NOTA #1 [04/02/2019] (RJ I)

O estrado vem abaixo

O emergente pequeno-burguês, um personagem romântico, começa a existir. É um pobre diabo, com os nervos à flor da pele, que recebeu da racionalização um second spirit, está sempre ofegante, vive ameaçado pelo desemprego e investe seu último vestígio de energia na competitividade. Atravessa o palco como herói e atleta, e o estrado vem abaixo.” Brecht, Diário de Trabalho, 5 de março de 1939.

Se a categoria “pequeno-burguês” ainda se faz relevante talvez seja para nos indicar (a menos me indica) a autofagocitose necessária do militante-classe-média. A mesma racionalização que nos cria um segundo espírito, como diz Brecht, ou uma segunda natureza (neurótica) nos possibilita ir mais além da peça a qual fomos destinados: “o romance familiar” e todo seu drama privado. Do que se trata este mais-além senão levar o estrado abaixo? Como derrubar as próprias condições pelas quais nos tornamos pequenos-burgueses se gozamos (mais ou menos secretamente) e usufruímos de um modo de vida (e não das condições materiais) da burguesia? Como o espaço da militância pode ser um lugar privilegiado da reivenção ética de si?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *