NOTA CEII SP #3 [02/03/2017]

A última reunião foi bastante produtiva. Discutimos sobre a reformulação do projeto, sobre temas e sobre a escolha da leitura. Apesar de achar que ainda temos uma certa morosidade no nosso processo decisório, entendo que isso faz parte de um projeto inclusivo, que tenta envolver todos os membros nas decisões. Aos poucos acho que estamos avançando e com essas pequenas reestruturações e um novo espaço, acredito que teremos condições de crescermos como grupo.

NOTA CEII SP #2 [02/03/2017]

Bem, minha nota é um tanto mais simples. Entrei no site e notei que as referências da reunião, que são as “notas de trabalho” do +1, não estão no site do CEII. Ué, cadê as referências das reuniões, +1?

Talvez possa ser algo para pensarmos juntos… O que se passa?

NOTA CEII SP #1 [02/03/2017]

Sobre a “tomada do poder”:

Acho q, seja o q isso signifique, não se deve descartá-la, muito menos a priori. Creio q na maioria das vezes, isso é entendido como a tomada da máquina estatal, ou dos cargos de proeminência da mesma. E nessa idéia, creio estar pressuposta a identificação do poder com esse maquinário estatal ou, muitas vezes com o executivo, o que a experiência petista, de certo, mais uma vez provou que não.

Por fim diria, que bem ou mal, algumas vezes a esquerda, ou alguma encarnação qualquer da mesma, já tomou, de fato, o poder; tendo em vista as poucas revoluções que creio terem verdadeiramente acontecido, como revolução russa, chinesa e cubana.  Então, de certa forma, ja tomou-se o poder; no entanto, parece-me q os problemas surgiram nas formas de  organização que vieram ou deixaram de vir. Assim, parece-me até consenso entre a esquerda, que esta carece de organização, porém sempre no sentido de organizar-se para unir forças e, mais uma vez, chegar ou tomar o poder; mas o que menos comumente é pensado é organização como uma nova forma de organizar-se econômica e políticamente q seja viável e ainda condizente com a idéia comunista. E talvez essa possa e deva surgir, sem que primeiro tenhamos q derrubar um poder, ou mesmo o capitalismo, mas sendo gerido independente ou paralelamente , e acabe, assim, por substituir o atual modo de produzir e organizar-se.

NOTA #4 [21/02/2017] (RJ I)

“O que me incomoda, primeiro, é quando o protagonismo vira exclusividade e que se chega a condenar quem está tentando contribuir para a causa mobilizando e refletindo no seu âmbito ou, quando convidado, contribuindo nos grupos mesmos de oprimidos do qual não faz parte. Mas esse incômodo provavelmente tem muito a ver com medo de perda de privilégio. A ver. Segundo, o que me incomoda é quando lugar de fala vira, a um tempo (ou separadamente), passe livre para falar seja o que for do que se refere a sua condição na medida em que envolve certos predicados que identificam a pessoa como pertencente a um grupo oprimido e a, consequente ou não, interdição prévia da fala do outro. A melhor, se não a única maneira de evitar isso, seria ligar sempre lugar de fala a vivência e fazer com que essa valha não apenas pelos predicados que marcam a opressão (mulher, negro etc.), mas, através destes, pela singularidade. Sendo isso, compreendo que o oprimido define o que é opressão porque opressão se define precisamente por se sentir oprimido. E por mais que possa haver quem faz uso e “finge” opressão, a aposta de esquerda é a aposta na fala do oprimido. Isso por si só já é revolucionário, se efetivado mesmo na prática, pois inverte o vetor dominante, de silenciamento e/ou interdição e/ou colonização da fala do oprimido. A distinção difícil, mas necessária, me parece ser entre aposta, de um lado, e, do ouro, crédito cego e, no limite, condescendência. O jeito mais fácil de cair da aposta no crédito me parece ser passar tomar as afirmações do lugar de fala desligadas da singularidade da vivência — tomá-las como universais. Pois a singularidade garante aqui que se possa identificar sentir-se oprimido com ser oprimido. Por outro lado, isso não impede que, porque essa singularidade em questão é atravessada por um predicado como “negro”, que esse sentimento de opressão que é de fato uma opressão desse singular contenha o indício de uma opressão relacionada ao predicado em questão — sim, que este seja mesmo a causa da opressão. Mas não vejo como passar a esse nível sem acrescentar outros elementos que já não podem se restringir a um lugar de fala ou, ao menos, a esse lugar de fala específico. Sob pena de que, no limite, se a fala vale pelo lugar de onde fala, a fala de um cara como o Holiday, um negro de direita para quem não há discriminação, preconceito etc. é tão válida quanto a de um negro do movimento negro.”

NOTA #5 [07/03/2017] (RJ I)

“Pelo menos duas coisas têm me incomodado na militância ligada a minorias nos últimos tempos — um certo fechamento identitário e um uso do lugar de fala como cerceador do diálogo. Há uma terceira, mas de outro tipo — a falta de corte classista. A ideia de um fechamento identitário me incomoda porque tem um componente fortemente conservador. Parece que há certas coisas de uma cultura que é preciso preservar — até aí, sem problemas; mas não apenas isso: preservar em sua pureza. Como se uma série de símbolos culturais não tivesse uma história compartilhada por várias culturas. É como se fosse uma questão de propriedade mesmo: isso é meu, da minha cultura, o outro não tem o direito de usar. Como se uso necessariamente dependesse de posse. Como se não fosse o caso, para quem é de esquerda, o de lutar em última instância por uma comunidade onde não há posses justamente para que tudo seja de livre uso. Isso não quer dizer necessariamente que não se deva denunciar a mercantilização de valores que são de outra natureza e tal. Que não se deva insistir que há esse tipo de valor. Mas isso é problema da estrutura — do velho e mau capitalismo — não de culpabilização individual. O que não implica que uma dimensão individual vem junto, como pressuposto e meta, da transformação — que nossos meios já sejam uma antecipação “performática” dos nossos fins é um pressuposto comum a nós, creio. Daí, por vias bastante tortas e tortuosas, chego a um aspecto do seu texto que me incomoda e que está ligado em certa medida ao identitarismo: o limiar pouco discernível entre responsabilidade e culpa. Tenho dificuldades de separar o que, em exercícios de desconstrução, é expiação “cristã”, no limite, no bem sentido ocidental, e desconstrução, reconhecimento de privilégio, de herança histórica, de pertencimento à revelia a uma estrutura. Não que transformar estruturas não passe por uma transformação de si, mas de que lugar fala essa transformação? O privilégio da contrição e do reconhecimento da branquitude não só confirma o privilégio do lugar de fala? Em que medida ele não fala desde uma lógica da culpa, da má consciência e do estar em paz consigo bastante ocidentais? É comum ligar verdade e lugar de fala. Eu tendo a formular a coisa assim: de fato, a suposta universalidade de certas formulações costuma esconder a particularidade do lugar de fala privilegiado e dominante de quem as formula. Mas o passo seguinte, para muitos, é negar toda universalidade, afirmando as peculiaridades e diferenças de cada minoria e o privilégio que elas têm de falar do que elas vivem. Isso é posse, é propriedade e está sob o poder delas. Parece que renunciamos assim à universalidade, que seria impossível. Eu tenho achado que esse raciocínio confunde meios e fins ou, antes, táticas e objetivos. Afirmar as diferenças (em geral como identidades contra hegemônicas) não é um fim em si apenas, mas a tática — ou a estratégia — para mostrar que o universal tem furos — e que se precisa não de menos, mas de mais universalidade. A luta pelos direitos civis nos EE UU, a independência do Haiti etc. pareciam ter clareza disso. Nesse sentido, tendo a achar produtivo politicamente investir na afirmação da identidade contra hegemônica, da vivência, do lugar de fala quando isso são táticas para chegar ao universalidade de direitos, à justiça, à igualdade — e não quando vira sinônimo de gueto, de nicho (de mercado) ou coisa que o valha. Se representatividade importa mesmo, ainda assim, até onde posso ver em vários momentos do movimento negro, por ex., está longe de ser o objetivo. Fico em dúvida se esta escuta que parece ser aquiescência garantida é mesmo escuta. O critério de verdade certamente não sou eu, homem branco — e não sou mesmo –; a vivência na pele é uma dimensão fundamental para uma escuta sobretudo nesses casos — mas isso torna a fala do outro necessariamente absoluta, incontestável? Na tentativa de superar um inimigo, que não deixa falar, não de fica perigosamente próximo a ele, quando a escuta é aquiescência prévia, pois seja o que for que o outro diga a vivência dele é critério absoluto de que a fala dele expressa a verdade sobre a questão? Há uma correspondência tão estrita assim entre a fala de quem vive e a experiência mesma de viver? Não sei vcs, mas não raro foi com a mediação do outro e com os conceitos que ele me ensinou que eu pude articular minhas próprias vivências.”
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NOTA #4 [07/03/2017] (RJ I)

Durante a última reunião muito foi falado mas não discutimos a demanda fundamento sobre as relações entre Psicanálise e Filosofia, no entanto, creio ter escutado alguém perguntar, de que maneira a Psicanálise pode ser utilizada para compreender fenômenos políticos, de fato preciso confessar aos camaradas que estudo psicanálise a seis anos muito influenciado pelo CEII, mas confesso que minha pressa e sede com os quais me lancei nos escritos de Freud e Lacan não deixaram que eu pelo menos uma vez fizesse essa pergunta com sinceridade para mim mesmo. Isto talvez demonstre como voltar a estudar psicanálise desde o principio, este “eterno retorno” garante que o que veremos será parecido com o que vimos antes, no entanto com mais material humano e novos questionamento que ao que parece nos demandaram novas perguntas.

NOTA #3 [07/03/2017] (RJ I)

Determinismo e contingência na dialética histórica.

“Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas haviam se desenvolvido até então.”

Essa passagem arquicitada do Marx no prefácio de sua “Contribuição á crítica da economia política” (uma espécie de “esboço” do “Capital”) subentende uma espécie de vetor da história. Segundo uma lógica dialética cujo motor é a contradição, as forças produtivas (análogo “materialista” da noção de Espírito em Hegel) que um dia foram impulsionadas e expandidas por um certo modo de produção, transbordam da forma dada, como que a exigir um novo regime de organização no nível da superestrutura jurídico-política, que envolve um novo regime de propriedade.

Em seu programa de transição para o socialismo, Trotsky corrobora o fato desta ‘lei social’ descoberta por Marx e Engels atuar como um elemento fundamental da evolução social. Nesse sentido, não há volta pra trás, não há retorno possível para condições précapitalistas, como o sistema feudal, nem tampouco a possibilidade de que o capitalismo – desde fins do século XIX em franca decadência – não desemboque no socialismo. Trata-se de uma determinação lógica e inevitável, em seguida do imperialismo monopolista. Nessa perspectiva hegeliana invertida, onde o idealismo cede lugar ao materialismo (na medida que se trata de produção econômica e não de ideias), a história ganha um sentido determinado, apreensível por um saber que traça as coordenadas da intervenção política revolucionária.

Com a derrocada do comunismo soviético (primeiro governo operário do mundo), que se inicia desde os anos 20/30 na URSS com a ascensão da burocracia stalinista ao poder, ou seja, com a contra-revolução com seu cortejo de assassinatos e expurgos, a história parecia dar marcha a ré, frustrando as antecipações da ciência materialista. Desde então, muitos teóricos de vertente crítica tentaram ‘salvar’ o marxismo, dissociando-o dessa perspectiva unidirecional, enquanto outros simplesmente o abandonaram, declarando ser a história sem razão, algo da ordem do puro acontecimento sem sentido, ou cujo sentido só é obtido na posterioridade, por uma espécie de efeito de après coup.

Trotsky, ao mesmo tempo homem teórico e comandante do exército vermelho, sempre se quis de obediência marxista leninista extrema, enfrentou graves problemas com seus seguidores americanos, como Eastman (tradutor para o inglês de “A história da revolução russa”). Eastman fora aluno do pragmatista Dewey, e advogava que a dialética, longe de dever ser tomada como uma ciência, era como um pensamento filosófico ainda teológico a ser extirpado do marxismo, para o seu próprio bem.

A polêmica se agravou por ocasião do ‘apoio’ de Trotsky à invasão da Finlândia por seu desafeto e perseguidor, Stalin, iniciativa considerada por ele, apesar do pesares, um movimento histórico que traria a libertação dos trabalhadores do país. Nesse momento, mesmo seus camaradas mais próximos, consoante a opinião pública favorárel à “pequena Finlândia”, acharam essa compreensão fantasiosa. De todo modo, esse fato por si só dá a medida do quanto as análises de Trotsky não eram movidas por razões pessoais. (continua)

NOTA #2 [21/02/2017] (RJ I)

Interessante o debate sobre a reforma da previdencia que toma conta de varios circulos de esquerda. A proximidade da votação em conjunto com os ataques que os trabalhadores sofrem em todas as esferas da vida intensificam esse processo. A ideia de que as pessoaa estão mais velhas e podem trabalhar mais tempo é uma ideia fundante da grande mentira perpretada pelo governo golpista e expressa algo maior que, ao meu ver, é a retomada de forma totalizante de politicas neoliberais. Me parece que o debate da previdencia em si na esquerda não é muito conflituoso tenda em vista que não requer muitos elementos economicos. Mas o grande problema desse debate seja a popularização. Como tonar esse debate popular? Sera que passa pelo problema da descrença na politica por grande parte da população? Se sim, e esse me parece um grande problema, de que maneira podemos contribuir com essa a pretensa popularização do debate? De que maneira a psicanalise pode contribuir com isso?