NOTA CEII SP [08/03/2018]

“… A emergência de um mercado industrial de consumo interno de massas é algo que se dá entre nós apenas a partir dos anos 1950 e 1960…

É historicamente muito recente, enfim, em um processo que se dá mais fortemente a partir dos dados modernizantes e do estabelecimento da indústria cultural global local entre nós, pela via da televisão aberta ao instantâneo do satélite, e sua cultura rapidamente modernizada, a partir dos anos 1970, a experiência significante da plena integração e da atualização do país no exato momento do presente do sistema da mercadoria global, e sua fantasmagoria própria, o seu sonho ideológico, a nossa participação imaginária, ou real, no centro da experiência histórica contemporânea, em uma consciência muito próxima ao seu próprio significante.”

É interessante notar como o autor coloca nesse trecho o surgimento da indústria de bens consumo nacional e a inserção do Brazil no capitalismo globalizado. Quando ele cita “fantasmagoria própria” e “sonho ideológico”, fiquei refletindo sobre como tais elementos são essenciais para a propagação e aceitação das ideias capitalistas, mesmo que boa parte do população não tenha condições de consumir e, portanto, pouco participe desse processo. Mais a diante no texto, fiquei com a impressão que o governo do Lula foi um dos responsáveis por permitir que a população mais pobre participasse do capitalismo e seu “sonho ideológico” por meio do consumo e, portanto, ajudou na propagação de seus ideais, o que acaba sendo um pouco paradoxal, já que em tese, era um governo de esquerda.

 

NOTA CEII SP [08/03/2018]

Aproveito a nota para fazer uma sugestão de leitura para quem sabe colocarmos entre as nossas coletivas. O livro chamado Aos nossos amigos – Crise e Insurreição – ele foi escrito pelo chamado Comitê Invisível. 

Já havia sugerido esta leitura, mas recentemente fui assistir uma peça de teatro inspirada neste livro chamada democracia e resolvi retomar a proposta, pois me parece ter muitas semelhanças não apenas de conteúdo, mas também de forma com o CEII

NOTA CEII SP #3 [12/04/2018]

“Lacan afirme más tarde, enTelevisión, que toda denuncia del capitalismo desde el propio discurso capitalista no hace más que perfeccionarlo, y propone al discurso analítico como la única alternativa real al discurso capitalista, en la medida en que sólo el psicoanálisis revela el auténtico resorte de la verdadera naturaleza depredadora del capitalismo, que viene dado por la pura, dura y salvaje pulsión de muerte” (Luis Fermín Orueta, Capitalismo y Subjetividad)

Minha pergunta fica para refletirmos o posicionamento dos psicanalistas lacanianos que ultimamente têm tomado a posição de defesa do PT e de Lula. Embora haja toda a crítica ao capitalismo de escolas lacanianas de psicanálise, não há a reflexão de qual o papel Lula e o PT desempenharam para o capitalismo. No entanto, quando conversamos com esses psicanalistas sobre o assunto, eles dizem reconhecer a intensificação do neoliberalismo no governo Lula, mas…… Ou seja, se conhece a história, mas se age como se não soubesse. Muito curioso!

NOTA CEII SP [08/03/2018]

Já é hora de o marxismo deixe para trás esse fetichismo do estado e do direito que o incapacita para aprender com os erros do passado, tanto de perspectivas como de praticas e descobrir as linhas de fuga que se acham já em Marx, pachukanis e outros, combinando com a constelação de experiências de exercício de um outro poder constitutivo de um governo e normatividade enraizadas na forma da comuna ou da comunidade. Devemos deixar de uma vez por todas a ilusão sobre a autonomia relativa do estado e do direito como formas de estruturação e subjetividade a partir das quais se pode transformar de forma radical a sociedade.

NOTA CEII SP #2 [12/04/2018]

Acho que a questão das notas provavelmente vai nos demandar uma reflexão mais séria cedo ou tarde. E o meu ponto seria: estamos prontos para fazer uma mudança significativa nesse ponto de nosso projeto? Tenho tido a impressão que as notas tem perdido sua função com o tempo, ou que nem mesmo sabemos mais que função é esta.

NOTA CEII SP #1 [12/04/2018]

O que se passa com as recentes publicações de Tales Ab’Saber que parecem contrariar frontalmente (quase) tudo que ele escreveu sobre Lula em seu Lulismo: carisma pop e anticrítica[1]? Sobre isto, mais uma vez, retomo o conceito de fetiche em Žižek (2016) [2]e resgato uma anedota dele sobre um padre católico que, quando questionado sobre sua fé na infalibilidade do Papa, respondia:

Nós católicos, ao menos, acreditamos na infalibilidade de uma única pessoa; a democracia não confia na ideia muito mais arriscada de que a maioria das pessoas, milhões de pessoas, são infalíveis? (Žižek, 2016, p. 355, sic.)

Neste sentido, parece haver uma renegação fetichista na relação com a Democracia e o povo: sabemos muito bem que a Democracia é controlada por grupos de poder econômico-político, que as instituições (notadamente no Brasil) atuam de forma clientelista em um Estado patrimonialista, seletiva e, ao mesmo tempo, burocraticamente. Sabemos muito bem que o povo (a maioria democrática) está muito longe de ser infalível: já o sabíamos desde que Hitler é eleito, revimos isto com a eleição de Trump (que vence conforme as regras democráticas do sistema eleitoral estadunidense), vemos no Brasil com eleições proporcionais que favorecem pessoas como Bolsonaro, Feliciano ou Tiririca como o mais bem votado deputado de São Paulo. Sabemos disso tudo, mas agimos como se a democracia fosse a grande resposta, como se a participação popular, a figura fictícia do povofosse a resposta definitiva para os impasses da política. Aceitamos a máscara democrática como real democracia e buscamos na figura do Povoo legitimador supremo de nossa farsa democrática.

[1]AB’SABER, T. Lulismo: carisma pop e anticrítica. São Paulo: Hedra, 2016.

[2]Žižek, S. O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política. São Paulo: Boitempo, 2016.