NOTA #1 [31/07/2018] (RJ I)

A tese ontológica subjacente do materialismo democrático é a finitude: não há mais que corpos e linguagens, absoluto e universalidade são conceitos perigosos. Quentin Meillassoux – entre parênteses o único grande filósofo tentador nos dias de hoje, pelos meios absolutamente inéditos, assentado [étayés] sob um tese radical (a contingência dos mundos), de salvar a transcendência por sua vez contra sua antiga forma onto-teológica (a potência criadora do Um) e contra o materialismo democrático – Quentin Meillassoux, então, intitulou seu pequeno livro metodológico Après la finitude [ainda sem tradução. Boitempo programou de lançar. Ed. ing. After the finitude]. Ele tem razão! É em todo caso da finitude de que é preciso nos desfazermos.

Chamaremos “ideologia da finitude” uma tripla hipóstase do finito. Primeiramente, o finito é aquilo que há, aquilo que é. Assumir a finitude releva do princípio de realidade, que é um princípio de obediência: nós devemos nos submeter às restrições realistas da finitude. É o princípio da objetividade do finito. Segundo, o finito determina aquilo que pode ser, aquilo que pode advir. É o princípio de restrição dos possíveis: crítica, tanto fraca quanto banal, das “utopias”, das “ilusões generosas”, de todas as “ideologias”, tidas pelas matrizes de um imaginário destruidor, cujo paradigma foi, no século anterior, a aventura comunista. E terceiro, a finitude prescreve aquilo que deve ser, seja a forma ontológica de nosso dever, aquele é sempre finalmente aquele de respeitar aquilo que há, quer dizer, grosso modo, o capitalismo e a natureza, aquilo que supõe, e é em efeito um axioma da finitude, que o capitalismo é fundamentalmente natural. É o princípio de autoridade do finito.

Alain Badiou. A imanência das verdades (Ser e Evento III), 2018, p. 14. tradução rápida CEII.

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