NOTA #5 [03/12/2015] (SP)

Acredito que o tom de mudanças do CEII tem sido algo que por vezes é discutido, comentado e que, alguns efeitos começam a tomar uma forma diferente. Entretanto, muitas das reuniões atualmente consistem em torno de 85% do seu tempo investido nas propostas e exames das condições institucionais e praticamente, o resto para as leituras das notas de trabalho. O que penso ser curioso, uma vez que as notas de trabalho tem como sua função não apenas o cumprimento institucional do “privilégio” de fazê-las mas também, as notas possuem uma função curiosa de marca no tempo.
Por exemplo, a marca das notas de trabalho do CEII em minha compreensão envolvem 3 tempos: (1) Um momento de experienciar ou de passar pela reunião, que marca a premência e exigência do elaborar e do fazer uma nota, que denotaria como um tempo institucional que tem seu começo e seu fim ao longo de uma reunião de trabalho. Entretanto, temos um outro instante (2) em que a nota, passa a se tornar uma exigência para marcar que a reunião passada realmente existiu – sem nenhuma nota de uma determinada data, de um determinado encontro – o que é que sobra de um coletivo que pressupõe estudar organizações? Sendo assim, há um caráter de valia histórica de que materialmente o encontro houve. Tal momento está justamente no gesto de propor e promover que algo aconteceu numa determinada data. Ou então, o CEII realmente se encontrou. E finalmente, (3) um tempo, onde se dirá o que se deverá ser dito, um tempo no qual se promove o que se tem de colocar em cheque e então, trazido para ser trabalhado num por-vir de reunião, uma aposta. Essa marca no tempo das notas de trabalho, colocam sempre em questão a importância não apenas do ter ou não uma próxima reunião, que é o seu risco institucional absoluto – mas também, versa sobre o próprio tempo do coletivo e sua maturidade para lidar com suas questões. Essa breve reflexão se dá, pois penso que o último dos tempos não tem sido privilegiado. Perdoem-me pelo trocadilho, mas a minha proposta é que as notas de trabalho ganhassem um pouco mais de tempo e assim, que se oxigenassem algumas das questões que o próprio coletivo gera.

NOTA #2 [14/01/2016] (SP)

Os últimos meses do CEII tem sido dos mais interessante, as questões organizativas e institucionais tem, de fato, tomado o maior tempo de nossas reuniões, mas é através delas que estamos lidando com impasses e limites que podem nos colocar em outro patamar organizativo.

Na última reunião o necessário debate da questão financeira do CEII – que agora também inclui preocupações com seu estados jurídico – é fundamental para o funcionamento autônomo da célula. Estou certo de que superando tais obstáculos voltaremos a ter mais tempo para nos dedicarmos aos textos que, tanto quanto as questões organizativas, nós são tão caros.

NOTA #1 [14/01/2016] (SP)

Em uma nota lida na reunião do dia 14/01 surgiu a proposta de que pensássemos as manifestações.  Oportuno tema, até mesmo porque durante nossa reunião fomos atravessados pelas bombas lançadas no percurso de uma delas que nos fez correr até a janela e observar a movimentação (quase exclusivamente policial) que ocorria na Avenida Paulista.  Pois bem, nos comentários dessa nota foi dito que no momento atual as manifestações talvez tenham se tornado um ‘método político’ e até mesmo um ‘método do século’. Em contrapartida, em uma troca online com outro colega do CEII conversamos bem sumariamente sobre a questão da estetização das manifestações enquanto uma espécie de imagem que poderia ‘dar a ver’ alguma transformação efetiva.  Isto é: a imagem de muitas pessoas as ruas pode servir como alimento da ideia de que o movimento tem de fato um efeito ou de que há uma mudança em curso. Se tomarmos exatamente a passagem em que se diz que as manifestações podem ser entendidas como ‘método político do século’, estaríamos legitimando que este tipo de tomada às ruas tem de fato um valor simbólico que impute algum tipo de mudança político-social. Ao mesmo tempo, a beleza de uma imagem que parece o ‘povo unido’ justamente pode servir como um véu que encobre que não há esta representação, no sentido de que essa ‘multidão’/‘massa’ às ruas, talvez não possa servir como representante de ‘povo’ ou das demandas do ‘povo’ – i.e: apesar do transporte ser uma causa popular, as ruas estão tomadas por qual parte deste ‘povo’? Isto também poderia ser pensado no rumo tomado pelas manifestações de junho de 2013 e na ‘frustração’ do que elas não vieram a ser, assim como na expectativa que alguns criaram de que as manifestações de agora, igualmente convocadas pelo Movimento Passe Livre, poderiam então, finalmente, vir a ser ‘alguma coisa’ (que ainda não entendi bem o que é).  Deste modo, o movimento de sair às ruas poderia ser compreendido como uma manifestação de 1) algumas demandas populares pontuais dirigidas ao ‘Estado’(?) que não foram contempladas ou 2) de insatisfação em relação à políticas adotadas, etc.. Isto é suficiente para aproximarmos as manifestações de um movimento ‘político’?

Nota #1 [08/01/2015] RJ II

A necessidade de se tornar uma organização de massas deve ser o fim primeiro de uma organização política socialista, superando o princípio de laboratório cuja organização é um fim em si mesmo. Tal ponto deve ser secundário, apesar de válido.

A massificação de uma organização política deve se dar a partir da periferia, lar do proletariado, como um mecanismo para sua formação política e instrumentalização das suas demandas.

A massificação da organização política requer propaganda e propaganda requer contato do militante com a massa, não apenas através da forma virtual. A organização política deve falar para todas e todos, escutá-los e entender suas demandas, mas também vir ao encontro da massa com um programa claro de propostas. Em suma, a organização política deve ter se estruturar para fins últimos e não ter como fim último apenas a estruturação de si mesma porquanto isso gera solepsismo.

NOTA #5 [12/01/2016] (RJ I)

Na última reunião tivemos um debate sobre música, eu não sou um conhecedor de música assim como outras pessoas no CEII, eu ouço as músicas e continuo ouvindo aquelas que gosto, agora estou ouvindo música, to ouvindo life on mars(mas isso não importa muito, foi só coincidência). O motivo da nota não é a nota que gerou o debate, mas algumas coisas que foram faladas e eu não concordei. Falaram algo sobre a posição do CEII sobre a liberdade de escolha no estilo musical dos indivíduos(isso ficou um pouco esquisito mas foram as melhores palavras que pensei), um membro(eu não falo camarada, acho meio esquisito, companheiro até vai mas também não costumo falar) me explicou que existiam dois tipos de pensamentos mais comuns na esquerda, um que liga as pessoas ao tipo de música que ouvem e a outra que diz que a pessoa pode ouvir qualquer tipo de música independente de sua classe social, de cara eu pensei “essa primeira ideia não faz nenhum sentido. Por que a escolha do tipo de música que alguém ouve deve ser definido pela classe social que a pessoa faz parte?” então eu imaginei que não me explicaram bem, eu posso ter me enganado mas após pensar um pouco eu passei a entender que a primeira posição não é tão simples assim, parece que tem algo muito mais importante ali, não é só a idéia de ligar a classe social ao tipo de música que é ouvido, mas parece que isso vem da defesa de igualdade, é comum que exista uma rejeição da qualidade da música feita por pobres e negros, foi assim com o jazz, soul, funk, rap, hip hop, samba etc, eram tratados como gêneros inferiores, até hoje é muito comum ver pessoas criticando(inferiorizando) o funk, o pagode, o graffiti, a pichação e outras formas de arte que são proveniente das camadas mais pobres, e essa ação causa reação nas pessoas mais pobres, muita gente renega esses gêneros, é só andar por aí e ver quanta gente renega o funk porque “é coisa de favelado”, as pessoas são colocadas como inferiores e acreditam nisso. Não existe problema na pessoa ouvir o que bem quiser, o problema é se faz isso porque alguém coloca a outra música como inferior. Eu ouço Beethoven direto(o carro do gás toca) mas prefiro ouvir Estrada da Posse.

Desculpem se a nota está mal escrita e confusa
Desculpem se isso ofender o pessoal da música, como já falei antes eu não sou conhecedor de música, só gosto de ouvir.

NOTA #4 [12/01/2016] (RJ I)

dois modelos humanos que convivem no interior da teoria social:

homem – portador de “compaixão” versus

homem “egoísta”; se tomarmos Rousseau e Hobbes como balizas dessa dualidade constitutiva do pensamento social.

Mas, os referenciais mais especificamente sociológicos da disputa são: homem durkheimiano versus homem weberiano

a sociologia que nasce no século XIX é, de certa forma, uma reação ao “imperialismo” do pensamento econômico que se consolidava. Uma reação às grandes transformações dos séculos XVIII e XIX, uma reflexão crítica sobre as condições, o ambiente em que vive o homo economicus. afirma a existência de um referente coletivo que é inseparável do próprio indivíduo. algo além das puras motivações individuais, algo que conforma e dá sentido a essas motivações.

surge como uma alternativa à estilização do homo economicus. É assim, por exemplo, que a revalorização da comunidade, percebida como dicotômica à sociedade, confere ênfase a valores solidários, às motivações coletivas que transcendem cálculos egoístas etc

 

dilema original da sociologia entre a idealização de um solidarismo ameaçado pela individualização do mercado, por um lado, e a idealização das próprias potencialidades progressistas da emancipação do indivíduo, por outro, a raiz da duplicidade de representações do protótipo sociológico

a perspectiva de Durkheim, a sociedade tem precedência lógica sobre o indivíduo. A própria autopercepção do indivíduo enquanto tal é uma resultante histórica da evolução da sociedade. O individualismo, para ele, corresponderia à religião da sociedade moderna

Tribos primitivas, ao se representarem como animais ou como plantas, erigem uma identidade totêmica que simbolfiza o grupo, a coletividade

Durkheim se recusa veementemente a aceitar premissas individualistas de análise, ele identifica no indivíduo uma dimensão intrinsecamente coletiva.

ressalta o dualismo constitutivo na natureza humana: ela é ao mesmo tempo sensual e moral; sensorial e conceitual, egoísta e solidária

como é possível o contrato entre agentes egoístas e possessivos?

o contrato, o estabelecimento da ordem só é possível porque os indivíduos compartilham desde sempre um repositório de crenças e sentimentos comuns que possibilita a concordância sobre as regras do jogo.

inscreve-se na tradição metodológica coletivista. O ator sociológico é alguém cuja consciência é não apenas informada, mas conformada, gerada pela sociedade.

uma vez que a sociedade erige o indivíduo como seu valor máximo, a defesa do individualismo torna-se um imperativo moral. É nesse ponto a justificativa para sua opção por conciliar coletivismo metodológico e individualismo ético.

o fenômeno da especialização de funções produtivas apresenta interesse para a sociologia não como divisão econômica de funções, mas sim como divisão social do trabalho, como fenômeno socialmente gerado que provê uma forma específica de sociabilidade.

existe uma realidade sui generis, o social, que não pode ser reduzida a fundamentos psicológicos sociais ou individuais.

O problema da sociologia é identificar como a sociedade atua sobre nossas consciências de forma a colocá-las em consonância com as instituições que as expressam

NOTA #3 [12/01/2016] (RJ I)

Contra a forma-protesto
Me parece que o modelo de intervenção baseado no protesto ou na manifestação depende hoje de três fatores fundamentais:
1. Tempo livre: é preciso que o manifestante possa estar presente no protesto, tempo esse que sairia ou do tempo de trabalho ou do de repouso da pessoa.
2. Acesso: é preciso ainda que o manifestante tenha como chegar ao local do protesto, e que esse deslocamento seja economicamente viável – isso é, não basta ter o dinheiro da passagem, tem que poder gastar essa grana com essa atividade.
3. Recurso simbólico: é preciso que o manifestante se sinta à vontade de afirmar os bordões do protesto, de fazer coro às demandas que estão em jogo ali.
Antes de mais nada, é palpável que essas três condições se alimentam uma das outras: tempo e acesso são aspectos econômicos que se influenciam, e a mesma questão tem um papel na determinação na possibilidade de alguém se implicar no protesto. Por exemplo, uma pessoa impossibilitada de participar do protesto por conta de sua jornada de trabalho, ao ser impedida de chegar ao local de trabalho por conta do trânsito causado pelos manifestantes, certamente encontrará aí um impasse na hora de reconhecer que o protesto busca falar também por ele.
Minha crítica é que esses três pontos – tempo, acesso e recurso simbólico – excluem hoje a maior parte da população dos atos políticos. A exclusão se dá através dos dois primeiros aspectos – tempo e acesso – e se escreve através do terceiro – divisão entre os interesses populares e interesses dos protestos (ainda que, imaginariamente, protestos “representem” o povo).
Uma primeira proposta – já ventilada por organizações de esquerda – seria mover os protestos para a periferia. O problema é que, ainda que isso resolva o acesso e o tempo (ou pelo menos inverte a questão: irão os militantes para a baixada?), fica ainda a questão simbólica. Um protesto realizado no centro pode legitimamente se dirigir ao Estado e à sociedade porque ali estão os prédios do poder público e a grande mídia – o mesmo protesto na periferia ou numa favela, onde o poder público não existe, não produzirá o mesmo efeito simbólico de inscrever uma demanda (temos muitos exemplos da invisibilidade de protestos e manifestações na periferia).
Uma proposta completa seria, por fim, a de deixar cair a referência ao estado, e inventar uma forma de protesto cujo endereço é a própria população periférica. Ou seja, um protesto que não dependa de um laço de visibilidade, mas que se enderece aos invisíveis. Um exemplo: um protesto que marche por uma favela declarando “chega de cultura na favela!”. Aqui o ponto não seria pedir para o estado não “mandar’ apenas cultura para a favela, mas criar bordões que dêem sentido e potência para o senso já existente de que esses projetos do estado e das ongs não são capazes de atender as demandas de trabalho, estabilidade e segurança. A produção de coesão e de recursos simbólicos – condicionada por um movimento que, em sua própria forma (em termos de tempo e acesso), reconhece as restrições da classe trabalhadora contemporânea – seria em si o objetivo do protesto. à primeira vista pode ser polêmico, mas acho que é só pensar um pouco para ver que esse é um objetivo tangível. Pode ser medido em seus efeitos de organização e mobilização, enquanto que protestos centrais e voltados para o Estado não contém em si uma métrica para considerarmos sua efetividade.
Há ainda uma forma mais radical ainda de alterar a forma de intervenção política contemporânea, uma que mantém o Estado ou o Mercado como endereço: o boicote. É bem sabido que, economicamente, a realização da mais-valia depende de um momento indeterminado: a passagem do processo de produção para a esfera da circulação. Se o investimento feito não se transforma em troca, a mais valia não vira lucro. Por isso, há um momento no circuito do capital em que o bloqueio determina o tudo ou nada do processo econômico. O erro do uso do boicote é formatá-lo de acordo com as três premissas do protesto contemporâneo. O boicote que não respeita o tempo, o acesso e o simbólico da classe trabalhadora é aquele que visa interromper o consumo (e nao a circulação): deixar de consumir demanda tempo (para buscar outras alternativas), acesso (as marcas principais são normalmente mais baratas), e, quando implica a suspensão do acesso a uma mercadoria, divide o povo entre aqueles que já não valorizam o acesso ao consumo daqueles cuja dignidade está ligada ao novo acesso aos bens de consumo. Uma outra forma de boicote é aquele que não incide diretamente sobre o consumo, mas sobre a circulação: como o protesto, trata-se de uma atividade pontual, mas que não incide sobre o simbólico (endereço de uma demanda), mas sobre o real (mais-valia): por exemplo, uma barricada que impede o trânsito de uma dada mercadoria causa um impacto mensurável (valor que não se valoriza) e, como não depende da presença da população, mas altera a correlação de forças, respeita aqueles que não participam da atividade, não afeta seu tempo de trabalho ou o acesso imediato às mercadorias (pois incide nas mercadorias que não chegaram ainda ao mercado). Isso implica focar em mercadorias (o MST dá um bom exemplo, quando interrompe a circulação de alimentos com agrotóxicos) e não em serviços (como o serviço de ônibus, cuja suspensão atrapalharia a vida do trabalhador). O ponto é selecionar mercadorias que estão ligadas ao financiamento de campanhas, à influência política, etc.
O mesmo estudo vale para repensarmos as greves – mas podemos estudar isso numa próxima nota.

NOTA #2 [12/01/2016] (RJ I)

COMUNISMO DE RESULTADOS
É provável que por inscrever sua militância comunista na forma de um problema, o CEII sempre tenha flertado com ela de um modo distinto. Sem dominar essas noções psicanalíticas, eu diria que a existência simbólica do Círculo tem sido acompanhada por reelaborações do lugar da economia no imaginário da militância atual. Institucionalmente passamos por três fases econômicas, formalmente explícitas para todos os participantes do CEII. De um necessário período heróico-voluntarista, aonde um camarada mantinha as condições materiais que funcionavam o Círculo, viemos a nos associar com uma instituição do Terceiro Setor, aonde o então SG da célula escrevia relatórios de atividades e fazia prestação de contas a partir do que o grupo realizava para garantir a manutenção dessas condições, em troca de seu assalariamento pessoal e para manter as tais condições materiais de existência do grupo [aluguel da sala, luz, internet, insumos alimentícios, dinheiro de passagem para os membros virem às reuniões semanais etc]. Atualmente, vivemos uma terceira fase, talvez mais afinada ao modo como a militância atual compreende a questão econômica para os fins de sua organização e ação política, que poderia ser considerada tanto resultado do término do segundo período como um tipo de solução que apaziguou um desconserto que vivíamos por estarmos sendo custeados pela extensão “social” de uma empresa capitalista.
Talvez como política, a ideia do comunismo demande outra relação com a questão econômica. É provável que a organização política da ideia do comunismo encontre seu caminho, seu sentido contemporâneo, se ela for capaz de comprar o tempo de trabalho de seus afiliados.