NOTA #2 [21/04/2015] (RJ)

Sobre a publicação de um livro em 2015

 

A palavra é uma arma e ela não surgiu com Gutemberg. É possível imaginar que muitos pensadores tiveram dificuldades de se ver reverberados nas diversas formas de linguagem. Foucault, Benjamin, Freud, Nietzsche e Marx entre outros, como seus comentadores do pós-estruturalismo francês, nos ajudaram a perceber melhor o percurso do poder que se exerce pela palavra, em sua forma oral, escrita e digital e por consequência, sua percepção visual, corporal, territorial, subjetiva etc. Ou seja, demonstraram a palavra como meio constante e também, patrona da comunicação, excelência que nos torna complexos.

 

Publicar um livro, hoje, não é um problema. De formas autorais sob demanda, por pequenas editoras online que só imprimem quando os leitores insistem na compra física, a editoras do porte como a Boitempo e a Cosac Naify, tudo vai depender dos canais e dos interesses de autor e editor. Além é claro, da possibilidade do digital. Por essa via, depende-se mais do público, do conteúdo e dos esforços de comunicação de quem publica. Há blogs que são livros e há autores que escrevem no word e publicam seus PDFs na rede. Fora, os que habitam o Facebook como um livro-diário social.

 

A materialidade mesmo do livro, seu peso, volume e até odor, capa e impressão, tudo isso é um fator para se escolher publicar e também, ler. E este é ponto principal e final. Constrói-se palavras de palavras e pensamentos-palavras e se confia na importância da leitura. É preciso buscar meios para que essa atividade, a leitura das palavras construídas em um livro, seja exercida. Sendo assim, uma editora que possa ter um perfil tanto acadêmico – que atraia para o conteúdo novos públicos, e de leitura de qualidade para pessoas fora da academia, seja uma grande ferramenta de disseminação. O importante, talvez, seria sua qualidade de distribuição e recepção e mais tarde, seu prestígio estético-visual.

Nota #1 [21/04/2015] (RJ)

Nota do dia 21-04 sobre o texto ‘Como começar do começo…de novo’ do Zizek.

O titulo do texto já descreve bem uma problemática que nós, enquanto (pretensos) militantes revolucionários e comunistas, não podemos nos furtar de fazer i.e. qual balanço fazemos das experiências históricas invocadas, legitimadas e associadas ao socialismo/comunismo? A ideia da hipótese (cientificamente falando) comunista do Badiou,  as sabias palavras do Samuel Beckett ‘Tente novamente, Fracasse de novo. Fracasse melhor’, as ideias do Lenin de pensar francamente os sucessos e fracassos da União Soviética e da necessidade de retornar ao ponto de partida apontam todos, de alguma maneira, para essa mesma direção. O ‘problema’ é que isso não encerra o debate, mas apenas o começa devido às inúmeras visões e respostas que podem ser dada a essa questão. E ai entra, em minha opinião, uma questão fundamental. A formulação de uma problema é tão ou mais importante que a sua resposta já que esse último é em grande parte o resultado direto do primeiro. O que eu quero dizer com isso? Por exemplo, o pensamento marxista, felizmente, vive e persiste em muito de nós e se manterá vivo enquanto for necessário. No entanto, devemos tomar o cuidado de usar os insights e ensinamentos de Marx como um ponto de partida e não como uma bíblia sagrada. Como um professor meu sempre fala: ´temos que usar as teorias para nos inspirar e nunca como uma camisa de força´. Eu digo isso por que eu acho que teremos que ir além das questões relacionadas à centralidade do capital, ou ao modo de produção capitalista etc. Se quisermos ser bem sucedidos, teremos, acredito eu, que integrar na nossa analise a problemática do Poder no seu modo mais geral e no seu modo mais especifico, as disputas entre unidades territoriais no sistema mundial, discutir e pensar francamente a relação entre Poder e Capital e como elas se relacionam e se relacionaram na construção do sistema atual que é interestatal e capitalista etc. Alguns autores que podem nos ajudar a pensar, nesse sentido, são o francês Fernand Braudel (considerado um dos maiores historiadores do século XX ) que numa obra fenomenal chamada ‘Civilização Material, Economia de Mercado e Capitalismo XV-XVII’ ele faz uma distinção entre Capitalismo e Economia de Mercado. E os escritos do pensador brasileiro chamado Jose Luís Fiori que desenvolveu a perspectiva do Poder Global para analisar e entender o sistema interestatal capitalista. Na sua perspectiva o Poder tem precedência logica em relação ao capital. Digo isso tudo, por que essas ideias podem ser importantes, se não, fundamentais quando tivermos, e teremos, que começar do começo de novo e novamente.

NOTA #11 [31/03/2015] (RJ)

Diante do sublime comentário o camarada 089 sobre o Thomas Piketty, restou-nos uma pergunta: como é possível um livro fazer e trazer tantas questões ao de ele estar sendo onipresentemente discutido?

Dessa complexa teia de fundamentos, podemos elencar alguns motivos/palpites para o seu Sucesso (que vão dos mais simples e engraçados aos mais desdobrados):
Comentários da primeira natureza:
a) o livro fez sucesso porque há um certo monstro invisível que domina as coordenadas acadêmico-institucionais e sabe a hora de colocar um assunto ou não dentro do mundo original (vide o filme OBLIVION);
b) fez sucesso porque há certos sujeitos que determinam um campo de discussão em prol de seus próprios favores, muito comum no discurso do histérico-pseudo-comunista que tudo é culpa de um grupo de capitalistas ou da grande mídia, como o PIG (vide o filme THEY LIVE);
c) diante do contexto de crises que assolam o mundo contemporâneo, o uso do vocábulo O CAPITAL [do século xxi] chamou a atenção para o trabalho que se propõe a desafiar Marx (subentendido que Marx estaria certo no século xix, mas que não estaria corretamente adequado no século xxi), além do alto uso de gráficos e indagações científicas economicamente formuladas (vide PRIMEIRO COMO TRAGÉDIA, DEPOIS COMO FARSA);
d) diante do contexto e casando com o artigo do Paulo Arantes discutido, parece que o tema não só ganhou relevância para o debate da esquerda (capitalismo, sua reprodução, crise cíclicas, superações e tudo mais) como também para o outro lado (“o capital fugiu de nosso controle, precisamos de medidas que não destrua nosso paraíso… É preciso estudar o Capital, mas Marx pega mal, vamos ler Piketty agora mais do que nunca). Talvez esses horizontes, em última instância, estão se comprimindo e chegando em negatividade tal que chegaremos num comunismo verdadeiramente real: Uma sociedade em que TODOS ESTAREMOS FODIDOS!

NOTA #4 [07/04/2015] (RJ)

O Tempo do Tempo

Ao adentrarmos no “Começar do começo, de novo”, percebemos como a questão temporal está intimamente ligada ao modo operativo-organizacional do nosso tempo. O artigo do filósofo Paulo Arantes contribui para a discussão (e a sua tese de doutorado Hegel: a ordem do tempo poderia ser inserida aí), a maneira de lidar com um movimento de mudança que seria transtemporal (funcionada em vários planos temporais – passado, presente e futuro) é, grosso modo, no mínimo interessante. Afinal, além de essas questões de não se preocupar (levar em consideração a temporalidade às últimas consequências para que o tema do tempo seja vazio, des-preocupado) com o presente, qual seria então o tempo do Tempo? Ou, para ficar melhor, como absorver essa carga de complexidade multifacetada e aplicá-la organicamente? Essas perguntas são feitas porque: a) se preocuparmo-nos com o tempo, perdemos a essencialidade contingencial da dimensão da vida (“fazer teoria e esquecer da prática”) e, apesar de estarmos atentos com os momentos, perderemos grande parte de um movimento que está acontecendo e que não levam como consideração principal o projeto para o futuro; ou b) ficar preso ao momento sem considerar a teoria temporal é falhar num tipo de organização que prepara o futuro para algo “novo”, isto é, procedimentalmente falando, não “arrumar a cama” para que o Não-ser transforme-se em algo atual. É evidente que não podemos de forma alguma preparar tudo e encaminhar as coisas para que elas realmente aconteçam num futuro, e por isso precisaríamos adicionar esse risco transversal nesses círculos ( a) e b)), lidar com algo sem cair no determinismo, na apostação progressiva, no não-fazer agora e no deixar-fazer (laissez faire) é o dilema, talvez, proposto para o Círculo (não só para o Círculo, mas é uma forma de dizer que poderíamos voltar cada vez mais nesses temas nas próximas reuniões).

NOTA #5 [26/02/2015] (SP)

Algumas pessoas ao pensarem sobre os avanços tecnológicos dos últimos tempos pensam também que esses avanços seriam os responsáveis pela “elevação do homem” e o fim das disputas de poder, das guerras, etc., de modo que o sistema de trabalho e as técnicas de produção seriam diferentes. No entanto, essa é uma análise rasa do sistema econômico e político no qual estamos inseridos.

Ao entendermos as relações de manipulação do sistema econômico e político, percebemos que a consequência de um sistema hierárquico e excludente como o capitalismo é a barbárie, logo os avanços tecnológicos incentivam ainda mais as disputas econômicas e políticas.

Para manter a ideia de “desenvolvimento”, o próprio sistema cria subterfúgios para desviar o olhar sobre o problema de base e diversos bodes expiatórios são escolhidos, o que gera mais exclusão em relação a certos grupos e culturas.

Então, há nessa rede de manipulação uma perversidade do sistema que se manifesta nas relações humanas. Desse ponto surgem questões sobre a relação entre perversidade e gozo. A perversão é um fazer gozar? É estando nesse gozar que o sujeito não percebe o excesso do sistema e se mantém agarrado às crenças?

NOTA #5 [02/04/2015] (SP)

Em sua fala, Susan Buck-Morss, pleiteia que as críticas produzidas e endereçadas à história são ações não sem consequências a essa, isto é, tal crítica carrega em si a força de, ao passo que analisa, transformar o processo histórico. Sem reservas, aponta como a pesquisa de Marx estava completamente envolta nesse processo e que essa foi capaz de “elevar-se acima do tempo”.

Iniciei esta Nota pretendendo ser mais ousado que a autora e reivindicar a pesquisa de Marx, não apenas como sendo capaz de incidir no processo histórico, mas como sendo um Ato Ético (no sentido lacaniano) que muda os rumos da própria história.

Mas, desisti, não sei ao certo se seria capaz de sustentar tal hipótese – ainda assim resolvi mantê-la aqui. Abri mão, pois outra coisa me ocorreu no toca a relação entre teoria e prática, e que acredito poder ser lido nestes poucos parágrafos que foram trabalhados do texto, mas que não deixa inteiramente de lado a noção de Ato.

A lacuna que parece existir entre teoria e prática – e que pretende ser superada pelo conceito de práxis – parece ser de ordem semelhante a que observamos entre ética e política: nunca se terá uma ação (prática/política) que esteja à altura de suprir suas expectativas éticas (teóricas). Para Lacan, e também para Zizek, o Ato é o que possibilita, não a transposição dessa lacuna, mas sua momentânea inexistência, por um momento, o instante que dura o Ato, há uma injunção entre ética e política em que essa lacuna é suprimida.

As tentavas de realizar tal injunção por meio de uma nova teoria que se “adeque” ou descreva melhor a realidade ou por novas práticas que pretendam atingir o que de fato o que foi proposto pela teoria, são em vão. A única garantia é a de seu fracasso.

Esse desencontro intransponível por esses meios, em partes, se deve por se negligenciar algo que a autora aponta: o efeito que a própria crítica produz na realidade; ou seu inverso. O erro de tais tentativas está em desconsiderar o efeito que a própria ação – teórica ou prática – produz na realidade. Para recorrer a Zizek novamente, a ilusão reside em tomar a relação entre teoria e prática como uma totalidade completamente previsível, em que todas as possibilidades já estão datas e são resultados certos de medidas ou conjuntaras específicas.

Felizmente a Coisa é mais complexa que isso e há possibilidade de novo, essa vem justamente do que os obcecados pela distinção de teoria e prática faltam em considerar.

NOTA #4 [02/04/2015] (SP)

Ao que parece, pela leitura dos primeiro parágrafos da fala de Susan Buck-Morss, ela caminha para apontar para os problemas presentes na relação entre teoria e prática. Para tal, se vale de certos desdobramentos do processo revolucionário russo em que evidenciam um descompasso nessa relação.

A autora toma o sucesso da revolução socialista na Rússia, um país atrasado em termos industriais, para demonstrar como a prática obrigou a teoria a curvar-se perante ela. Uma vez que o resultado de tal processo apontou que o elo mais fraco do capitalismo eram os países em desenvolvimento, que viviam um processo de industrialização tardia, neles as revoluções socialistas obtiveram sucessos práticos (como é foi o caso de Cuba e Vietnã, por exemplo) e não, como previa Marx, nos países em que o capitalismo já estava consolidado.

Pelo que pude compreender, para dar conta da difícil articulação entre teoria e prática, ela reivindica certo protagonismo aos conceitos de tempo e espaço em Kant – viés ilusoriamente tido como superado pelos modelos de crítica do século passado. Como ela pretende realizar tal articulação ainda está confuso para mim, talvez isso se torne mais evidente com o transcorrer do texto.