NOTA #1 [01/07/2018] (VIRTUAL)

I. Estratégia especulativa

[pág.13] Qual é, depois de agora trinta anos, minha estratégia filosófica? É de
estabelecer aquilo que eu chamo de a imanência das verdades. Dito de outro modo, de
salvar a categoria de verdade, e de legitimar que uma verdade possa ser:
– Absoluta toda sendo uma construção localizada.
– Eterna, toda resultante de um processo que, sob a forma de um evento desse mundo,
começa em um mundo determinado e pertence ao tempo desse mundo.
– Ontologicamente determinada como multiplicidade genérica, sendo localizada
fenomenologicamente no seu grau de existência maximal em um mundo dado.
– A-subjetiva (universal), exigindo, para ser apreendida, uma incorporação subjetiva.
Poderia-se dizer também: trata-se de criar a possibilidade efetiva de afirmar que as
verdades existem como exceções concretas universais. O que permite de fugir do
dilema de Kant para quem, ou bem as “verdades” não são mais que modalidades
subjetivas do juízo, ou bem é preciso concordá-las com um tanto de transcendência.
O contexto polêmico dessa estratégia é, como sempre, uma luta sobre/em duas
frentes/dois frontes. De uma parte, é preciso tentar uma crítica radical do
dispositivo onto-teológico, longamente cúmplice das religiões, que salva as verdades
ao preço de uma absoluta transcendência do Um, subsumindo as multiplicidades finitas
sob a autoridade formal do Um-infinito, frequentemente chamado/nomeado “Deus”. Essa
crítica supõe que, no despertar de Canto [dans le sillage de Cantor], separa-se o
infinito do Um, colocando que tudo aquilo que é não pode ser mais que na forma de um
múltiplo sem-um. Isso feito, não se concederá – é a segunda frente/segundo fronte –
que devemos desabsolutizar todas as formas do múltiplo, assim separadas do Um. Não
se sacrificará o absoluto das verdades em benefício de um relativismo, a mais
freqüente linguageira [langagier] ou cultural, cujo ceticismo, que é de sua
essência, esconde-se por detrás uma espécie [sorte] de democratismo vazio do
conhecimento e da ação.
Trata-se, então, em definitivo, de opor uma orientação de pensamento genérico, por
aquela sob certas condições das multiplicidades [pág.14] existentes que podem ter um
valor universal, bem como a uma orientação transcendente, por aquela existe uma
garantia universal na forma do Um, que eu a chamei o materialismo democrático, por
este, a universalidade é uma isca.
A tese ontológica subjacente do materialismo democrático é a finitude: não há mais
que corpos e linguagens, absoluto e universalidade são conceitos perigosos. Quentin
Meillassoux – entre parênteses o único grande filósofo tentador nos dias de hoje,
pelos meios absolutamente inéditos, assentado [étayés] sob um tese radical (a
contingência dos mundos), de salvar a transcendência por sua vez contra sua antiga
forma onto-teológica (a potência criadora do Um) e contra o materialismo democrático
– Quentin Meillassoux, então, intitulou seu pequeno livro metodológico Après la
finitude [ainda sem tradução. Boitempo programou de lançar. Ed. ing. After
finitude]. Ele tem razão! É em todo caso da finitude de que é preciso nos
desfazermos.
Chamaremos “ideologia da finitude” uma tripla hipóstase do finito. Primeiramente, o
finito é aquilo que há, aquilo que é. Assumir a finitude releva do princípio de
realidade, que é um princípio de obediência: nós devemos nos submeter às restrições
realistas da finitude. É o princípio da objetividade do finito. Segundo, o finito
determina aquilo que pode ser, aquilo que pode advir. É o princípio de restrição dos
possíveis: crítica, tanto fraca quanto banal, das “utopias”, das “ilusões
generosas”, de todas as “ideologias”, tidas pelas matrizes de um imaginário
destruidor, cujo paradigma foi, no século anterior, a aventura comunista. E
terceiro, a finitude prescreve aquilo que deve ser, seja a forma ontológica de nosso
dever, aquele é sempre finalmente aquele de respeitar aquilo que há, quer dizer,
grosso modo, o capitalismo e a natureza, aquilo que supõe, e é em efeito um axioma
da finitude, que o capitalismo é fundamentalmente natural. É o princípio de
autoridade do finito.
As objeções contemporâneas, ou “pós-modernas”, contra a finitude são/estão
praticamente reduzidas a uma discussão que concerne à terceira hipóstase. Subsiste
em efeito, entre aqueles que admitem en gros o consenso em torno do materialismo
democrático, muitas vezes proponentes da moral, rebatizados em geral “ética”. Esses
democratas honestos, geralmente partidários de um capitalismo moralizado e de uma
natureza respeitada/respeitosa, sentem bem que o imperativo do respeito da vida, que
é o registro deles – o registro pobre deles – das tragédias do século XX, exige uma
hipótese que negligencie, de toda sorte, a vida ela mesma, a finitude da vida, e,
portanto, de uma espécie de hipótese infinita. Isso é o que conduziu o sutil Lyotard
a recolocar a expressão ingênua e consensualmente [pág.15] finita dos “direitos do
homem” por aquela, bem mais mordaz, e que eu retomo sem dificuldade à minha conta,
de “autoridade do infinito”.
No entanto, para Lyotard, essa autoridade do infinito é ultimamente fundada em um
retorno ao Kant da terceira Crítica, ao lado da estética do sublime, combinada com
um recurso à Lei que se inspira das escatologias antigas, notadamente aquela que se
esclarece da lei judaica. Como frequentemente, a renegociação da finitude termina em
reação.
Há também algumas tentativas de discutir a segunda hipóstase, aquela da restrição
dos possíveis, argüindo de uma fonte/recurso [ressource] infinita/o do finito. É a
lógica – que o próprio capitalismo adota voluntários – de uma “abertura” infinita da
invenção técnica, de um “melhoramento” sempre possível da democracia, e de uma
“negociação infinita” com o meio-ambiente natural. Revoluções técnicas, democracia
em progresso/em marcha e ecologia profunda compõem um solo progressista
abstratamente infinito para nossas irremediáveis finitudes, uma abertura objetiva
quase infinita ao bem-estar maximal que nossa pobre finitude merece.
De fato, essas construções são sem consistência especulativa alguma, elas só
oferecem um trecho suave do finito e dos objetivos estritamente conservadoresdo
capitalismo, do regime político dominante, ou da natureza tal qual ela é hoje em
dia. Não se vê o resto que filosofia alguma digna desse nome teria podido fazer sua
[ait pu faire sien] um tal programa.
Uma tarefa importante desse livro é de introduzir a uma crítica radical da primeira
hipóstase, a mais fundamental, a hipóstase ontológica, que afirma a finitude daquilo
que há, e de nosso ser singular em especial. Eu farei sob uma forma particularmente
abrupta, que estranhamento, no entanto, embora ela seja o exato oposto porque ela
exclui todo ser do Um, com as fábulas teológicas e criacionistas. Minha tese é, com
efeito, a seguinte: O finito, em qualquer sentido que se tome, não tem ser. O
finitio, que não é, não existe mais como um resultado de operações que engajam
multiplicidades infinitas. Ou, de forma mais precisa, o finito é em geral o
resultado do cruzamento operatório/operativo de dois infinitos de tipo diferente (de
potência diferente).
O finito não é jamais que um resultado. Esse enunciado, extirpado penso pela
primeira vez de todo contexto religioso – aquele exigem que se humilhe nossa
finitude frente a infinitude divina que a criou e incessantemente a recriou –,
receberá em todo entendimento desse livro as justificações racionais valendo
prova/provando [valant preuve].

Alain Badiou. A imanência das verdades (Ser e Evento III), 2018, p. 13-15. tradução
rápida CEII.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *