NOTA #10 [18/07/2017] (RJ I)

Acontecimento e o Sujeito sem Objeto

O acontecimento – assim definido como um evento em que suspendendo a ordem estabelecida das coisas promove a abertura para novas possibilidades – pode ser visto como lugar comum tanto no pensamento de Heidegger como no pensamento de Alain Badiou:

 

“Denomino ‘evento’ uma ruptura na disposição normal dos corpos e das linguagens tal como ela existe para uma situação particular(…). O que é importante aqui é notar que o evento não é a realização de uma possibilidade interna à situação ou dependente das leis transcendentais do mundo. Um evento é a criação de novas possibilidades. Situa-se não simplesmente no nível das possibilidades objetivas, mas no nível da possibilidade dos possíveis. O que também pode ser dito: em relação à situação ou ao mundo, um evento abre a possibilidade daquilo que, do estrito ponto de vista da composição dessa situação ou da legalidade desse mundo, é propriamente impossível.” (Badiou, 2012, p. 138)

 

Desse modo podemos dizer que o acontecimento é criador de possibilidades. A diferença entre Heidegger e Badiou reside justamente com um resgate do Sujeito promovido por Badiou, que nos permite pensar o papel do acontecimento diante deste Sujeito.

A partir desta concepção de evento podemos perceber que para Badiou o evento não só suspende todo enquadramento corrente de um Estado de coisas, mas advém do que é inesperado e assim desprovido de qualquer vínculo de causalidade com as coisas; ele provém justamente da ordem do impossível das coisas, por isso ele não muda o enquadramento, poderíamos deduzir que o evento é aquilo que acaba com o enquadramento, pela enunciação de uma ideia. Quando o Indivíduo é tocado pela ideia, uma decisão precisa ser tomada, e uma aposta precisa ser feita. Esta é justamente a aposta na verdade da ideia que se enuncia pelo acontecimento. Esta aposta se confirma na medida em que este mesmo indivíduo rompe os vínculos que estabelecem suas dimensões individuais, para se tornar parte da ideia e tomar para si a tarefa de um engajamento com seu processo de verdade.

Observando tal mecanismo tem se a impressão de que esta figura assemelha se com a figura do militante, não à toa o filósofo Franco-Marroquino se utiliza da imagem do apóstolo Paulo[1] como uma figura revigorada do militante. A estranha história da conversão de Saulo, Romano, até então cobrador de impostos e perseguidor de cristãos se dá em uma de suas viagens. Na estrada para Damasco Saulo é acometido pela boa nova da ressurreição de cristo em uma visão que tem do próprio messias; à partir deste momento ele abandona seu nome, assume o nome de Paulo e se torna enunciador da “boa nova” que é a possibilidade da nova vida.

[1] “São Paulo e a criação do universalismo”, é uma obra de Alain Badiou onde este descreve de forma detalhada a importância de Paulo para descrever o processo de fidelização a uma ideia. No caso de Paulo a ideia do enunciado “Cristo Ressuscitou”

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