NOTA #1 [12/02/2015] (SP)

“[…] é somente no sonho que chegamos perto do verdadeiro despertar -isto é, do Real de nosso desejo”.

A realidade para Lacan, diz Zizek, não é uma ilusão. Sempre há um “núcleo sólido”, alguma coisa que existe e que não pode ser reduzida a uma mera ilusão. No entanto, a única forma acessarmos esse “núcleo”, que diz respeito ao real, é por meio do sonho, pois em estado de vigília, a nossa “realidade” não é nada senão a consciência de nosso sonho.

É somente no sonho que alcançamos a estrutura que determina nosso modo de ser e agir na “realidade”. A ideologia nada mais é que um construto que nos impede de vermos a realidade desta operação. Para Zizek, a “única maneira de romper com o poder de nosso sonho ideológico é confrontar o Real de nosso desejo que se anuncia nesse sonho”. A pergunta que deve ser feita, portanto, é: como fazemos isso? Já que esse “construto ideológico” sempre encontra seu limite na experiência cotidiana porque é incapaz de transpô-lo?

Uma ideologia só “nos pega” para valer quando não sentimos nenhuma oposição entre ela e a realidade -isto é, quando a ideologia consegue determinar o modo de nossa experiência cotidiana da própria realidade.

NOTA #6 [16/12/2014] (SP)

O romance O Processo (1925) de F. Kafka conta a história de Josef K., personagem que, prestes a completar 30 anos, é preso em sua casa sem qualquer explicação sobre a acusação que lhe cabe. O narrador logo de início assim situa o leitor diante da situação

Alguém devia ter caluniado a Joseph K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal, foi detido certa manhã…(p.17)

Logo, a rotina de K. é alterada por uma prisão incompreensível de um crime não revelado – Kafka apresenta nesse romance situações que parecem insólitas e anticonvencionais do jogo entre Lei e Direito, no entanto, elas são a encenação da realidade no seu grau máximo de entendimento de um sistema perverso.

A ordem jurídica que condena K. é absurda e autoritária, e, em vão, o personagem busca saber qual instância o condena e principalmente qual crime/ato cometeu para ter sido condenado. Em meio à burocracia e aos discursos por vezes inacessíveis, o narrador mostra um sistema do qual não se consegue sair, apesar das tentativas lógicas e racionais de K. A resolução da saída enigmática desse sistema se faz por meio da Lei, porém ela se mostra inacessível e o personagem é informado de que a culpa atrai a Lei; logo se ele atraiu a atenção da Lei deve ser culpado, sem muitos questionamentos. Por esse jogo de palavras: Culpado versus Inocente; Estado versus Direito, Lei versus Homem, encontramos no texto a possibilidade de um conhecimento reflexivo e atemporal sobre o que é a crença em relação à Lei. Afinal, o que vem ser a Lei? Como se faz para atingi-la? Quem dita as regras de comando e aplicação da Lei?

No trecho ‘A “Lei é a Lei”’ do texto “Como Marx inventou o sintoma?”, Zizek explora que a Lei está materializada na crença, sendo que a crença sustenta as fantasias que regulam a realidade social. Por exemplo, percebemos em nossa sociedade várias crenças que são materializadas no consumo exacerbado, nas relações amorosas, nos padrões de beleza, nas religiões, etc., e essas crenças atuam na lógica da encenação da fantasia, do “como se”- “(agimos como se acreditássemos na onipotência da burocracia, como se o Presidente encanasse a Vontade do Povo, como se o Partido expressasse o interesse objetivo da classe trabalhadora, etc)”. Zizek afirma que o romance “O Processo” não extrapola os limites da percepção da realidade, o excesso do conflito entre Lei versus Direito, que passa o personagem Josef K., é “ a encenação da fantasia que está em ação em meio à própria realidade social”, o que parece excesso no romance é o que nutre o funcionamento libidinal da lei transformada em burocracia.

No romance, o personagem principal fica envolvido em uma teia de confusão de um sistema sem saída, com regras pré-estabelecidas e sacralizadas, mas que pouco se sabe sobre elas. O sistema parece funcionar sozinho e os funcionários figuram-se como máquinas programadas, cada qual com a sua função. Não compreendendo o que está acontecendo, o personagem percebe que entender a Lei é praticamente impossível, ela é inacessível e silenciosa, dessa forma, cansado e resignado, então K. se submete a ela e a burocracia afirma seu caráter de Onipotência.

Sendo onipotente, obedecemos a Lei “porque ela é a lei”, em um círculo vicioso de autoridade, como o rei que só é rei porque os súditos colocam-no como rei e sacralizam o seu poder. Temos, então, os súditos, assim como Josef K., e demais condenados pela lei, como seres despersonalizados em um processo que desconhecem, mas aceitam como natural. No romance, Josef K. enfrenta claramente o poder que não tem face, que se dissimula e se faz representar pela dita Lei. Todo o seu processo de condenação é desconhecido, Josef K até tenta esclarecer os fatos por meio de perguntas, interroga sobre o mandato de prisão, exige conhecer as instâncias que o condenam, mas recebe como resposta que não é da competência dos agentes responder esses questionamentos, como acontece muitas vezes nas instâncias políticas em que cada um joga a culpa para o outro, assumindo um desconhecimento sobre o próprio ato que executou.

Por fim, Kafka explora que o processo continuará existindo enquanto a crença continuar reconhecendo-o como tal – “A pergunta que me fez, Senhor Juiz de Instrução, se sou um pintor- aliás, não me perguntou, afirmou-o- é reveladora de todo o processo que me é movido. Poderá objetar, dizendo que não se trata de nenhum processo, tem toda a razão, pois só se pode falar num processo, se eu o reconhecer como tal.”. Sem a desconstrução da crença e sem resposta, diante da onipotência da Lei, o personagem resigna-se e ao final do romance é executado ‘como um cão’.

Nota #7 [13/01/2015] (RJ)

Proposta para uma nova “Crítica da Razão Instrumental”

 

Paul Valery, além de ser um dos maiores poetas do século vinte, era bem versado na obra de Marx (dizia ser um dos poucos que leu O Capital inteiro). Muito provavelmente por conta disso, em seu texto Reflexões sobre Arte ele apresenta uma teoria da produção e do consumo de obras de arte que é particularmente interessante:

“Afinal de contas, a obra de arte é um objeto, um produto humano, criado com o propósito de afetar certos indivíduos de certa maneira. Obras de arte ou são objetos no sentido material do termo, ou sequências de atos, como no caso do drama ou da dança, ou ainda evocações de impressões sucedidas, também produzidas por atos, como no caso da música. Nós podemos tentar definir nossa noção de arte por meio de uma análise desses objetos, na medida em que esses são os únicos elementos positivos nessa investigação: considerando esses objetos e progredindo, de um lado, na direção de seus autores, e, do outro, na direção daqueles que são afetados pelos objetos, podemos ver que o fenômeno da arte pode ser representado por essas duas transformações bastante distintas. (Nós temos aqui a mesma relação que prevalece na economia, entre produção e consumo). O que é extremamente importante é notar que essas duas transformações – a modificação pelo autor do objeto manufaturado e a transformação que a arte produz em quem a consome – são processos independentes. Daí se segue que devemos considerá-los sempre separadamente. Qualquer proposição que envolve os três termos – autor, obra e espectador – não tem sentido – pois nunca encontraremos os três termos juntos em uma observação”

Uma teoria da arte seriamente informada pelo marxismo precisa partir exatamente dessa afirmação: não há relação entre a produção e o consumo de arte. Qual o interesse de pensarmos a arte por esse ponto de vista? Para tentar justificar essa ideia, vou propor aqui o esboço de um programa de pesquisa: uma “crítica da razão instrumental” onde “instrumento” se refere literalmente ao equipamento usado pelos músicos.

O que eu proponho é um estudo dos gêneros musicais baseado na organização de sua produção e consumo. Esse estudo seria baseado não só na hipótese econômica proposta por Valery, mas também numa tese suplementar: a de que o papel social da arte hoje é de fazer a manutenção da figura do artista, e a figura do artista hoje é a da coincidência entre o produtor e o consumidor. O interesse desse estudo está na superação de um ideal pseudo-marxista que se esconde atrás dos avatares artísticos – a ideia de que a superação da alienação nada mais é do que a coincidência entre produção e consumo. Não é a toa que muitos marxistas têm como um ideal do trabalhador não-alienado o artista contemporâneo, que se expressa livremente, etc. Criticando o artista como um ideal, a gente abre espaço tanto para realmente a economia política da arte, por assim dizer, como para buscar modelos de transformação social mais adequados.

Tendo em vista essa perspectiva, podemos, por exemplo, re-categorizar os gêneros musicais. Minha primeira sugestão: a música pop poderia ser definida como qualquer produção musical onde o trabalhador é suposto também ser, no próprio ato de produção, o consumidor da música. Ou seja, música pop é aquela onde tocar um instrumento e ouvir a música tocada são movimentos coincidentes. A lógica da música pop é a de apresentar o músico como aquele que te ensina a ser afetado pela música que produz por ser ele mesmo a figura da coincidência entre a produção da música e a sua recepção: o artista pop tende a se vestir e se comportar como alguém que escuta a música que faz. Isso vale não só pra relação entre a produção e o consumo do ponto de vista de um músico só – vale também para a organização do trabalho, uma vez que cada músico é suposto também consumir diretamente a música que os demais trabalhadores produzem, pois escutam uns aos outros como um “fã” escuta o produto final. Essa poderia ser, inclusive, uma definição do conceito de “banda”: uma banda é uma forma de organização do trabalho musical onde os músicos consomem individualmente a música enquanto produzem. Isso pode parecer abstrato ou pouco útil, mas é uma definição que explica, ao invés de pressupor, a limitação técnica da música pop: o limite criativo da música pop é justamente aquele em que a produção da música, por conta da sua complexidade, iria atrapalhar o seu consumo simultâneo.

Isso se explica quando observamos, por exemplo, o outro extremo, a orquestra, onde vemos claramente que as relações de produção e consumo são separadas: o músico que produz está ocupado demais para ouvir os demais músicos como um consumidor externo – a relação que se estabelece entre os músicos é técnica e parte da produção – ou mesmo para ouvir o produto de sua colaboração. A imagem de um grande intérprete de piano, como Vladmir Horowitz, impassível frente ao instrumento, é talvez o grande exemplo dessa separação entre a produção e o consumo no fenômeno da música clássica – o intérprete, para ser capaz de produzir a música sublime que “manufatura”, precisa abdicar da fruição do que produz – abdicar não em nome da fruição de um outro (o intérprete não deixa de escutar a sonata para que outro a escute), mas em nome de si mesmo, da sua capacidade de produzir – deixar a fruição de lado é parte da técnica necessária para tocar certas peças de piano, por exemplo.

Mas seria mais interessante ainda explorar essa disjunção não tanto no caso da relação de um músico com o produto final de seu trabalho, mas no campo da organização do processo musical, na própria estrutura da orquestra como um conjunto de trabalhadores que, mesmo retirados da mera execução técnica de um trabalho manual sem espírito, nem por isso estão imersos na fantasia ideológica do trabalhador não-alienado. Quem sabe por essa via a gente possa mostrar a disjunção paradoxal que existe entre o trabalho não-alienado e o trabalhador não-alienado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOTA #2 [05/02/2015] (SP)

traduttore, traditore

As propostas para a CONFERÊNCIA-A IDEIA DO COMUNISMO foram debatidas em várias reuniões, houve algumas discordâncias entre os participantes sobre o tamanho do evento, mas os membros do círculo aderiram à ideia de promover esse evento importante, com a noção de que cada participante vai atuar conforme seu desejo e disponibilidade.

A magnitude do evento não está apenas em seu tamanho, mas nas interlocuções que serão estabelecidas e nos frutos produzidos, por exemplo, as gravações das conferências em formato final de um documentário como forma de propagar os efeitos da conferência mesmo após o término do evento. Outro ponto importante (para mim o de grande relevância) é o trabalho com as traduções das conferências anteriores que já foram publicadas pela editora Verso.

Como indica a epígrafe, o trabalho de tradução é um trabalho árduo, de comprometimento e responsabilidade, pois cada palavra traduzida pode significar uma traição em relação ao sentido original. É fácil lembrar as dificuldades de se traduzir as obras de Freud ou os textos de James Joyce, por isso é necessário todo cuidado na hora de traduzir. Certas ideias para agilizar o processo e debater os trabalhos traduzidos estão sendo tomados: 1) Os tradutores serão apenas do Círculo; 2) Faremos leituras coletivas das traduções nas respectivas células. A tradução feita pelos membros do próprio círculo é importante, pois os membros já têm conhecimento e afinidade com os temas discutidos, da mesma forma que a leitura dos textos servirá para a base de estudos do CEII. As leituras coletivas também facilitaram a discussão dos termos, normalmente, as “traições” nas traduções surgem na escolha das palavras para representar determinados conceitos.

No mais, é sempre importante lembrar os versos de Drummond e das mil faces das palavras sob a face neutra: “Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?”

NOTA #4 [27/01/2015] (RJ)

Levantou-se a dúvida sobre pagar ou não se pagar para assistir o evento sobre a Ideia do Comunismo.

Se não pagar fica mais democrático. O evento dura cinco dias. Se for pago pode emitir certificado.

Trinca entre editais, financiamento on line e custo na hora.

Lembretes: livro de notas.

2500 flyers do CEII para serem distribuídos.

Prazo de nota é até o meio-dia do dia do encontro.

Prazo para entrega da ementa para curso de verão do PSOl foi estendido até o dia 31/1, para quem quer dar uma aula lá.

Os cursos inscritos foram:

1-     Direito e Marxismo,

2-     Sartre, existencialismo e liberdade,

3-     Luckacs, abordagem dialética da consciência de classe rumo a organização do partido, parte 1, 2, 3

4-     A esquerda na trajetória histórica da sociedade brasileira,

 

Sugestão: dar um curso sobre a ideia do Comunismo no curso de verão

 

Votação da proposta regional sul até dia 02/2, ideias do evento, vídeo, pdf está disponível.

 

Programa de limpeza do CEII-RJ. Calendário com tarefas diárias: Canecas e lixos. Semanais: banheiro. Mensal e faxina da sala.

 

PLC 1 – Sugestão de inclusão como custo administrativo da sala, fora do orçamento do CEII.

 

Custo é aluguel e manutenção.

Custo de quem tirar seu tempo para ajudar a alugar a sala (taxa do corretor).

 

Marcação da próxima reunião do CEMARX, mesa formada BADIOU, divisão dos grupos em mesa BADIOU e mesa ZIZEK.

 

Reunião com PSOL do Rio.

 

A realidade existe para dar uma desculpa para a gente pensar, nunca o contrário. Nunca se perguntar o que vc tem que fazer pela realidade, mas o que a realidade pode fazer para seus ideais suprareais.

 

Efeito de semblante produzido acidentalmente pelo CEII, pode ser feito de proposito e direcionado.

 

Marcação da reunião global no começo de fevereiro para ter a estrutura da 5a. Conferencia sobre a ideia do Comunismo a ser realizada no Brasil. Para discussão de mesa e nomes e papeis das regionais na organização.

 

O critério do internacionalismo no CEII. Necessidade de passar pelas demais unidades do CEII.

 

Pontos de debate:

 

O CEII foi contactado por um grupo relacionado a um político para sua formação política.

 

Escolheu-se o coordenador para receber as inscrições do curso de verão.

 

Como funciona a estrutura deliberativa do CEII e o papel do gerente de projetos (pessoa com visão total e em condições de decidir prazos, realocar recursos, obrigação de fazer acontecer, remuneração, trata as pessoas com base na capacidade de produzir resultado, não está preocupado como as pessoas estão fazendo as coisas) e isso não se identifica com o CEII.

 

Subconjunto de cooperativas X distributivas. Ser reconhecido pelo que se fez ou isso é secundário diante do processo?

 

Como associar o jeito CEII de fazer as coisas e a administração da conferencia?

 

Relação de múltiplo consistente com o múltiplo inconsistente.

 

O qualquer-um e a maisunança:

 

O CEII só é todo mundo na dimensão virtual. Campo dos conjuntos do CEII com base num local. Criam-se subconjuntos. Na hora da decisão não é com base no conjunto, mas no plano virtual que se decide.

 

Contam-se os subconjuntos com base local e com base em tarefa, no trabalho: subconjunto de prática teórica. Pega membros do conjunto e joga no subconjunto, cujas decisões são realizadas também no espaço virtual. Decisões pelo critério de tempo e com características binarias.

 

Sugestão: Decisões cristalizadas num “idiota”, escolhido por loteria e rotativo. Para que algumas decisões não sejam remetidas ao espaço virtual.

 

Cada subconjunto teria autonomia e informaria seu custo e planejamento ao “idiota”. Cujo papel é verificar se o pessoal está fazendo o que disseram que faria. O ponto de vista da totalidade é garantido mas pode ser ocupado por qualquer um. Tempo de dois meses de mandato e seriam 7 pessoas até a conferencia. Algumas matérias o qualquer-um retornaria para serem decidias pelo plano virtual.

 

Relatório da regional norte está disponível no site.

 

Apresentação do texto:

 

Texto sobre centralismo democrático de Nahuel Moreno (Troskista). Como aplicar o centralismo democrático? Aumentando a disciplina na cúpula e a democracia na base. O partido nao deve estar preocupado com cobranças sobre se o militante fez isso ou aquilo. A reunião do partido deve ser para se ouvir e discutir ideias. Nao deve ir para o partido como se fosse trabalhar, mas para opinar. Ocorreu uma mudança pelo stalinismo da concepçao de partido do leninismo, que levou a um aspecto monolítico dos partidos: onde todo mundo pensa a mesma coisa.

 

O comitê central: discussão deve ser feita na base e as decisões se dao na cúpula.

O grupo de organizadores tem funçao diferente dos dirigentes. Eles identificam os talentos e capacidades dos militantes para poder ajudar na consolidação dos projetos. A função do dirigente é identificar no corpo de militantes quais as qualidades e deficiências e fornecer as ferramentas necessárias para se melhorar as deficiências e as qualidades dos militantes.

 

O Partido serve para ouvir o que as pessoas querem, e organizar a distribuição de tarefas para realizar isso.

 

BADIOU: existe uma militância plural e o partido absorve o que é múltiplo, e trabalha sobre ela e produz uma orientação.

 

Em ultima instancia, uma operação que faz a passagem do múltiplo para o UM: Trabalho: operação que unifique o múltiplo criando uma unidade. Realizada através de uma mediação feita pelo partido. Conta por um: lei que da uma regra: para uma multiplicidade qualquer, vc escolhe o predicado e conta ela conforme esse predicado.

 

Múltiplo inconsistente => operação => unidade (fim em si mesmo ou etapa – meio para um fim maior) = múltiplo consistente produzido por um trabalho funcional: definido porque tem uma funçao – múltiplo que se sabe o predicado

 

Estratégia : caminho de transformação global – Táticas: decisões locais

 

Autores do CEII querem romper com essa noçao de trabalho funcional, já que o trabalho militante pode ter a mesma forma daquilo que ele quer combater.

 

Zizek: pulsão de morte,  existe uma dimensão das coisas que em vez de ir ao encontro de um objetivo, fica errando indefinidamente, e esse é seu trabalho

Badiou: trabalho com fidelidade,

Agamben: noçao de inoperatividade,

Ranciere: Mestre e o ignorante

 

Discurso grego (lugar) e judaico (pertencimento) se baseiam na identidade, atrelado ao problema da lei,  e o discurso cristão na indiferença, sem identidade mas com lei.  Já, o discurso místico é sem identidade e sem lei

 

BADIOU: Funçao cujo resultado nao seja um predicado. Aliança entre a lei e o sujeito que nao produza uma identidade, mas um múltiplo genérico, infinito que nao cabe no seu predicado: superabundância.  Sujeito associado a verdade.

 

Ao se pensar o múltiplo genérico na sua dimensão finita e localizada está-se pensando em sujeito, e quando se pensa na dimensão infinita está-se pensando em verdade.

 

A maneira de organizar o mundo dos conjuntos de modo a produzir um conjunto que embora nao adicione nada de novo a situação, nenhum predicado que nomeia tudo na situaçao, nomeia aquele múltiplo. É dito em excesso a situação.

 

Aposta do livro de BADIOU (Sao Paulo) é uma lei sem identidade, e portanto sem predicado.

 

Antes, o único modelo de regra que preservava a inconsistência estava no campo da poesia, e agora para alem da poesia, a partir das criticas jurídicas de Lyotard que vão se fazer ao paradigma filosófico, temos a matemática, como aquilo capaz de melhor apreender a inconsistência; regras consistentes que escrevem o inconsistente, sem precisar que as regras sejam elas mesmas inconsistentes.

 

Primeiro passo é se abrir mao do primeiro traço do trabalho funcional que é finalidade. Como se abre mao da finalidade? Abrir mao de uma concepçao finalista para uma evental. Quanto a estratégia não se baseia na  finalidade, mas no evento. E isso produz um novo objeto: ideia de que se pode apreender algo que aconteceu como um objeto (puro acontecimento). A ideia de que vc pode orientar-se por algo que acontece na sua dimensão de acontecer. Uma nova figura do real. O Evento como guia e nao a finalidade.

 

Na saida do paradigma trabalho funcional, a operação trabalho nao conta no produto do trabalho.

 

A estratégia existe para manter aberto o horizonte, porque o evento é o aviso de uma possibilidade. E a tática é que vai informar a estratégia.

 

Múltiplo inconsistente (Situaçao) –> Evento – Como operar? – Uma lei disjunta de uma identidade.

 

Sitio evental: numa situação organizada de acordo com uma situaçao capaz de completude, onde se produz um campo completo e um fechamento completo, sempre se produz um ponto que é comum a situação inteira.

 

Primeiro se garante uma dimensão universal interna a situaçao, universalidade do que pode acontecer. Garantia de imanência, e o que vier em seguida terá haver com todo mundo.

 

Singularidade: múltiplo dentro de uma situação, que nao apresenta nada, nao conta nada em baixo dele. Múltiplo na beira do vazio. A partir dali nao tem nada para se pensar. Se oferece como unidade mínima, sem conteúdo nenhum.

 

Que tipo de múltiplo é esse que uma vez entrando em jogo o evento, vai colocar em cheque a predicação? Qual o múltiplo ocupa o lugar de conjunto vazio (nome da multiplicidade inconsistente)?

 

No caso do múltiplo singular, vc só pode dizer a regra de construção dele, mas nao se pode predicar nada, pois nao sobrou nada para dizer.

 

O que é correlato a uma situaçao? A situação tem que conter algo interno a ela. A situaçao tem uma fundamentação qualquer indeterminada. Trazer a tona o que é indeterminado numa situação.

 

Necessidade de separar o lugar do evento. Assim, a declaração do evento é necessária.

 

Teoria subjetiva do inconsciente. O problema da lei e do pecado. Por que o desejo só existe com a lei?

 

Vida adâmica antes da lei (inconsistente).  Desejo sem objeto, ele mesmo é uma repetição. A lei fixa os objetos do desejo.

 

Dialética da lei e da transgressão é uma dialética que opera sobre o desejo, e relaciona o sujeito e o objetos. A causa do desejo determina o que se deseja.

 

De um lado a lei, obras e principio da identidade, e de outro, aquilo que o principio que opera é outro, em vez do princípio da lei, é o principio da graça. O que vc faz nao é o que é devido e nem aquilo que vai te dizer o que vc é.

 

O problema todo do amor é produzir uma lei que vai ter duas propriedades: 1- ter uma máxima nao objetal, que nao auxilia em nada a escolha de objeto; Máxima cujo operador nao produz o Um e, 2- a enunciação dependa da fé para ser compreensível: o engajamento é condição. Máxima pós evental. Só pode operar se o evento é condição, e produzir algo que nao é Um.

 

“Ama teu próximo como a ti mesmo” satisfaz essas duas condições. A ideia de que depois do evento vc se torna digno de amor. Como se faz para ser amado?  A questão nao esta no amar o próximo, mas no amar a ti mesmo. O que é o ti mesmo pós evental? Como vc se descobre pós-eventalmente? O que é esse sujeito que nao é o eu e de que modo vc poderá amá-lo de tal modo a poder universalizá-lo e reconhece-lo em todos os demais?

 

O Amor como força universal: Como transformar o ti mesmo numa regra operadora? Se eu me faço declarador de que há o evento, se eu reconhecer e declarar o acontecimento, de que modo isso opera para o próximo. Nao é do próximo para vc! Nao se trata de eu ter que acolher o próximo na medida em que ele é o próximo (ética da diferença), mas de uma ética de que no momento de que vc se tornou indiferente a ti mesmo, então, vc tratar os outros como vc trata vc mesmo, é perfeitamente cabível. O primeiro outro nao é o outro, o primeiro outro é vc, e, vc pós-evento é diferente!

Pergunta:

 

O evento, o acontecimento declarado P o sujeito que transforme um eu, em algo que ama a si mesmo, e que reconhece o outro como um “irmão”, isto é, a partir do momento que ele também declare o evento e se torna fiel a ele. Nao haveria um sujeito indenitário, mas evento. Partindo-se dessas premissas, se o acontecimento implica uma ruptura, o antes e depois dele, nao implica na formação de conjuntos identitários? Os daqueles que compõe o sujeito evental e aqueles que nao compõe, e aî estaríamos de novo identificados a uma identidade? Como o evento nao permite essa operação? A criação de um universal singular em que todos estão incluídos e ninguém fica de fora?

 

REFERÊNCIAS 19/02/2015 (SP)

CEII 19 02 2015 SP I

 

Aparelhos Ideológicos do Estado

ALTHUSSER, L. P. Aparelhos Ideológicos de Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998.

Conceitos de Evento e Mundo 

BADIOU, A. Being and Event. New York. Continuum, 2012.  

BADIOU, A. Number and Numbers. Polity Press, 2008.

Tiquê e Autômaton / Real e Repetição: 

LACAN, J. Seminário XI – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 2008.  

Objeto petit a: 

LACAN, J. Seminário XVII – O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 2005.

LACAN, J. Seminário XI – Os quatro conceitos fundamentais em Psicanálise. Rio de Janeiro. Ed. Jorge Zahar, 2006.

Fetichismo:

FREUD, S. O Fetichismo, Obras Completas. Ed. Imago, 1995.

Sobre Fetichismo da Mercadoria:

MARX, K. O Capital. São Paulo, Ed. Boitempo, 2010.

SAFATLE, V. Fetichismo. São Paulo, Ed. Civilização Brasileira, 2000.

Ideologia e Cinismo:

ZIZEK, S. Alguém disse totalitarismo? São Paulo, Ed. Boitempo, 2013.  

 Áudio da reunião: https://soundcloud.com/ideiaeideologia/ceii-sp-19-02-2015

NOTA #1 [05/02/2015] (SP)

A Ideia do Comunismo surge de fato como uma possibilidade para a celular São Paulo, começa a se observar um engajamento e investimento libidinal dos membros nas tarefas que necessitam ser realizadas. O importante é que mantenhamos a participação no círculo como ela sempre foi: na medida do desejo de cada participante. Pois, não ceder em seu desejo não é só fazer aquilo o que se quer, mas dizer não para o que vai contramão de seus anseios.