Nota #2 [17/12/2012]

No último encontro do CEII, deu-se continuidade à leitura do texto “Como Marx inventou o sintoma” de Zizek. No texto, Zizek defende que a fascinação de muitos intelectuais das mais diversas áreas com o fetichismo da mercadoria de Marx ocorreu devido ao seu potencial para descrever processos que nada tem a ver com o fetichismo da mercadoria em si, mas operam de modo semelhante. O exemplo utilizado é a teoria de Sohn-Rethel: o modo de pensamento abstrato da ciência só foi possível por sua estrutura ser antecipada pelo fetichismo da mercadoria. Contudo, qual é a relação entre as duas coisas?

Aqui devemos procurar a resposta na efetividade social, na abstração real presente nas relações de troca (abstração real é a denominação de Sohn-Rethel para uma abstração que só se evidencia no ato de troca, de modo inconsciente se assim podemos afirmar). Claramente os indivíduos sabem muito bem que as mercadorias não são imutáveis e conhecem as suas características particulares, e, no entanto, agem como se houvesse um valor de troca abstrato e uma imutabilidade que permite que mercadorias possam ser trocadas de maneira equivalente, realizando uma equivalência quantitativa no ato de troca. Desse modo, antecipa-se a quantidade pura, o movimento puramente abstrato independente das qualidades do objeto e outras características do pensamento abstrato científico (aqui se trata da ciência newtoniana) por meio das relações de troca.

É importante ressaltar que essa abstração não é realizada pelo sujeito, não é “interior ao sujeito”; ela ocorre de modo totalmente externo, é somente no ato da troca que essa abstração real se concretiza e deve haver um terceiro elemento externo (uma autoridade) para garantir a validade da troca. Como diz Sohn-Rethel “A abstração da troca não é o pensamento, mas tem a forma do pensamento”. Os indivíduos envolvidos no processo de troca não devem estar conscientes dessa abstração real para que ele seja possível. É da mesma maneira que procede a ideologia: não como uma falsa consciência da realidade social, mas a própria realidade social não pode existir sem o desconhecimento de sua essência por parte de seus agentes. Eles não podem “saber o que fazem”, pois isso “desmancharia” a própria realidade social. É nesse sentido que podemos falar de sintoma, pois ele também requer um desconhecimento por parte sujeito de sua lógica, caso contrário ele se dissolveria.

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