NOTA #10 [23/05/2017] (RJ I)

Começo me identificando, para fazer uma observação sobre o caráter anônimo para o meio interno do círculo. Entendo, que como as notas são divulgadas publicamente, o anonimato faz sentido. Mas manter o anonimato para os próprios membros, confesso, acho meio estranho. Pode ser que contribua para pessoas que se sintam acanhadas para se posicionar sobre posições controversas ou colocar opiniões diretamente contrárias às opiniões de outras pessoas; mas não estou convencido de que esse suposto incentivo melhora a qualidade da discussão e a clarificação das divergências. O conflito aberto de ideias e de seus defensores (restrito, mas não por princípio, ao meio interno do grupo) sempre me pareceu a maneira mais eficiente de se esgotar o próprio conflito. Mas, estou receptivo para debater sobre isso e mudar de opinião se for o caso.

Tive outras primeiras impressões sobre a reunião, que pretendo tratar no futuro caso se tornem importantes, para não saturar essa minha primeira nota. Vou me ater então ao texto que foi discutido.

Como peguei somente a última discussão sobre o texto, não me sinto qualificado para fazer uma análise muito crítica sobre os temas do texto. No entanto, acho que posso trazer uma crítica muito comumente feita sobre a psicanálise, da qual compartilho.

Freud foi muito competente em sua tentativa de sistematizar um panorama sobre o qual se constitui a vida psíquica do sujeito. Trazendo para o melhor entendimento do que faz a psiquê do ser humano funcionar do jeito que funciona elementos fundamentais como a sexualidade e a agressividade. Foi um ótimo primeiro passo, colocar o ser humano regido por leis tão amorais, principalmente na saída da era vitoriana.
Filho de seu tempo, no entanto, Freud não conseguiu preparar uma continuidade do seu trabalho ao dar as costas para o contexto social de suas descobertas. Preferiu axiomatizar o inconsciente, o Édipo e outros conceitos como entidades eternas e imutáveis. Conceitos que seriam muito melhor aproveitados se colocados sob paradigma materialista e dialético.
Uma parte do trabalho de Freud é tentar enquadra toda a história da humanidade e a vida cotidiana dentro do seu sistema, o que parece razoável, apesar de feito muitas vezes de maneira forçosa. No entanto, ao fazer isso, não se coloca nenhum debate ou alternativa para que o ser humano consiga se emancipar de suas neuroses e seus sofrimentos. Ao esbarrar num bom modelo da estrutura da psiquê do homem moderno, moldado pelo desejo do prazer destrutivo e pelo medo da repressão da lei, Freud não admite qualquer estrutura social em que o ser humano possa conhecer uma psiquê diferente, mais funcional e que leve a uma vida menos sofrível.
Ao fazer isso, ao entender que a missão, e não somente o primeiro passo, da psicanálise é tirar o indivíduo da miséria neurótica e passá-lo para a infelicidade comum; Freud compactua com uma visão de mundo pessimista e idealista.

Vale ainda ressaltar que isso aparece no texto discutido, na medida que a proposta para o ser humano lidar melhor com a morte, pelo que eu entendi, é dar um passo atrás diante da lenda de que o progresso acabaria com a barbárie. Se o progresso mascara uma sequência de desigualdades e comportamentos destrutivos perpetuada na história da humanidade, devemos nos perguntar o que está faltando ainda para que possamos nos emancipar dessa infelicidade comum e criar uma sociedade em que o medo da morte não seja algo mais tão intratável. Essa discussão se torna importante, principalmente diante da possibilidade (vista ainda somente nos cenários de ficção científica) do próprio progresso conseguir vencer a morte e proporcionar novas maneiras de organização psíquica.

Uma última observação que acho que vale a pena ser feita, é que foi feito um apontamento sobre o caráter materialista da constituição do sujeito que Freud traz. Devo dizer que é um conceito muito amplo de materialismo colocado aqui, dado que a constituição do sujeito, se rejeitarmos qualquer posição mística, só pode vir de algo que é real. No entanto, esse preenchimento dá origem a entidades nada materialistas (inconsciente, superego, libido, etc.); além da dinâmica do processo de preenchimento do sujeito e das leis que regem esse processo não poderem ser verificadas materialmente na Psicologia.

Bom, é isso por ora.
Abraços a todos e todas!

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