NOTA #1 [11/02/2019] (RJ I)

A moral altruísta da esquerda

” A maioria dos homens arruína suas vidas por força de um altruísmo doentio e extremado – são forçados, deveras, a arruiná-las. Acham-se cercados dos horrores da pobreza, dos horrores da fealdade, dos horrores da fome. É inevitável que se sintam fortemente tocados por tudo isso. As emoções do homem são despertadas mais rapidamente que sua inteligência; e, como ressaltei há algum tempo em um ensaio sobre a função da crítica, é bem mais fácil sensibilizar-se com a dor do que com a idéia. Conseqüentemente, com intenções louváveis embora mal aplicadas, atiram-se, graves e compassivos, à tarefa de remediar os males que vêem. Mas seus remédios não curam a doença: só fazem prolongá-la. De fato, seus remédios são parte da doença. Buscam solucionar o problema da pobreza, por exemplo, mantendo vivo o pobre; ou, segundo uma teoria mais avançada, entretendo o pobre. Mas isto não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. A meta adequada é esforçar-se por reconstruir a sociedade em bases tais que nela seja impossível à pobreza. E as virtudes altruístas têm na realidade impedido de alcançar essa meta. Os piores senhores eram os que se mostravam mais bondosos para com seus escravos, pois assim impediam que o horror do sistema fosse percebido pelos que o sofriam, e compreendido pelos que o contemplavam. […] E há mais: é imoral o uso da propriedade privada com o fim de mitigar os males horríveis decorrentes da instituição da propriedade privada. É tão imoral quanto injusto.” (Oscar Wilde, A alma do homem sob o socialismo)

Em que ponto a esquerda confundimos alteridade e altruísmo? É possível agir frente a pobreza e precariedade extrema para além da caridade e do altruísmo? Acredito que o avanço  dos setores religiosos conservadores se dá pelo englobamento da alteridade pela caridade, não há espaço para a indignação do outro, mas sim para a compaixão frente ao outro e o fomento à autopiedade. Ainda nos é irrestível dar esmolas, aliviar nossa culpa e ter a sensação de dever cumprido. Como fomentar a indignação para além desta gramática moral que nos é disponível?

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