Nota #1 [28/09/2012]

Quando Slavoj Zizek afirma que o projeto comunista deve começar do começo, o que exatamente ele quer dizer? Onde começa o comunismo? Retornamos à hipótese comunista conforme afirmada por Alain Badiou, a hipótese da emancipação. Mas e o que é a emancipação? É a constante verificação da hipótese da igualdade. Mas no plano do real, o que isso muda? Retifico-me, não no plano do real, pois esse, segundo Lacan (?), é impossível (algo que ainda não entendi); então no plano da história. Novamente, não no plano da história, pois essa não existe (segundo Badiou está no plano do imaginário [?]); então no presente. No cotidiano de cada um, quais são os efeitos da implementação da hipótese comunista, da emancipação dos indivíduos, da verificação da igualdade? Aumentará o bem-estar das pessoas? Aumentará seu gozo e sua satisfação com a vida cotidiana? Parece-me que Freud afirma que não; seremos tão infelizes no comunismo quanto hoje. Então pra que serve o projeto comunista? Pareço  enredar-me no hedonismo contemporâneo em que a vida é dirigida à busca do prazer; mas se não é para melhorar em algum aspecto a vida das pessoas, então o que é o comunismo e pra que serve e por que o defendemos?

Zizek ainda não me respondeu essa pergunta, apenas afirma que o comunismo é uma necessidade; mas o que é comunismo? O comunismo não é um ideal, uma ideia reguladora cuja norma é a igualdade (o socialismo ético), mas uma reação aos antagonismos sociais provocados pelo capitalismo que impedem sua reprodução infinita. Os antagonismo do capitalismo, então, gerariam a ideia comunista… mas o que é essa ideia nova? Deve ser uma ideia nova, ou seja, não deve ser um avanço da ideia antiga que levou à Revolução Bolchevique, provocada por outros antagonismos de outro tempo: essa é uma nova empreitada revolucionária. Mas que ideia nova é essa? O que é a ideia comunista? O princípio ao qual Zizek se refere é simplesmente a palavra comunismo? Devemos redescobrir o significado dessa palavra e essa é a ideia comunista? Se for o caso, determinaremos o que é comunismo por um esforço lógico de raciocínio dialético seguido da mais pura retórica, ou será um embate dialético político-ideológico pelo uso correto dessa palavra? O que importa é a palavra? A palavra como evocação da ideia?

O autor afirma que a única pergunta verdadeira hoje é: confirmamos a naturalização predominante do capitalismo ou consideramos que o capitalismo global atual contém antagonismos suficientemente intensos para impedir sua reprodução indefinida? É uma boa pergunta. O comunismo, então, é a ideia que surge do reconhecimento da insustentabilidade e consequente finitude do capitalismo? Então, o comunismo será o que seguirá o capitalismo. É diferente de haver uma ideia pré-concebida sobre o que é o comunismo e tentar implementá-la. Não é fazer do comunismo a sequência do capitalismo, é chamar a sequência do capitalismo de comunismo. O capitalismo possui antagonismos suficientemente intensos para impedir sua reprodução infinita, ou seja, o capitalismo não é capaz de resolvê-los e ainda assim chamar-se capitalismo, portanto, o sistema que resolver tais antagonismos será chamado comunismo; Mas por que comunismo?

Os quatro antagonismos do capitalismo, segundo Zizek, são: a crescente ameaça ecológica; a inadequação da noção de propriedade privada quando aplicada à propriedade intelectual; as implicações sócio-éticas dos novos desenvolvimentos  tecnocientíficos, sobretudo no campo da biotecnologia; e as novas formas de apartheid social. Os três primeiros antagonismos evocam os domínios do comum, a substância compartilhada de nosso ser social: o comum da cultura, o comum da natureza externa e o comum da natureza interna. A consciência de que a submissão desse comum à lógica capitalista, por meio de sua privatização, tem um potencial destrutivo de aniquilação da humanidade evocam a necessidade de estabelecer uma organização e compromisso político global para neutralizar e canalizar os mecanismos de mercado nesses domínios, revelando-se uma preocupação propriamente comunista. “É essa referência ao comum o que justifica ressuscitar a noção de comunismo: nos permite enxergar o cercamento progressivo desses bens comuns como um processo de proletarização daqueles que são desse modo excluídos de sua própria substância.” (p.213). A noção de proletário é radicalizada ao nível existencial: o sujeito proletário como uma mera consciência, privada de todo seu conteúdo substancial que determina sua existência material.

O esforço do capital em privatizar esses bens comuns determinaria então a insustentabilidade do capitalismo, ao posicioná-lo como uma ameaça de autodestruição da humanidade, ao tentar desapropriar os seres humanos de todo seu conteúdo material, forçando-nos em uma situação de catástrofe coletiva ou de resistência coletiva à imposição da lógica do capital a esses bens comuns. O comunismo seria então o modelo social decorrente da resistência bem-sucedida à imposição da lógica capitalista aos bens comuns? Mas esses bens comuns não são privatizados ainda, eles estão sendo privatizados progressivamente. O comunismo seria então apenas a proteção dos bens comuns aos avanços do capital? Sendo o comum usufruído comunalmente, temos então o comunismo? É esse o critério do comunismo?

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