NOTA #5 [16/05/2019] (RJ I)

A teoria do estado de exceção é, justamente, uma teoria crítica ao direito – ou à violência do direito, dando continuidade ao texto do Benjamin de 1921. No Estado de Exceção o Agamben delimita bastante o fenômeno sítio/exceção à tradição democrática burguesa: “[…] em todo caso, é importante não esquecer que o estado de exceção moderno é uma criação da tradição democrático-revolucionária e não da tradição absolutista” (p. 16). Nesse sentido, o uso militante da teoria do estado de exceção pra fazer apelo ao Estado de Direito não se sustenta. Sugiro dar uma olhada no livro do Orlando Zaccone sobre os autos de resistência – “Indignos de vida – a forma jurídica da política de extermínios na cidade do Rio de Janeiro”. Lá ele faz – e é uma leitura militante – uma série de relações entre a teoria do Agamben e de Pachukanis – sobre o direito como instrumento de dominação de classe -, além de atualizar a discussão sobre a (fraca) distinção entre Estado de Direito e Estado de Polícia em diálogo com textos da criminologia crítica.

NOTA #1 [06/06/2019] (RJ I)

A fundação do CEII envolvia um certo diagnóstico sobre a esquerda contemporânea. Alguns filósofos, considerados importantes à fundação do grupo, sugerem que o militante pós-URSS é profundamente marcado pelo fracasso do socialismo real.
O PSOL, sobretudo naquela altura, parecia um espaço privilegiado para observar os efeitos práticos dos argumentos teóricos destes filósofos. Como seção socialista de luta política, o PSOL negava o socialismo realmente existente. Como seção socialista brasileira de luta política, o PSOL negava o PT. Da reunião de muitas resistências ao fracasso, o sentimento de unidade do partido reproduzia um tipo de subjetividade militante avesso à vida partidária, aos problemas da disciplina, da burocracia, do poder, entre outros, em nome de um certo de ideal de liberdade, diversidade etc.
Acredito que o esforço do CEII sobre os símbolos clássicos do socialismo histórico eram um jeito de tencionar a questão da subjetividade militante. De construir as condições de possibilidade para que essa imagem pudesse ser reimaginada para fora dos impasses e dilemas usualmente acusados por tendências críticas à direita, mas também à esquerda.
Esforço realizado sob a aposta de que certos valores relacionados à ideia de liberdade, a rigor, só podem ser constituídos, praticados e sentidos sob uma organização.

Nota CEII SP [30/05/2019]

Gostaria de agradecer o Ramon pelo período como mais-um e desejar boa sorte ao Tiago nessa tarefa. Ser mais-um não é fácil, porém permite por meio da leitura de notas, que seja dado um direcionamento à discussão mantendo-se assim o engajamento do grupo com a leitura.

Nota CEII SP [30/05/2019]

“A verdadeira coragem não é imaginar uma alternativa, mas aceitar as consequências do fato de que não há alternativa claramente discernível: o sonho de uma alternativa é um sinal de covardia teórica, funcionando como um fetiche que nos impede de considerar até o fim o beco sem saída do nosso dilema. Em resumo, a verdadeira coragem é admitir que a luz no fim do túnel é provavelmente um trem vindo de encontro a nós” (Žižek, S. A Coragem da Desesperança: crônicas de um ano em que agimos perigosamente. Rio de Janeiro: Zahar, 2019, p. 10)

Nota CEII SP [30/05/2019]

Esquerda x Direita

Recentemente, discutiu-se sobre a identidade “político-ideológica” (por assim dizer) de alguns pseudo-intelectuais de redes sociais das mídias tradicionais (TV, jornal e rádio). Seria fulano de direita ou de esquerda? E beltrano e cicrana?

Tenho sempre uma grande dificuldade de organizá-los assim, e bastante resistência a respostas axiomáticas como “quem não é de direita nem de esquerda, é de direita”, “quem se diz neutro é de direita”, “votou assim, tirou foto com não-sei-quem, prefere vinho do que cerveja… DIREITA!”. Enfim… por um lado me parece que se fala hoje em uma esquerda que não há mais, de uma esquerda idealizada que não se encontra concretamente (nem mesmo no PCO… blasfêmia!). E é óbvio que isso faz de mim alguém de direita, né? Voltamos às fórmulas prontas, ao H2O das análises políticas. Bem, há dois autores que recolocam a questão do espectro político de uma forma que faz mais sentido para mim.

  1. Ulrich Beck, em 1995: “A metáfora política esquerda-direita, que nasceu com a sociedade burguesa, é provavelmente inconsquistável, a menos que ‘destronada’ por alternativas. No futuro, as coordenadas da política e do conflito serão cuidadosa e hipoteticamente localizadas aqui e abordadas, como se fosse utilizada uma varinha de condão, em três dicotomias: seguro-inseguro, dentro-fora e político-não político. Neste caso, estamos preocupados com três questões fundamentais. Primeiro, qual a sua atitude em relação à incerteza; segundo, em relação aos estrangeiros; e, terceiro, em relação à possibilidade de remodelar a sociedade?” (Beck, [1995] 2012, p. 79).
  2. Žižek em 2009 (ou pelo menos o Žižek de “Vivendo no fim dos tempos): “Na democracia pós-política de hoje, a tradicional bipolaridade entre centro-esquerda social-democrata e a centro-direita conservadora vem sendo substituída pouco a pouco por uma nova bipolaridade entre política e pós-política: o partido tecnocrata liberal, tolerante e multiculturalista do governo pós-político e sua contrapartida populista de direita da luta política apaixonada – não admira que os antigos adversários do centro (conservadores ou democratas cristãos e social-democratas ou liberais) sejam tantas vezes forçados a unir forças contra o inimigo comum” (Žižek, [2009] 2012, p. 11).

Então, não estou dizendo que é tudo igual, que não há mais distinção político ideológica, ou sequer que a distinção esquerda-direita seja inválida; mas apenas sugerindo que talvez as demarcações tradicionais não estejam dando conta das novas configurações da política, e seja preciso repensar a forma como nomeamos as tensões ideológicas na contemporaneidade. Beck acredita que a disputa ideológica pode ser melhor explicada, localizada e, assim, pode-se melhor posicionar-se na arena política a partir de 03 questões: (1) como se lida com os riscos socialmente produzidos, (2) como se posiciona com relação à exclusão-exploração e (3) como se posiciona quanto ao político propriamente dito, i.e. como se posiciona quanto à possibilidade de transformação social. Žižek radicaliza esta posição anos depois, sequer havendo uma disputa entre político e não-político, mas exclusivamente uma disputa dentro do não-político. Mas se forma muito similar a Beck (e que dialoga com outros textos do sociólogo alemão), Žižek afirma que os “quatro cavaleiros do apocalipse” do capitalismo global são (1) as crises ecológicas e (2) as consequências das revoluções biogenéticas, (3) os desequilíbrios do próprio sistema capitalista e (4) a crescente (e explosiva) divisão e exclusão social.

Seja como for, concordemos ou não com eles, minha questão é pensar se a metáfora espacial esquerda-direita ainda é suficiente para organizar os fenômenos, dinâmicas e disputas políticas concretas.