Nota #1 [20/08/2013]

A situação da filosofia

“A principal questão da filosofia é hoje a de saber como ela pode proteger e salvar o desejo de filosofia. A filosofia só pode ser a organização de uma resistência do pensamento.” Alain Badiou, A situação da filosofia.

Badiou quer renovar a categoria de Verdade, relacionando-a à noção de evento. Evento é o que “faz furo” num domínio de saber característico de uma dada situação. Segundo ele, a filosofia não tem objeto próprio, sendo sua tarefa mais própria a de salvaguardar esta dimensão da Verdade, que acontece no campo dos procedimento genéricos da ciência (ou matema), da arte (ou poema), da política e do amor.(Este último procedimento sendo amplo o bastante para implicar não só o que diz respeito à relação sexual entre duas pessoas, como a psicanálise e a religião, por exemplo).

Considerando que nossa situação mais geral é o capitalismo, a questão diretora do seu percurso pode ser assim resumida; como salvar o desejo de filosofia do mundo dominado pelos imperativos do capital? Esse desejo se compõe de quatro elementos bem determinados: “a revolta, a recusa de ficar instalado e satisfeito; a lógica, o desejo de uma razão coerente; o universal, a recusa do que é particular e fechado; e a aposta, que envolve o gosto pelo acaso e o risco. Todos esses fatores são negado pela situação contemporânea de nosso mundo, francamente oposto ao desejo de filosofia.

Para Badiou quatro grandes correntes de pensamento caracterizam nosso tempo, que existem isoladamente ou de forma combinada: o marxismo, a psicanálise, a fenomenologia e a filosofia analítica da linguagem. Sartre tentou combinar marxismo e fenomenologia; Lacan, a psicanálise com a lógica matemática.

Se marxismo e psicanálise se caracterizam mais propriamente como antifilosofias, a hermenêutica e analítica – que se opõem diretamente – não detêm nenhuma delas o monopólio da Verdade filosófica. Sacrificando a universalidade e a lógica, a hermenêutica não tem força de resistir à pressão do mercado, da moeda e do culturalismo.  A filosofia analítica, por sua vez, com e depois de Carnap e Quine, sacrifica a revolta e o risco de comprometimento, redundando numa atitude politicamente academicista conservadora.

A filosofia, para Badiou, deve preservar seu senso crítico e de revolta; deve preservar o desejo de universalidade que toma para si a ciência embora rejeitando o cientificismo; deve abarcar todas as culturas, não se limitando a uma tradição específica “ocidental” (como supõe Heidegger); e deve apostar, de forma arriscada, no novo, no improvável, no indecidível.

Apesar do agudo senso crítico, Badiou não assume uma atitude niilista de “terra arrasada”, mas busca valorizar aspectos de cada uma das posições filosóficas implicadas em nossa situação atual, ainda que rejeitando outros e criando uma filosofia original, uma filosofia do evento como singularidade universal.

3 ideias sobre “Nota #1 [20/08/2013]

  1. Além do poder de síntese concentrada da proposta de Badiou, uma coisa me chamou a atenção nessa nota: em que sentido podemos dizer que marxismo e psicanálise seriam antifilosofias? Em “São Paulo, a invenção do universalismo”, Badiou a filosofia baseia-se ou bem por uma (auto)fundação conceitual (baseada no universal, pois, ao que parece) ou bem se colocando sob procedimentos de verdade reais (científicos, artísticos, amorosos, ou políticos), dos quais ele organiza a “síntese” por meio de uma compreensão/invenção da categoria de Verdade (p. 126 da ed. brasileira).

    Ora, o marxismo me parece muito bem poder se encaixar no segundo caso. Em primeiro lugar, por compreender a verdade na práxis transformadora que se põe no movimento próprio do real (da luta de classes), impulsionando e sendo impulsionada por este, como uma verdade que se realiza (entre outras coisas) complexamente como: 1) desmascaramento (econômico-)político da ideologia; 2) realização do mundo como um mundo não-cindido em seu fundamento, sem classes, pois: o comunismo como verdade do social. Em segundo lugar, por se colocar sob a verdade real de um acontecimento da ordem do político, ao fazer essa “torção” do conceito de verdade. Um problema com essa leitura seria que ela realizaria a síntese dos outros procedimentos de verdade (se é que o realiza) a partir do político; isso é possível, não?

    No caso da psicanálise, acho que a referência ao singular (ou particular?) que é a clínica como sua condição de exercício e télos de sua elaboração conceitual, como prática incluída nessa subjetivação e fundamento dela já mostraria seu caráter de antifilosofia, creio.

    • Badiou afirma em A Situação da Filosofia no Mundo Contemporâneo (a primeira palestra do seu livro Para uma Nova Teoria do Sujeito) que a psicanálise e o marxismo são anti-filosofias porque 1) Lacan (respeitando, inclusive, a posição freudiana frente à filosofia) se declara um anti-filósofo e 2) o marxismo teria esgotado sua capacidade filosófica (p.14). Nesse nível de análise, psicanálise e marxismo são anti-filosofias na medida em que, respectivamente, rejeita e abandona a filosofia. Trata-se aí de uma explicação negativa e meramente descritiva. Dela podemos extrair simplesmente que a psicanálise e o marxismo não têm a pretensão filosófica de apreender A VERDADE, a qual, segundo Badiou, deve consistir na compossibilidade entre as verdades construídas pelos eventos que efetivamente pensam o mundo: a política, a ciência, a arte e o amor. Para tanto a filosofia precisa possuir um quadro conceitual adequado – uma nova categoria de verdade e de sujeito – capaz de acolher esses diferentes tipos de verdade, que juntas – sem a exclusão de nenhuma delas – fazem resistência ao capitalismo. Apenas na medida em que for capaz de acolher esses diferentes tipos de verdade a filosofia poderá ser a organização de uma resistência do pensamento (p.14). As tendências filosóficas contemporâneas, a hermenêutica e a analítica, não acolhem todos esses tipos de verdade. A hermenêutica está quase exclusivamente referida à verdade artística e a analítica, à verdade científica. Desse modo elas não organizam uma resistência ao capitalismo. Quando a hermenêutica desqualifica a verdade científica, por exemplo, ela fica sem recursos para organizar uma resistência ao culturalismo imposto pelo capitalismo, e ao desqualificar a verdade política, a analítica não tem como resistir, por sua vez, ao consenso da mídia.
      O papel da filosofia não é produzir verdades, só os eventos produzem verdades. A filosofia deve apreender a Verdade – daí o projeto badiouiano de renovação da categoria filosófica de verdade – capaz de acolher todas as verdades eventais. E daí se segue o esquema badiouiano segundo o qual são as verdades dos eventos que condicionam a Verdade da filosofia. É com base nesse esquema que Badiou empreende sua análise das principais tendências da filosofia contemporânea. Por um lado, ele desqualifica as tendências hermenêutica e analítica como filosofias capazes de acolher as verdades de todos os eventos, valorizando, no entanto, suas contribuições no que concerne à Verdade que cada uma delas apreende dos eventos que privilegia. E por outro, ele simplesmente descarta a possibilidade da psicanálise e do marxismo ocuparem a função filosófica, dizendo que eles não constituem tendências filosóficas, pois eles são anti-filosofias. O esquema Badiouiano opera, no entanto, apenas com os eventos, que produzem as verdades do mundo, e a filosofia, que apreende a Verdade capaz de acolher todas as verdades eventais. Dizer que a psicanálise e o marxismo, assim como o gesto de São Paulo, constituem anti-filosofias significa o quê? Eis uma categoria que, a meu ver, não pode ser confundida nem com um evento (político, científico, artístico e amoroso) nem com a filosofia. Esta última deve ser condicionada pelos eventos, mas requer categorias próprias – um quadro conceitual – para que efetivamente o seja, daí o trabalho filosófico de Badiou de renovar a categoria filosófica de verdade e, por conseguinte, a de sujeito que dela se segue.
      Tal renovação é tributária em parte, no que concerne à apreensão da Verdade dos eventos artístico e científico, do trabalho já realizado, respectivamente, pelas tendências filosóficas hermenêutica e analítica. Mas e quanto à apreensão da Verdade dos eventos amorosos e políticos, de onde Badiou extrairia as propriedades da categoria filosófica de verdade necessárias para apreender também a Verdade desses eventos? Acredito que é da psicanálise e do marxismo na medida em que a primeira pensa o amor e o segundo, a política. O que diferencia a psicanálise e o marxismo, como anti-filosofias, das tendências filosóficas hermenêutica e analítica é que estas últimas têm a pretensão de apreender A Verdade, enquanto a psicanálise e o marxismo não têm essa pretensão. Desse modo, a categoria filosófica de verdade capaz de acolher todos os eventos e de ser efetivamente condicionada por estes últimos deve ser construída com base e na conjugação entre o que as filosofias hermenêutica e analítica já construíram sobre a verdade capaz de acolher, respectivamente, a arte e a ciência, e o que a psicanálise e o marxismo foram capazes de pensar e construir, respectivamente, sobre o amor e a política. Para Badiou é como se a filosofia – a sua categoria de verdade – tivesse que ser ao mesmo tempo hermenêutica, analítica, psicanalítica e marxista. É necessário beber de todas essas fontes para constituir uma filosofia contemporânea que efetivamente seja capaz – possua um quadro conceitual adequado – de acolher e ser condicionada pelos diferentes tipos de verdades produzidos pelos eventos e assim ser capaz também de apreender a Verdade que consiste na compossibilidade entre as verdades desses eventos. Isso não responde, no entanto, por que São Paulo é um anti-filósofo. Nem mesmo ficou suficientemente claro por que a psicanálise e o marxismo são anti-filosofias.
      Está claro, todavia, que o papel da filosofia é pensar a Verdade enquanto compossibilidade das verdades produzidas por cada evento, sem desconsiderar nenhuma delas. Caso uma delas seja desconsiderada a filosofia não cumpre seu papel de organização de uma resistência do pensamento e acaba cedendo assim aos imperativos do capitalismo. Acontece, contudo, que a situação da filosofia, como é o caso das tendências hermenêutica e analítica, acaba consistindo numa sutura da Verdade – filosófica – a uma verdade de um evento específico – a arte ou a ciência. E é nesse ponto que a anti-filosofia, seja a psicanálise, o marxismo ou São Paulo, tem um papel fundamental. A anti-filosofia tem a potência de des-suturar a verdade filosófica a um evento específico e remetê-la à estrutura do evento, não a um evento específico, mas à estrutura de todo e qualquer evento. Nesse ponto a anti-filosofia contribui não só para a renovação da categoria filosófica de verdade – como fora dito acerca da psicanálise e do marxismo – como também apresenta as condições formais do procedimento de verdade dos eventos. Essa é a chave de leitura para se entender o papel de São Paulo na filosofia de Badiou: São Paulo apresenta as condições formais da produção de verdade de todo e qualquer evento. Ao longo da leitura examinaremos quais são essas condições formais: declaração que rompe com a situação, processo de fidelidade que investiga e verifica na situação as conseqüências desta declaração etc.

      • Salve Jenifer,

        muito obrigado por essa resposta tão completa e elaborada. Ela me levou a pensar em alguns pontos.

        1) No texto “A situação da filosofia”, ao menos no trecho que está no site (estou sem acesso ao texto todo no momento), Badiou, como vc muito bem lembrou, diz que o marxismo seria uma antifilosofia porque “teria esgotado sua capacidade filosófica (p.14)” Vc poderia me indicar um lugar onde ele desenvolve isso melhor? Porque, no sentido de Badiou, “esgotar a capacidade filosófica” significaria não poder mais organizar a compossibilidade dos quatro processos de verdade ao apreender a Verdade que os atravessa. Ora, pode parecer uma consideração ingênua (sobretudo porque não será desenvolvida), mas o marxismo ou, antes, Marx me parece claramente ainda poder fazer frente à verdade política (pelo menos), assim como hermenêutica e analítica fariam frente à verdade artística e científica, ainda que produzindo uma sutura na Verdade e, assim, fazendo capitular a filosofia diante da situação (o capitalismo). Conquanto esta capitulação seja duvidosa e precise ser pensada com cuidado (não me parece que ela possa ocorrer, a rigor, no caso do pensamento de Marx, ainda que o possa em alguns marxismos (mais vulgares)), a situação do marxismo me pareceria muito mais próxima da hermenêutica e da filosofia analítica do que da psicanálise, sob esse aspecto, ao menos. É bom lembrar que o próprio Badiou diz que o marxismo teria se esgotado enquanto filosofia – e, por conseguinte, à diferença do que (talvez) ocorra com a psicanálise, o marxismo tinha, sim, a pretensão filosófica de organizar verdades apreendendo a Verdade.

        2) Por isso, não é claro para mim que “o que diferencia a psicanálise e o marxismo, como anti-filosofias, das tendências filosóficas hermenêutica e analítica é que estas últimas têm a pretensão de apreender A Verdade, enquanto a psicanálise e o marxismo não têm essa pretensão.” Tenderia a associar seu caráter de antifilosofia a outros fatores, como a crítica às “mesquinharias metafísicas” (São Paulo, p. 85) ou, melhor ainda, o fato de que a posição subjetiva constitua o discurso, o que seria da essência mesma de uma antifilosofia (ibid., p. 25-26) ou então que ou o fato de eles referirem seu pensamento a um puro ato ou a um acontecimento (ibid., p. 127). Ainda assim a coisa não é lá muito transparente ainda.

        3) Um outro candidato (o melhor, talvez) seria o fato de que a antifilosofia remeteria à estrutura de todo e qualquer evento, e não a um evento específico. A esse respeito, a minha questão seria: essa não seria a peculiaridade da antifilosofia de Paulo? Talvez pudéssemos inserir aí uma esfumatura: toda antifilosofia pode produzir uma sutura e assim remeter à estrutura mesma do evento (e impedir a “clausura” e o “conformar-se” a uma verdade), mas nem todas elas tematizam a universalidade que emerge de/com o evento e sua elaboração. Esta seria a peculiaridade de Paulo… Ou?

        4) Tomo a liberdade de compartilhar uma questão que gostaria de pensar em Badiou: qual é o lugar do econômico? É um mero componente do mundo/situação?

        Um abraço!

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