NOTA #7 [31/07/2018] (RJ I)

“Como os indivíduos se tornam mais pobres devido à redução de seus salários e à remoção da proteção social, o neoliberalismo lhes oferece uma compensação por meio da dívida e da promoção da participação acionária. Dessa maneira, os salários ou pensões não aumentam, mas as pessoas têm acesso ao crédito ao consumidor e são encorajadas a se preparar para a aposentadoria por meio de portfólios de ações pessoais; não têm mais direito à moradia, mas têm acesso ao crédito mediante hipoteca; não têm mais direito à educação superior, mas podem usar o crédito estudantil; a proteção mútua e coletiva contra riscos é suprimida, mas as pessoas são encorajadas a fazer seguro privado. Dessa maneira, sem substituir todas as relações existentes, o nexo credor-dívida vem suplantá-las: os trabalhadores tornam-se trabalhadores endividados (tendo de pagar aos acionistas por empregá-los); os consumidores tornam-se consumidores endividados; os cidadãos tornam-se cidadãos endividados, tendo de assumir responsabilidade por sua parte na dívida do país.” (Zizek, “Problemas no paraíso”, 1. Diagnose: Hors D’Ouevre?, Estar à beira da dívida como modo de vida)

NOTA #12 [17/07/2018] (RJ I)

“[Maurizio] Lazzarato baseia-se aqui [ao falar da produção do sujeito endividado] na ideia de Nietzsche, desenvolvida em Genealogia da moral, de que o que distinguiu as sociedades humanas, à medida que se afastavam de suas origens primitivas, foi sua capacidade de produzir um ser humano apto a prometer retribuir aos outros e reconhecer sua dívida para com o grupo. Essa promessa sustenta um tipo particular de memória orientado para o futuro (“Eu me lembro de que lhe devo, portanto vou me comportar de maneiras que me permitam pagar-lhe a dívida”), e assim se torna uma forma de governar condutas futuras. Em grupos sociais mais primitivos, as dívidas para com outros eram limitadas e podiam ser descartadas, enquanto com a chegada dos impérios e dos monoteísmos a dívida social ou divina de alguém tornou-se efetivamente impagável. O cristianismo aperfeiçoou esse mecanismo: seu Deus todo-poderoso significava uma dívida infinita; ao mesmo tempo, a culpa de alguém por não pagá-la era internalizada. O único modo de possivelmente pagá-la de alguma forma era por meio da obediência: à vontade de Deus, à Igreja. A dívida, ancorada nos comportamentos passados e futuros e com seu escopo moral, era uma formidável ferramenta de governo. Todo o restante devia ser secularizado.
Essa constelação faz surgir um tipo de subjetividade caracterizado pela moralização e pela temporalização específica. O sujeito endividado faz dois tipos de trabalho: o assalariado e aquele sobre seu eu, que é necessário para produzir um sujeito capaz de prometer, de pagar dívidas, e que está pronto a assumir a culpa por ser um sujeito endividado. Um conjunto particular de temporalidades é associado ao endividamento: para ser capaz de pagar (lembrar-se de sua promessa), a pessoa deve tornar seu comportamento previsível, regular e calculado. Isso não apenas milita contra qualquer revolta futura, com sua inevitável destruição da capacidade de retribuição; também implica uma eliminação da memória de rebeliões e atos de resistência coletiva do passado que interromperam o curso normal do tempo e levaram a comportamentos imprevisíveis. Esse sujeito endividado é constantemente exposto à inspeção crítica de outros: avaliações e objetivos individualizados no trabalho, análises de crédito, entrevistas individuais para os que recebem benefícios ou créditos públicos. O sujeito é assim compelido não apenas a mostrar que é capaz de pagar a dívida (e de pagar a sociedade por meio de comportamentos corretos), mas também a ter as atitudes certas e assumir a culpa por todas as falhas. É aqui que a assimetria entre credor e devedor se torna palpável: o “empresário de si mesmo” que deve é mais ativo que os sujeitos aos modos de governança anteriores, mais punitivos; entretanto, privado da capacidade de governar seu tempo, ou de avaliar seus próprios comportamentos, sua capacidade de ação autônoma é estritamente reduzida.” (Zizek, “Problemas no paraíso”, 1. Diagnose: Hors D’Ouevre, Estar à beira da dívida como modo de vida)

NOTA #11 [17/07/2018] (RJ I)

Zizek quando escreve sobre a interpretação dos sonhos e do valor da mercadoria vê que não se deve procurar um significado oculto por trás do que está explícito. O real ou o valor aparece na superfície do discurso e ou da relação entre as coisas. Como podemos relacionar essa observação a leitura da realidade. Como observar a entrelinhas da conjuntura para análise da mesma?

NOTA #9 [17/07/2018] (RJ I)

vou mostrar um paragrafo do meu projeto Soviete Analítico da Zona Norte:

“A proliferação de grupos de estudo e debate intelectual na zona sul, ao menos enquanto comparada ao subúrbio, revela o caráter elitista da distribuição espacial do discurso filosófico. Combater essas estruturas de poder que permeiam a produção e divulgação de conhecimento pelo povo é umas tarefas primordiais para a possibilidade de mudança daquilo que já se tem por estabelecido. Por isso o Soviete, como os órgãos políticos soviéticos (para muitos, uma ideia tão ultrapassada quanto direitos trabalhistas, sistema de saúde pública, etc), e Analítico, de Filosofia Analítica, combinados em uma ideia ruim, tão esdrúxula e inviável quanto qualquer outra mudança política e econômica radical, especialmente as que realmente acabaram acontecendo, mas ainda não tão inexecutável quanto deixar tudo como está.”

NOTA #6 [31/07/2018] (RJ I)

Talvez por estarmos menos comprometidos, ao menos tanto quanto posso perceber, com uma leitura de estudo em particular, acho que um material nos passou desapercebido. Ao menos em referência às leituras do CEII, é curioso que não tenha chamado atenção a máxima que a campanha do PT tem defendido, a saber, “Lula é uma “ideia”. Descontando a evidente aparência personalista, esta máxima, naquilo que importa para além deste ou daquele risco, poderia ser igualada conceitualmente àquilo que Badiou definiu como Ideia?

NOTA #8 [17/07/2018] (RJ I)

Sobre o nome comunismo

Uma precaução de percurso: a ideia aqui não é propor uma reflexão detida sobre o (nome) comunismo – o que eu não tenho conhecimento para fazer – mas sim a de comentar e sublinhar algumas consequências práticas de seu uso no cotidiano. Uma segunda precaução: essa é uma nota pessoal.

A dificuldade que acompanha alguém declarar-se comunista não deve escapar aos membros do ceii, mesmo a quem porventura não se inclua nesse nome: fora de um certo nicho relativamente restrito – e não importa se é esse o nicho em que principalmente circulamos, o que considero aqui é o fora dele –, nomear-se comunista é um ato que cria situações (ou complicações). Seguem-se espantos, certas perguntas ou exigências inquisitivas. Por se tratar de um nome marcado, há uma demanda, implícita ou não, por que se apresentem justificativas, explicações e defesas. Implica, ainda, haver-se com (um)a história contada do comunismo, com as ideias gerais que a maior parte das pessoas possuem dele, com os preconceitos, com a resistência e a rejeição bem difundidas daqueles que conhecem de longe o termo (ou mesmo de alguns que o conhecem bem, mas o rejeitam, seja qual for o motivo). Em suma, há que se prestar contas; isto é, presumindo que haja oportunidade para tanto. Com certeza houve um dia – talvez ainda haja – uma disputa pelo significado do comunismo. Porém, a julgar pela reação de grande parte das pessoas e pelas noções que possuem acerca do mesmo, pode-se dizer que nós estamos perdendo a luta, se já não a perdemos. O que significa, nesse cenário hostil, não ceder desse nome?

Nomear-se comunista implica também que certas opiniões e condutas serão lidas através dele. Em vez de abrir canais de diálogo, muitas vezes esse nome irá fechá-los de antemão. Da desqualificação sumária de qualquer ideia emitida por alguém que ousa dizer esse nome como seu nome até a animosidade e o enfrentamento violento, dependendo de para quem isso está sendo dito, marcar-se de uma tal forma pode ter consequências graves e sérias para o convívio social, para o ambiente de trabalho, até mesmo para as relações íntimas, para ir e vir em certos espaços. Com sua capacidade de atrair detratores, esse é um nome que comporta um certo risco.

Determinados nomes são também mediadores sociais, que articulam relações, afetos, consensos e dissensos. Ninguém que se designa comunista o faz apenas perante seus pares ou aqueles que comunguem de certos ideais; pode-se dizer, na verdade, que é justamente o oposto que sucede aqui: mesmo que esse nome não seja dito para os de fora, dados os riscos de assumir esse predicado, é visando-os principalmente que ele é dito. Se o comunismo se trata do movimento real que supera o estado atual, certamente não é para limitar-se ao seu nicho – ainda que nada obste que se inicie por ele – que se declara fazer parte desse movimento, mas justamente aspirando a transformação social ampla, posto que o estado atual a ser superado, requer que o seja potencialmente para todos e não apenas para alguns. Assim, dizer pertencer a esse nome é dizer de um lugar em que se almeja mudar o estado de coisas, ao mesmo tempo, não é isso que os outros ouvem. Assim, que relações e reações públicas espera alguém que se declara comunista? O que se acredita que os outros ouvem ao ouvir esse nome? Isso mais prejudica do que auxilia?

O Zizek, em algum momento, elenca quatro razões pelas quais ele diz ainda ater-se ao nome do comunismo (pelo menos é assim que me recordo): pelo histórico de levantes comunistas (Esparta, Haiti etc); porque os problemas prementes do presente são principalmente problemas de comuns: o meio ambiente, a biogenética, a propriedade intelectual; pela marca histórica do comunismo torná-lo uma espécie de significante que não pode ser apropriado pelos adversários (como fizeram, p. ex., com a democracia) porque certamente não iriam querer tomá-lo como deles; por último, por considerar o nome do comunismo um lembrete constante de quão terrivelmente erradas as coisas podem dar. Por mais que até sejam bons motivos, o fato mesmo de que precisem ser expostas razões para a manutenção desse nome, já deixa claro que é preciso se justificar, colocar (bons) motivos, deixa claro que esse nome exige explicações. E estas nem sempre são possíveis; e quando são, poucas vezes são suficientes para resgatar-lhe a dignidade, inspirando o desejo por ou a identificação com ele.

No primeiro tempo alguém se inclui na categoria dos comunistas, no segundo, em função desse vínculo, o que faz? Longe de fazer a revolução, pois já não é mais este o caso, parece que não se sabe. Afinal de contas, o que fazem (hoje) os comunistas? Esse segundo tempo não está previamente dado, e é esse o sentido do movimento real, que ele não seja determinado antecipadamente quanto a que forma deve assumir. Essa plasticidade formal é, a meu ver, um grande traço do comunismo; que ele não seja uma ideia à qual a realidade deve se conformar, mas um fenômeno dinâmico que a supera. A minha pergunta aqui é se a mesma plasticidade poderia ser aplicada também ao nome, ao significante histórico comunismo. Se ele já não couber mais no mundo, por todas as complicações práticas que esbocei apressadamente aqui nessa nota, e por outras ainda, de que devo ter passado por cima, será que estaríamos dispostos a, com o intuito de preservá-lo como ideia, ou hipótese, ceder desse nome?

[por fim, um desvio confessional: a camiseta do ceii, “não sou de direita nem de esquerda sou comunista” (acho que é isso), com a qual me deparei na semana passada, ilustra bem minha ambivalência com o nome: ela é totalmente precisa, mas eu jamais a vestiria pra andar por aí]

NOTA #5 [31/07/2018] (RJ I)

Devo a Badiou o ensinamento acerca do que é ser militante. Só discordo de sua crítica ao partido. Acho que sem uma instância pensante, o corpo do proletariado se confunde e se atrasa politicamente. As propostas “horizontais” não apresentaram sucesso sequer comparável ao de Lenin e do partido bolchevique em 1917. Pior, tendem a retornar inopinadamente a uma atitude social-democrática ou proto-liberal, como queiram, de “luta pelos direitos” que negligencia “o real da luta de classes” (Na precisa formulação de Zizek). O centralismo do partido é dialético, e suas decisões resultam do debate.

NOTA #4 [31/07/2018] (RJ I)

Estive num evento promovido também pelo CEII, cujo temática geral e autor central sinceramente me escapam. Uma das falas no evento foi do nosso Mais-Um. Além de não estar exatamente inteirado acerca das linhas de reflexão possíveis ao evento, não pude acompanhá-la teoricamente porque estava presente cumprindo uma tarefa remunerada para o registro das atividades do dia. 
 
Terminei mais ou menos atento em função de uma intervenção do público, tanto por se tratar de um companheiro estimado por nós quanto pelo seu esforço de fazer uma crítica à maneira como a ideia de progresso havia sido representada pelo nosso camarada ceiiano. A meu ver, o pano de fundo da divergência, ao menos num plano mais imediato, seria a noção de futuro à esquerda. Mais concentradamente, penso que o companheiro buscava sinalizar o sentido da noção de progresso para a construção de alternativas positivas contemporâneas, enquanto que nosso Mais-Um relativizava a pertinência da mesma. Astutamente, sem atribuir eurocentrismo à noção, a crítica de nosso camarada apontava o caráter temporalmente (nem historicamente) localizado (nem geograficamente) da ideia de progresso. Numa palavra, como se o ideário civilizatório do progresso como uma ideia de ascensão absoluta já tivesse cumprido seu papel na modernidade, a despeito de Norte ou Sul, Centro ou Periferia, direita ou esquerda. Restando dele apenas seu espectro sobre os homens. 
 
Aludindo rapidamente à sua experiência profissional na clínica para exprimir seu ponto de vista, nosso Mais-Um fez alusão à histórias de sofrimento pessoal, cuja distinção decorre da pregnância deste ideário na vida cotidiana. Por analogia ou homologia, não sei dizer, nosso camarada então apontou como certos tipos de sofrimento parecem ser expressão da crença (uso “crença”, claro, sem qualquer conotação analítica) dos pacientes em replicar uma trajetória socialmente ascendente por ocasião das circunstâncias abertas recentemente no país. Numa palavra, como nações em desenvolvimento, eles aspiram e agem como partes da referida história do progresso da civilização humana. 
 
Como não acompanho o debate do evento nem mesmo a discussão entre o camarada e nosso estimado companheiro, é possível que eu esteja atrasado. Ocorre que vendo a discussão do ponto de vista de uma pessoa, por assim dizer, que sofre como sofrem as nações em desenvolvimento, a saber, constrangido pela impossibilidade da tal marcha ascendente, acho que vale um comentário a favor do camarada, porém contra seu argumento em relação ao companheiro. Considerando que a divergência entre ambos me pareceu ser de projeto (“abandonar ou defender o progresso como ideia?”), o que quero sinalizar é que o que é realmente terrível não é fato do caráter anacrônico do progresso, tornando inútil qualquer associação com ele, mas não haver lugar para onde ir, que não seja simplesmente para frente, depois que ele te alcança. 
 
Sem querer ganhar discussão à base de “carteirada moral”, mas me usando apenas para tentar expor um argumento a partir do que disse nosso Mais-um, acho que o pior momento da minha vida não foi quando me caiu a ficha em 2016 ou 2017 que o curso que percorri entre 2004 e 2015 se fechou e era inútil prosseguir, mas que após este fechamento eu não tinha um lugar porque, afinal de contas, eu fiz este percurso. Em outras palavras, o pior não tem sido a extensão dos meus fracassos profissionais na universidade na minha vida econômica. Seus efeitos são horríveis na minha vida psicológica, mas não só pelas expectativas que venho cegamente nutrindo por causa do percurso que fiz, mas fundamentalmente porque é como se eu não pudesse deixar de continuar “apostando neste jogo” (nas minhas contas, eu já “dobrei a aposta” umas cinco vezes, desde que comecei minha graduação). Então, meu palpite é que o que realmente é duro não é a percepção de que a ascensão ou progresso é só um “fantasma”, nem o esforço físico e anímico para permanecer sua companhia, mas que não há volta para trás após ser assombrado por ele (por exemplo, a certa altura do colapso, para não falar do comércio no Saara, em que tentei ser de balconista à auxiliar de serviços gerais, não consegui um emprego de motorista no início do doutorado porque não sei dirigir; não sei dirigir porque economicamente jamais estive perto de um carro; entre outras razões econômicas, ao início da minha vida adulta, entrando na universidade, “apostei” que valia a pena ficar duro, priorizando estudar, ao contrário de outros amigos que, como jovens adultos, queriam um dinheiro na mão para, entre outras coisas, “tirar carteira”, “pegar uma moto” etc). 
 
Voltando para o camarada e o companheiro, sem querer ser politicamente pessimista, ante à divisão deles entre decidir abandonar ou defender a ideia de progresso como desenvolvimento de uma história universal de ascensão, mencionando o Schwarz, que também foi citado em algum momento do evento, eu diria assim: um país, especialmente se atrasado, enquanto país, sobretudo hoje, só pode continuar se comportando positivamente em relação ao progresso. Não se trata de “projeto”, mas da inerência de ser país.