Nota #1 [28/01/2014]

Postone é um crítico do que chama de marxismo tradicional. O suposto dessa interpretação, segundo o autor, é o caráter “transhistórico do trabalho” do qual os socialistas [de todas as espécies] extraem sentido para sua crítica ao modo de produção capitalista, a sociedade burguesa etc. Segundo o autor, todo o esforço teórico e prático dessas organizações se orienta ao desembaraçamento da relação entre capital e trabalho – do qual este é indevidamente determinado por aquele. Dessa forma, se ausente o capital, essa esfera da atividade humana se libera dos entraves que a constrange e assim, revelada em sua essência, realiza o homem em sua humanidade [até então adormecida, por assim dizer] – o trabalho é “transhistórico” porque é compreendido como o núcleo mediador da sociabilidade humana enquanto tal. Em outras palavras, na ausência do capital, o trabalho, a esfera mediadora da sociabilidade humana genuína, revela-se em sua plenitude e por isso, o seu sujeito [o homem] revela-se, finalmente, livre da presença do capital, humano, livre etc.

Postone procura, retomando os escritos maduros de Marx, lembrar que tal caráter [ou valor social] conferido ao trabalho é próprio de uma visão de mundo burguesa. Sob essa sociabilidade é que o trabalho passa a ocupar esse papel “ontológico” e, através desse discurso, que sempre se buscou dar ao “trabalho o seu devido lugar” – a ociosidade/improdutividade da nobreza foi conteúdo fundamental para o discurso e prática revolucionária burguesa, por exemplo. Argumento que todas as experiências socialistas até hoje mantém, segundo o autor. Essa compreensão da natureza do trabalho em relação ao indivíduo e do lugar que ocupa na sociabilidade humana resulta, essencialmente, numa indistinção de como o trabalho aparece/é/deve ser na sociedade burguesa e na sociedade comunista – motivo [1] do fracasso societário do socialismo realmente existente, [2] do insucesso ideológico das lutas socialistas hoje e [3] da fragilidade conceitual do marxismo porque o trabalho [A] já é central na sociedade burguesa, [B] a anatomia do “trabalho produtivo” é uma referência generalizada às atividades humanas [todos, em quaisquer que sejam as áreas de atuação em jogo, vivem suas categorias e emulam suas práticas como se trabalhassem] e [C] é insustentável afirmar que o trabalho humano é a fonte absoluta de “toda riqueza” pelo fato de que o desenvolvimento das forças produtivas, comandadas pelo capital, o torna progressivamente dispensável.

Por isso o autor relativiza a importância da “luta de classes” como chave para compreensão da tensão estrutural entre trabalhadores e capitalistas na sociedade burguesa, dando ênfase então à dominação impessoal exercida pelos segundos sobre os primeiros porque é o trabalho abstrato que estrutura e possibilidade o tipo de exploração da força de trabalho operante sob o capital. Daí decorre toda uma crítica, presumivelmente, à crítica do capitalismo desde o ponto de vista do trabalho [feita pelo marxismo tradicional] uma vez que a crítica marxiana da economia política burguesa, para Postone, assume que o modo de produção que a sustenta é fundado na relação de um com o outro e não de um tipo de relação onde o capital [igualado ao mesmo que capitalista] se aproveita do trabalho [e do trabalhador, claro].

O autor sugere uma crítica do trabalho talhado pela/na sociedade burguesa. Que permaneceu, segundo o próprio, em tentativas de a abolir ou a impedir – os trabalhadores na URSS trabalhavam tanto quanto quaisquer trabalhadores a partir de uma mesma estrutura de dominação [abstrata, impessoal etc] igual a burguesa ainda que sem burgueses. Desse modo, os homens permaneceriam ainda subordinados a relações sociais “alienadas”. Ainda que o autor, de fato, não procure “dar sentido ao trabalho”, podemos nos perguntar:

o qualificante irredutível do trabalho sob o capital é a distância entre o trabalhador e o produto do trabalho?

Essa é uma boa pergunta porque:

até onde na sociedade burguesa, na forma dominação concernente a ela, não conta com a ideia de que [sim] devemos nos reconhecer naquilo que fazemos e, portanto, não devemos medir esforços para construir essa identidade entre o que fazemos e o que somos?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *