Nota CEII SP #3 [25/08/2016]

Durante nossa última reunião tivemos interessante debates bastante filosóficos, que, de um certo ponto de vista, podem parecer acadêmicos. Acho que contamos com o fato de que muitas das pessoas que estavam na reunião se sentiam a vontade em ouvir/falar sobre isso, mas já tivemos situações que não foi assim, que o excesso de conversação “filosofica” incomodou alguns participantes, entre eles aqueles próprios que “conheciam” o assunto e ficam constrangidos em falar para não parecerem “academicos”.

Acho que podemos dizer que o que atravessa essa situação é o problema do semblante do saber, e acho que nomeando a coisa assim talvez possamos avançar em direção a uma analise de nosso coletivo.

Nota CEII SP #2 [25/08/2016]

Após a reunião, ficou levemente escancarado o tom “academicista” já mencionado como um problema anteriormente. A discussão sobre sítio em Badiou (e posteriormente sobre ontologia) teve um ar de grupo de estudos mais aos moldes de uma instituição de ensino superior. Não enxergo isso como um problema, já que a ideia é ler textos de Filosofia, mas até que ponto isso se encaixa na proposta do círculo? Entendo como isso pode afastar pessoas não tão dispostas a encarar a dificuldade que um texto desse tipo engendra.

Nota CEII SP #1 [25/08/2016]

Oi pessoal. Eu e Anna, no encaminhamento da criação da nossa célula aqui de POA, nos reunimos com dois membros de um coletivo aqui de porto alegre chamado comuna. Ao visitar nossa página, eles ficaram preocupados pela falta de proteção dos nossos dados e pela abertura dos áudios e das notas. Pelo que deu pra entender da conversa que tivemos com eles na sexta, se quisermos fazer alguma parceria com esse coletivo, precisaríamos rever a nossa política de abertura irrestrita dos conteúdos de discussão do CEII (ao menos para a célula POA). Também senti um pouco a insistência deles de que um coletivo que faz alguma coisa realmente relevante é levado, necessariamente, à clandestinidade. Eu desconhecia o histórico repressor dos movimentos sociais aqui de porto alegre, mas na reunião que tivemos com eles, foi citado algumas intervenções ilegais por parte da polícia ao tentar desorganizar ações populares. Daí, o receio deles de abertura do conteúdo do site. Por isso, queria pedir que se alguém aqui do CEII, caso possua militância fora do círculo, pudesse nos ajudar um pouco a entender a preocupação dos caras. Ao meu ver, e pelo entendimento que eu tenho do CEII, acho que o caráter subversivo do círculo é exatamente a recusa em ficar na clandestinidade. Enfim, queria iniciar um pouco esse debate pra que eu eAnna, juntamente com vocês, pudéssemos nos decidir se vamos querer dar continuidade à nossa proximidade com o pessoal, ou se abandonamos essa ideia e buscamos outra coisa.
PS: Secretário geral da célula-SP, computa esse meu post como uma nota? Many thanks 😉

NOTA #11 [26/07/2016] (RJ I)

Tudo bem de fazermos as notas para garantir a reunião de hj, sobretudo para não perdermos a presença do camarada Fred. Mas assinalo que semana passada fui fazer o mesmo e me chamaram a atenção para nossa decisão de não fazê-lo — botei minha viola no saco e achei ótimo, porque acho importante respondermos pelas (consequências das) nossas decisões. Se for para suspendê-las quando estivermos diante de uma consequência indesejável que já era prevista ou previsível no princípio, não adianta tomar tais decisões.

NOTA #10 [26/07/2016] (RJ I)

O PT conseguiu uma grande reviravolta política com essa estória do “impeachment” da Dilma. O julgamento foi uma peça hegeliana de resignificação do evento. Mesmo que ela seja afastada, o capital político da esquerda cresceu enormemente, o que aponta para um cenário de conflito social iminente, caso a direita rejeite mais do que já tem feito os quadros da democracia. Haverá conflagração?

NOTA #5 [16/08/2016] (RJ I)

De um ponto de vista dramático, o que Don Giovanni não é:

– uma fábula moralista de fundo teológico, onde um dissoluto é punido no fim, restaurando-se a ordem social. ao contrário, a recusa final implica a suspensão da eficácia desse regime de recompensa, numa ética (kantiana) pensada para além do princípio do prazer.  

– exaltação romântica do inconsciente como potência vital. A personagem indômita, “fáustica”, de Don Giovanni revelaria que o fundo do homem é paixão, e não razão.

– seguindo a trilogia da revolução francesa, Bodas está para a igualdade (quando o aristocrata se rebaixa ao servo) como Clemenza para a fraternidade (quando o imperador é clemente com o súdito que o traiu). A questão de Don Giovanni é a liberdade transfenomenal, incompatível com a ordem burguesa. O que ela visa, em termos da relação do sujeito com o Grande Outro? Resposta: sua destituição, daí o caráter revolucionário, político, da obra, que vai além da visão burguesa de Fígaro. A recusa de DG é da ordem do ato puro, ele desmonta o cenário (Deus).

NOTA #9 [09/08/2016] (RJ I)

A figura de Don Giovanni de Mozart é a condensação de duas coisas: por um lado ele é a quintessência da velha ordem, como o conde de Almaviva, mas sem disfarce e hipocrisia, levada ao extremo. Ele exige para si o privilégio absoluto de todas as noites. (…) Mas ele personifica também o sujeito autônomo que é a pedra angular do Iluminismo. Ele é o seu próprio legislador, obediente apenas ao próprio desejo, e no final se rebela contra a velha ordem de um modo muito mais radical do que qualquer burguês se atreveria a fazer. Enquanto Figaro termina com o espírito de liberdade igualdade fraternidade, para Don Giovanni a liberdade é colocada acima da igualdade e da fraternidade, e em oposição a ambas, em uma área onde a liberdade pura coincide com maldade pura.

NOTA #9 [26/07/2016] (RJ I)

Achei muito esclarecedora essa passagem do Zizek

“O que é plenamente traumático para o sujeito não é o fato de que um ato ético seja (talvez) impossível, que a liberdade seja (talvez) uma aparência fundada sobre nossa ignorância das verdadeiras motivações que nos fazem agir; o que é verdadeiramente traumático é a própria liberdade, o fato de que liberdade SEJA possível, e assim que nós busquemos desesperadamente algumas determinações “patológicas” a fim de nos livrar desse fato. (Zizek, Violence, p 166)

Através dela fica bem clara a articulação “eslovena” entre psicanálise e idealismo alemão. A “passividade’ do sintoma nada mais é do que uma fuga do sujeito diante da indeterminação pulsional. Toda a questão é saber se esta equação liberdade=pulsão é justa e de que modo.

NOTA #4 [16/08/2016] (RJ I)

Focando em Heidegger como o filósofo que realizaria de maneira mais exemplar esse curto-circuito entre filosofia e arte – em detrimento de suas outras condições igualmente fundamentais, como a ciência, a política e o amor – Badiou apresenta também a operação da sutura como um ponto de orientação importante para a filosofia em geral. Afirmando que, como para Heidegger, a filosofia deve reconhecer sua aliança com os eventos artísticos de sua época, afirma ainda, em contraste a ele, que essa aliança não deve prescindir de uma certa distância, que preserve a autonomia do pensamento imanente a esse campo, e mantenha vivo o desafio, próprio da filosofia, de pensar a compossibilidade (Badiou, 1989 ) de todas as suas  condições heterogêneas – como as descobertas científicas, os movimentos da política emancipatória e as invenções amorosas. Vemos assim que a figura conceitual de Heidegger permite que Badiou contraponha não só sua própria posição, como dramatizar operadores mais abstratos que poderiam contribuir numa reconstrução mais abrangente da história da filosofia.

 

NOTA #8 [09/08/2016] (RJ I)

O livro Manifesto pela Filosofia é organizado por três grandes operações retóricas. Primeiramente, uma constante inversão de críticas em desafios: Badiou não apresenta seus compromissos filosóficos em contraposição às teses de outros filósofos, mas questiona por que decorreria, da realização de que o múltiplo precede a unidade, ou que os vínculos não tem substância, o fim de qualquer pensamento que se oriente pelo horizonte moderno , ao invés de um movimento de recomposição radical de suas categorias fundamentais, à luz das limitações de suas formulações anteriores. Assim, de capítulo em capítulo, o Manifesto aponta os compromissos implícitos que tornam as limitações históricas de um dado pensamento filosófico em limites estruturais e intransponíveis para qualquer filosofia futura para então propor que, assumindo essas limitações, as tomemos como desafios para a renovação contemporânea da ontologia e da teoria do sujeito.

Esse movimento repetido é acompanhado de um outro, que se desenrola não a cada capítulo, mas no arco de todo o livro: a crescente separação entre a filosofia e suas “condições”. Além de ser uma distinção essencial no aparato conceitual de Badiou, que opõe a filosofia como pensamento que articula verdades aos chamados “procedimentos genéricos” – a política, a arte, a ciência e o amor – que produzem verdades, essa separação tem um papel na própria estruturação do debate travado pelo filósofo com a doxa contemporânea. Da afirmação de que não é tarefa da filosofia dar conta dos horrores da segunda guerra mundial à tentativa de superar a dependência filosófica da “era dos poetas”, Badiou vai desatando, sistematicamente, alguns laços entre a filosofia e outras práticas e formas de saber, à fim de revelar tanto a função própria do pensamento filosófico quanto devolver a autonomia imanente aos diferentes campos do saber que se encontram “suturados” (Badiou, 1989) ao pensamento filosófico atualmente.