NOTA #1 [17/07/2018] (RJ I)

Arte e organização.

A arte nega as determinações categorialmente impressas na empiria e, no entanto, encerra na sua própria substância um ente empírico. Embora se oponha à empiria através do momento da forma- e a mediação da forma e do conteúdo não deve conceber-se sem a sua distinção- importa, porém, em certa medida e geralmente, buscar a mediação no fato de a forma estética ser conteúdo sedimentado.”1

Aqui se mostra toda uma filosofia com relação à posição da obra de arte no interior do universo empírico e toda uma oposição que caracterizaria esta no pensamento de Adorno. De saída algumas incompatibilidades com a posição cageana podem ser verificadas:

  1. A mais evidente, a negação das determinações da empiria. Se a obra de Cage se pretende aberta “ao que acontece” para além do próprio conteúdo posto pela obra, ela perderia então este caráter de negação que Adorno aqui aloca para a obra de arte. Se por um lado haveria nela potencial crítico enquanto negação dos materiais fetichizados de que se serviria uma certa subjetividade composicional, de outro ela se abre completamente ao que acontece, em uma atitude de passiva aceitação da realidade tal qual se apresenta.

  2. A forma enquanto elaboração do conteúdo empírico. A forma estética seria por um lado caracterizada pela negação da empiria, por outro ela apresenta uma espécie de simulacro da empiria ao reconstruir em seu próprio interior relações de unidade e variedade, identidade e diferença, causa e consequência.

Isto quer dizer que a obra reinjeta do universo empírico em seu próprio interior as próprias determinações da experiência em geral, sem no entanto, recair neste mesmo universo, assegurada por uma distancia crítica sem a qual recairia na segunda natureza de acordo com Adorno: aquilo que é tido pela realidade social como pura e simplesmente existente sem possibilidade de crítica ou modificação. Como disse o próprio Adorno,

As obras de arte destacam-se do mundo empírico e suscitam um outro como se ele fosse igualmente uma realidade. Tendem, portanto a priori para a afirmação, mesmo que se comportem ainda de uma maneira trágica. (…) ao pretender pôr uma totalidade exterior, uma esfera, fechada em si mesma, esta imagem é transferida para o mundo em que a arte se encontra e que a produz. Em virtude de sua recusa da empiria- recusa contida no seu conceito, não simples esquiva, que é uma das suas leis imanentes- sanciona a sua superioridade”2

Esta é a característica logicidade interna da obra, resultado de uma astuta operação de mimese da realidade empírica sem aderir a esta que preserva a autonomia da forma estética.

1 Adorno, Teoria estética, p. 17

2 Idem, p. 12

Nota CEII SP 05/07/2018

A questão da relação entre a leitura e os outros projetos do CEII tem me chamado a atenção, no que atine ao tempo das reuniões. Particularmente, sou totalmente a favor de deixar a leitura de lado e focar no projetos, que são, ao meu ver, tentativas de aplicação prática de algumas de nossas ideias. Mas vejo que a questão da leitura parece bastante importante para alguns membros.

Me preocupa principalmente o curso que vamos ministrar. Não seria melhor fechar algum outro horario para falarmos só sobre ele, semanalmente, e deixarmos a reunião mais aberta para a leitura?

Nota CEII SP 12/04/2018

É curioso notar como para Badiou, as ideias e as formas são uma mesma coisa.
 
“Denomino ” Idea” a aquello a partir de lo cual un individuo se representa el mundo, incluido él mismo, desde el momento en que, por incorporación al proceso de una verdad, está vinculado al tipo subjetivo fiel. La Idea es lo que hace que la vida de un individuo, de un animal humano, se oriente según lo Verdadero. O también: la Idea es la mediación entre el individuo y el Sujeto de uma verdad – ” Sujeto” designa aquí aquello que orienta, en el mundo, a un cuerpo postacontecimiental.” (Segundo manifesto, p. 113)
 
A ideia é a forma pela qual uma subjetividade emerge de uma verdade em determinada situação. A ideia é a mediação entre o corpo do indivíduo e o sujeito de uma verdade, é, portanto, o meio pelo qual as pessoas podem acessar a verdade da situação em que vivem, meio pelo qual se pode mudar o mundo em que vive.

NOTA #1 [03/07/2018] (RJ I)

Conforme observado, Heidegger recorre ao que é originário do pensamento através dos fragmentos dos pré-socráticos. Toda a evocação poética aos deuses que caracteriza o pensamento de Parmênides e a dimensão misteriosa que envolve o movimento do Logos em Heráclito permite a Heidegger afirmar que haveria uma indistinção entre o dizer do peta e o pensamento do pensador, trazendo à tona uma relação entre o poema e o pensamento. O envio pré-socrático do pensamento é também o destino de envio do “Ser” indica que o pensamento estava sob a guarda do Poema. Deste modo contestação Axiomática de Badiou parte do princípio de que a Filosofia se baseia por uma não relação com o poema. O que marca esta cisão entre Poema e Filosofia é a forma singular segundo a qual determinado pensamento estabelece postulados internos ao seu próprio discurso. Chamam se Parmênides e Heráclito de Filósofos Pré-socráticos, mas as elaborações feitas por estes pensadores não representam ainda a Filosofia. Por mais que a forma poética do pensamento de Parmênides não se ocupe do referencial épico de Homero , ela ainda traz consigo o elemento místico dos deuses, a começar por sua exaltação inicial aos deuses em suas cavalgadas  e carruagens, tornando o pensamento dependente de uma evocação aos deuses fazendo assim com que a proximidade entre o discurso e o sagrado intacto, e o transe poético se confundindo com pensamento.

No entanto, a partir do momento em que se observa o surgimento da Filosofia como um discurso submetido a seus próprios postulados, encontra se também sua dimensão de sacralizante, já que sua ordem é diversa a forma poética de pensamento.

NOTA #3 [26/06/2018] (RJ I)

As consequências da distinção ontológica não poderiam designar outra coisa que não a oposição entre saber e “verdade”. De fato parece que a afirmação que designa  Heidegger como o último filósofo universalmente reconhecido marca a referencia a que se mede o projeto de Alain Badiou. Para o autor, qualquer um que queira ir além do poder do pensamento de Heidegger, precisa reconsiderar o ponto em que o dizer do poeta se confunde com o pensamento do pensador.