NOTA #3 [11/06/2015] (SP)

Podemos nos perguntar: se há algo de problemático na constituição do que seriam os direitos humanos, de que ordem é exatamente esse problema? Em primeiro lugar, categorias como liberdade e igualdade são problemáticas desde seu surgimento, pois compreendem uma forma de governamentalidade do Estado a partir de critérios de desigualdade, opressão e exploração. Além do mais, o aspecto propriamente problemático, é o fato dos direitos humanos referir-se à forma de inclusão da diferença num aspecto de universalidade justamente realizando seu contrário: o modo como a diferença é colocada já implica que essa cisão entre o cidadão com direitos e o cidadão sem direitos não será dissolvida, pois por mais direitos que se criem o problema é ainda mais estrutural. Esse caráter mais problemático dos conflitos sociais refere-se a compreensão de que problema não está no Todo, num conjunto de homens iguais que exclui sua negação. O problema fundamental, pelo menos para o comunismo, é radicalizar a própria dimensão da exclusão, pois esta, para além de configurar-se por um caráter étnico, de gênero etc, é o que o verdadeiro reconhecimento não está em apontar em direção à dimensão da totalidade, mas olhar para a própria indeterminação. Desse modo, um evento verdadeiramente comunista é aquele que inclui uma dimensão anterior desse problema dualista entre o cidadão universal e sua exclusão.

NOTA #5 [30/04/2015] (SP)

Segundo a célebre passagem de Freud, a revolução copernicana foi a primeira das ondas científicas, que desde a antiguidade, abalaram a imagem egocêntrica e vaidosa do homem. Nessa o astrônomo, através de seu instrumento técnico, pôde nos demonstrar como os astros não giram em torno de nós, mas nós em torno deles. Charles Darwin por sua vez, rompeu com a imagem do homem como um animal divino, separado dos demais e criado especialmente por deus, e impôs à vaidade humana a condição de animal inserido em um largo processo de evolução genética, cujas leis não se diferem das que regem todos os outros seres vivos. A ele mesmo, Freud se reservara um lugar na esteira histórica das revoluções cientificas, com a ruptura da ideia de que o que dizemos é produto da vontade consciente, descobrindo nas profundezas das mentes histéricas o continente inconsciente, que atua na obscuridade e que comanda toda a abrangência de nossas vidas, diuturnamente.

E porque não inserir neste rol Karl Marx? Suas descobertas não vão de encontro à imagem egocêntrica e vaidosa do homem? Foi Karl Marx quem rompeu com a ideia de que os homens fazem a história, para dizer que se a fazem, é somente através de condições as quais não podem escolher. Dito de outra maneira foi ele quem rompeu com a veleidade de dizer que o homem faz a História, para dizer que as massas a fazem, através da luta de classes, que é seu motor e fundamento.

É também, o que, de certa forma, tentou dizer Althusser com a ideia de anti-humanismo teórico de MarxOu seja, do caráter estrutural da análise marxista e de seu descompromisso com uma imagem natural de humanidade a ser defendida. Pois a descoberta revolucionária de Marx ia para além de um humanismo, característico, por exemplo, do socialismo francês. A teoria marxista é cientifica e descobrira algo difícil de ser digerido, sobretudo pelo humanismo europeu de origem teológica cristão: A ciência das formações sociais na História.

NOTA #5 [23/04/2015] (SP)

A noticia de que um gato é o prefeito de uma pequena cidade no Alasca me chamou atenção como um bom exemplo (esdruxulo diga-se de passagem) para o velho debate sobre a autonomia relativa do Estado no capitalismo.
É interessante notar que não há uma regra de coerência entre a estrutura e a supestrutura em uma determinada formação social capitalista. Pode haver um elemento superestrutural totalmente contraditório com as formas estruturais e nem por isso haverá uma ruptura revolucionária ou o capital será destruído. Diferentemente de sociedades como as feudais, os elementos ruptivos eram duramente sancionados, com ordalhas e penas cruéis, para manutenção da “ordem”.
O exemplo do gato como prefeito é util por isso: não é necessário que a forma Estado e a forma jurídica funcionem em todos os momentos e todas oportunidades, seu funcionamento, pelo contrário, é justamente aquele que “falha”, que permite rupturas, pequenas mudanças, governos de esquerda.
A questão é que nem por isso o capitalismo deixa de sê-lo. Muito pelo contrário: é assim consegue existir, se adaptando a qualquer situação, cedendo em seus paradigmas para que a forma mercadoria permaneça em alta rotação.
A estória do gato prefeito ilustra o modus operandi capitalista. Mais um exemplo talvez deixe claro: Quando massivos movimentos indianos lutaram para que a rede mundial Mcdonalds saisse do país, porque vendiam hamburguers de carne de vaca, animal sagrado, a resposta da rede ilustrou o grau zero do modus operandi capitalista, depojado de todo rococó humanista: venderemos hamburguers de frango.
Então, não há problema. Vocês são de uma sociedade que considera vacas sagradas? Otimo, lhes vendemos de frango. Simples assim. Está ai também incluido o elemento cinico, pois é obvio que continuam vendendo carne de vaca em todos os outros países a não ser na India.
A criação destruidora, ou invertendo – o que demonstra em minha opinião o que há de mais sublime no capital – a destruição criadora é um complexo fenomeno, e a sua compreensão passa pelos meandros de seu funcionamento, o gato prefeito e o hamburguer de frango na India denotam a profundidade da sociedade do capital.

NOTA #5 [21/05/2015] (SP)

A mercadoria deve ser pensada como forma, mas como uma forma social, e não como um propriedade em si de um objeto. Quando Zizek comenta a teoria de Sohn Rethel sobre a relação entre a forma mercadoria e o “transcendetalismo” kantiano, de como o “esquema” kantiano do sujeito abstrato já estava presente na troca com sua necessária abstração do conteúdo empírico dos objetos, temos de pensar nesta mudança paralática em que um objeto muda radicalmente de “estatuto” em função de uma mudança da posição subjetiva do individuosem que nenhuma das propriedades empíricas da mercadoria sofra mudança alguma.

Esta mudança paralática está relacionada justamente como o caráter social da mercadoria, o objeto-mercadoria muda radicalmente de “estatuto” porque agora é um objeto para o Outro, para ser oferecido como um equivalente de seu desejo, a questão é a de justamente ajustar desejos para que torna-los “equivalentes”.

Mas é certo também que uma mudança qualitativa ocorreu com o surgimento da ordem burguesa, em que a forma mercadoria não é um alvo em si, a meta é antes sua permanente circulação, a geração ininterrupta de excedente, uma especie de pulsão mórbida a repetição. Então, a analise de mercadoria não deveria também passar da problemática da logica do desejo (reconhecimento) para a logica da pulsão?

Referências 23/06/2015 (RJ)

CEII logo

 

 

Sobre o conceito de “múnus” em “co-munidade”:

Esposito, R. Communitas: The Origin and Destinity of Communitydisponível aqui em inglês e aqui em castelhano

Sobre o próprio e o comum:

Prado, G. O Comum e o Próprio: Do elemento de um Marx após Heideggerdisponível aqui

Sobre o impróprio e o estranho:

Safatle, V. O trabalho do impróprio e os afetos da flexibilizaçãodisponível aqui

Comunidade em Nancy:

Nancy, J.L. The Inoperative Communitydisponível aqui em inglês

Audio da reuniãohttps://soundcloud.com/ideiaeideologia/ceii-rj-23062015

Video da reuniãohttp://twitcam.livestream.com/ggwxd

Ata da reunião: https://app.worklife.com/meetings/55887c06f582b091d82c8be8

 

NOTA #1 [18/06/2015] (SP)

A questão levantada em reunião acerca da aproximação com o PSOL levanta questões que talvez sejam algumas das questões mais antigas quando se fala em movimentos ou grupos de esquerda. O aparente movimento de popularização do PSOL, ou de ampliação das bases democráticas, como alternativa ao descontamento com o PT (e a alternativa agora é justamente um antigo racha do PT) e o esgotamento de seu governismo trará questões interessantes para o CEII. Como fazer falar Badiou, Zizek e outros nestes contextos e a estes pessoas? Ou melhor, como o projeto do CEII poderá se articular com a velha forma do partido (que Badiou é claro em dizer seu tempo acabou junto seu auge na Revolução Cultural da China) para criar ou articular novas formas de subjetividade e coletivo?

Para mim a questão é como afinal o CEII pode ser diferente de um partido, ou mesmo de outros coletivos? Penso que o caminho passa pelo enfrentamento da ideologia também dentro dos coletivos, algo uma especie de trabalho de travessia das fantasias que envolvem também a esquerda (que as vezes é “materialista” de uma forma muito “vulgar”) e da experiencia do “Lack in the Other”, como Zizek aponta em “The sublime Objet of Ideology” é fundamental para a articulação de um coletivo que não seja outra forma de Grande Outro

NOTA #2 [11/06/2015] (SP)

Nota de hoje sobre a responsabilidade jurídica, interpelação ideológica e estadio do espelho.
Na esteira do alinhamento entre as ciências da história e do inconsciente que já abordei, gostaria de refletir sobre o impacto do direito no âmbito da formação psíquica, sobretudo no âmbito de relações de mutua implicação entre ambos.
Como sabemos o direito deve sempre ser mediado pela ciência da história, dos modos de produção, relações de produção, etc, pois é uma superestrutura de imbricadas relações com o modo vigente capitalista.
A despeito do que afirmam os supostos cientistas do direito, o núcleo de seu fenômeno não são as normas, mas sim o sujeito de direito, portanto uma manifestação através do homem e não sobre ele.
O sujeito de direito possui diversas características que lhe são próprias, para que possa praticar os atos da vida, culturalmente estabelecidos como jurídicos, para que sejam validos, ou seja aceitos pelo Outro.
A plena capacidade jurídica só outorgada aos sujeitos de direito maiores de idade e que não possuam doenças mentais que afetem sua vontade. Devemos frisa aqui o “não possuam doenças mentais que afetem a sua vontade” pois é o núcleo de conexão com a ciência do inconsciente.
De fato, o sujeito construído para o direito, ou seja, a sujeição jurídica que constitui os sujeitos, o faz de modo a criar um especifico arranjo de consciência, pois o é necessário para a pratica de atos validos.
Sabemos que os atos validos, são essencialmente atos de troca de objetos, inclusive e principalmente o objeto que os próprios sujeitos são, objeto mão de obra, corporificação do trabalho.
Esta consciência habilitada para a troca deve ter portanto um arranjo especifico, e os inimputáveis, menores ou “doentes” não devem ser autorizados a praticar atos validos, não podem registrar seus atos no Outro.
De todas as características do sujeito de direito a que lhe confere habilitação de fato é a responsabilidade jurídica. Não há sujeito com plenas capacidades que não responda por algo, e é só respondendo que pode praticar atos, afinal todos são iguais, pois são sujeitos de direitos e deveres.
A infância e as patologias são portanto estados de suspensão da validade de atos, e isso esta subentendido que é em virtude de macula a sua vontade. Aspas aqui, para nos perguntar, em via reversa, se as patologias não seriam produto deste filtro ideológico da formação social.
Vale lembrar aqui da lição de Althusser sobre a interpelação ideológica, na qual é o efeito da interpelação por um outro o que lhe torna sujeito. Lição essa que segue a linha do estadio do espelho de Lacan sobre a constituição dos sujeitos através do outro, sendo eles mesmos um outro inscrito neste Outro.
Nesse sentido é que podemos identificar a responsabilidade jurídica como causa e/ou consequência de tal processo. Os indivíduos em uma formação social capitalista são divididos entre os que respondem ao chamado do Outro e os que não respondem, sendo que o primeiro grupo é aquele que pratica os atos socialmente validos necessários às trocas generalizadas que caracterizam o modo de produção capitalista.
Trata-se de aptidão à interpelação, de uma cultura de consciência capaz de receber sutis estímulos linguísticos e dar consequência interna a eles, como cumprir com as obrigações de um contrato ou das leis.

NOTA #6 [05/03/2015] (SP)

Zizek aponta para a necessidade de recusar uma leitura etapista da obra de Marx, isto é, recusar certa compreensão de sua obra, de certa forma bem difundida, de que o esgotamento das forças produtivas em relação às relações de produção, provocarão, quase que naturalmente, a superação do Capitalismo conduzindo ao Socialismo.

Para o autor esse é uma leitura errônea e de certa forma simplista de Marx, afirma que ele mesmo passa longe dessas afirmações em sua obra. Antes aponta para um contínuo descompasso nas relações de produção do sistema capitalista – o que também é seu traço diferencial dos sistemas econômicos anteriores – não existe um momento em que forças produtivas e relações de produção estejam em equilíbrio, ao contrário é seu permanente desequilíbrio que é a própria força que impulsiona o desenvolvimento do Capital. Zizek não deixa dúvidas quanto a essa afirmação o resgatar que o próprio Marx já apontava para esse descompasso quando assevera que subordinação formal precede a subordinação real, isto é, primeiro o capital subordina as relações de produção tal como elas são encontradas para depois se desenvolver as forças produtivas.

NOTA #1 [11/06/2015] (SP)

A tentativa de Douzinas de aproximar a noção de adikia da ideia de Real em Zizek é interessante, mas acho que podemos pensar algo a mais acerca desta “injustiça” original, a dívida que abre o espaço onde ambiguamente residem subjetividade e culpa. Douzinas cita um texto de Zizek em que este diz que a história é uma longa série de tentativas fracassadas de “nomear” esse excesso, desequilibrio inaugural. Mas penso que talvez seja algo rápido ou simples demais dizer que seja o mesmo excesso que retorna sempre através dos tempos. Isto porque as diferentes nomeações deste excesso levam a diferentes formas discursivas e assim a também diferentes procedimentos verdades. Assim, nomear o excesso como “Deus” , “judeu” ou luta de classes possui consequências muito diferentes dentro do espaço simbólico social.

Isto tem implicações politicas cruciais. Isto porque a tarefa de pensar uma politica que não seja a simples “eliminação” deste excesso é urgente, e muitas das interpretações “materialistas” da luta de classe entendem que podem eliminar este excesso em um futuro de sociedade totalmente “horizontal”.

Para mim a leitura de “Ethics of the real” de Zupancic é crucial neste ponto, pois, se o um dos nomes deste excesso é Real, trata-se antes de uma ética relacionada a este ponto de impossibilidade (por isto que Kant é uma principais referencias deste livro,já que justamente pensou o caráter ético e moral deste limite entre constituição transcendental da realidade e Coisa em si, direção retomada (com outros caminhos) por Lacan em seu seminário Ética da Psicanalise) que poderá trazer novas formas de subjetividade e laços sociais.

Li recentemente que Lacan teria dito que “jamais teve um paciente que não fosse kantiano”. Uma constatação soberba. Como então a psicanalise pode dar um novo “giro” neste discurso e reposicionar esse excesso, e seus correlatos (S1, S2, $)?