Nota #10 [03/03/2015] (RJ)

Badiou e Mondrian: eterno, mas no tempo; infinito, mas no espaço

Devo ter lido em algum lugar – mas também não estou certo de que li – que Piet Mondrian rompeu com o suporte. O suporte é, na arte pictórica, aquilo que sustenta fisicamente o trabalho da pintura (o quadro em seu aspecto meramente físico). Os quadros de Mondrian teriam extirpado o quadro como suporte. Mas como? As linhas de Mondrian – e falo aqui do Mondrian maduro – tomam o quadro de ponta a ponta, extinguindo, por exemplo, a borda do quadro – em Mondrian, o quadro não possui uma borda: a pintura coincide com o quadro todo ele mesmo.

Uma notável consequência do trabalho de Mondrian é que seu trabalho pictórico conseguiu deflagrar, num mero espaço de tela, a infinitude. Isso porque as retas, por não encontrarem uma borda que as dê um fim, confundem-se com a parede, dando a sensação de esbarrarem-se nela – o que quer dizer: as retas estão sempre extrapolando o quadro. Mas não é só isso.

Podemos imaginar retas caminhando rumo ao horizonte, inalcançável que só. Paralelas, não se encontram. Mas no meio do caminho das retas há um quadro, que as captura por um parco instante. Há ali, então, a eternidade no tempo e no espaço – mas elas seguem; são, digamos, infinitas.

No poema, flor é a palavra flor (João Cabral). No quadro, a reta é o traço-reta.

Quedo cá pensando se Mondrian não caiba em Badiou – e vice-versa: não é o filósofo francês o proponente de uma verdade eterna alocada no tempo – de uma reta que, digamos, segue seu caminho e vê-se deflagrada num quadro?

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