Nota #1 [21/05/2013]

O estatuto prático da crença

A razão cínica (eu sei muito bem que o apelo a valores universais dissimula interesses particulares, mas mesmo assim…) impõe uma revisão do conceito de ideologia. Afinal, o fracasso da crítica se deve ao fato do “ideológico” não assumir propriamente a forma de um saber comportando desmistificação “teórica”, mas por situar-se isto sim no terreno da crença em estado “prático”. “Ajoelhe e a fé virá por si mesma”, era a máxima de Pascal, retomada por Althusser em sua tese da Igreja como aparelho ideológico de reprodução das relações de produção. A tese de Foucault acerca das disciplinas, desenvolvida em Vigiar e punir, também trata das relações de poder de um ponto de vista infra-representacional.

A crença, na verdade, antes de mero um sistema de ideias, constitui-se como um ritual ou conjunto de rituais que assumimos inconscientemente. Nesse sentido, não adianta apenas “saber” o que se faz para se deixar de fazer, tornando-se necessária uma outra forma de intervenção (clínica). Em sua análise da crença, Zizek salienta o caráter objetivo, não psicológico desta última, que diferentemente da fé endereçada a um Senhor “não barrado”, comum a vários fiéis, promove um deslocamento “objetivante” da atitude do “crente” em direção a um terceiro termo mediador, que opera como “sujeito suposto crer”. É o caso das rodas tibetanas contendo orações por escrito, que liberam os crentes para outros afazeres enquanto são giradas pelo vento.

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