Nota #1 [19/10/2012]

Ao prosseguirmos com a leitura do texto “Como começar do começo” de Slavoj Zizek, explica-se que o quarto antagonismo (Que se refere aos excluídos) é o único que faz do comunismo uma necessidade urgente no horizonte político atual. No entanto, pode-se perguntar o que é a qualidade de excluído para Zizek, resposta que acredito que encontraremos mais adiante. É a existência dos excluídos que nos faz reafirmar a dimensão igualitária do comunismo, relembrando-nos do sentido que Marx dava à classe oprimida: ela é a classe que representa a universalidade, pois não possui “um lugar determinado na ordem ‘privada’ da hierarquia social”. Talvez pudéssemos chamar uma política que incluísse os excluídos na ordem social e política de democracia como os gregos antigos faziam. Não devemos excluir essa possibilidade como comumente se faz de dois modos: tratando a democracia como apenas ilusória ou argumentando que o que há não é de fato uma democracia. Aqui devo admitir que precisaria de uma explicação mais desenvolvida em relação a essas duas questões, pois imagino que um conceito verdadeiramente igualitário de democracia poderia coincidir com o comunismo.

Uma nova questão se apresenta em seguida, o fato de que as revoluções passadas foram, muitas vezes, seguidas de acontecimentos que poderiam ser considerados como fracassos importantes para a reflexão da esquerda. Por exemplo, a passagem da Revolução de Outubro para o governo de Stálin. Neste ponto, devemos apreender o fracasso não como inerente ao próprio movimento emancipatório, mas sim da maneira badiouiana que já tivemos a chance de conhecer. A Revolução de Outubro seria um evento, uma representação concreta da Ideia comunista que aconteceu durante um período de tempo e que abriu infinitas possibilidades. Contudo, o evento só existiu durante uma época, cessando as infinitas possibilidades que ele criara após certo tempo. Assim, a Ideia comunista ganha uma dimensão material, concreta (Contrariando as acusações de idealismo) e atemporal, já que ela é materializada em cada momento verdadeiramente revolucionário.

Ainda podemos fazer uma espécie de metacrítica à esquerda atual, pois talvez precisemos hoje de algo que a esquerda vem criticando ultimamente: o paradigma “Jacobino-Leninista” (Como Zizek o denomina). Para o autor, devemos insistir em quatro conceitos fundamentais: “estrita justiça igualitária, terror disciplinário, voluntarismo político e confiança no povo”. Não me é claro, entretanto, o que ele quer dizer com a expressão “terror disciplinário”. Por que motivo uma disciplinaridade teria de ser aterrorizante?

Por último, devemos levar em conta que objetivamos revolucionar um sistema que já se revoluciona, que não possui bases sólidas e se modifica de acordo com as necessidades [do mercado]. O sistema capitalista se instaura na desordem, por isso uma política emancipatória hoje em dia deveria visar uma nova ordem. Porém, parece-me que a desordem é mais aparente que real, uma vez que a própria desordem é guiada pela lógica do Capital, devendo, assim, haver uma ordem [lógica] na própria desordem do capitalismo. A questão aqui não é, obviamente, propor qualquer outra ordem, mas precisamente uma ordem que se exclua da lógica do Capital e que materialize a Ideia comunista. Desse modo, deveríamos repensar o Estado de uma forma completamente revolucionária, em vez de aboli-lo.

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