NOTA CEII SP [08/02/2018]

Escrevo sobre PSOL, Boulous, MTST, Lula, PT pois tenho uma interpretação um tanto diferente.  Vou olhar para o que tenho convicção ser a estratégia Boulous.

A estratégia começou com ele mesmo e aos poucos foi se expandindo para a direção do MTST e para um a um dos seus aliados.

Tudo está amparado na ideia de que no Brasil para se realizar mudanças ainda se faz necessário a criação e a presença de figuras míticas, heróis, para liderar (ou controlar) o povo. Getúlio e Lula são os exemplos históricos nesta versão.

É isso mesmo! Getúlio  – Lula – Boulous.  É para se colocar nesta linha sucessória simbólica que se movimenta Boulous, obviamente argumentando que não cometerá os erros de seus antecessores. A imagem é de um reinado em que o rei não tem herdeiros – onde Boulous se movimenta para ser o escolhido de Lula ( atenção – escolhido não apenas como herdeiro dos votos em 2018, mas como herdeiro do lugar simbólico paternalista).

Está análise do Boulous não começou no último período, mas a mais de uma década.  Mas ao juntar – assim como o Lula – o papel de figura pública e de direção hierárquica dos processos políticos torna-se mais um exemplo de personalismo na política brasileira. Desta maneira, o suposto projeto novo está ancorado no que há de mais atrasado e perigoso.

A primeira vítima fatal deste projeto de ascensão pessoal pode ser o PSOL.  Boulous ainda não é, mas muito em breve poderá se tornar maior que o partido e controlá-lo a exemplo de como seu pai simbólico – Lula – controla o PT. A direção que lidera o partido hoje poderá ter os dias contados nesta função na primeira discordância entre estes e o lider do MTST.

Este alerdeado como um novo projeto da esquerda (que até pode ser novo realmente em alguns aspectos) não erra simplesmente por defender Lula e se aproximar do PT (mas só para deixar claro: penso que erra nisto também). Não vejo nem sinceridade nesta defesa, mas apenas uma disputa para ser o herdeiro do “rei”. E mesmo que ele mate simbolicamente o “pai” propondo um novo projeto ele já herdou o personalismo controlador que pode acabar com o PSOL como alternativa real.

A possibilidade de impedir esta realidade  são os militantes do PSOL que hoje chamamos de base do partido. Esta base já recusou em outros tempos a figura mítica que poderia ter virado Heloísa Helena. Lutemos para que em breve a base não seja mais base e faça do PSOL um partido igualitário, horizontal e democrático.

NOTA CEII SP #2 [08/03/2018]

Trechos da entrevista de Lula à Folha de SP, em 13 de março de 2018.

“É importante ter em conta que Temer teve uma vitória quando derrubou o golpe que a TV Globo, o [ex-procurador-geral Rodrigo] Janot e o [empresário] Joesley [Batista] tentara dar nele.

Aquele golpe tinha como pressuposta básico o Temer cair, o Rodrigo Maia [presidente da câmara dos Deputados] assumir a presidência e o Janot ter um terceiro mandato [na PGR].”

_______

“Nesse sistema em que “eles” mandariam, o senhor foi eleito, reeleito, fez uma sucessora e a reelegeu. Tinha uma convivência boa com construtoras e bancos. Como dizer que a elite é contra o senhor?

Eu não tive uma relação boa só com esse setor que você falou. Eu tive uma relação boa com todos os segmentos sociais desse país. Eu tenho orgulho de dizer que o meu governo foi o período em que os empresários mais ganharam dinheiro, os trabalhadores mais ganharam aumento de salário, em que geramos mais empregos, em que houve menos ocupação no campo, na cidade, e menos greve. Eu trago comigo essa honraria de saber conviver com a sociedade brasileira. E de repente eu vejo o tal do mercado assustado com o Lula. E eu fico pensando, quem é esse mercado? Não pode ser os donos do Itaú. Não pode ser os donos do Bradesco, do Santander.

Uma coisa são os donos do banco. Outra coisa é um bando de yuppies, jovens bem aquinhoados que vivem ganhando dinheiro através de bônus, de não sei das quantas, para vender papel sem vender um produto.

Essa gente esteve no FMI durante a crise na América do Sul. Falaram o tempo todo mal dos países pobres. Quando a crise foi nos EUA parece que fizeram cirurgia de amígdalas e não falavam nunca. Eles sabem que, se eu voltar, o FMI não dará palpite na nossa economia. Então, querida, quando eu digo eles…

…fica parecendo as famosas “forças ocultas” do ex-presidente Jânio Quadros [quando se referia a quem o tinha levado a renunciar, em 1961].

Quando eu falo “eles” e “nós”, é porque você tem lado na política brasileira. Quando ganhei as eleições, fiz questão de conquistar muita gente. Criei o Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [com representantes de empresários, trabalhadores e setores sociais]. Tinha gente que achava que eu queria criar uma fissura na relação entre Senado e Câmara com a sociedade. Eu falei “não, eu quero é estabelecer uma política de convivência verdadeira com a sociedade”.

______

“Não sei se você já tem uma compreensão sociológica de junho de 2013 [mês de grandes manifestações no país]. O Brasil virou protagonista demais. E ali eu acho que começava o processo de tentar dar um jeito no Brasil. Como diria meu amigo [e ex-chanceler] Celso Amorim, eu não acredito muito em conspiração. Mas também não desacredito.

O senhor faz uma conexão entre tudo isso e o que acontece com o senhor agora?

Faço. E se estiver errado, vou viver para pedir desculpas.

Mas o senhor acha, por exemplo, que os procuradores da Lava Jato vão aos EUA e se reúnem com um mentor?

Eu acho. Agora mesmo o Moro está lá [no exterior] para receber um prêmio dessa Câmara de Comércio Brasil-EUA. Ele foi lá para ficar 14 dias. Eu já recebi prêmios. Você vai num dia e volta no mesmo dia. Ô, querida, não me peça provas de uma coisa que eu não tenho. Eu estou apenas insinuando que pode ser, tal é a proximidade do Ministério Público com a Secretaria de Justiça dos EUA.”

_____

Transcrissão do vídeo disponível na página www.pt.org.br/leia-a-entrevista-de-lula-para-a-folha-de-s-paulo/, com um pequeno trecho gravado durante a entrevista para a Folha de SP:

“Eu não acho que eu fiz um governo reformista, se você achar que você tirar 36 milhões da miséria absoluta, se você achar que levar 40 milhões de pessoas a um padrão de consumo e de vida de classe média baixa, se você achar que colocar luz elétrica pra 15 milhões de pessoas que moravam embaixo da linha de transmissão, se você achar que em 8 anos eu disponibilizei 47 milhões de hectares pra assentamento de pequenos produtores, se você tiver noção que 47 milhões mais 2 milhões e pouco que a Dilma fez, dá 51 milhões, é 51% de tudo que foi feito em 500 anos de história nesse país. Se você imaginar que nós conseguimos colocar em prática uma transposição que era pra estar inaugurada em 2013 e está atrasada até hoje, que D. Pedro tentou fazer no tempo em que era imperador, se você imaginar a ascensão social das pessoas mais humildes, você vai perceber que nós fizemos uma revolução, que muitas revoluções armadas não conseguiram dar o padrão de vida para o povo que nós demos em apenas 8 anos, isto chama-se política, isto chama-se a arte da democracia.”

NOTA CEII SP #1 [08/03/2018]

Lacan fala no seminario 8, “A transferência”, que o problema do ideal está no cerne da questão da transferencia com o analista. Como isto se relaciona com a transferencia que Tales diz acontecer na politica com Lula? `Poderiamos fazer uma diferenciação entre ideal e ideia no sentido de Badiou? Será que o comentario de Zizek de que o fim da alienação se dá quando nós experimentamos que “não há grande Outro” pode contribuir aqui? Talvez o caminho que vai de i(a) ao a sirva de guia neste ponto.

NOTA CEII SP [22/02/2018]

Temos de brindar a grande coincidência que é a escolha de nossa leitura e o momento atual do PSOL. A questão do lulismo voltou com tudo. Importantíssimo que façamos registros de nossas conversas e o desenvolvimento de ideias, quem sabe até mesmo para um posicionamento teorico quanto ao problema.

NOTA CEII SP [01/02/2018]

A regra sobre o cancelamento de reuniões em caso de acumulo de notas ainda parece causar bastante desconforto no grupo. O pedido de desligamento do CEII por parte de um membro pode tanto indicar que a regra cumpre seu papel, quanto indicar que ela pode gerar um desconforto e exposição de um membro que pode estar tendo dificuldades para cumprir com sua obrigação enquanto membro. Não acho que devemos entrar novamente nessa discussão, sobre se devemos ou não manter a obrigatoriedade de entrega de notas, mas acredito que podemos pensar melhor sobre como poderíamos reduzir qualquer desconforto causado por tal medida, o que poderia gerar maior inclusão e engajamento dos participantes. Será que temos as ferramentas necessárias para tal análise e não estamos utilizando?

NOTA CEII SP #3 [18/01/2018]

No Seminário 18 de Lacan, o mesmo diz que “o responsável pela ideia de sintoma foi Marx” (LACAN, 1971, p. 153) e no Seminário RSI, diz que os psicanalistas devem “buscar a origem da noção de sintoma, […] não em Hipócrates, mas em Marx” (LACAN, 1974-75/inédito, aula de 18/02/1975). Proponho uma discussão sobre a homologia Freud-Marx sob o viés Zizekiano (Mapa da Ideologia, 1994), enquanto chave de leitura desse texto que a gente está lendo.

NOTA CEII SP [18/01/2018]

“Visto desse modo, o problema nos aparece em maior evidência, reforçando a insistência de Fredric Jameson do quão difícil é hoje imaginar um mundo verdadeiramente novo, um mundo que não apenas reflita, inverta ou suplemente a ordem mundial vigente.” (Zizek) – acho que a gente poderia focar nossos esforços na direção desta discussão.

NOTA #4 [23/01/2018] (RJ I)

Os projetos externos do CEII estão se mexendo aos poucos. Eles prometem um bocado, mas ainda não parece ser possível fazer algo que vá além de um projeto de garagem, algo que se trabalha no tempo livre. Enquanto é verdade que muitos grandes projetos começaram assim. O que muda para um projeto sair da garagem?

NOTA #12 [16/01/2018] (RJ I)

O que caracteriza Heidegger como o articulador de um lugar comum no debate filosófico? Esse é tipo de questão que se pode extrair de uma das dimensões do pensamento de Badiou para falar da condição da Filosofia Contemporânea. Não à toa o pensador alemão é escolhido como interlocutor predileto de Alain Badiou, no entanto, isso significa que Heidegger é o responsável pelo fim da filosofia? Certamente que não. A pergunta aqui deve ser recolocada de outra maneira: Por que Heidegger organiza o que é comum no pensamento contemporâneo na Filosofia? Afinal não se deve esquecer de sua grande influência no pensamento europeu contemporâneo, principalmente na França, onde desenvolveu-se e encontra hoje em alguns filósofos como Lacueue-Labarthe, Etienne Balibar, Jacques Derrida ou Lyotard a expressão deste lugar comum. Ou seja, um tipo de ideologia Heideggeriana.

Mas no que consiste este lugar comum que faz com que o pensador alemão seja visto como o “último filósofo universalmente reconhecido”. Podemos dizer que este lugar comum se articula em torno de 1. uma concepção de superação da metafísica enquanto categoria que se articula em torno do Sujeito Moderno. 2. O Fim da metafísica encontra no Reino da Técnica a expressão dos seus limites. 3. A ciência Moderna e o Estado Totalitário são a consequência do fim da Metafísica. 4. Só alguns poetas até hoje foram capazes de pronunciar a questão do Ser. 5 A virada Platônica é o Primeiro movimento de esquecimento do Ser. Diante disso só resta gora ao pensamento 6. Tomar a condição no dizer dos poetas.

 

NOTA #11 [16/01/2018] (RJ I)

A categoria do Sujeito moderno caracteriza se por já pressupor uma relação Sujeito e Objeto, esta relação já é ela mesma um efeito do chamado ultimo rosto da metafísica expresso na técnica Moderna. Sujeito moderno  caracteriza se por já pressupor uma relação Sujeito e Objeto, ele é a força que atua sobre o objeto para se chegar a um fim desejado, nesse sentido o desenvolvimento da técnica moderna nos trouxe a uma espécie de enquadramento em consonância com o Sujeito moderno que percebe o mundo em seu entorno, tal qual a um objeto a sua disposição. Assim a figura do Sujeito moderno só pode ser concebida enquanto imersa no querer objetificante da técnica, ou seja, este Sujeito enquanto efeito do desenvolvimento da técnica já se mostra incapaz de “escutar” o envio da questão essencial do Ser pelo destino, por esta questão ele  é tido como tardio em relação à questão fundamental do Ser, pois já é um efeito do enquadramento da técnica. Assim a transcrição metafísica de um devir-sujeito do homem já é o começo do fim, ou precisamente o fim último de estabelecimento do reino da técnica, de maneira que pensar a técnica enquanto o término da metafísica é hoje a única tarefa possível que restou para o pensamento.

Portanto, a metafísica que se articulou em torno da figura do Sujeito Moderno se mostrou incapaz de lançar mão da questão do Ser, não por que o quisesse fazer assim, mas principalmente pelo esquecimento deste mesmo Ser que encontra no ente o seu último refúgio, decorre disto que a metafísica deve ser superada, pois ela mesma enquanto a própria filosofia já não são mais capazes de fornecer qualquer tipo de abertura do pensamento para o retorno do ser. Deste modo a Filosofia – tomada como a metafísica que se articulou em torno do sujeito moderno – e suas possibilidades estaria esgotada, de maneira que o Reino da técnica e seu estabelecimento já é um retrato do fim da filosofia. Assim, nosso tempo não é mais o moderno (se tomarmos como moderno, o pós-cartesianismo que organizou a tomada do sujeito e da consciência enquanto objetos de investigação do discurso filosófico, até Nietzsche), pois o nosso tempo é o da implementação final da técnica enquanto desfecho da “aventura” metafísica.

Como resultado tem se a expansão indiferente da técnica e um esgotamento de seus possíveis. Pois se antes a Filosofia detinha a questão do Ser, hoje ela só expressa o querer nadificante e nihilista de uma vontade devastadora que não se ocupa do Ser, mas sim do ente, pronto a servir como um objeto a esta vontade devastadora da técnica.