NOTA #1 [10/01/2017] (RJ I)

029

“cara, to te falando… o tempo é curto”

POIS É

tem uma sútil diferença né

o tempo que se abrevia é o mesmo tempo DEPOIS de Cristo, né

não é que não haja “mais tempo”

é tipo isso né?

041

O tempo que se abrevia é o tempo contando da morte até o fim dos tempos – é o “depois de cristo” mesmo

029

uhum

é curto não da perspectiva de que algo que virá, mas de algo que já rolou

041

E da perspectiva de que deve ser curto – teria de haver um trabalho da Igreja para encurtar esse tempo

029

em certo sentido, sem esse trabalho, o tempo como tal continua o mesmo, em seu fluxo cronológico natural

por aí, certo?

041

Exato, esse trabalho militante que determina o quão curto será o tempo

O Agamben tem um texto sobre isso, dele dando uma “bronca” no bispo de Paris, dizendo que a Igreja deveria recuperar essa função de interventora no tempo

Tô tentando achar

029

cara, aliás, eu acho que devíamos continuar com o Agamben

sem querer falar sobre o assunto antes da hora

foi mt bom ler contigo o Agamben

eu acho que ele é o cara que melhor, no sentido de esboçar com mais precisão, o que seria uma alternativa à nossa época

que é uma época de hiperpolítica

de saturação da política

de ultra-ativismo político

eu to com eco dos nossos encontros até agora na cabea

*cabeça

041

É, eu acho que ele faz uma filosofia do “pé-no-chão” – o que, pro CEII, eu acho que serve muito

029

sim, sim

041

De repente, seria uma boa voltar com ele, sim

029

até o uso que ele faz do Paulo é “pé no c hão”

041

Pode crer!

029

digo, mais que o do badiou

eu acho que ele posiciona melhor o ato paulino

041

É verdade, também surfo por aú

*aí

029

É que eu acho que o modelo de ação política que fica subentendido quando eles olham o nosso mundo através do exemplo paulino não é o “intervencionista”, de “transformação”

Mas outro, meio maluco, contra intuitivo pra nossa época em que TUDO é ação/ativismo/politização etc, que consiste em inventar algo e faze-lo conservar


083

Mas qual seria do Paulo. Pregação?

029

dizer que vc não precisa que Roma caia para ser cristão

041

É! haha

029

acho que isso


083

ou deixar de ser judeu

029

é

tipo

tanto faz como o mundo já é

o que é novo não pode ser delimitado pelo o que já é

o que é novo, se é novo, não cabe aqui

o desafio é conservar esse caráter, fazê-lo perdurar, a despeito de roma, judeus, gregos etc

capitalistas, neoliberais, keynesianos, desenvolvimentistas etc

a do paulo seria, primeiro, imaginar essa forma de liberdade, eu diria

aí, sei lá, tem que ver

mas inicialmente seria isso


083

liberdade não de se livrar de algo mas de compromisso a algo

029

uhum

mas, numa época como a nossa, essa ideia não faz menor sentido


083

não mesmo >.>

029

exatamente pq nossa imaginação política está comprometida com ideais estranhos a essa ideia

041

Liberdade não é “liberdade de”, mas “liberdade para”, né?

029

podes crer


083

Se a gente voltasse para Agamben qual seria uma boa leitura?

029

eu acho que é algo assim

aí eu não sei, pq eu não conheço

mas eu acompanharia a decisão de vcs

041

Eu proporia dois textos dele, que seguem essa discussão: um chamado “A Igreja e o Reino” (que propõe uma relação da militância com o tempo e com o fim dos tempos) e outro chamado “O mistério do mal” (que propõe a mesma coisa só que analisando o que retarda que chegue o fim dos tempos, a figura do anticristo, o que impede a “militância”)

041

Lembro que vi uma tradução do primeiro, mas tô tentando achar aqui desde ontem

029

acho irado

é que eu acho que essas questões em particular são o fundo lógico de todos os fantasmas propriamente políticos de hoje, que assombram o CEII

tipo, claro que tem mais coisa

mas eu acho que sempre que se pergunta pq “não militamos”, pq “não intervimos”, pq “não somos emitimos notas contra o neoliberalismo”, enfim

é isso que tá em jogo

há uma ideia do que consiste política, que abrange todas as ideologias insurgentes de hoje – ação que muda o mundo, seja por qual via for

e há outra sobre o que é política – ação que inventa um mundo

eu acho que nós nos situamos na segunda

e eu acho que o Agamben é irado nesse sentido, se eu tenho captado bem o papo dele

373

eu to por fora de agambem, mas o que vcs tem falado aí mto me interessa

estou super de acordo em relação à gente seguir essas leituras

041

É, eu acho que a gente precisa elaborar mais essa tese, trabalhar mais, deixar mais amarrado – e talvez tratar como uma pesquisa fundamental da célula, ir nos autores tentando encontrar essa tese

029

podes crer

373

boa, boa!

SÁB 20:11


083

Sobre a conversa que tivermos sobre cristianismo. Eu tive uma ideia depois de ler o texto que o 173 colocou no whatsapp. Será que estamos muito mais proximos de uma visão de mundo do antigo povo judaico do que cristã?


083

Além do negócio todo do constante ciclo de pecado e punição e das pequenas “comunidades” com suas próprias leis (e punições). Parece as vezes que existem profetas modernos pra todo lado (não só na esquerda), além disso a procura por aquele agente (não só o “revolucionario”) que vai resolver tudo não parece a espera pelo messias?

029

acho que sim, se pesquei

tipo, se a gente considera que o judaísmo se distingui do cristianismo exatamente pela forma da figura do Messias, que por ser esperado, jamais chegará, pode se dizer que sim


083

Como assim jamais chegará?

029

pq ele tem a forma da espera

ninguém que pode ser o Messias

pq o Messias é aquele a quem aguardamos

nesse sentido

*ninguém pode ser o Messias


083

Ninguem conhecia essa parte

mas é por ai sim

Tava pensando nos profetas tambem.

Tem muitos “profetas e profecias” na politica hj

029

uma interpretação até comum da tensão que a figura do Cristo despertou no mundo judaico, que é essencialmente teológica, é exatamente essa – o problema que Cristo trouxe ao judaísmo foi a realização do Messias: como ele VEIO, o mundo judeu perdeu sentido, pois o seu sentido era espera-lo

029

tem sim, concordo contigo

mas em que sentido em particular vc tá pensando, –
083?


083

Tem haver com aquilo que vc falou que a politica que o Agamben tentar formular não encaixa com a politica de hj.

Quando o 173 colocou no whatsapp do CEII aquela falsa entrevista com o cara do PCC

tem um tom de algo acontecendo que vai estourar no futuro. O problema que aquilo era escrito por alguem da esquerda

primeira coisa que eu me liguei. aquilo tem um formato bastante repetido, de que existe um certo grupo ou evento X que vai mudar tudo e a gente não percebeu ainda

uma porrada de coisas sobre as ocupaçoes seguia essa mesma linha. E tinha visto algo escrito sobre a declaração daquela garota que fazia parte das ocupações no Paraná. Como ela iria mudar a educação no pais, o mesmo formato.

E como aquele conversa sobre o tempo que vcs tiveram ainda estava na minha cabeça ainda eu me liguei. Esse modelo tem um tom meio profetico. Pula de agente em agente, procurando aquele que vem nos salvar, mas sempre manter uma forma semelhante.

029

verdade


083

E já estava com algumas questões sobre toda esse disputa entre evangelicos x esquerda.

Não parece uma disputa pra ver que tem a razão. Parece uma disputa entre dois grupos totalmente diferentes, que falam linguas diferentes, e com ideias e leis diferentes.

Por isso eu falei de comunidade.

e isso me lembrava o judaismo um pouco tambem.

029

eu acho que o que tudo isso tem em comum é aquela sentença do Arantes sobre a “esquerda fingir que há um futuro”, que é uma coisa eu acho que é afim ao modo do Agamben falar sobre política, em razão da noção de tempo em que ele situaria o ato político


083

Mas não é só fingir, como vc falou renegar esse futuro e renegar todo uma identidade.

029

claro – no caso, até para o Arantes, nem a esquerda sabe que não há um futuro


083

uhum

Bem não sei se isso ajuda em alguma coisa.

029

qnd vc falou sobre “messias”, eu pensei duas coisas na hora:

aquele argumento do Safatle sobre a temporalidade implicada em nossa atual imaginação política, cujo forma é dada tanto pela esperança como pelo medo – uma vez que um seria o avesso do outro -, com ambos envolvendo um tipo de espera

que por estar baseada em um futuro, nos prende a uma experiência do presente que jamais se esgota – exatamente porque ou temos esperança que algo aconteça ou então porque temos medo que algo ocorra

a outra coisa seria uma interpretação messiânica do Estado como deus ex machina, a quem reportamos, num certo sentido, todo nosso futuro

029

uma vez que a esquerda, diante das misérias que ela conhece hoje, atribui à figura do Estado a expectativa de que algo no futuro será então melhor – de maneira a concorrer eleição, montar governos, atuar na formulação de leis, enfim, tudo para que amanhã as coisas não sejam como são agora

029

sendo que o Estado já existe, todo esse aparato jurídico para as coisas serem diferentes também já existem, e, ainda sim, parece haver uma expectativa de que essas coisas virão no futuro

– mais ou menos como o judeu, que diante do Messias, manteve a expectativa de sua vinda redentora no futuro

essa coisa de “deus ex machina” tem a ver com as paradas que o 089 estudo, e o 293 pode falar melhor!