NOTA #10 [31/07/2018] (RJ I)

A ideologia do fim dos tempos, a qual a contemporaneidade do pensamento tem sido exposta, é o sintoma do que Badiou define como uma ambiguidade do século XX. Tal ambiguidade está presente no modo como o século se pensou: de um lado em promessa da construção de um novo homem, e de outro lado os “horrores” do totalitarismo e a escala industrial que a morte poderia atingir. Mais do que perceber este tipo de ideologia na contemporaneidade, creio que Badiou aponta ainda para o fato de que esta sentimento perpassou o século desde o fim da primeira grande guerra.

Parece que com o fim da URSS esta subjetividade ganha impulso e pode encontrar ressonâncias nas artes. Esta ideologia do fim, a qual o século se apresenta cindido entre promessa e horror, encanto e desencanto encontra certa ressonância em algumas obras do cinema de Aleksander Sokurov. De maneira mais evidente este tipo de diagnóstico se apresenta sob figuras diferentes nos quatro filmes que compõe a sua chamada Tetralogia do Poder, constituída de Moloch (Hitler) Taurus (Lênin) O Sol (Hiroito) e Fausto. Para efeitos de nota vou me limitar a mencionar somente no filme “Taurus”. Nesta obra Sokurov apresenta um Lênin (Leonid Mozgovoy) já no fim da vida, debilitado e fragilizado, que vive em uma casa de campo fornecida pelo Partido. Em contraste com Stálin (Sergei Razhuk) que aparece jovem bem arrumado. Em sua visita a Lênin, Stálin se põe numa postura que infantiliza o antigo líder e o mantem apartado de todas as comunicações sobre decisões do Partido em uma casa de campo repleta de funcionários, os quais já não dão tanta atenção ao que o antigo líder diz. Tal impressão encontra seu auge na cena do jantar, onde em uma espécie de surto, o velho Lênin começa a reclamar dos luxos que a casa oferece em contraste com as condições em que o povo vivia, após esta constatação, Lênin pergunta: “Por que eu tenho uma casa como essa? Isso deveria ser do povo!” Ao passo em que alguém responde:” Mas esta casa foi expropriada pelo partido em nome do povo.” E então Lênin se senta com um semblante desfeito.

Se Lênin é representado como esta figura debilitada, que precisa que lhe deem banho, que o levem para tomar sol em uma cadeira de rodas, por outro lado na cena do piquenique quando Lênin está a sós com sua esposa ouvindo as notas que esta havia levantado sobre a vida de Marx, Lênin se pergunta, se quando morrer o sol continuará brilhando ou se tudo irá se acabar. E sacramenta uma frase que me parece situar Sokurov como um expositor da ambiguidade do século. Assim Lênin afirma: “O Tolo proletariado lutará contra o canalha burguês até que comece a vomitar e tossir sangue.”, sua esposa responde de forma displicente “Sim, sei” e Lênin afirma, “você não tem nem ideia do que te espera quando eu já não estiver mais aqui.”

 

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