NOTA CEII SP [04/05/2017]

Interessante o atual momento do CEII. Parece que muitos membros, meio que ao mesmo tempo, pararam para refletir sobre algumas características (problemas? sintomas?) do CEII. Acho que tais momentos podem e devem ser utilizados para tentarmos nos encontrar enquanto coletivo e alinhar nossas expectativas com relação às nossas atividades. Poderíamos fazer isso mais vezes, mas como dizemos quando encontramos algum conhecido na rua “se a gente tivesse marcado, não daria certo!”

NOTA CEII SP [05/10/2017]

Não deveria ser natural – embora infelizmente esse texto tenha que ser postado no Facebook – que um grupo crítico aceite sem críticas que sua ferramenta de comunicação principal seja a espetacularização facebookiana. Em primeiro lugar, o ruído causado por centenas de comentários traz grandes problemas quanto a própria organização e, porque não, ao engajamento. Em segundo lugar, esse mesmo ruído já demonstrou tornar infecundo a organização de atividade. Para assuntos importantes, parece-me que o e-mail ainda funciona sem os constantes gritos e postagens.

 

À guisa de conclusões

  1. o CEII é um espaço pequeno burguês de fuga (estratégica?), um hotel abismo que pode ser efetivo, a meu ver, se, em primeiro lugar, reconhecer suas limitações para a partir dessa limitação se suprassumir ao romper sua circularidade.

 

  1. o CEII é um espaço de reflexão masculinizado não só por adotar a forma-trabalho historicamente orientada tanto na militância quanto na academia, como também, por ignorar até aqui as questões feministas e a insensibilidade com as limitações de ser mulher numa sociedade patriarcal e machista.

 

  1. as ferramentas de comunicação têm, a despeito de seu objetivo, afastado os membros inclusive impedindo um engajamento dado o forte ruído no espaço facebookiano. O que gera trabalho para alguns e estranhamento a outros.

 

Com isso posto, o CEII seria um ótimo espaço se, se abrisse mais por meio de atividades que buscasse um público mais amplo, que não só iniciados, e começasse a manter uma distância crítica aos seus próprios pressupostos podendo abertamente reformulá-los à sombra da experiência. Se tivesse um objetivo francamente revolucionário de prover uma formação profunda a outros grupos que não os acadêmicos. Com atividades propagandistas e intervenção precisa nos debates candentes. Por fim, que mantivesse o terrível condão da práxis na qual a vida de seus membros não fosse alheia as atividades do grupo e o grupo não fosse apenas algo a parte funcionando uma vez por semana com o dever da entrega maçante de notas…

Já dizia o poeta:

Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar…

 

 

P.S: De todas as coisas ditas falta ainda muita coisa.

NOTA CEII SP [28/09/2017]

Outro assunto relevante e muito debatido é a falta de companheiras no CEII, ou o abandono da maioria. O espaço ceiiano é ele todo masculinizado. Por espaço masculinizado entendo um ambiente hostil as atividades artísticas e repleto da forma trabalho sustentado pelo valor. Dado ao próprio domínio dos corpos e sua “alienação educativa” o CEII repete nisso não só o que há de pior nos espaços acadêmicos, como o que há de pior nos espaços dedicados a militância de esquerda. Falta música, falta arte. Falta formas de lidar com um texto para além de sua utilidade no entendimento dos conceitos. E apesar de seu divã diário, a tensão libidinal é rara. Com todo o filisteismo que grassou na esquerda, o CEII foi também uma vítima e nunca se encantou por poesia.

Naturalmente esse é só um dos aspectos. O outro seria a inexistente discussão feminista no interior do grupo naquilo que toca a própria forma do estudo em seu amplo escopo. Criar espaços heterodoxos de discussão e trazer outras formas de decantação de um texto deveriam assim guiar uma outra práxis teórica.

Há ainda outro aspecto que é a insensibilidade – nesse caso inclusive em outras camadas – da vida concreta dos membros. Quer dizer, como ser mulher e participar de um coletivo? Como ter filhos sendo mulher e participar de um coletivo? Como os membros desse mesmo coletivo refletem sobre esses problemas? E qual é a importância desse coletivo para a vida dessas mulheres?

NOTA CEII SP [21/09/2017]

Sócrates lá atrás dizia que uma das manias mais corriqueiras num homem de letras é acreditar que porque sabe de alguma coisa, sabe de todas as demais. Sempre se corre um risco demasiado ao tornar os problemas políticos em problemas psicanalíticos. O ambiente torna-se um divã coletivo de abstrações parciais que dificilmente chegam ao cerne dos problemas que geralmente são óbvios. Claro, porém, que a psicanálise é um ótimo instrumento de desnudamento das relações, inclusive interpessoais. Foram muitos, durante o século XX, àqueles que a utilizaram como arsenal crítico, entretanto, ela tem seus limites principalmente quanto destaca-se das relações materiais em que são engendrados os traumas.

Desse modo, o CEII passou a me lembrar a lenda do cavaleiro sem cabeça só que, no caso, o CEII seria a cabeça à espera de um corpo político efetivo. Um coletivo de pequenos burgueses na ânsia de participar ativamente de uma atividade para além de sua insignificância política. Um coletivo tão afastado da vida comum das pessoas comuns que resta incapaz de expressar, mesmo na esquerda, alguma relevância prática. Em todo caso, isso nunca me desagradou, sempre busquei reverter o problema: se há centenas de grupos que buscam estar na vida comum das pessoas comuns e surtem poucos efeitos que se dão justamente na órbita da política entendida como eleição, por que não fazer diferente?

Nesse sentido, o CEII tornava-se em minhas reflexões um sintoma de época: pessoas bem formadas que, não obstante, dado o colapso do lulopetismo, não têm mais perspectiva de encontrar um corpo político capaz de dar vazão as mudanças que julgam necessárias. O problema é justamente pensar nisso como um problema, que é causado por não se atentar de fato ao que é o círculo.

O círculo traz assim alguns aspectos dos escombros da esquerda e repõe o que nega com mais força; a questão acadêmica. As ideias que circulam no círculo são de pouco acesso – e a bem da verdade; uma novidade até para universitários – são pesadas e densas. Não à toa, o conjunto no interior do círculo é formado majoritariamente por iniciados. Cada vez mais próximos a academia e ao debate francamente acadêmico – o que não é ruim – o círculo se aproxima de seu negativo que acaba por defini-lo por inteiro. Até aqui o círculo se fecha sobre si mesmo, em torno do seu próprio eixo e dificilmente se tornará uma espiral se não levar em consideração seus limites que começam a ser vislumbrados com o reconhecimento de si mesmo.

Esse é um dos aspectos mais aparentes.

NOTA CEII SP [14/09/2017]

CEII

 

Foi o caso de finalmente eu ter que pensar sobre os problemas do CEII. Isto se deu pelo comentário sondando a máquina facebookiana sobre o suposto adiamento do Congresso. Aos camaradas peço que levem em consideração a crítica a partir do ponto de vista político. Ponto no qual ela se endereça, sem mais. Em primeiro lugar, tal crítica presume uma autocrítica: até agora apesar de estar com o CEII não estou no CEII. Quer dizer, em nenhum momento me envolvi efetivamente com o trabalho elaborado pelo grupo, a não ser  há uma certa distância participando friamente de alguns de seus percalços e com resistência a tratar os temas cadentes pela ferramenta do Facebook.

Estou talvez a um ano no grupo e até agora vejo ele patinando sobre os mesmos problemas e, como um cão que corre atrás do próprio rabo, não saindo do lugar.

Minha experiência se dá em São Paulo com os ótimos camaradas de célula a quem tenho estima, admiração e amizade. No que somos de grupo de estudos estamos bem – o que já é muito – no que se refere, entretanto, a qualquer atividade política, intervenção na vida concreta e formulação de atividades para fora do círculo em si, estamos mal. Isso todavia, nunca foi a meu ver um problema, pois, desde a concepção do CEII a partir de sua proposta, – que efetivamente li antes de entrar no grupo – admirava o círculo justamente por exercer um trabalho que a esquerda em seu militantismo “trabalhista” não desenvolve.

Entretanto, em pouco tempo, pude perceber que isso era de fato um problema para a maioria. Problema esse – mais uma autocrítica – que nunca me comoveu minimamente por já fazer parte de coletivos que desenvolvem algum trabalho nas bases. Desse modo, passei a considerar de fato o que era o CEII. Passei a me pôr esse problema a partir do momento em que vislumbrei minhas grandes esperanças tornarem-se ilusões perdidas com o adiamento do Congresso. Momento em que talvez me tornasse efetivamente mais próximo ao grupo e quem sabe mais engajado em seus trabalhos.

NOTA CEII SP [31/08/2017]

A relação entre matemática e filosofia re-anunciada por Badiou é muito importante, apesar de sua aparência enigmática.

Para entender a ontologia matemática é preciso desvincular a noção de ontologia cujo ser corresponde ao sujeito ou indivíduo. Em virtude dos existencialismos do séc. XX temos um senso de que o ser é o sujeito. Entretanto, se observarmos a noção de ontologia para os gregos, em geral, temos que se trata da lógica do ser como aquilo que é. O ser é o é. A ontologia é a lógica do que é e do que não é. Nesse sentido se aproxima das ciências fisicas mais que do das psicologicas.

Tratar dessa relação entre a matemática e a ontologia é um trunfo com relação a ideologia contemporânea, calcada em um racionalo-empirismo pueril.

Badiou afirma, de certo modo, que foi a propria teoria matemática que chegou aos paradoxos do evento, ou seja, do não ser, e também do advento da mudança do ser. Não se trata de metafísica, idealismo ou utopias comunistas, é a própria matemática que anuncia o evento é a transformação do ser, a transformação do que é.

NOTA CEII SP [28/09/2017]

De outro lado, penso também que existe uma estranha atração pelo fracasso no CEII. Como se, havendo “fracasso” pudessemos tirar lições, essa é a ideia. Tem algo de neurótico nisso.

As coisas sempre foram tão acidentais no CEII, meio vagarosas também, um pouco de paciência ajuda tb.

NOTA CEII SP #3 [05/10/2017]

Acho que a questão do desengajamento lembrado pelo camarada do CEII é, na verdade, uma questão que volta quase sempre. As vezes eu acho que o CEII não deveria ser medido em função do engajamento de seus membros, esta é uma questão complicada que atine muito com as particularidades de cada um.

De resto, transcrevo um comentário que para mim descreve nossa situação de forma perfeita:

“O CEII hoje vive um grande desafio. Desde o seu surgimento, o CEII foi levado por dois ou três membros que tomavam a linha de frente e lideravam a realização dos projetos. Sempre houve muita reflexão sobre essa maneira “heroica” de conduzir o coletivo, mas, na hora do vamo ver, essa estrutura se mantinha. No entanto, a conjuntura atual não nos permite continuar empurrando esse problema com a barriga, aceitando o “sujeito suposto fazer tudo”, pois o real da materialidade da gestão das ações está batendo à porta. Nossos heróis não estão morrendo de overdose, mas de fome mesmo por falta de grana… Portanto, a meu ver, estamos vivendo um momento de teste para o coletivo. De prova de existência. Acho que vai haver uma decantação de nossos projetos e vai ficar aquele mínimo que realmente acontece coletivamente. E não há garantias que esse mínimo vá continuar. Esse mínimo existe hoje. Isso fica claro com os esforços que fizemos aqui no Rio para fechar a nossa sala e deslocar as reuniões para a casa de um dos membros. Mas até o desejo de sustentar esse mínimo está em risco.

O CEII vive o que toda organização/ empresa vive: estamos finalizando um ciclo de vida. A forma heroica não cabe mais. Então vamos ver o que sobra da nossa história para ver se disso brota alguma coisa. Não devemos temer encarar a possibilidade de nosso fim. Sem isso, a gente não tirará lições, inclusive para o CEII continuar existindo. Há outras questões. Mas fico por aqui.”

Simplesmente perfeito.