Nota #1 [17/12/2012]

Comentários “à cantonade”[1]

A idéia de uma homologia entre os procedimentos de Marx e Freud, que incidem sobre domínios de realidade tão diversos como o sonho e a mercadoria, é no mínimo ousada e por isso instigante mas não vai sem exigir um certo compromisso do leitor com essa hipótese fundamental. Tudo bem. Como proceder então: examinar o método interpretativo de Freud e a análise da mercadoria de Marx, e compará-los. A abordagem da interpretação dos sonhos me pareceu muito rápida. Só ficamos sabendo que o mais importante não é o conteúdo latente mas o trabalho do sonho (ou desejo), e que esse procedimento está baseado em operações de deslocamento , condensação etc que fornecem a forma do sonho. Um pouco vago ainda, carece de  exemplo.

O Marx de Sohn-Rethel promete algo Tb muito ousado: derivar  o sujeito transcendental do conhecimento da troca de mercadorias tal como se deu em estado prático no nascimento do capitalismo. A mercadoria seria a Outra cena a partir da qual se constitui – via recalque – o próprio conhecimento objetivo.  Assim “Antes que o pensamento pudesse chegar à abstração pura, a abstração já era atuante na efetividade social do mercado”.

(Existem textos recentes de Zizek em que ele nega o fato de que a ciência seria apenas uma narrativa entre outras – cotejar).

O paralelo entre Sohn-Rethel e a interpretação dos sonhos residiria na idéia de que o texto do sonho bem como  a lógica da mercadoria só são legíveis através de uma operação de recalque, seja do trabalho do sonho seja da abstração real atuando na troca?

Lacan afirmaria, por sua vez, que o verdadeiro recalque se dá na passagem “do feudalismo para o capitalismo” e diria respeito ao DESLOCAMENTO: “é como se a desfetichização das relações interpessoais fosse paga com a fetichização das “relações entre coisas”. O preço, por assim dizer, da liberdade formal burguesa é o determinismo no plano da economia de mercado. As relações de servidão e dominação foram RECALCADAS sob as relações entre coisas. Eis aí a histeria conversiva do capitalismo, segundo Lacan.

 

Conclusão: a aproximação entre os métodos interpretativos de Freud e Marx é instigante, mas resta um pouco nebulosa, para não dizer vaga. Vale precisar melhor, de um lado, a noção de trabalho do sonho”, bem como a análise marxista do fetichismo da mercadoria para poder “amarrar”melhor, no detalhe, com exemplos, a homologia buscada entre psicanálise e marxismo. A conclusão geral, se a hipótese se mantém, é espantosa: que a suposta exterioridade das relações materiais tem a estrutura de um sonho do qual somos ao mesmo tempo agentes e pacientes, em um sono do qual nos empenhamos em não acordar.


[1] Comentário que o histrião faz diretamente para a platéia, interrompendo a continuidade da ação dramática e desnaturalizando assim a representação. A peça Ricardo III de Shakespeare, por exemplo, se inicia com um monólogo que nada mais é que um longo comentário “a cantonade”.

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