Nota #1 [25/02/2014]

Agamben e Badiou X A ética protestante e o espírito do capitalismo

O a,b,c da filosofia de Badiou

No texto de Agamben O tempo que resta temos uma distinção preciosa entre dois sentidos de klesis (chamado): 1) klesis como vocação messiânica e 2) klesis como profissão. Trata-se de dois sentidos para o chamado de Deus declarado por Paulo. Esses dois sentidos encontram-se em A ética protestante e o espírito do capitalismo de Weber. Este último apresenta a distinção entre o sentido moderno de klesis como profissão em oposição ao seu sentido supostamente original, klesis como vocação messiânica.

Klesis como profissão consiste numa releitura das epístolas de Paulo feita por Lutero, a partir da revolta dos camponeses. Nessa releitura a vocação messiânica é secularizada e transformada também numa questão mundana de status e profissão. Isso é indicado pela tradução que Lutero faz do termo klesis por beruf, em alemão.

Desse ponto de vista, a vocação messiânica é entendida como uma “indiferença escatológica” que não leva em consideração as condições mundanas, isto é, a situação. Enquanto a klesis como profissão valorizaria as condições factícias ou jurídicas nas quais nos encontramos quando somos convocados pelo chamado de Deus, conferindo a esse chamado um caráter mundano, ao invés de só religioso.

Segundo Weber, então, a klesis pauliana enquanto vocação messiânica seria puramente religiosa e transcendente, destituída de caráter político, ao paso que a beruf luterana teria claramente objetivos políticos, os quais se adequam perfeitamente ao capitalismo.

A questão é: será que a vocação messiânica paulina consiste realmente numa indiferença escatológica? Quando Paulo declara que, quem foi chamado como circuncisado ou não-circuncisado permaneça como está, pois a circuncisão é nada, e nada é o prepúcio, isso consiste numa indiferença a respeito das condições mundanas?

NÃO! De acordo com Agamben, a klesis paulina consiste numa “nulificação” das determinidades da lei, isto é, “o que segundo a lei, faz de alguém um judeu e de outro um gentio, um goya, de alguém um escravo e de outro um homem livre, fica agora anulado pela vocação [chamado de Deus]” (AGAMBEN, p.32)

Tal anulação ou nulificação das determinidades da lei é declarada explicitamente por Paulo quando diz: “A circuncisão É NADA e o prepúcio É NADA”. Isso não guarda muitas semelhanças com o que temos visto sobre a leitura badiouiana de Paulo?

A formulação de Paulo de que “a circinsão é nada e o prepúcio é nada”, entendida por Agamben como nulificação das determinidades da lei – em oposição à leitura que vê aí uma indiferença escatológica – não coincide como o que Badiou propõe tanto em termos ontológicos quanto em termos eventais?

a) Em termos ontológicos, essa nulificação – a circuncisão É NADA e o prepúcio É NADA – não corresponde ao VAZIO inerente à estrutura ontológica da situação? Do ponto de vista da superfície da situação, ser judeu ou ser pagão consiste em determinidades da lei que, inclusive, estabelece uma distinção e uma oposição entre essas duas posições subjetivas. Porém, do ponto de vista ontológico, a estrutura da situação não consiste em múltiplo de múltiplos cujo único elemento é o vazio, isto é, o “é nada” da circuncisão e do prepúcio?

b) Em termos eventais: a nulificação de Agamben não está intimamente ligada ao que Badiou propõe como declaração? A declaração de um evento não força e incide justamente no vazio, no “é nada”? O que implica, por sua vez, que a declaração é da ordem do indecidível, isto é, ela não se apóia em nenhuma determinidade da lei (judeu, grego, homem, mulher etc.)

c) Mais ainda: quando Agamben, opondo-se à leitura da vocação paulina como indiferença, diz que “o gesto anafórico da chamada messiânica, seu ser, é essencialmente e antes de tudo, um chamado do chamado. Por isso, a vocação pode unir-se a qualquer condição” (AGAMBEN, p.32), não se trata aí do que Badiou chama de indiscernivel para caracterizar a operação de verificação de um evento? Trata-se da ideia badiouiana da declaração do acontecimento como uma marca cuja verificação (pelo processo de fidelidade) é da ordem do indiscernível. Isto é: depois da declaração, as condições da situação que irão compor o aconteciento declarado são indiscerníveis, não existe uma condição que seja mais afim ou mais estranha ao evento.

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