Nota CEII SP #9 [08/09/2016]

A divisão entre a teoria e a pratica (em qualquer campo do conhecimento) pode acabar se tornando um tormento, angustia. Explico: A leitura metódica de Badiou e outros, nos leva sem dúvida a algumas reflexões sobre as possibilidades emancipatórias que se nos avizinham e também me leva a refletir na quão difícil, senão impossível, tarefa de articular essas questões com as possibilidades práticas no estágio atual do desenvolvimento humano.

Estados aparelhados e subjugados; populações alienadas e vivendo uma “não vida” onde vida se resume ao ato de sobreviver até o sono chegar.

Quando Badiou nos diz que o amor, que é “grátis” e, portanto, fora do escopo do mundo contemporâneo – onde tudo, inclusive a própria subjetividade do sujeito assume uma forma de mercadoria – e nos consola propondo a adoção de um ideário “positivo” – a vontade popular como condicionante para um processo de humanização do capitalismo me leva a pensar que talvez até a “ideia” nesse contexto já foi capturada pelo capitalismo incivilizado. Por exemplo, os ideais de liberdade expressos em termos de livre mercado, livre concorrência, anarco-capitalismo e outros eufemismos para os mesmos modos de dominação e acumulação.

Nota CEII SP #8 [08/09/2016]

Caros, não tendo tempo para escutar a reunião passada e fazer uma nota, envio-lhes apenas um pequeno posicionamento a respeito da abordagem que tem sido feita ultimamente sobre aqueles que estão em débito no envio de notas. Tenho sentido um certo incômodo com a chegada dos companheiros e o principalmente o modo como as pessoas em débito estão sendo abordadas ao longo das dificuldades, sempre enfrentadas, de débito e envio de notas. Tudo se passa como se aqueles que estão em débito precisassem de ajuda, como se eles não tivessem como cumprir com um modo de funcionamento do coletivo. Me parece que se a gente inverter os modos de relação, teremos que admitir que não se trata só apenas de conceder um espaço para que as pessoas falem de suas dificuldades de produção das notas, mas sobretudo a possibilidade de, frente a essas dificuldades, produzir uma nova forma de regra coletiva surgir. Eu preciso realmente me inteirar melhor da maneira como o coletivo tem pensado isso, mas chuto, talvez inadvertidamente, que ainda estamos pensando através do enrijecimento dos acordos feitos anteriormente. Penso que as atividades coletivas terão de ser confrontadas ao invés de fazer operar formas de leis coletivas.

Nota CEII SP [28/07/2016]

A relação de Badiou com seu “velho mestre” Althusser introduz na leitura crítica marxista uma linha condutora dos debates em geral, na própria relação do marxismo com a psicanálise ou nos debates sobre a filosofia e a política, que Althusser tratará como “luta de classes na teoria”, na teoria sobre o estado e o sujeito. Mas a figura de Althusser é especialmente interessante para uma leitura sobre o direito, pois no debate crítico brasileiro temos uma clara aproximação entre a filosofia althusseriana e a pachukaniana. Em diversas oportunidades, algumas delas em especifico, Badiou enfrenta as problematizações e conceitos althusserianos, o que nos possibilita estabelecer relações críticas mais claras com o marxismo, um fio condutor de investigação, mas também um balanço geral do desenvolvimento desse impulso filosófico representado pelos anos sessenta na França, do qual Althusser e Badiou fazem parte.

NOTA #5 [13/09/2016] (RJ I)

Por vezes, me parece que o exercício do Badiou e do CEII, por filiação, se prende em encontrar modos de articular questões que envolvem uma lógica faceira. Tal exercício de formalização me parece fundamental por trazer à tona um debate sobre as bases ou fundacionalista que as pessoas desprezam e por desprezarem, acabam adotando lógicas argumentativas ou reflexivas (no sentido de pensamento) frágeis e impositivas. Por outro lado, tenho a impressão de que por vezes acabamos sendo captados por nossas ideias charmosas e nosso exercício se torna uma matéria diletante. Algo como o prazer de produzir belos pensamentos ou refalar coisas de um jeito espirituoso.

NOTA #10 [16/08/2016] (RJ I)

4. ao dar encaminhamento a um antagonismo, a ideia traz a luz o real de uma situação

5.  a ideia, enquanto esquecida, compõe a ideologia: uma ideologia é uma ideia envelhecida, cujo encaminhamento que dá ao antagonismo é o de mascaramento, supressão ou coisa que o valha.

6. O impossível lugar da crítica da ideologia é justamente o lugar de quem tem ideias

Nota CEII SP #7 [08/09/2016]

Uma das justificativas mais comuns que ouvimos quanto ao envio (ou não) de notas é a falta de tempo (eu inclusive, algumas vezes). Mas sinceramente isso para mim tem parecido mais uma desculpa. Por mais que seja necessário ouvir a reunião, caso estivesse ausente, esse não é (ou não deveria ser) o problema, já é perfeitamente cabível fazer a nota sem ouvir a reunião, tendo em mente os problemas e leituras da célula, o que não leva mais que dez minutos.

Sem querer generalizar, para mim, o que parece acontecer é que essas justificativas de falta de tempo aumentam conforme não o desejo pelo CEII diminui, encontrando aí um buraco pra se esconder.

Nota CEII SP #6 [08/09/2016]

Breve comentário sobre sitio e evento (Reunião 08/09/2016)

III

O que talvez se perceba ao ler Badiou é que ele divide os acontecimentos no interior da comuna e, com uma argúcia de um pós-kantianismo estranho, dixava os acontecimentos e deles retira os conceitos que fundamentarão sua filosofia. É possível que ele faça ao contrário disso, talvez isso seja só ingenuidade. É preciso avançar. Mas, algo chama muito atenção; o conceito de sitio está aplicado a uma ação especifica das mulheres da Comuna, o famoso 18 de março de 1871.

É aqui que a sua reflexão começa a aclarar. Enquanto aquele famoso 18 de março foi um sítio, a Comuna como um todo será encarada como evento isso porque: “Tudo depende das consequências, portanto. Mas devemos observar o seguinte: não há consequência transcendental maior do que fazer aparecer num mundo o que não existia nele” (BADIOU, 2011, p.72). Me parece desse modo que há um desdobramento do sítio em evento, mas que não é mecânico muito menos automático, mas depende do transcendental envolvido na ordem dos acontecimentos. Em outras palavras, depende das condições de possibilidades dos e para os acontecimentos.

E nesse ponto posso retomar a análise que fazia da categoria do evento anteriormente. Eu havia dito que podíamos “compreender o evento numênico como a insurgência de algo totalmente novo, como uma coisa em si mesma que não faz referência ao fenômeno, isto é, não há em sua insurgência, em seu aparecimento, nenhum lastro material capaz de explicá-lo”. Ora, essa interpretação vai de encontro com algumas conjecturas de Badiou, pois segundo ele: “Na realidade, o evento tem como consequência levar a uma existência política, provisoriamente máxima, os operários inexistentes de um dia antes” (ibidem).

A incidência do inexistente, o novo como fulguração da intensidade máxima de um sítio provoca então o aparecimento do que era até então inexistente. É exatamente por isso que Žižek pensa o evento como algo numênico e, é exatamente por isso, que o próprio Badiou vê como um paradoxo essa insurgência do inexistente.

Há um fato de complicação – inclusive na tradução da Boitempo – que impede termos uma clareza maior sobre os desdobramentos dos conceitos de Badiou. Mas é necessário então se debruçar nesse trecho: “dado um sítio (um múltiplo afetado de autopertencimento) que é uma singularidade (sua intensidade de existência, por mais instantânea e evanescente que seja, é máxima), dizemos que esse sítio é uma singularidade forte, ou um evento, se uma consequência da intensidade (máxima) do sítio é que alguma coisa cujo valor de existência é nulo na situação adquire valor de existência positivo” (ibidem).

A questão obscurecida pela tradução é aparentemente mais simples do que parece a primeira vista. A questão é que, se minha interpretação hipotética tiver correta, Badiou desdobra o conceito de sitio – dependendo da intensidade da singularidade – no de evento. Isso significa que a intensidade de uma ordem fenomenal constituída transcendentalmente leva à insurgência do evento como algo numênico por ser, grosso modo, a realização do impossível quer dizer o que não tinha parâmetros na ordem até então existente.

 

 

Breve comentário sobre os camaradas que encontrei no CEII

 

– São fodas, gente muito boa e gosto de estar entre aqueles que reconheço como companheiros!