Nota #1 [24/09/2013]

O materialismo marxiano, talvez, possa ser melhor pensado não na distinção exercida em relação ao idealismo hegeliano, mas ao materialismo feuerbachiano. A primeira tese de Marx sobre Feuerbach, contida em sua reflexões à tradição filosófica-idealista alemã, apresenta o seguinte:

O principal defeito de todo o materialismo até agora (o de Feuerbach incluído) é que o objeto, a realidade, o sensível só é apreendido sob a forma do objeto ou da contemplação, mas não como atividade sensível humana, como prática; não subjetivamente. Daí o lado ativo, em oposição ao materialismo, foi desenvolvido pelo idealismo – que, naturalmente, não conhece a atividade real, sensível, como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis realmente distintos dos objetos sensíveis; mas ele não apreende a própria atividade humana como atividade objetiva

Ideologia Alemã, 2009, p.533

É possível, acredito, supor que o materialismo marxiano pouco se relaciona com alguma concepção de materialidade empírica [como “manifestação imediata da realidade”]. Me parece que “material”, do ponto de vista defendido por ele, é aquilo que não se refere à objetividade do objeto [isto é, seu atributos “físicos”], mas a objetividade da atividade humana [subjetiva] da qual resulta o objeto. Mais à frente, com O Capital, modelo da apreensão material oferecida por Marx, temos o seguinte:

A objetividade do valor das mercadorias é diferente de Mistress Quickly, na medida em que não se sabe por onde agarrá-la. Exatamente ao contrário da objetividade sensível e crua dos corpos das mercadorias, na objetividade de seu valor não está contido um único átomo de matéria (…) sua objetividade de valor é puramente social

O Capital, 2013, p.125

Se a análise objetiva de Marx, para a entender concretamente a sociedade burguesa, começa por algo que não pode ser entendido em sua materialidade corpórea, mas em sua materialidade social, admiti-se que materialismo tem algo de inevitavelmente “imaterial” ou “não-concreto” – no sentido de que o materialismo marxiano, porque problematiza o objeto em sua objetividade, pensa a matéria/ realidade como uma relação social entre homens: o fato empírico de haver “trabalho” [atividade finalístico-teleológica em que o homem realiza seu intercambio com a natureza] em tribos indígenas não confere objetividade alguma ao recurso de sua análise para se entender concretamente a forma de organização social ali existente porque, não sendo uma sociedade capitalista, não pode ser esta esfera que socialmente  organiza e medeia a relação entre os homens [ou seja, que lhes confere sentido].

Me parece então que a pergunta não é “o que é materialismo para Marx?” porque a objetividade que advoga não é oriunda daí. Mas, sim, “o que é social?”

Badiou não me parece tematizar, diretamente, tal pergunta. Mas, sabemos, conceitua o materialismo. O que chama de “materialismo democrático”, se bem entendo, sendo algo similar a um cotejo de propriedades específicas do mundo ordinário/ realmente existente ou “da situação”, me parece, guardar alguma afinidade com a crítica ao materialismo [idealista vulgar] que Marx imputa à Feuerbach. Talvez, a distinção entre Badiou e Marx esteja na consideração que o primeiro faz da “dialética” – em que Marx, para ele, seria demasiadamente hegeliano.

Uma ideia sobre “Nota #1 [24/09/2013]

  1. A nota me parece levantar um caminho que bastante interessante e que pode ser bem frutífero para pensar o materialismo de Marx – a contraposição deste, no campo mesmo do materialismo, a Feuerbach.

    Todavia, não sei se eu diria que o materialismo de Marx não teria a ver com a “materialidade empírica”. O que me parece que ele comunga com Feuerbach é justamente dizer que o empírico, o sensível e, assim, o material são o fundamento do que é não-empírico, inteligível, imaterial. Corrobora com isso o fato de que a matéria é, para a tradição filosófica aristotélica a qual Marx de algum modo se liga (basta ver as referências a Aristóteles no Capital e a análise da produção do valor-de-uso que abre o capítulo sobre o mais-valia nessa mesma obra, por ex., em que as quatro causas aristotélicas parecem implicitamente operar para pensar o trabalho como produtor de valor-de-uso), o princípio de individuação da forma e, por isso, algo que não é inteligível, mas apenas sensível. Ainda no que tange a essa tradição, o inteligível é fruto da abstração a partir do sensível – de maneira semelhante a que o Marx concebe a relação teórica que se dá quando ele se põe a compreender o capital. (Mas há, por outro lado, a abstração real…)

    O que me parece que separa Marx de Feuerbach é na compreensão de que: (1) o objeto não é algo estático e simplesmente dado à sensibilidade (2) o acesso a esse objeto não é a mera “contemplação” teórica. Contra isso, Marx traz o conceito de atividade espiritual do idealismo e o colocaria como um atividade fundamentalmente sensível, empírica; donde: (1) o objeto sensível que se dá a minha frente é resultado, obra de uma atividade sensível, empírica; (2) a atividade do sujeito será antes uma produção do objeto do que uma apreensão teórica e, por meio desse objeto, uma produção de si, um cavar uma “possível” “interioridade” que não existe previamente. Se há apreensão teórica, ela é fundada (saiba ou não; em geral ela não sabe, ou ideologicamente o esquece) naquela primeira atividade prática de produção de matéria, na matéria, a partir da matéria. O objeto como produção, o sujeito como (auto)produção mediante a produção de um outro (objeto material) com um outro (sujeito): eis as portas abertas para um materialismo que, ao que parece, será adequadamente de histórico (a relação (inter)sujeito-objeto acontece, se produz e se modifica no tempo) e dialético (o sujeito (a natureza qua homem) chega a si por uma (auto)mediação com o outro).

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