologia – O enigma no/do Outro

ZIZEK, S. Alguém disse totalitarismo? São Paulo, Ed. Boitempo, 2013.

Fantasia e Objeto Petit a – Lógica do Não todo

ZIZEK, S. Menos que Nada São Paulo, Ed. Boitempo, 2013.

Fantasia e Objeto Totalitário

ZIZEK, S. O sublime objeto da Ideologia São Paulo, Ed. Jorge Zahar, 1992.

Constituição Transcedental da realidade

KANT, Imannuel. Crítica da Razão Pura São Paulo, Nova Cultural, 1996a. 


Parabóla da Lei e Mais-Gozar na Burocracia

ZIZEK, S. Em defesa das Causas Perdidas São Paulo, Ed. Boitempo, 2011.

KAFKA, Franz – O processo, Ed. Martin Claret, 2010

Áudio da Reunião: https://soundcloud.com/ideiaeideologia/ceii-sp-15-01-2015

NOTA #4 [16/12/2014] (SP)

No enunciado “a lei é a lei” temos um fato “lingüístico” curioso, qual seja, o sujeito e o objeto da frase coincidem. Ou seja, o importante da lei é o fato dela coincidir integralmente “consigo mesma”. O que se perde nesta dimensão é justamente a divisão que Lacan traçou sujeito da enunciação e sujeito do enunciado.

 Quem é, afinal, o enunciador da lei? O fato é que uma resposta sempre tem de ter um caráter mítico (como o pai primordial freudiano) que esconda a necessária violência da imposição da lei, de uma ordem simbólica ao caos pré-ontológico do Real.

 Curioso é ter em mente que, por razões estruturais, o “emissor” da lei não está sob o jugo da lei, como seu enunciador, ele pode tomar uma distancia reflexiva da própria lei e dar a lei qualquer conteúdo. Existe nisto também algo da relação entre S1 e S2, o significante-mestre e o cadeia de conhecimento. S1 sempre está em excesso ou em falta em relação à S2, os dois nunca podem, estruturalmente, coincidir.