Nota #1 [29/10/2013]

Devido ao meu grande período de ausência das atividades do CEII, minha nota é menos sobre conceitos badiouianos e mais sobre uma reparação historiográfica do que se expôs tão rapidamente no São Paulo de Badiou sobre se o cristianismo necessita de pré-requisitos de ordem judaica (ritualísticos) ou se o cristianismo repousa sobre um-lugar-qualquer (ótica da graça paulina). Peço desculpas também pela falta de intimidade com os termos técnicos badiouianos, por isso, se alguém achar algo de proveitoso nisso cá, que depois renomeie tudo o que eu escrevi a fim de aproximar o que escrevi ao que pensa Badiou.

Badiou lista corretamente duas correntes de entendimento a respeito do funcionamento da cristandade, onde 1) o judaísmo é a condição para o cristianismo e 2) o cristianismo não exige condições geoespirituais (“Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos”.).

Há no começo da história do cristianismo 3 momentos fundamentais envolvendo essa disputa entre 1) e 2). Os protagonistas desses momentos são Pedro, o apóstolo-líder da Igreja e chefe episcopal da Igreja de Antioquia, e Paulo, o ex-perseguidor da seita cristã.

Um primeiro momento acontece em/com Pedro. Atos 10 diz: “[Pedro] viu o céu aberto e algo semelhante a um grande lençol que descia à terra, preso pelas quatro pontas, contendo toda espécie de quadrúpedes, bem como de répteis da terra e aves do céu. Então uma voz lhe disse: ‘Levante-se, Pedro; mate e coma’. Mas Pedro respondeu: “De modo nenhum, Senhor! Jamais comi algo impuro ou imundo! ” A voz lhe falou segunda vez: “Não chame impuro ao que Deus purificou“. Isso aconteceu três vezes, e em seguida o lençol foi recolhido ao céu.”

Essa revelação divina a Pedro é fundamental. Primeiro porque decide seu posterior pensamento: Pedro vai inaugurar, em sua primeira epístola que busca basicamente a união dos cristãos, o termo nação santa que é, sem dúvidas, super interessante. Pedro explica o porquê desse termo: “Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.” (1 Pedro 2:10). Encontro uma leitura provável: estou quase convencido de que Pedro considerava esse outro tempo em que não éreis povo como um tempo de dispersão, portanto, tanto gentios quanto judeus estavam sem significação enquanto não-coletividade [Igreja], o que indica que Pedro já havia esquecido ou ultrapassado seu passado judaizante.

O segundo ponto é que tal revelação não muda apenas o pensamento de Pedro, como também o decorrer da Igreja. Qualquer decisão tomada por Pedro era necessariamente de grande estima e consideração, assim como decisões tomadas por Tiago e João (os dois outros apóstolos “preferidos” de Jesus). O desdobramento desse segundo ponto se dá na visita de Pedro ao centurião romano, portanto gentio/pagão, Cornélio: “Conversando com ele [o centurião], Pedro entrou e encontrou ali reunidas muitas pessoas e lhes disse: ‘Vocês sabem muito bem que é contra a nossa lei um judeu associar-se a um gentio ou mesmo visitá-lo. Mas Deus me mostrou que eu não deveria chamar impuro ou imundo a homem nenhum.’ […]  ‘Agora percebo verdadeiramente que Deus não trata as pessoas com parcialidade, mas de todas as nações aceita todo aquele que o teme e faz o que é justo.'”

Pedro toma a decisão de romper com o pensamento judaizante, onde Cristo era restrito aos judeus e que, a partir de agora, a mensagem cristã seria também aos gentios/pagãos.

O segundo momento fundamental acontece justamente no primeiro concílio da Igreja, o chamado Concílio de Jerusalém. (Vale lembrar, a fins de historiografia, que o líder da Igreja em Jerusalém é Tiago, “o Justo”, um apóstolo que depois introduzirá um certo aristotelismo (?) na teologia cristã solucionando a lacuna metafisicista deixada por Paulo na relação fé/obras = salvação, dando mais ênfase na vida concreta (obras]). Tal Concílio foi convocado pela seguinte polêmica: é necessário que a pregação do cristianismo seja, antes, judaizante (“Então se levantaram alguns do partido religioso dos fariseus que haviam crido e disseram: ‘É necessário circuncidá-los e exigir deles que obedeçam à lei de Moisés’. Os apóstolos e os presbíteros se reuniram para considerar essa questão. Atos 15:5-6)?

Convém dizer que nesse momento Pedro já está convencido de que a mensagem do cristianismo não deve passar necessariamente pela conversão ao judaísmo, portanto, não é uma simples oposição partidária entre um apóstolo e um quase apóstolo (Pedro vs. Paulo). Eu diria que o caso do Concílio de Jerusalém é um caso super esquisito, onde a Igreja não tem qualquer código/lei em que se baseie: não há os Evangelhos, não há historiografias, não há nada, a não ser lembranças de quem esteve com Cristo e, a partir daí, deram prosseguimento ao cristianismo. Paulo ainda não havia escrito nenhuma epístola (o Concílio ocorre por volta de 45 d.C., enquanto historiadores duvidam de que a primeira epístola paulina, a saber 1ª Tessalonicenses – há dúvidas – , tenha sido escrita por volta de 50 d.C.).

Portanto, nesse concílio, há duas posições: a dos fariseus e cristãos da Judeia que defendem que para ser cristão precisa haver uma pré-conversão ao judaísmo e a posição dos apóstolos, tendo como exemplo a atuação de Paulo. Tal atuação de Paulo se baseia naquilo que acontece em Atos 2, a descida do Espírito Santo. A principal indagação subentendida do Concílio é: como exigir uma pré-conversão ao judaísmo se, através da mensagem de Paulo, também há a ação do Espírito Santo em gentios que não são e nunca foram judeus? Se o Espírito Santo agiu como agiu em gentios, por que exigir uma conversão ao judaísmo? A resposta dos apóstolos foi algo como: “Contra ‘fatos’ não há argumentos”.

O que ficou decidido no primeiro decreto apostólico foi: “Então os apóstolos e os presbíteros, com toda a igreja, decidiram escolher alguns dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, dois líderes entre os irmãos.Com eles enviaram a seguinte carta: “‘Os irmãos apóstolos e presbíteros, aos cristãos gentios que estão em Antioquia, na Síria e na Cilícia: Saudações. Soubemos que alguns saíram de nosso meio, sem nossa autorização, e os perturbaram, transtornando suas mentes com o que disseram. Assim, concordamos todos em escolher alguns homens e enviá-los a vocês com nossos amados irmãos Paulo e Barnabé, homens que têm arriscado a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, estamos enviando Judas e Silas para confirmarem verbalmente o que estamos escrevendo. Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês (…). ‘Uma vez despedidos, os homens desceram para Antioquia, onde reuniram a igreja e entregaram a carta.'”

Paulo, em Gálatas, expõe a decisão dos apóstolos no Concílio. Ele diz: “Quanto aos que pareciam influentes (…) não me acrescentaram nada. Pelo contrário, reconheceram (Tiago, Pedro e João) que a mim havia sido confiada a pregação do evangelho aos incircuncisos, assim como a Pedro, aos circuncisos.”

O terceiro momento fundamental é exposto por Paulo em Gálatas. É o famoso incidente em Antioquia. Paulo expõe: “Quando, porém, Pedro veio a Antioquia, enfrentei-o face a face, por sua atitude condenável. Pois, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios. Quando, porém, eles chegaram, afastou-se e separou-se dos gentios, temendo os que eram da circuncisão. Os demais judeus também se uniram a ele nessa hipocrisia, de modo que até Barnabé se deixou levar. Quando vi que não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho, declarei a Pedro, diante de todos: ‘Você é judeu, mas vive como gentio e não como judeu. Portanto, como pode obrigar gentios a viverem como judeus?'”

Tal é o último grande embate envolvendo a questão entre 1) e 2) expostos no começo da nota de trabalho. Paulo é irredutível: para ele, a mensagem cristã não necessita de pré-requisitos ritualísticos. Mesmo em relação a Pedro, o grande líder da Igreja, Paulo permanece fiel a sua posição universalista.

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