NOTA #1 [16/01/2018] (RJ I)

Entrevista de Alain Badiou

“Minha posição é obviamente que esse “raciocínio” é puramente ideologia ilusória. Primeiro, o capitalismo liberal não é o bem da humanidade de forma alguma. Muito pelo contrário; é o veículo do niilismo selvagem, destrutivo. Segundo, as revoluções comunistas do século XX representaram esforços grandiosos para criar um universo histórico e político completamente diferente. Política não é a gestão do poder do Estado. Política é primeiro a invenção e o exercício de uma realidade absolutamente nova e concreta. A política é a criação do pensamento. O Lenin que escreveu Que Fazer?, o Trotsky que escreveu História da Revolução Russa (tradução literal) e o Mao Zedong que escreveu A Correta Abordagem das Contradições Entre as Pessoas (tradução literal) são gênios intelectuais, comparáveis a Freud ou Einstein. Certamente, as políticas de emancipação, ou políticas igualitárias, não foram, até agora, capazes de resolver o problema do poder do Estado. Elas tentaram um terror que é no limite inútil. Mas isso deveria nos encorajar a tomar a questão onde eles a deixaram, ao invés de unir-se ao inimigo capitalista, imperialista. Terceiro, a categoria “totalitarismo” é intelectualmente muito fraca. Há, do lado do comunismo, um desejo universal pela emancipação, enquanto que do lado do fascismo, há um desejo nacional e racial. Esses são dois projetos radicalmente opostos. A guerra entre os dois tem sido realmente entre a guerra entre ideia da política universal e a ideia da dominação racial. Quarto, o uso do terror em circunstâncias revolucionárias ou de guerra civil não significa de forma alguma que os líderes e os militantes estão insanos ou que eles expressam a possibilidade do mal interior. O terror é uma ferramenta política que tem sido usada desde quando as sociedades humanas têm existido. Ele deveria dessa forma ser julgado como uma ferramenta política, e não submetida a um julgamento moral infantilizado. Deveria ser adicionado que existem diferentes tipos de terror. Nossos países liberais sabem como usá-lo perfeitamente. O colossal exército americano exerce chantagem terrorista em uma escala global, e prisões e execuções exercem uma chantagem interior não menos violenta. Quinto, a única teoria coerente sobre o sujeito (minha, eu devo adicionar, um gracejo!) não reconhece nisso nenhuma disposição particular para o mal. Até a pulsão de morte de Freud não é particularmente vinculada ao mal. A pulsão de morte é um componente necessário de sublimação e criação, assim como o é para o assassinato e suicídio. Quanto ao amor pelo Outro, ou, pior, o “reconhecimento do Outro”, isso não é nada além de confeites cristãos. Nunca há “o Outro” enquanto tal. Existem projetos de pensamentos, ou de ações, na base da qual nós distinguimos entre aqueles que são amigos, aqueles que são inimigos, e aqueles que podem ser considerados neutros. A questão de saber como tratar inimigos ou neutros depende inteiramente do projeto concernido, o pensamento que o constitui, e as circunstâncias concretas (O projeto está em uma fase ascendente? Ele é perigoso? etc.).”

NOTA #3 [09/01/2018] (RJ I)

Saiu uma pesquisa eleitoral hj no G1. Lula segue em primeiro com quase o dobro de bolsonaro que esta em segundo em quase todos os cenários. Mas há algo que me chama a atenção é que existe um outro segundo colocado que é a soma dos que não sabem em quem votar mais os que votam brancos e nulos. Em todos os cenários estes somados aparecem em segundo lugar com mais pontos que Bolsonaro. Isso demonstra o quão desgastado esta o processo politico. Se comparar com as outras pesquisas esse movimento fica numa crescente.

NOTA #2 [09/01/2018] (RJ I)

Estou com uma dificuldade bem grande em conciliar os estudos da faculdade com os estudos de disciplinas que relaciono ao CEII de algum modo (política, psicanálise, filosofia…). Dadas a diversidade e, principalmente, extensão de artigos, textos e obras nesses campos e o tempo curto para me dedicar a tanta coisa, o que eu queria pedir aqui é uma espécie de socorro coletivo: que cada um fale um pouco sobre como faz para ler, anotar, resumir, fichar, memorizar, enfim, estudar tantos textos e livros e que técnicas usa para tanto. Estou precisando de ideias nesse sentido para otimizar a qualidade dos meus estudos, de um modo geral.

Espero que, se rolar essa troca de ideias, isso possa também ajudar a outros.

NOTA CEII SP #2 [08/02/2017]

A leitura inicial do texto de Tales Ab’saber traz logo de início as contradições do governo Lula, como tentativa de intervir “nos dois polos opostos da vida nacional[1]”, não só através da articulação de seu governo, mas também “em seu corpo”. Essa última citação me parece trazer o quanto a figura de Lula é a encarnação das contradições sistêmicas do capitalismo, assim como da alienação política.

No Seminário 17, Jacques Lacan diz aos estudantes que participam dos movimentos de maio de 1968 na França: “É ao que vocês aspiram como revolucionários, a um mestre. Vocês o terão” (LACAN, 1992, p. 218).

O posicionamento de Lula em assumir o lugar que não é mais “alegórico”, a partir de 2005 com a crise do Mensalão, talvez possa ser lida como a oficialização do lugar de Mestre, tão demandado pela ex-querda “revolucionária” petista.

S1 – S2

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No discurso do Mestre, descrito acima, S1 é o agente, o mestre encarnado que comanda ao outro, S2, a produção de algo, objeto a, provocando a alienação pela inacessibilidade ao sujeito barrado (sujeito dividido em consciente e inconsciente).

Nas palavras de Zizek, 2008:

Então, o que é o Significante-Mestre? Vamos imaginar uma situação confusa de desintegração social em que o poder de coesão da ideologia perde sua eficiência: numa situação assim, o Mestre é aquele que inventa um significante novo, o famoso “ponto de basta” [point de capiton], que estabiliza novamente a situação e a torna legível; por definição, o discurso da universidade que então elabora a rede de Conhecimento que sustenta essa legibilidade pressupõe e baseia-se no gesto inicial do Mestre. O Mestre não acrescenta nenhum conteúdo positivo, apenas acrescenta um significante que, de repente, transforma desordem em ordem, em “nova harmonia”, como diria Rimbaud. Pensemos no antissemitismo da Alemanha na década de 1920: o povo se via desorientado, lançado numa derrota militar imerecida, numa crise econômica que consumia as economias de uma vida inteira, na ineficiência política, na degeneração moral… e os nazistas ofereciam um agente único, responsável por tudo isso: o judeu, a conspiração judaica. Eis aí a mágica do Mestre: apesar de não haver nada de novo no nível do conteúdo positivo, “nada mais é o mesmo” depois que ele pronuncia a Palavra (ZIZEK, 2008, p. 56-57).

O que o Mestre faz é simplificar um cenário complexo, encontrando um evento que pode ser considerado culpado pela desordem: não estaríamos falando da mesma coisa quando assumimos que o Golpe Parlamentar de 20016 é o culpado pela situação político-econômica caótica que vive o país. Nesse ínterim, é a figura do antigo Mestre que retorna, sob a demanda de trazer estabilidade, um Mestre já conhecido e que mostrou sua capacidade de assumir tal posição, de forma bem exitosa, no passado, uma vez que estabeleceu as barras (//) do Discurso do Mestre, possibilitando aos sujeitos que vivenciassem a alienação.

LACAN, JACQUES. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, 1969-1970. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

ZIZEK, SLAVOJ. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.

[1] Há um texto interessante de Áquilas Mendes, sobre esse mesmo tema, intitulado “Servindo a dois senhores: as políticas sociais no governos Lula”, disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-49802007000100003&script=sci_abstract&tlng=pt.

NOTA CEII SP #1 [08/02/2018]

1. Referências bibliográficas citadas/sugeridas:

a. ŽIŽEK, S. Como Marx Inventou o Sintoma In.___. (org.) Um Mapa da Ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, pp. 297-331, 1996.

b. HAN, B. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

c. SALECL, R. Sobre a felicidade: ansiedade e consumo na era do hipercapitalismo. 2 ed. São Paulo: Alameda, 2012.

2. Sobre Lula/PT e a ideia de “corpo transferencial”: 

Esta discussão, extraída do livro de Ab’Saber levantou uma questão que me pareceu interessante para pensar a reação de (boa) parte da Esquerda, hoje, em relação à condenação Lula e seu eventual impedido para concorrer à Presidência. Ab’Saber, ao discutir as consequências da “crise do mensalão de junho de 2005”, refere-se ao apequenamento do PT em relação à figura de Lula, e como este assume um lugar de corpo transferencial – de forma amorosa – que permite ao partido chegar ao Poder.

A ideia de corpo transferencial e amoroso político nos remete à transferência amorosa em Freud e seu “observações sobre o amor transferencial” (1915). Segundo o Dicionário de Psicanálise de Roudinesco e Plon¹, a transferência em Freud é o processo pelo qual o analisando, na relação analítica, sobrepõe à figura do analista seus próprios desejos inconscientes. Como se o analista personificasse o desejo do analisando, e esta personificação pode se dar como forma de deslocamento ou investimento amoroso, como no caso da análise de Dora que torna Freud objeto de seus arroubos amorosos.

Ab’Saber, ao falar em corpo transferencial amoroso na esfera política, faria referência à transferência enquanto deslocamento de investimento psíquico, e sobreposição entre desejos e a figura de uma liderança carismática, que se manifesta na “grande e muito interessada fidelidade geral ao grande líder”²? É esta nossa interpretação.

Se correta nossa leitura, partindo desta homologia, poderíamos refletir sobre as reações atuais quanto ao possível (e provável) impedimento à candidatura de Lula para Presidência nas eleições de 2018, depois de confirmada sua condenação pelo TRF-4. A reação de militantes petistas e de (boa) parte da Esquerda, em geral, é de equivalência entre defender Lula e defender o próprio ideal de democracia, no qual acreditam. Como se impedir Lula (cassar sua candidatura) fosse equivalente a impedir o próprio exercício da democracia liberal burguesa, na qual nos inserimos. Eleição sem Lula é golpe, gritavam os petistas até pouco tempo. O slogan político evoca o fantasma do Golpe militar de 1964 – o Golpe é evocado pela Esquerda nacional, como o fantasma do Comunismo, pela Direita – e o impedimento de Lula seria uma espécie de AI-2, que em 1965 cassou a maior parte dos partidos, instituindo um bipartidarismo de fachada no Brasil.

Contudo, não estamos diante de um novo AI-2. Não houve uma cassação geral de partidos, e sequer o Partido dos Trabalhadores está impedido de concorrer nas eleições de 2018. Contudo, como Ab’Saber disse, desde 2005, o PT é “imensamente menor do que Lula” e, sem Lula, as chances do PT na corrida eleitoral caem drasticamente. Não colocamos em questão se isto resulta ou não de uma ação estratégica coordenada entre a CIA, a Globo, a FIESP e assim por diante. Mas isso nos faz refletir sobre a reação da militância: parece-nos certo que, por parte da direção do PT, é estratégico e consciente a narrativa do Golpe (seja ela verdadeira ou não). Por parte da militância, contudo, acreditamos que haja um elemento inconsciente de processo transferencial: não apenas, conscientemente, percebe-se que interditar a candidatura de Lula é um golpe duro conta o Partido, mas inconscientemente há um descolamento de investimento psíquico, uma transferência que deposita o desejo sobre a figura particular de Lula, personificando a própria imagem da democracia como ideal de realização política, que atenuaria o angustiante contato com o Real da política brasileira, uma luta para não confrontar o Real da política³. Isto é, busca-se recolocar a máscara sobre a face do Real, lembrando de Badiou. Em última instância, a narrativa do golpe age como fetiche, “a personificação da mentira que nos permite sustentar a verdade insuportável”⁴ sobre a política nacional, sobre a atuação dos partidos políticos (e do PT) e os limites de governabilidade dos indivíduos sobre estas dinâmicas institucionais o quê, no limite, diz sobre a falta de controle sobre suas próprias vidas e, na Contemporaneidade, este é o Real inaceitável: mais liberdade não significa necessariamente mais autonomia⁵, “e esta autoconfrontação com nosso real descontrole sobre nossas biografias é traumática”⁶.

 

À medida que o PT compromete sua narrativa ampliando-a ad absurdum, voltando a interagir e se associar sem pudores com os mesmos grupos que teriam organizado o Golpe, agindo neste “estado de exceção pós-golpe” e reforçando a normalidade institucional e assim por diante, mas se vai percebendo sua fragilidade e incoerência. Sabe-se “muito bem da falsidade, tem-se plena ciência de um determinado interesse oculto por trás de uma universalidade ideológica, mas, ainda assim, não se renuncia”⁷ às ideias de que defender Lula é defender a democracia e de que eleição sem Lula é Golpe. Tem-se plena noção de que os arbítrios do Estado, a violência contra as populações indígenas, as reformas neoliberais, a violência repressiva da polícia, o exército nas favelas, a repressão e criminalização dos movimentos sociais, a seletividade do Poder Judiciário, a podridão do Legislativo sobre o qual o lulismo foi erigido, e assim por diante, já eram o modo normal de funcionamento dos Poderes muito antes do impeachment de Dilma Rousseff. Ainda assim, transfere-se para Lula a expectativa de retornar a uma normalidade política que nunca existiu, “um universo político ascético”, para usar a expressão de Laclau⁸, que nunca houve no Brasil, ou em parte alguma. Sabe-se disso, o militante petista ou de Esquerda não é um pensador hegeliano, “ele não concebe o conteúdo particular como resultado de um movimento autônomo da Idéia universal”⁹, eles “sabem muito bem como as coisas realmente são, mas continuam a agir como se não o soubessem” (idem, p. 316).

Esta é uma leitura que, acredito, seria interessante explorar nos debates do CEII.

1.

2. Esta citação direta é do próprio Ab’Saber, contudo a impressão na versão digital do livro não traz página.

3. BADIOU, A. O Século. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2007.

4. ŽIŽEK, S. Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo, 2011., p. 62.

5. BECK, Ulrich; BECK-GERNSHEIM, Elisabeth. Individualization: Institutionalized Individualism and its Social and Political Consequences. London: Sage Publications, 2002.

BECK, Ulrich; BECK-GERNSHEIM, Elisabeth. O Caos Totalmente Normal do Amor. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2017.

6. LEÃO, T. Loucura, psiquiatria e sociedade: o campo da saúde mental coletiva e o processo de individualização no Brasil. Tese apresentada para a obtenção do título de doutor. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.

7. ŽIŽEK, Slavoj. Como Marx Inventou o Sintoma In. . (org.) Um Mapa da Ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, pp. 297-331, 1996, p. 313.

8. LACLAU, E. A razão populista. São Paulo: Três Estrelas, 2013, p. 56.

9. Žižek, Op. Cit, 1996, p. 315.

NOTA CEII SP #2 [01/02/2018]

Tivemos a saída de mais um membro do grupo. Infelizmente a membro que saiu não teve a oportunidade de participar de nenhuma reunião. Não sei se a forma que abordamos o assunto da participação nas reuniões gerou algum desconforto e também não sei se existe algo que podíamos/podemos ter feito/fazer para amenizar a situação. Ao mesmo tempo que fico triste pelo que aconteceu e a forma como aconteceu, não posso deixar de concordar com os argumentos apresentados. Algumas vezes, simplesmente não conseguimos conciliar as coisas da forma como gostaríamos e aí talvez seja melhor sair do grupo e voltar quando pudermos participar de forma efetiva, como já foi discutido antes quando falamos de Licenceii.

NOTA CEII SP [18/01/2018]

Muito boa a ideia do nosso camarada Douglas de lermos o livro “Lulismo, Carisma Pop e Cultura Anticrítica”, do Tales Ab’Saber para ao final da leitura fazermos um CEII Convida com o autor. Conseguimos com isso resolver o problema da leitura, lendo uma obra interessantíssima e ao mesmo tempo já temos um evento para o primeiro semestre do ano.