NOTA CEII SP [22/03/2018]

É interessante olhar hoje para trás e tentar entender o que foi o governo Lula e a quase ascensão do Brasil a potência global. Como o Tales contextualiza, a Europa e os EUA ainda estavam baqueados pela crise de 2008. O Brasil tinha se inserido na economia global, como consumidor de mercadorias e como grande produtor de commodities (que estavam fortemente valorizadas). Junta-se a isso a descoberta de petróleo no pré-sal e o Brasil passa a ser um dos queridinhos da mídia e da economia global. Parece que com isso, consegui-se manter o Brasil dentro padrão econômico e democrático desejado por potências ocidentais. E aparentemente esse foi um dos méritos do Lula, conseguir manter a população, principalmente a mais vulnerável, “sob controle”, enquanto conciliava os interesses do capital internacional.

NOTA CEII SP [22/03/2018]

O neoliberalismo com suas formas de trabalho e de política produziu afetos e sofrimentos ligados a ideia de pessoas excessivamente preocupadas e dependentes dos seus desempenhos, se colocando como empresários de si mesmo preocupados com performances cada vez melhores no trabalho, nas redes e também nas ruas. Se isto se faz presente em nosso contexto, o acontecimento junho de 2013 apontou para um outro sentido que precisamos desesperadamente retomar e aprofundar, pois muitos pretendem que isto seja esquecido. Por uma política sem personalismo. Como isto não ser apensas uma prática de poucos, mas uma cultura de muitos?

E tenho me desafiado a pensar como esta corporeidade neoliberal afeta os espaços de militância, as disponibilidades e os preparos para organizar proposições de transformações. Numa megalópode como São Paulo as indisponibilidades parecem ser maiores. Como a corporeidade neoliberal e seu circuito de afetos impacta as formas de luta?

NOTA CEII SP #2 [19/04/2018]

Se no lugar do conceito clássico de cidadania, na perspectiva do bourgeoise do cytoen – respectivamente, autonomia privada e pública, ou cidadania civil e cidadania política –, a cidadania for hoje compreendida como a possibilidade de fazer escolhas livres(como foi bem observado na última reunião, 19/04), o que significa exatamente esta liberdade de escolhas na Contemporaneidade?

Para Salecl[1](2012, p. 17), a “escolha parece ser o mais opressor problema atual do capitalismo”. Se no espaço do consumo, o espectro de escolhas causa ansiedade e opressão, tanto maior é o sofrimento gerado por escolhas que podem empurrar o indivíduo para o “escanteio” social. Não há garantias, não há certezas. As escolhas e a sobrecarga individual da construção biográfica e identitária implicam em biografias e subjetividades de risco, suscetíveis a crisese sofrimento. Para Žižek[2](2012, p. 251),

(…) somos obrigados a escolher sem ter à nossa disposição o conhecimento que nos permitiria uma escolha qualificada; mais exatamente, o que nos torna incapazes de agir não é o fato de que “ainda não sabemos o bastante” (…), mas, ao contrário, o fato de sabermos demais e não sabermos o que fazer com essa massa de conhecimento incoerente.

Para Žižek[3](2011, p. 60-1), vivemos radicalmente os impasses de uma sociedade da escolha, com“múltiplos investimentos ideológicos na questão da escolha (…) nós nos vivenciamos ‘livres’ simplesmente quando somos capazes de agir do modo que nosso organismo determinou, sem nenhum obstáculo esterno para atrapalhar nossa propensão íntima”. Dialogando com este entendimento, a crise se instala porque somos impelidos pelo Mercadoa escolher e atuar individualmente sem, contudo,termos as “coordenadas cognitivas básicas necessárias para fazer uma escolha racional” (idem).

[1]SALECL, R. Sobre a felicidade: ansiedade e consumo na era do hipercapitalismo. 2 ed. São Paulo: Alameda, 2012.

[2]ŽIŽEK, S. Vivendo no fim dos tempos. São Paulo: Boitempo, 2012.

[3]ŽIŽEK, S. Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo, 2011.

NOTA CEII SP #1 [19/04/2018]

Uma das características da “esquerda” na atualidade (embora essa discussão entre o que é esquerda e direita não seja aprofundado aqui, mas mostre-se necessária) é a perda do caráter anticapitalista. Talvez possamos refletir historicamente sobre essa característica através do percurso da esquerda (petista) no poder e as inúmeras ações para incluir o país na norma neoliberal. Inclusive para se defender o PT as redes sociais estão repletas de reportagens econômicas dizendo como Lula foi eficiente aos olhos do capitalismo, reportagens divulgadas pelos próprios militantes de esquerda, com ênfase no FMI e diversas instituições financeiras internacionais.

NOTA CEII SP [08/03/2018]

Recentemente eu me deparei com um texto sobre “autores e temas da moda” – se inclui nessa categoria os sociólogos modernos que, quase sempre, a partir de bases marxistas propõe uma nova chave interpretativa da realidade. Acho que em termos mundiais eu nomearia Pierre Dardot e Christian Laval (interessante mais chato, tipo o seriado da moda “a casa de papel” que  você já sabe o que vai acontecer e assiste mesmo assim) e nacionalmente Jessé de Souza (esse aqui é ruim mesmo). Pois bem, o texto nos dizia da experiência do próprio autor que afirmava ter “perdido tempo” fazendo um estudo sistemático desses autores que pouco ou nada o capacitavam para suas próprias análise de conjuntura ou mesmo tinham pouca serventia para pensar estratégias políticas e etc…

A universidade de forma geral me parece se entregar a esse furor por consumir e debater sobre esses temas. Talvez até mesmo como forma de sobrevivência dos próprios professores que em contrapartida terão seu livros debatidos na França, por exemplo.

Mas acho que, em alguma medida, o propósito do CEII é resistir a essas ondas e nos voltarmos aos clássicos, ou aos autores que nos dêem possibilidade de pensarmos prática e teoria política, formas de organização, estratégias de enfrentamento. Sem isso o CEII me parece só mais um grupo de estudos e a coisa toda perde muito de seu propósito.

NOTA CEII SP #5 [12/04/2018]

Escrevi essa nota só para dizer que não devo mais nota nenhuma… e olhando agora de longe, isto é, do distanciamento pela correria da vida cheguei a conclusão que de fato as notas podem se tornar um coeficiente de desistência. Se a questão era produzir uma narrativa organizativa, nunca deu certo.

NOTA CEII SP [05/04/2018]

Nunca dei tanta atenção para as placas de rua. Sempre carregavam nomes alheios, provavelmente de políticos profissionais. Carrego uma aversão anarquista aos monumentos sejam eles de quem for. A rocha artística do monumento é um abafador de ouvido frente aos gritos dos seus representados, uma lápide de sua história, um requiescat in pace e um sinal impertinente de que a memória de quem é representado foi absorvida. Hoje dezenove dias depois da morte de Marielle, ela já se tornou uma plaquinha pendurada. Esquecida? Quase. Não se viu ou ouviu nenhum sinal de rebelião. Tudo nos conforme. Segundo a sua assessora, testemunha e sobrevivente do assassinato, as últimas palavras de Marielle teriam sido: Ué! Um retumbante Ué que ainda ecoa. Ué que país é este? Ué que paz é esta?

NOTA CEII SP [22/03/2018]

O fascismo foi derrotado militarmente, mas nunca culturalmente já dizia Marcuse. Quando me interessei pelo tema fui logo absorvido pelo livro “Labirintos do Fascismo” de João Bernardo que busca demonstrar as formas larvais pelas quais o fascismo sobreviveu. Também no livro de Paulo Arantes, “Novo tempo do mundo”, sobretudo no Sale Boulot, temos uma visão aguda do desenvolvimento do fascismo com outros significados… Ao escrever sobre o tema, muitos me diziam: “não gaste o conceito”. Eu apenas ria e pensava: “você não está vendo o que está acontecendo camarada?” Hoje, porém, acho que realmente o que está acontecendo não é fascismo (o fascismo tinha uma noção de projeto sustentada por uma política trabalhista e homogênea) é algo pior, como uma desagregação social sustentada por uma política de mercado oligárquica que presume retorno a estruturas feudais de organização social (cada empresa um feudo). Os colaboracionistas atuais estão por todos os lados e inclusive a despeito do espectro político. Marília (está repugnante) é só um sintoma de algo que nós ainda não compreendemos, mas sentimos os efeitos nas balas que atingiram Marielle.

NOTA CEII SP [08/03/2018]

A única utopia é acreditar que o capitalismo possa ter, daqui pra frente, horizontes progressistas. Com a colonização de todos os continentes do globo, o capital encontra limites territoriais que impulsiona de maneira radical sua criação-destrutiva. O negativo que constitui seu movimento, como bem mostrou Jorge Grespan, a crise, é só um impulso nas mudanças estruturais em busca de novo impulso para efetuar sua circulação e garantir sua reprodução. Isso produziu uma espécie de avesso do progresso, agora é necessário barrar, via propriedade privada ou melhor, patente jurídica, o desenvolvimento técnico-científico, pois este poderia solapar as bases que mantém o movimento de reprodução. Nada há no horizonte que possibilite sequer pensar que a vida sob a égide do capital irá melhorar. Nesse sentido, a utopia é acreditar que a sociedade deixará de ser racista, homofóbica, xenófoba ou simplesmente se terá uma vida digna no interior de tais limites.