NOTA #1 (08/04/17) PR

Na reunião, deu-se continuidade à leitura do Manifesto do Partido Comunista. Debateu-se política e estrutura, buscando-se analisar os problemas enfrentados atualmente. Leu-se a nota de um colega, e por meio dela foi possível compreender vários aspectos que afligem a sociedade (política) atualmente. Questionou-se sobre os métodos utilizados pela esquerda em discurso, chegando-se a conclusão da necessidade de abertura ao outro, não o excluindo ou impondo uma posição, mas buscando sua integração, entendendo suas perspectivas e concepções, mostrando possibilidades e contraposições. A abertura para o diálogo pode se mostrar muito mais eficaz do que a guerra declarada e a exaltação de espectros. O discurso de ódio ganha cada vez mais força com a notoriedade que a ele se dá. Talvez devêssemos olhar para outros caminhos, encontrar outras formas de combatê-lo.

Nas palavras de Alan Badiou¹ (Votar, ou reinventar a política?),

“O desenvolvimento do capitalismo pode trazer algumas incertezas quanto ao valor do consenso parlamentar, e à confiança atribuída – durante o ritual eleitoral – aos ‘grandes’ partidos conservadores ou reformistas. Isso é especialmente verdadeiro no caso da pequena-burguesia que tem seu status social ameaçado, ou em regiões de classe trabalhadora devastadas pela desindustrialização. Vemos isso no Ocidente, onde podemos observar uma espécie de decadência em face do poder ascendente dos países asiáticos. Essa crise subjetiva atual favorece sem dúvida orientações pró-fascistas, nacionalistas, religiosas, islamofóbicas, e beligerantes, porque o medo é uma mau conselheiro, e essas subjetividades marcadas pela crise são tentadas a se apegar a mitos identitários. Sobretudo, porque a hipótese comunista emergiu terrivelmente enfraquecida do fracasso histórico de todas as suas versões primeiras, estatizantes, especialmente a URSS e a República Popular da China.
A consequência dessa falha é auto-evidente: uma boa parte da juventude, dos desprivilegiados, dos trabalhadores abandonados, e do proletariado nômade de nossos subúrbios estão convencidos de que a única alternativa a nosso consenso parlamentar é a política fascista de identidades ressentidas, racismo e nacionalismo.

Se quisermos nos opor a essa terrível situação, somente um caminho se abre a nossa frente: reinventar o comunismo.”

1 Disponível em: https://lavrapalavra.com/2017/04/24/votar-ou-reinventar-a-politica/ Traduzido por Aukai Leisner.

NOTA #3 (11/03/17) PR

“Peter Sloterdijk não é um pensador do século XXI. É um pensador para o terceiro milênio. Seu ceticismo é tão acentuado que desperta em nós a alegria afirmativa e a liberdade criadora daqueles que, não acreditando em nada, sorriem rumo ao horizonte vazio de qualquer ilusão. Por isso, seu pensamento, mais do que uma reconstrução do passado, é uma arqueologia que vem do futuro mais longínquo para iluminar as camadas mais profundas do que um dia pudéramos vir a ser. Afinal, apenas um pensamento extemporâneo pode compreender futuro e passado como reversos luminosos e como a coincidentia oppositorum da mesma precária condição humana. Para mim, Platão e Nietzsche são os maiores pensadores de toda a filosofia e estão entre os maiores escritores da humanidade. Enquanto aquele foi o maior imunólogo da civilização, que conseguiu blindar o real por meio da criação da mais poderosa tecnologia eidética de que se tem notícia, este foi o primeiro a perceber que a verdade apenas se revela com a devastação sumária e a marteladas dos castelos conceituais imunológicos. Ambos representam os pontos mais elevados das esferas e das antiesferas no pensamento ocidental. Nada mais gratificante do que descobrir um pensador contemporâneo, mestre imbatível na arte do ensaio, que conseguiu propor uma temerosa e absolutamente inaudita síntese destes dois antípodas, colocando-os para dançar. Com isso, entre diversos outros achados iluminados e luminosos, Sloterdijk demonstrou que as oposições só existem para aqueles que não conseguem ouvir a música das esferas.” PETRONIO, Rodrigo. UMA ANTROPOLOGIA PARA ALÉM DO HOMEM: RELIGIÃO E HOMINIZAÇÃO NA OBRA ESFERAS DE PETER SLOTERDIJK. [dissertação de mestrado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP – 2013], p. 25.

NOTA #2 (11/03/17) PR

Ao que tudo indica, caminhamos lentamente para a destruição. A nossa destruição, e logo, de tudo o que existe, pois não há nada que exista fora do pensamento. O que está para além disso é menos que nada.
Ora, mas não estamos na era do progresso? Não disseram que o desenvolvimento tecnológico e econômico era a coroação do progresso humanitário? Essa é uma promessa velha que ressoa desde o séc. XVIII. As Revoluções Burguesas (Industrial, Francesa) impulsionaram toda uma lógica de desenvolvimentismo acumulacionista que supostamente engatilharia uma ética humanitarista e solidária absoluta. E de certa forma até conseguiram o resultado pretendido, mas o custo foi esvaziar toda essa cadeia de significantes e perverter todos os seus significados.
O desenvolvimento tecnológico, das relações de produção, dos meios de produção existe, de fato. O problema é que desenvolvimento não tem nada a ver com uma conceituação positiva, a não ser num sentido daquilo que desloca-se como aparecimento. Desenvolvimento é evolução, o que também nada a ver tem com um sentido positivo – num sentido de algo que é bom, benéfico ou melhor – mas apenas representa o movimento de um ser que transpõe a forma e conteúdo daquilo que era. Isso quer dizer apenas que uma coisa que era uma coisa se tornou outra coisa. Melhor, pior, bom, ruim…essas são categorias de um juízo moral de valor que nada tem a ver com a questão. Aliás, apenas mistifica o fenômeno e atrapalha sua devida reflexão como conceito.
Meus caros, o único desenvolvimento que podemos assistir agora é o desenvolvimento para a morte. Para a uma destruição cataclismática. Essa é uma certeza histórica, um evento que se tornou inevitável, pois há tempos passamos do ponto-limite de retorno. O desenvolvimento tecnológico, a lógica de acumulação, o agravamento das desigualdades sociais, as crises econômicas e políticas, a iminência de uma catástrofe ambiental: estes fenômenos estão todos interligados como causas e efeitos entre si e enfileiram-se uns aos outros como encadeamentos de uma necessidade ontológica.
Mas então é isso? Não podemos fazer mais nada?
Sim e não.
Há uma sobredeterminação – num sentido althusseriano – que, em última instância, parece sempre direcionar o movimento histórico para um certo deslocamento-tendência. A ausência do futuro é, pois, uma certeza história “muito provável”. Mas a História sempre comporta um interseccionamento das contingências, acontecimentos “imprevisíveis”, inesperados, que podem descontinuar essa certeza histórica.
Acredito que nos momentos mais críticos a contingência pode imprimir uma ruptura violenta com as tendências histórias e atualmente vivemos esses tempos críticos. Se há medo, é porque há esperança. E se há ou pode haver um futuro, ele só poderá ser comum. A contingência da sobrevinda de uma Ideia do comum é uma certeza histórica necessária.
É no comum que pode haver futuro, ou não haverá futuro de forma alguma.

NOTA #4 [18/04/2017] (RJ I)

O Latesfip vai reiniciar os ciclos de debates sobre neoliberalismo. O próximo encontro é do Safatle comentando Misses. Geralmente, o neoliberalismo aparece nesses e em outros encontros como uma teoria nefasta que deve ser extirpada, mas pouco se entende porque teoria venceu tão fortemente. Apela-se para a força coercitiva do Estado e para a alienação para explicar a situação. No entanto, parece que o neoliberalismo oferece algo de positivo para as pessoas, visto que muitos se identificam com ela. Por que temos dificuldade de fazer uma crítica que não seja meramente destruidora, mas também propositora?

NOTA #3 [18/04/2017] (RJ I)

Em suas “Considerações sobre a Guerra e a Morte”, Freud fala de uma desilusão diante do que sucedeu na primeira Guerra. No texto de 1915 podemos perceber que desilusão é um termo que encontra sua precisão para o que para Freud foi a queda ou um esfacelamento de toda a Fantasia da elevação cultural, de toda a ideia de Civilização, mais avançada do que o restante do mundo sendo assim de fato o caminho a ser seguido. Parece que os Estado que se diziam defensores da ética da moral e dos direitos, cometiam “barbaridades” no âmbito da guerra. Desilusão se aplica muito bem neste ponto porque a própria guerra se tornou o esfacelamento desta narrativa fantasiosa do progresso com o real.

NOTA #2 [18/04/2017] (RJ I)

Uma questão que ficou comigo:

Se o poder de fato opera cinicamente em nossos tempos, admitindo de saída o modo como se estrutura e atua (e, de preferência, rindo dessa atuação, não se levando muito a sério), então resta pouco ou nada a fazer quanto ao “esclarecimento das massas”. Se a denúncia se tornou indiferente, pois seu conteúdo já é assumido antecipadamente pelo denunciado como forma de anular sua eficácia, então devemos suspendê-la. Deixar o poder funcionar à revelia de nosso patrocínio involuntário.

Contudo, seriam realmente estas as implicações práticas que devemos extrair da assunção dessa tese, a da ideologia cínica, no tocante ao esclarecimento? Deveríamos nos esquivar em absoluto da tentativa (ou tentação) de ironizar, de expor, de condenar e de explicar o que já está revelado desde o início? Ou justamente o contrário: devemos mais do que nunca ser irônicos, rir do poder, mas apenas como forma de reduzir o impacto negativo da condição a que nos submete? Se, contudo, no primeiro caso, a total interrupção da denúncia parecer um exagero, será por uma falha da teoria (em casos concretos a denúncia ainda pode possuir validade, ainda pode modificar condutas) ou por uma falha nossa para aceitar a verdade da teoria – uma lacuna entre o que “professamos” (a ideologia cínica e seu corolário, essa espécie de saber total da sociedade) e aquilo que nos determina a ação?

Finalmente: que tipo de postura seria a mais coerente adotar se de fato assumimos que o funcionamento do poder se coloca sem máscaras, que tudo já está posto às claras, que todos já sabem (e que esse saber não se traduz em ação contrária efetiva)? Deixar para ingênuos e crédulos a tarefa inglória de multiplicar os memes, os “textões”, as propagandas, os debates pretensamente esclarecedores ou qualquer outra forma de denúncia enquanto assistimos à distância o desdobrar dos fatos (de quando em quando denunciando a leviandade do denuncismo alheio). Ou engrossar cinicamente o coro dos descontentes? (sei muito bem que todos já estão conscientes do que vou dizer, mas ainda assim o digo como se não estivessem).

Então, assumindo a tese da ideologia cínica e sendo ela verdadeira, seriam estas as opções? O silêncio dos (duplamente) esclarecidos ou a tagarelice?

NOTA #6 [11/04/2017] (RJ I)

Sobre o Comum

Proposta: tenho me dedicado nesse ano em tentar aproximar quatro das grandes teorias sobre os “comuns” a partir das pistas sugeridas pelos outros camaradas em outros momentos: a teoria das frentes do comuns (natureza interna, natureza externa, cultural e apartheid social), os enclosures (cercamentos), a Ideia do Comunismo e as novas configurações da conjuntura.

Tentativa: uma mistura de Alain Badiou, Slavoj Zizek, Antonio Negri e Peter Sloterdijk não cairia nada mal. É claro que, em resumo, Badiou e Zizek poderiam se alinhar em oposição a Negri e a Sloterdijk.

Atividades: i. a célula PR tem se orientado por essas questões no novo projeto apresentado tempos atrás (Proletariado, classes sociais, corpos sociais e massas). Trata-se de um projeto e médio prazo de 2 anos de preparação em torno de uma base (Marx, marxismos, Freud, etc.) para depois tentar colher alguns frutos.; ii. a comunicação no NIEP, em Marília no meio do ano, em Curitiba em Outubro são testes de possíveis cruzamentos.

Não gostaria de me alongar e adiantar algumas considerações sólidas que tenho escrito. Apenas queria deixar o convite para quem quiser conversar, sugerir e mais: sempre que possível, falar disso na reunião ajudaria tanto a mim quanto à célula de Jacarezinho.

NOTA #7 [04/04/2017] (RJ I)

disponível em: https://www.marxists.org/portugues/althusser/1968/02/filosofia.htm

www.marxists.org
Fonte: Tradução para o inglês publicada na New Left Review em 1971. Tradução: Gabriel Zerbetto Vera, Maio 2007, a partir do texto em inglês existente no …

 

A Filosofia Como Uma Arma Revolucionária

Louis Althusser

Fevereiro de 1968


Primeira Edição: Entrevista concedida a Maria Antonietta Macciocchi e publicada em L’Unità, Fevereiro de 1968. Também disponível em ebook
Fonte: Tradução para o inglês publicada na New Left Review em 1971.
Tradução: Gabriel Zerbetto Vera, Maio 2007, a partir do texto em inglês existente no Marxists Internet Archive.
HTML: Fernando A. S. Araújo, Maio 2007.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


1 Você poderia nos contar um pouco sobre sua história pessoal? O que o trouxe à filosofia marxista?

Em 1948, quando eu tinha 30 anos, me tornei professor de filosofia e me filiei ao PCF [Partido Comunista Francês]. A filosofia era um interesse, eu buscava fazer dela minha profissão. A política era uma paixão, eu almejava ser um militante comunista.

Meu interesse pela filosofia foi motivado pelo materialismo e sua função crítica: o conhecimento científico, contra todas as mistificações do “conhecimento” ideológico. Contra o mero denuncismo moral de mitos e mentiras, por suas críticas racionais e rigorosas. Minha paixão pela política foi inspirada pelo instinto revolucionário, inteligência, coragem e heroísmo da classe operária em sua luta pelo socialismo. A Guerra e os longos anos em cativeiro me propiciaram um vívido contato com operários e camponeses e fui apresentado aos militantes comunistas.

Foi a política que decidiu tudo. Não a política em geral: a política marxista-leninista.

Primeiro tive que encontrá-las e entendê-las. Isso é sempre dificílimo para um intelectual. E foi difícil assim nos anos 50 e 60, pelos motivos que você sabe bem: as conseqüências do “culto”, o Vigésimo Congresso, depois a crise do movimento comunista internacional. Acima de tudo, não foi fácil resistir à propagação da ideologia “humanista” contemporânea e aos outros ataques da ideologia burguesa ao marxismo.

Uma vez que atingi um melhor entendimento da política marxista-leninista, comecei a me apaixonar pela filosofia também, e conseqüentemente passei a entender a grande idéia de MarxLênin e Gramsci: a de que a filosofia é fundamentalmente política.

Tudo que escrevi – primeiro sozinho, depois em companhia de camaradas e amigos mais jovens – gira, apesar da “abstração” de nossos ensaios, em torno dessas questões bastante concretas.

2 Você poderia ser mais preciso: por que em geral é tão difícil ser um comunista na filosofia?

Ser um comunista na filosofia é tornar-se partidário e perito na filosofia marxista-leninista, a do materialismo dialético.

Não é fácil ser um filósofo marxista-leninista. Como todo “intelectual”, o professor de filosofia é um pequeno burguês. Quando ele abre a boca, sua ideologia pequeno-burguesa fala: seus truques e espertezas são infinitos.

Você sabe o que Lênin diz dos “intelectuais”. Individualmente, alguns deles poderiam (politicamente) ser considerados revolucionários e corajosos. Mas no conjunto eles permanecem sendo pequeno-burgueses “incorrigíveis” na ideologia. O próprio Gorki era, para Lênin (que admirava seus talentos), um revolucionário pequeno-burguês. Para se tornarem “ideólogos da classe operária” (Lênin), “intelectuais orgânicos” do proletariado (Gramsci), os intelectuais devem atingir uma revolução radical em suas idéias: uma longa, dolorosa e difícil re-educação. Uma interminável luta exterior e interior.

Os proletários têm um “instinto de classe” que os ajuda a alcançar “posições de classe” proletárias. Os intelectuais, por outro lado, têm um instinto de classe pequeno-burguês que se opõe ferozmente a essa transição.

Uma posição de classe proletária é mais do que um mero “instinto de classe” proletário. É a consciência e a prática que estão de acordo com a realidade objetiva da luta de classe proletária. O instinto de classe é subjetivo e espontâneo. A posição de classe é objetiva e racional. Para atingir as posturas de classe proletárias, o instinto de classe dos proletários necessita apenas ser educado; o instinto de classe dos pequeno-burgueses (e, logo, dos intelectuais) necessita, por outro lado, ser revolucionado. Essa educação e essa revolução são, em última análise, determinadas pela luta de classe proletária conduzida desde a base pelos princípios da teoria marxista-leninista.

Como diz o Manifesto Comunista, o conhecimento dessa teoria pode ajudar certos intelectuais a atingirem posições da classe operária.

A teoria marxista-leninista abrange uma ciência (o materialismo histórico) e uma filosofia (o materialismo dialético).

A filosofia marxista-leninista é, portanto, uma das duas armas teóricas indispensáveis para a luta de classe do proletariado. Os militantes comunistas devem assimilar e aplicar os princípios da teoria: ciência e filosofia. A revolução proletária precisa de militantes que são tanto cientistas (materialistas históricos) quanto filósofos (materialistas dialéticos) para auxiliar na defesa e no desenvolvimento da teoria.

A formação desses filósofos vai de encontro a duas grandes dificuldades.

Primeiro, a dificuldade política. O filósofo profissional que se junte ao Partido continua sendo, ideologicamente, um pequeno burguês. Ele deve revolucionar seu pensamento de forma a ocupar uma posição de classe proletária na filosofia.

Essa dificuldade política é “determinante em último caso”.

A segunda é a dificuldade teórica. Nós sabemos com que direcionamento e com quais princípios devemos trabalhar a fim de definir essa posição de classe na filosofia. Mas devemos desenvolver a filosofia marxista: é teórica e politicamente urgente fazer isso. Agora, esse trabalho é vasto e difícil. Dentro da teoria marxista, a filosofia ficou para trás da ciência da história.

Atualmente, em nossos países, essa é a dificuldade “dominante”.

3 Então você distingue uma ciência e uma filosofia dentro da teoria marxista? Como você sabe, essa distinção é bastante contestada atualmente.

Eu sei. Mas essa “contestação” é uma velha história.

Para ser extremamente esquemático, pode-se dizer que, na história do movimento marxista, a supressão dessa distinção expressou um desvio tanto direitista quanto esquerdista. O desvio direitista suprime a filosofia: resta apenas a ciência (positivismo). O desvio esquerdista suprime a ciência: resta apenas a filosofia (subjetivismo). Existem exceções a isso (casos de “inversão”), mas elas “confirmam” a regra.

Os grandes líderes do movimento operário marxista, de Marx e Engels até hoje, sempre disseram que esses desvios são resultado da influência e dominação da ideologia burguesa sobre o marxismo. Da parte deles, eles sempre defenderam a distinção (ciência, filosofia), não apenas por razões teóricas, mas por razões vitais políticas também. Pense no Lênin em Marxismo e Empírio-criticismo ou em Esquerdismo – Doença Infantil do Comunismo. Suas razões são claramente óbvias.

4 Como você justifica essa distinção entre ciência e filosofia na teoria marxista?

Responderei a essa pergunta formulando algumas questões provisórias e esquemáticas.

1. A fusão da teoria marxista com o movimento operário é o evento mais importante de toda a história da luta de classes, ou seja, de praticamente toda a história da humanidade (os primeiros efeitos foram as revoluções socialistas).

2. A teoria marxista (ciência e filosofia) representa uma revolução sem precedentes na história do conhecimento humano.

3. Marx fundou uma nova ciência: a ciência da história. Vou ilustrar isso. As ciências com as quais somos familiares têm seus alicerces em alguns “continentes”. Antes de Marx, dois desses continentes haviam sido abertos ao conhecimento científico: o continente da matemática e o continente da física. O primeiro pelos gregos (Tales), o segundo por Galileu. Marx abriu um terceiro continente ao conhecimento científico: o continente da história.

4. A abertura desse novo continente levou a uma revolução na filosofia. Essa é uma regra: a filosofia está sempre ligada às ciências.

A filosofia nasceu (com Platão) quando o continente da matemática foi aberto. Ela foi transformada (com Descartes) pela abertura do continente da física. Hoje em dia, ela está sendo revolucionada com a abertura do continente da história por Marx. Essa revolução é chamada materialismo dialético.

As transformações da filosofia são sempre reverberações de grandes descobertas científicas. Portanto, em essência, elas nascem após esses eventos. É por isso que a filosofia ficou para trás da ciência na teoria marxista. Existem outras razões que todos nós conhecemos, mas hoje essa é a dominante.

5. Como conjunto, apenas os militantes proletários reconheceram o âmbito revolucionário da descoberta científica de Marx. Sua prática política foi transformada por ela.

E aqui chegamos ao maior escândalo teórico da história contemporânea.

Como conjunto, os intelectuais, por outro lado — mesmo os que têm um interesse “profissional” no assunto (especialistas em ciências humanas, filósofos) —, não reconheceram ou se recusam a reconhecer o âmbito sem precedentes da descoberta científica de Marx, esta que eles condenam e desprezam e que eles distorcem quando discutem a seu respeito.

Com poucas exceções, eles ainda estão “engatinhando” na economia política, sociologia, etnologia, “antropologia”, “psicologia social”, etc., etc. Mesmo hoje, cem anos após o Capital , assim como os físicos aristotélicos estavam “engatinhando” na física, cinqüenta anos depois de Galileu. Suas “teorias” são anacronismos ideológicos, rejuvenescidos por uma grande dose de sutilezas intelectuais e técnicas matemáticas ultramodernas.

Mas esse escândalo teórico não é um de todo um escândalo. É um efeito da luta de classe ideológica: pois é a ideologia burguesa, a “cultura” burguesa que está no poder, que exerce uma “hegemonia”. Como conjunto, os intelectuais, incluindo muitos intelectuais comunistas e marxistas, são – com exceções – dominados em suas teorias pela ideologia burguesa. Com exceções, o mesmo acontece nas ciências “humanas”.

6. A mesma situação escandalosa aparece na filosofia. Quem compreendeu a incrível revolução filosófica provocada pela descoberta de Marx? Apenas os líderes e militantes proletários. Por outro lado, os filósofos profissionais, como conjunto, nem sequer se deram conta dela. Quando eles mencionam Marx, isso sempre ocorre (com raríssimas exceções) com o intuito de atacá-lo, condená-lo, “absorvê-lo”, explorá-lo e revisá-lo.

Aqueles que defenderam a dialética materialista, como Engels e Lênin, são tratados como filosoficamente insignificantes. O verdadeiro escândalo é que certos filósofos marxistas sucumbiram ante a mesma infecção, em nome do “anti-dogmatismo”. Mas aqui também a razão é a mesma: o efeito da luta de classe ideológica. Pois é a ideologia burguesa, a “cultura” burguesa, que está no poder.

7. As tarefas cruciais do movimento comunista, em teoria:

– Identificar e conhecer o âmbito teórico revolucionário da ciência e da filosofia marxista-leninista;

— Lutar contra a visão de mundo burguesa e pequeno-burguesa que sempre ameaçou a teoria marxista e que a permeia profundamente hoje em dia. A forma geral dessa visão de mundo é o economismo (hoje “tecnocracia”), e seu “complemento espiritual”, o idealismo ético (hoje “humanismo”). O economismo e o idealismo ético formaram a base opositora na visão de mundo burguesa desde as origens da burguesia. A atual forma filosófica dessa visão de mundo é o neo-positivismo e seu “complemento espiritual”, o subjetivismo existencialista-fenomenológico. A variante peculiar às Ciências Humanas é a ideologia chamada “estruturalismo”;

— Conquistar para a ciência a maioria das Ciências Humanas, acima de tudo as Ciências Sociais, que, com exceções, têm ocupado como impostoras o continente da história, o continente legado por Marx a nós;

— Desenvolver a nova ciência e filosofia com todo rigor e ousadia necessários, vinculando ambas aos requisitos e inventos da prática da luta de classe revolucionária.

Em teoria, a ligação decisiva na atualidade: a filosofia marxista-leninista.

5 Você disse duas coisas que são aparentemente contraditórias ou diferentes: primeiro, a filosofia é basicamente política; segundo, a filosofia está ligada às ciências. Como você explica essa dupla relação?

Aqui também terei de responder por meio de questões esquemáticas e provisórias.

1. As posições de classe em confronto na luta de classes são “representadas” no domínio das ideologias práticas (ideologias religiosas, éticas, legais, políticas, estéticas) por visões de mundo de tendências antagônicas: idealistas (burguesas) e materialistas (proletárias). Todos desenvolvem espontaneamente uma visão de mundo.

2. As visões de mundo são representadas no domínio da teoria (ciência + as ideologias “teóricas” que envolvem a ciência e os cientistas) pela filosofia. A filosofia representa a luta de classes na teoria. É por isso que a filosofia é uma luta (Kampf, como disse Kant) e fundamentalmente uma luta política: uma luta de classes. Ninguém é um filósofo por natureza, mas todos podem ser filósofos.

3. A filosofia surge logo que o domínio teórico aparece, logo que uma ciência (num sentido estrito) nasce. Sem a ciência não há filosofia, apenas visões de mundo. A aposta na batalha e o campo de batalha devem ser distinguidos. A aposta definitiva da luta filosófica é a luta pela hegemonia entre as duas grandes tendências de visão de mundo (materialista e idealista). O principal campo de batalha dessa luta é o conhecimento científico: contra ou a favor dele. Deste modo, a batalha filosófica mais importante ocorre na fronteira entre o conhecimento científico e o ideológico. Lá, as filosofias idealistas que depredam a ciência lutam contra as filosofias materialistas que servem às ciências. A luta filosófica é uma esfera da luta de classes existente entre visões de mundo. No passado, o materialismo sempre foi dominado pelo idealismo.

4. A ciência fundada por Marx mudou toda a conjuntura do domínio teórico. É uma ciência nova: a ciência da história. Dessa forma, isso nos possibilitou conhecer, pela primeira vez, as visões de mundo que a filosofia representa na teoria; isso no permitiu entender a filosofia. Isso nos fornece recursos para mudar as visões de mundo (a luta de classe revolucionária guiada pelos princípios da teoria marxista). A filosofia é assim duplamente revolucionada. O materialismo mecanicista, “idealista historicamente”, se torna o materialismo dialético. O equilíbrio das forças é invertido: agora o materialismo pode dominar o idealismo na filosofia e, se as condições políticas estiverem concretizadas, pode também conduzir a luta de classe pela hegemonia entre as visões de mundo.

A filosofia marxista-leninista, ou o materialismo dialético, representa a luta de classe proletária na teoria. Com a união da teoria marxista e do movimento operário (a união definitiva entre teoria e prática) a filosofia é interrompida, como disse Marx, para “interpretar o mundo”. Torna-se uma arma para “mudá-lo”: a revolução.

6 São essas as razões que levaram você a dizer que é essencial ler o Capital hoje em dia?

Sim. É essencial ler e estudar o Capital.

— Para realmente entender, em todo seu âmbito e conseqüências científicas e filosóficas, o que o os militantes proletários há muito entendem na prática: o caráter revolucionário da teoria marxista.

— Para defender essa teoria de todas as interpretações burguesas e pequeno-burguesas, ou seja, revisões que ameaçam-na seriamente hoje, principalmente a oposição economismo/humanismo.

— Para desenvolver a teoria marxista e prover os conceitos científicos indispensáveis à análise da luta de classes contemporânea, em nossos países e mundo afora.

É essencial ler e estudar o Capital. Devo acrescentar que é necessário e essencial ler e estudar Lênin e todos os grandes textos, novos ou antigos, aos quais se devem a experiência da luta de classe do movimento operário internacional. É essencial estudar os textos práticos do movimento operário revolucionário em sua realidade, seus problemas e contradições: seu passado e, acima de tudo, sua história presente.

Atualmente, existem grandes recursos em nossos países para a luta de classe revolucionária. Mas eles devem ser buscados em suas fontes: as massas oprimidas. Eles não serão “descobertos” sem um vínculo direto com as massas e sem as armas da teoria marxista-leninista. As noções ideológicas burguesas de “sociedade industrial”, “neocapitalismo”, “nova classe trabalhadora”, “sociedade afluente”, “alienação” e tutti quanti são anti-científicas e antimarxistas: criadas para fazer frente aos revolucionários.

Finalmente, devo acrescentar um comentário, o mais importante de todos.

Para que alguém realmente entenda o que “lê” e estuda nessas obras teóricas, políticas e históricas deve-se vivenciar diretamente as duas realidades que de fato as determinam: a realidade da prática teórica (ciência, filosofia) em sua vida concreta e, também nesta, a realidade da prática da luta de classe revolucionária, em contato próximo às massas. Pois é a teoria que nos permite compreender as leis da história: não são os intelectuais nem os teóricos, mas as massas que fazem a história. É essencial aprender com a teoria – mas ao mesmo tempo é crucial aprender com as massas.

7 Você atribui uma grande importância ao rigor, inclusive a um vocabulário rigoroso. O que isso significa?

Uma simples expressão resume a função maior da prática filosófica: “traçar uma linha divisória” entre as idéias verdadeiras e as falsas, como disse Lênin.

Mas a mesma expressão resume uma das operações fundamentais que norteiam a prática da luta de classe: “traçar uma linha divisória” entre as classes antagônicas. Entre nossos amigos de classe e nossos inimigos de classe.

É a mesma expressão. A linha divisória teórica entre as idéias verdadeiras e as falsas. A linha divisória política entre o povo (o proletariado e seus aliados) e os inimigos do povo.

A filosofia representa a luta de classes na teoria. Em contrapartida, ela ajuda o povo a distinguir na teoria e em todas as outras idéias (políticas, éticas, estéticas, etc.) quais idéias são corretas e quais são erradas. A princípio, as idéias verdadeiras sempre servem ao povo; as idéias falsas sempre servem aos inimigos do povo.

Por que a filosofia batalha pelas palavras? As realidades da luta de classes são “representadas” pelas “idéias”, que são “representadas” pelas palavras. Na argumentação científica e filosófica, as palavras (conceitos, categorias) são “instrumentos” do conhecimento. Mas na luta política, ideológica e filosófica, as palavras são armas, explosivos ou tranqüilizantes e venenos. Às vezes, toda a luta de classe pode ser resumida a um confronto entre palavras. Certas palavras lutam entre si como inimigas. Outras palavras são raízes de uma ambigüidade: são a aposta em uma batalha decisiva, porém não resolvida.

Por exemplo: a luta comunista pela supressão das classes e por uma sociedade comunista, onde, um dia, todos os homens serão livres e irmãos. Entretanto, toda a tradição marxista clássica se recusou a considerar o marxismo como um humanismo. Por quê? Por a palavra humanismo ser, na prática (isso é, com base nos fatos), explorada por uma ideologia que a usa para brigar, ou seja, para obliterar aquela outra expressão verdadeira, vital ao proletariado: a luta de classes.

Outro exemplo: os revolucionários sabem que, em último caso, tudo dependerá, não das técnicas, armas, etc., mas dos militantes, com sua consciência de classe, sua devoção e sua coragem. Contudo, toda a tradição marxista se nega a dizer que é o “homem” que faz a história. Por quê? Por esta expressão ser na prática (com base nos fatos) explorada pela ideologia burguesa, que a utiliza para brigar, ou seja, para extinguir outra idéia legítima, vital ao proletariado: que são as massas que fazem a história.

Ao mesmo tempo, a filosofia — mesmo nos longos trabalhos onde ela se mostra abstrata e difícil — batalha pelas palavras: contra as palavras mentirosas, contra as palavras ambíguas, a favor das palavras corretas. Ela luta pelas “marcas de opinião”.

Lênin disse: “Apenas as pessoas incautas consideram as disputas factuais e a rígida diferenciação entre as marcas de opinião como inoportunas ou supérfluas. O destino da social-democracia russa nos muitos anos que hão de vir poderá depender do fortalecimento de uma ou outra “marca” (in Que fazer?).

A batalha filosófica pelas palavras é uma parte da luta política. A filosofia marxista-leninista só poderá concluir sua obra teórica abstrata, rigorosa e sistemática se ela lutar tanto pelas expressões fortemente “acadêmicas” (conceito, teoria, dialética, alienação, etc.) quanto pelas mais triviais (homem, massas, povo, luta de classe).