Nota CEII SP [18/04/2019]

Zizek analisa a ideologia a partir da psicanálise. Dentro dessa linha, para detectar as distorções ideológicas é preciso ver o não dito no dito. Conforme relata o filósofo, não basta ver o não dito no dito, mas é necessário ver a relação entre o não dito e o dito.

Nota CEII SP [18/04/2019]

“No universo orwelliano, o indivíduo se submete a um intensivo treino mental desde a infância que ‘faz com que ele não tenha nem disposição nem capacidade para pensar a fundo em coisa alguma’. Esse treinamento encontra sua máxia expressão nos vocábulos novilinguísticos crimedeter – faculdade de interromper qualquer pensamento crítico que surja à mente, negrobranco – capacidade de mudar a interpretação de fatos de acordo com a conveniência do momento, e duplipensar – crença absoluta nas falsificações do passado, que reescrevem e ignoram a história. Tudo isso estabelece um ambiente cognitivo que inibe a reflexão e impõe a norma de aderir imediatamente ao discurso oficial, não necessariamente por covardia ou submissão voluntária, mas pelo fato de que a língua não mais oferece os recursos que permitam construir o pensamento divergente. Orwell, ao escrever o livro, tinha como referência o facismo, o nazismo e o comunismo, mas também a própria Inglaterra de seu tempo. Sua crítica a sistemas totalitários, portanto, se dirige igualmente a instituições das democracias liberais (…)” Lima, Rossano Cabral. O DSM entre a novilíngua e a lingua tertii imperii. In: Zorzanelli, Rafaela; Bezerra Jr, Benilto; Freire Costa, Jurandir. A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea. Rio de Janeiro: Garamond, 2014)

Nota CEII SP [18/09/2019]

A kind of litmus test is – this always works on all my friends – “How do you stand toward Fight Club, the movie?” All the liberals claim, “Ah, it’s proto-fascist, violent, blah, blah, blah.” No, I am for it. I think the message of Fight Club is not so much liberating violence but that liberation hurts. What may falsely appear as my celebration of violence, I think, is a much more tragic awareness. If there is a great lesson of the 20th-century history, it’s the lesson of psychoanalysis: The lesson of totalitarian subordination is not “renounce, suffer,” but this subordination offers you a kind of perverted excess of enjoyment and pleasure. To get rid of that enjoyment is painful. Liberation hurts.

In the first act of liberation, as I develop it already in The Fragile Absolute, where I provide lots of violent examples – from Keyser Söze in The Usual Suspects, who kills his family (which I’ll admit, got me into lots of trouble) to a more correct example, Toni Morrison’s Beloved. But, of course, now, I’m not saying what Elizabeth Wright, who edited a reader about me, thought. I love her, an English old lady. I had tea with her once, and she said, “I liked your book, The Fragile Absolute, but something bothered me. Do I really have to kill my son to be ethical?” I love this total naïveté. Of course not! My point was to address the problem of totalitarian control. The problem is: how does a totalitarian power keep you in check? Precisely by offering you some perverse enjoyment, and you have to renounce that, and it hurts. So, I don’t mean physical violence, or a kind of fetishization of violence. I just mean simply that liberation hurts. What I don’t buy from liberals is this idea of, as Robespierre would have put it, “revolution without revolution,” the idea that somehow, everything will change, but nobody will be really hurt. No, sorry, it hurts.

https://myheartwillgoonandsoonandsoon.blogspot.com/2015/10/a-kind-of-litmus-test-is-how-do-you.html?fbclid=IwAR2xdqP5ZkitI9NFQYVWoAZ3UKRh7QrYq3RLfXfr4SWe3gAaYCFsASLtdZc

Nota CEII SP [19/04/2019]

“As pessoas muitas vezes procuram psicanalistas com a intenção de encontrar a felicidade em suas vidas, e imaginam que o psicanalista é uma pessoa feliz. Se a psicanálise supostamente promove a cura para a infelicidade, então o psicanalista deve ter sido curado dessa patologia para poder ajudar o paciente. Sobre essa expectativa, Jacques Lacan maldosamente acrescenta: ‘É um fato que nós, os analistas, não negamos nossa competência em prometer a felicidade em um momento no qual essa questão se tornou tão complicada: principalmente porque felicidade, como Saint-Just, se tornou um fator político’, mas Lacan conclui que ‘perdemos nosso tempo, é sabido, procurando a camisa do homem feliz, e o que chamamos de uma imagem de felicidade de ser evitada por todo mal que traz” (Renata Salecl, 2012, p. 9).

Nota CEII SP [19/04/2019]

Tratamos a política como um grande reality show: intrigas, conversa de bastidores, fofocas sobre os participantes, de onde vieram e qual sua história… consumimos com avidez essas notícias e a mídia (dita “tradicional” e as ditas “alternativas) está feliz em pautar esta pequena política em troca de clicks e compartilhamentos. A forma como Carlos Bolsonaro assume o centro do palco é o maior exemplo disso, mas não seria difícil verificar que esta “moda” é antiga.

Não digo que é “cortina-de-fumaça”. Parece-me que é uma dinâmica que se estabelece na política nacional e que acaba pautando o debate. Confesso que tenho pouco interesse em saber com quem o zerodois dorme, o que ele come, qual o nome de sua poodle etc.
E aqui vai uma distinção: o nome do poodle do zerodois, da ex-namorada do zerotrês, a roupa que veste a primeira dama etc., interessa pouco. Nepotismo com o outro dono da poodle, presença de milicianos no gabinete, dinheiro suspeito depositado na conta… estas coisas (me parece) interessam ao debate público. Sobre a “família presidencial”, interessa-me particularmente os movimentos do zerotrês, em articulações políticas com a extrema-direita internacional.

Enfim, não é de agora que “assistimos” a política nacional como se fosse um reality show, um BBB, um Video Show sobre as celebridades globais de nossa novela favorita. E não vamos parar tão cedo.

Mas para além da pequena política destas intrigas, há disputas reais de poder que deveriam nos ocupar mais, que dizem respeito à expropriação de direitos, ao avanço neoliberal e desmonte de políticas sociais, ao entrelaçamento com o crime organizado e as milícias, ao autoritarismo e intervencionismo moral, à censura, ao discurso de ódio e discriminação, ao ataque à minorias, ao meio ambiente, à morte das populações tradicionais, à articulação de uma extrema-direita global fascistóide como “política internacional oficial-paralela” do governo brasileiro (liderada pelo zerotrês).
O engraçado com os “reality shows” é que eles mostram (show) muito pouco da realidade. Além do fato de que (supostamente) não têm roteiros, o que eles promovem é uma grande alienação com relação à realidade social. E estas são duas coisas que têm em comum com nossa forma de consumir política. O reality show “the bolsonaros”, além de (supostamente) não ter roteiro, nos desvia de questões efetivamente importante, retirando o que (parece-me) realmente importa das pautas de discussão da esfera pública e das notícias de jornal (ou pelo menos, colocando-as em segundo plano).

Nota CEII SP [18/04/2019]

“Extremistas de direita de volta ao Congresso (espanhol) pela primeira vez em quase 40 anos”, noticia o DW Brasil. Deveríamos estar muitíssimo atentos (e preocupados) com as articulações internacionais da extrema-direita, encabeçadas por Steve Bannon. E o Brasil está no centro disto, com Eduardo Bolsonaro anunciado como “líder sul-americano de movimento de direita populista” pelo próprio Bannon, segundo a Folha de SP. O mesmo Eduardo Bolsonaro sai pelo mundo para visitas oficiais com líderes populistas e proto-fascistas da Hungria e Polônia.

Nota CEII SP [18/04/2019]

Sei que ando um pouco ou bastante ausente do CEII e queria comentar um pouco sobre a questão das notas. Acredito que elas, querendo ou não, fazem nós ou eu no caso hehehe a participar do coletivo mesmo que distante da presença física das reuniões. Então na minha opinião as notas contam bastante para que os membros participem do coletivo, de uma maneira pouca mas mesmo assim importante.

Nota CEII SP [18/04/2019]

A ascensão global do populismo de extrema-direita revela um traço reativo do indivíduo individualizado, a contraparte político-subjetiva da crise estrutural objetiva do capitalismo contemporâneo, a negação ou deslocalização da política (Beck, 2012). No Brasil, por exemplo, os eleitores posicionaram-se contra o stablishment político e um arranjo de forças e interesses institucionais que remonta à década de 1990. Ao eleger um governo populista de extrema-direita, os brasileiros apostaram suas fichas contra “tudo isso aí” – o mote jocoso atribuído ao Presidente eleito Jair Bolsonaro, e que cumpria o papel de significante vazio para as demandas heterogêneas e flutuantes de seus eleitores. No limite, os votos em Bolsonaro foram votos de oposição ou protesto: “sob o fluxo dessa contínua desconfiança e decepção (…) os leitores pretendem condenar tais práticas viciosas das elites e dos partidos governamentais, considerados ‘incapazes’, cínicos, apegados a seus privilégios e desprovidos de coragem política” (Lipovetsky 2007, p. 36).