NOTA #4 [19/08/2020] (RJ)

“Repudiamos todos os idealismos, misticismos etc. que preferem uma Forma ao próprio homem. Mas a questão se torna verdadeiramente angustiante quando se trata de uma Causa que serve autenticamente ao homem. É por isso que o problema político stalinista, o problema da relação do Partido com as massas de que ele se serve para servir a elas, está no primeiro plano das preocupações dos homens de boa vontade.” (Simone de Beauvoir, “Por uma moral da ambiguidade”, p. 117)

NOTA #6 [08/07/2020] (RJ)

Estou bastante afastado do CEII. Mesmo não enviando as notas não deixo de matutar sobre. Volta e meia a pertinência desse experimento me salta aos olhos. Ultimamente tem sido muito mais frequente durante as reuniões da comissão de saúde mental do PCB. Estamos tentando inventar um método de acolhimento do sofrimento psíquico dos militantes sem criar um “ambulatório”, uma salinha pra onde levar quem “não funciona”. A proposta que estou tentando fazer vicejar é a de trazer o sofrimento psíquico pro centro do pensamento do partido. O que a gente quer é que o sofrimento possa ser paulatinamente retirado do “acolhimento psicológico” e direcionado para a célula. Mas há de convir que isso não é coisa fácil pra ninguém. “Como assim ficar ‘esfregando minha ferida na avenida?!'” (lembro muito do [i]Da Paz[/i] do Marcelino Freire)… enfim… a coisa fica entre uma grande receptividade quando uso nos textos “coletivização da dor” e afins. Mas botar o coração a tapa ninguém sabe nem fazer de verdade.

NOTA #17 [03/06/2020] (RJ)

#Acelera!
O Manifesto por uma Política Aceleracionista, de Alex Williams e Nick Srnicek, tem algumas ideias interessantes. Mas ao invés de começar qualquer argumento bem estruturado sobre o manifesto, eu vou destacar uma única ideia: a democracia real implica o objetivo do AutoControle (ou AutoMestria) Coletiva. Um trabalho que eles afirmam envolver tanto o Plano (plan) como a Rede (network), ou seja, as características de hierarquias de controle organizadas e centralizadas, assim como as redes de organização emergente, espontânea, a partir de colaborações horizontais e dispersas. Ao anotar isso, eu obtive, por coincidência talvez: Plan-Network, ou Planet-Work. Como gosto de jogos de palavras, me permiti concluir que a reunião de planos e redes implica um trabalho planetário, o trabalho efetivamente revolucionário para implementar uma democracia real demanda uma ecologia de organizações e forças plurais em feedback entre si, a única forma de conectar escalas locais à escala global, passando por todo tipo de mediações intermediárias. Planos e Redes e Planetas e Ecologias organizacionais. Tudo ciclando entre si. Seria esse o trabalho revolucionário?

NOTA #2 [19/08/2020] (RJ)

Era um dia como outro qualquer quando eu decidi escrever uma nota juntando palavras-chaves que se destacaram para mim em uma reunião anterior.Foi sem vergonha na cara que eu revisitei comentários anotados sobre a reunião, e me deparei com uma definição de Interpassividade: diferente da interatividade, onde alguém faz trabalho por vc, nela, alguém goza por vc. Mas se o nosso outro não é uma pessoa em nossos fantasias mas o próprio CEII, será que ele não está sempre interpassivamente gozando por nós? Eu nem sei o que está acontecendo, mas o CEII não para…
Ainda assim, seria mais feliz prosseguir nessa organização interpassiva, onde a própria estrutura formal parece carregar membros de baixa intensidade participativa (estou me incluindo). Aqui, ao menos, se cometem menos Camaradicídios, como observou um membro nessa reunião. Defenestrar membros em discussões terminológicas, ideológicas, táticas versus estratégias etc…. Parece ser um acontecimento comum entre os comunistas interativos.
O que me leva a meu terceiro termo que é a Fantasia Esportiva, apresentada pelo Camarada Leo. Um modo sintomático de viver repetidamente a estrutura competitiva do futebol orientado pelo mercado. Um modo que talvez esteja subjacente ao próprio imaginário político brasileiro e, por que não, ao próprio modo de comportamento da nossa querida ala comunista, onde as quebras e rachas e camaradicídios parecem orientados por uma belicosidade em afirmar determinadas identidades como superiores a outras. O partido ou coletivo como time de futebol. Veste-se a camisa e o mundo se torce diante das lentes que só querem ver o time vencer. Tem um experimento famoso sobre vieses de confirmação em que torcedores de dois times de futebol americano deveriam ver uma mesma partida e contar o número de faltas do seu time e do outro. Não surpreendentemente, os torcedores identificavam um número muito maior nos adversários. O meu time é perfeito, ou meu partido, ou minha linha comunista e ideológica. E estamos dispostos a brigar por isso!
Mas acho que o CEII não é perfeito, ele é meio bizarro, meio alquebrado e fragilizado. Talvez seja por isso que gosto dele. É como torcer pro Madureira no campeonato carioca. Produz uma outra série de identificações, talvez menos combativas. Teria isso algo a ver com nossa interpassividade? [e notei esse ‘nossa’ logo depois de escrever, veja que já vesti a camisa…]